"Na
verdade, a maioria das crenças que defendo profundamente e minhas áreas de
maior interesse em psicologia decorreram da experiência pessoal. Nietzsche
afirmou que o sistema de pensamento de um filósofo sempre resulta de sua
autobiografia, e acredito que isso vale para todos os terapeutas, na verdade,
para qualquer pessoa que reflete sobre o pensamento."
In: YALOM,
Irwin D. O Carrasco do Amor e outras histórias sobre psicoterapia. Tradução
Maria Adriana Veríssimo Veronese. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, p.39.
O que Yalom
diz ai, no contexto de sua análise bem especifica e ilustrada de uma abordagem
e tratamento de obsessão amorosa, vale para mim também. Ou seja, na minha
paráfrase, a maioria das crenças (posições ou ideias) que defendo profundamente
e minhas áreas de maior interesse em filosofia, decorrem das minhas experiências
e vivências pessoais associadas aos processos formativos, informativos,
cognitivos e meus momentos reflexivos sobre elas.
Nietzsche
trata deste tema em um local muito especifico de sua obra quando estabelece a
relação entre a moral de Kant e sua própria vida. Mas Nietzsche não é lá um
privilegiado nestes temas de amor. Tirando sua paixão por Lou Andreas Salomé,
temos poucos momentos de sua vida em que ele ultrapassa certa barreira misógina
erguida tanto por sua mãe e irmã e que a influencia ainda que indireta de Kant,
quanto mais nítida fica por Schopenhauer. A condição amorosa dos filósofos
idealistas alemães e da maior parte dos românticos não é lá mesmo favorável
para servir de lições sobre este tema.
Não diria que
deva valer isso para todos os demais pensadores ou pretensos pensadores, sei de
alguns que inclusive rejeitariam de súbito qualquer relação entre suas
vivencias e suas ideias, dada uma imagem profissional e dissociada de suas
próprias vidas que eles possuem. Quem dirá então a relação entre sua vivencias
amorosas e suas ideias. Eu lembro aqui de uma distinção que tracei a observar
uma característica nas falas de colegas professores entre ciências que se
expressam como que focadas no objeto e ciências focadas no sujeito ou que se
expressam a partir de uma narrativa do sujeito. Vejo que isso é o que é recorrente
toda vez que assisto certas narrativas de professores que falam tanto de seus
objetos de conhecimento, de suas temáticas conceituais e experiências naturais
ou abstratas de forma tão impessoal que parecem operar mecanicamente e esquecer-se
de si mesmos.
Porém minha
experiência e minhas inquirições sobre crenças e escolha
de crenças, sobre análise de crenças e também sobre como se constitui algo como
um sistema de crenças que me parece que ele chama ai de sistema de pensamento,
tem mostrado que sim. Tenho lido Yalom e gostado muito de ler com certa
frequência desde o Quando Nietzsche Chorou e recomendo sua leitura tanto pelo
autoconhecimento e reflexão que ele proporciona, quanto por sua conexão com
certa tradição filosófica e psicológica que me atrai, pois trata não somente da
razão, mas da sua aplicação com inteligência, cuidado e juízo nas nossas vidas,
nas relações humanas e no cuidado consigo mesmo e o próximo.
Quando ele
relaciona a autobiografia com o pensamento a partir de uma dica de Nietzsche,
ele faz um uso de certa heurística preparando o terreno para relacionar seu
próprio sistema de pensamento - e no caso dele suas crenças interpretadas e
interpretativas sobre determinada questão - às suas vivências e suas reflexões
sobre elas e, por analogia, às de seus pacientes. O tema dele é aqui a obsessão
amorosa. Como se sabe obsessões amorosas são resultados de envolvimentos
amorosos que não se realizam plenamente. Não se trata da paixão ou da
paixonite, mas sim de uma continua obsessão por alguém determinado que não se
dissolve com o tempo ou com o afastamento. Isso gera um problema que ocupa e se
avoluma na existência do individuo com a obsessão. Veja a descrição da situação
que ele e encara com uma paciente:
“Todavia,
primeiro era necessário estabelecer, de um modo que convencesse Thelma, de que
a obsessão tinha de ser erradicada, pois uma obsessão amorosa drena a realidade
da vida e anula novas experiências, tanto as boas quanto as más, como sei por
experiência própria.”
Tenho dito em
diversos outros contextos que para uma analogia ser eficaz não é necessário um
rebatimento ponto a ponto, ou perfeito entre a analogia e o caso, bastando
apenas a similariedade ou semelhança em alguns traços e que se possa tirar
disto algo esclarecedor e libertador. Dizer que algo é esclarecedor aqui pode
apenas significar a ponta de um iceberg ou de uma elucidação cuja continuidade
nos levaria ao que Freud chamou de camadas profundas de nossas experiências.
Mas se pode analisar aqui também, a partir disto, certa lógica de nossas
crenças sobre o amor e outros temas que envolve suas formas de aderência e
também vigência sobre nossas experiências e vivências. Isto é, se tem acesso ai
ao modo como determinadas experiências são julgadas e se transformam em crenças
norteadoras ou orientadoras para nossas ações, seja através de valores, convicções
ou mesmo interditos morais ou ditames negativos.
Nesta passagem
que, então, se verá antecede uma confissão honesta dele e que ele vai nos
apontar que a origem de sua forma de ocupação com o tema das "obsessões
amorosas" foi justamente uma vivência em que "conheci uma mulher que
mais tarde invadiu minha mente, meus pensamentos, meus sonhos. Sua imagem se
hospedou em minha mente e desafiou todos os meus esforços para
desalojá-la."(idem.), ele também nos dá certa dica sobre este tipo de
episódio que não é infrequente na vida pessoal de qualquer pessoa que
eventualmente mantenha comércio intenso com outros seres humanos. Deste
comércio surgem, para alguns mais que outros, é bom que se diga, os encantamentos e as seduções
fortuitas e passageiras, as atrações intelectuais - do que já falei noutra
postagem mais célere - e também físicas.
Eu suponho
sinceramente que a maior força de atração é sim estética ou física, e aqui
estou adotando certo modelo de análise que supõe que deva haver alguma expressão
geradora ( o que também poderia ser chamado de gatilho, ainda que se deva
preservar a possibilidade de uma força mais contextual ou existencial
relacionada a isto) da atração no outro, mesmo que esta seja involuntária - o
que torna um razoável despropósito a busca de alguma reciprocidade - mas que
seu componente intelectual ou linguístico mesmo quando dúbio ou ambíguo, que é
associado a uma espécie de catalisador, seja sob a forma de confirmações e
certezas, seja sob a forma de suspeitas, dúvidas e/ou possibilidades de alguns
atributos ou alguns talentos que geram admiração.
Em outras
abordagens isso também já foi chamado de fixação e a própria auto-descrição de
Yalom aponta para uma espécie de entranhamento ou entronização. A expressão
cuidadosa que ele usa no seu texto - estou seguindo aqui a tradução cuidadosa -
de hospedagem talvez esconda certa invasão ou ocupação bem ao estilo
involuntário. Em geral, alguém se hospeda ou vira hospede passando pela
recepção e apresentando credenciais. A experiência ou pelo menos a narrativa de
vivências que eu conheço tem mostrado o contrário: que não há nenhuma cerimônia
especial de acolhimento e que o encantamento que dá gênese ao processo como um
todo, tem um que de instantaneidade, frente à qual estamos imunizados, desde
que tenhamos certa consciência desta por sua repetição ou recorrência na vida.
Porém, também é importante registrar aqui que alguns seguem de baile em baile
em seus encantamentos fortuitos e casuais sem nunca se livrarem ou dominarem o
processo. Tudo se passa aqui então como se o Dom Juan ou a Dama Fatal não
passassem de prisioneiros de suas próprias armadilhas de sedução.
Eu diria que a
parte engraçada disto é que a medida que nos tonamos conscientes disto, desta
atração e do impulso que a responde de forma involuntária, nós ficamos mais
humanizados e afetivos para com o próximo, sem terceiras intenções e mesmo nos
reconhecemos enquanto tais de forma livre. E suponho que é assim que se
neutralizam estas obsessões amorosas, em especial, as correspondidas. Suavizando
seu impacto ne nos abalando bem menos do que aquela situação que a obsessão
parece tentar atingir por figurar em um contexto que é, em geral, de
inviabilidade. Pois o sofrimento decorre, em geral, não somente das situações não correspondidas, mas também
das situações correspondidas mas inviáveis e que nas tentativas de levar a
efeito pregam, assim, pelo gatilho frágil da paixão que só fixa uma obsessão e
não uma estabilidade, sucessivos insucessos. A culpa tem sido um componente
tradicional aqui e enquanto não se compreende que é nela que reside a
inviabilidade ou não correspondência se fica girando em falso, como se, nada
pudesse dar certo por uma danação ou acaso do destino e não tanto por um frágil
sinal.
É deste frágil
sinal que se cria o signo dos amores impossíveis, das paixões não resolvidas e
das fatalidades amorosas. O romantismo tem sido pródigo em forçar nos a crer
que tudo se passa por um problema do individuo frente a um sociedade repressiva
ou que se opõe ao seu desejo, mas o que ocorre é que o próprio individuo
educado pela culpa é incapaz de reconhecer em seu desejo algo mais do que
trivial, comum e corrente ao longo da vida e que irá se repetir desta ou de
outras formas desafiando-o a inteligir o que sente e como pensa sobre seus
sentimentos e escolhas.
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