sábado, 30 de janeiro de 2016

NÃO SEI SE ME COMPREENDERÃO: TALVEZ SEJA UM BIS DIFERENTE



Certas pessoas, coisas, nomes, proposições e acontecimentos parecem sucumbir ao fado de com o tempo - e aqui nem o tempo ajuda - perderem sua ligação com o real, perderem seu significado e/ou perderem sua conexão ou ligação significativa com um panorama de compreensão de tal modo que perdem seu sentido.

Deve haver uma razão justificada para que algumas pessoas não sejam compreendidas mesmo que elas façam um esforço descomunal ao seu modo e com seus meios por uma vida inteira para atingir clareza e precisão em suas expressões ou formulações. Mas também existem pessoas que são muito claras em suas expressões, mas que nos deixam uma vida para contemplar em que temos dificuldade de explicar sua biografias ou suas escolhas que parecem não ter lógica de forma alguma, no sentido de não nos ficar clara a causa de suas ações suas motivações pessoais, subjetivas ou psicológicas. E curiosamente pouco nos interessamos por aqueles que são claros em vida e obra. Ainda que possa citar aqui o resumo da vida de Aristóteles por Heidegger: nasceu, viveu, trabalhou e morreu, nós não nos interessamos de forma alguma nem por obras planas, nem por vidas planas e de  fácil explicação. Mas as pessoas de obras incompreensíveis e vidas complicadas são, de fato, aquelas que atraem nossa atenção e curiosidade, mas que por isto mesmo correm o risco de serem incompreendidas.

Tudo isto e o que virá a seguir carrega água para o moinho de uma questão clássica sobre a vida que vale a pena ser vivida. Sócrates ao arguir que uma "vida sem reflexão não vale a pena ser vivida" defende uma concepção do que daria valor a uma vida ou existência humana. No caso dele o valor de sua vida seria encontrado com a reflexão. Isto é um ponto muito central de uma estratégia de resposta ao tema do sentido da vida e da nossa relação social, ética e discursiva com os demais seres humanos. Ou, como tenho tratado em minhas aulas sobre o valor da vida de um homem ter duas dimensões a intrínseca e a relacional. Em minha análise do filme O Resgate do Soldado Ryan, defendo que esta é a questão filosófica principal encenada naquela obra de tal modo que existem problematizações deste tema no decorrer dela que nos ajudam a compreender melhor certos dilemas a este respeito. Estes dilemas envolvem desde o nosso modo de viver, o merecer viver  e nossas qualidades próprias, talentos, habilidades e disposições. E isto toca diretamente em nossos juízos sobre as vidas dos outros ou sobre seus discursos. Não é nada fácil compreender pessoas cuja vida sofre balanços e riscos e em geral toda grande biografia contém elementos de surpresa aos admiradores e aos detratores.       

Nestes casos biográficos estas personagens são taxadas de idiossincráticas ou complexas e, segundo nossa simpatia, recebem elogios admirados ou observações intrigadas com o mistério de suas vidas e escolhas de vida. Em outros casos, elas tem suas vidas reviradas, seus pecados, deslizes, vieses e escorregões expostos a reprovação pública. Na vida de alguns filósofos isto é um tipo de característica mais comum do que parece e mais cômica e trágica do que se imagina. Poderia desfiar aqui milhares de casos em que curiosidades ou erros de filósofos levam para as mesas de reflexão dos biógrafos a questão de como compreender isto e ou bem acaba-se explicando isso a partir de sua própria tela moral ou acaba-se por decretar ali um problema sem solução.

Em filosofia muitos gostam de separar filósofos (as) claros de filósofos (as) obscuros. De fato alguns parecem atrair nossa atenção justamente por sua extrema capacidade de nos dificultar a interpretação ou o seu entendimento. Já outros nos fascinam por sua brilhante luz, luminosa expressão e clareza e precisão assombrosas. Sempre lembro de Descartes nestas horas de benevolência compreensiva e generosidade desnecessária. Porque muitas vezes toda esta clareza argumentativa, precisão conceitual esconde algo muito mais obscuro e indevassável do que a nem tão mera exposição metódica de um discurso que organiza ideias de forma muito cuidadosa e habilidosa. Nem tudo que é claro para mim suprime a obscuridade de determinadas questões.

Quando leio os textos de Wittgenstein, por exemplo, e encontro expressões claríssimas tenho a forte impressão de que é bem mais complicado do que parece e de que o que ele realmente queria me ou nos fazer entender não está sequer ainda em minha mente sendo concebido. Digo isso com especial destaque para os diversos textos inéditos ou póstumos  dele. 

Algumas pessoas e filósofos passam uma vida inteira sem serem compreendidas e parecem virar uma espécie de enigma ou paradoxo ambulante provocando sentimentos ou o juízo alheio e despertando reações que às mais das vezes expressam incompreensão ou mal entendidos. Temos que admitir e admitimos que é bem difícil interpretar e ler o mundo, as pessoas e suas relações entre elas e com a gente.

Estive pensando nisto estes dias e em muitos momentos me dobrava em cuidados com o que escrevia e como escrevia, com certas dificuldades acidentais e não intencionais com o corretor ortográfico do meu MOTO G, mas com aquela imperiosa disposição e vontade de dizer algo. Quem me conhece de perto sabe que sou extremamente inquieto, reflexivo - nem sempre com clareza e precisão - e que tenho uma necessidade de interagir e dialogar com os outros. Bem, a verdade é que por conta disto virei professor, por conta disto lido com assuntos políticos precocemente desde que me conheço como individuo ou parte de um todo maior, parte de um coletivo ou comprometido com o mundo. Isso não é uma explicação nem uma justificação, isso é apenas uma auto-consideração que espero que conforte outros jovens que, como eu, tem estes impulsos em direção aos outros seres humanos. Impulsos de falar, dizer, dar opinião, considerar, compreender, propor, criticar, julgar ou simplesmente expressar um sentimento.

Bem, mas hoje, após ler uma postagem na verdade duas, do Gregory Gaboardi eu me senti reconfortado porque simplesmente ficou clara para mim a emergência social e filosófica deste tema: de como compreender ao outro e suas expressões  - e, por certa coincidência, que só pode ser verificada mesmo nos dias de hoje por força das redes sociais, de nossas interações paralelas á vida cotidiana e ás nossas leituras e destes meios devem haver mais pessoas pensando nele hoje ou neste período. O tema do viés citado por ele me leva em parte a escrever da forma como escrevo aqui. Em parte, de modo demonstrativo, ao mostrar que a consciência ou conhecimento do viés pode ajudar a superá-lo, ainda que fazendo uso dele. (neste sentido este texto é um texto retórico com um exercício de correção de fala.)   

Minha linha de interrogação subjetiva que estava sendo desfiada desde que escrevi sobre A CAVERNA DAS CRENÇAS DOGMÁTICAS, envolvia saber se eu seria compreendido em meu propósito naquele texto, se seria arrogância de minha parte escrever de forma indireta, difícil ou complicada sobre aquele tema e isso acabou me levando para a questão de saber se um dia me compreenderão afinal - veja-se o despropósito e a pouca humildade devida aqui a alta importância que dou a mim mesmo nesta questão. Ocorre que amanheci hoje com disposição de encarar isto - e outras questões - com menos exigências de perfeição ou perfectibilidade e ao repor tal questão em mente penso que pouco importa isto no presente caso.

Nossas expressões e discursos postos aqui ou ali pegam na geral, mas podem sim ser endereçados a um público específico e estar voltados para determinadas frações dos grupos sociais aos quais pertencemos. Curiosamente isto ocorre exatamente assim, porque observamos em alguns casos que são estas pessoas com quem queremos conversar ou propor algo sobre este assunto que nos dão retornos, fazem considerações ou sugestões, E mesmo aquelas que não compreendem o que dizemos ao abordarem de forma deslocada ou enviesado, diversionista ou tresloucada o que dizemos merecem também nossa boa vontade, pois este é justamente o ônus de nossa exposição: suportar não ser compreendido e tolerar isto com uma atitude tranquila, moderada e pedagógica ou, no caso de cada, um responder a isto com os meios que dispõe e com mostras de sua disposição ao diálogo. Não há, então, ao meu ver, pecado aqui na profissão de fé ou proselitismo nesta intencionalidade.

E do mesmo modo que é assim para os textos e discursos, em nossas vidas privadas, e, portanto, nossas escolhas existenciais, morais, religiosas e nossas adesões políticas podem sim ser incompreensíveis aos leigos, aos moderados de espírito, aos quietos de alma e também aos iluminados da razão ou conformados sociais. Não faz muito sentido escrever uma obra na esperança de um dia ser compreendido por alguém que virá a atingir os píncaros de tuas idéias, mas também não há nenhum motivo relevante que te obrigue a escrever apenas coisas que valham para todos e que sejam entendidas por todos, porque talvez ao fazer assim esteja apenas encobrindo ou simplificando algo que não é passível de tal simplificação. As vezes, a melhor atitude é mesmo complicar um pouco para que a vida não seja resumida e para que o valor intrínseco de uma existência não seja resumido na presunção apressada de outro.


Enfim, creio que por mais dançante e carregado de dúvidas que tenha sido meu texto me compreenderão aqueles que assim desejarem e também aqueles que eu gostaria que assim o fizessem, por força do meu tema e da forma que dou a ele aqui. Não precisamos esperar outra geração para sermos bem entendidos, mas podemos provocar já nesta um esforço de compreensão que não se fará por generosidade, mas sim por interesse. Eu gosto de escrever especialmente para os interessados. Aqueles que não são interessados não precisam ler. Podem ler outras coisas ou outros. O interesse aqui nos ajuda a encontrar a ligação entre as coisas, as palavras e o sentido do que dizemos e o modo em que vivemos.        

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