domingo, 3 de janeiro de 2016

BASES CURRICULARES E RELAÇÕES DISCIPLINARES


Debater a educação é muito importante e precisamos aproveitar a proposta das Bases Curriculares Nacionais e avançar neste debate sem perdas e sem retrocessos. O debate em educação precisa, então, parar de desacumular também e tratar da temática construída a partir das áreas de conhecimento e das relações entre as disciplinas.

Por exemplo, com a organização por áreas do conhecimento se ergueram os desafios de integrar e construir pontes metodológicas, conceituais e teóricas ali aonde elas existem, e onde elas não existem e apontar claramente isto, mas parece que certo autismo intelectual e solipsismo didático não reconhece isto. Há uma espécie de divisão social do trabalho do conhecimento brasileiro que promove basicamente um cada um por si. E isto tem provocado talvez mais dificuldades do que as necessárias ou possíveis na integração e  articulação das disciplinas em áreas.

Temos que melhorar ainda mais, para avançar no debate das bases, as relações interdisciplinares, transdisciplinares sob qualquer forma que se designe. Isso não significa dissolver diferenças, especificidades ou singularidades de cada disciplina. Significa tornar muito claras as aproximações e aplicações mútuas, significa situar bem e localizar com precisão os tais problemas de fronteira para educar criticamente os alunos. E acabar com esta mitologia e hierarquia cognitiva que tem sido erguida entre as ciências. Não existe ciência mais dura e ciência mais mole, ciência mais importante ou menos importante.  O conhecimento não é um território a ser ocupado ou habitado que pode ser dividido entre castelos e choupanas como alguns parecem querer sugerir.

Tanto nas ciências humanas como nas áreas das linguagens e das artes temos fortunas sendo construídas e muito capital cultural sendo produzido. Há predileção pragmática de alguns por certas ciências é apenas sintoma de falta de informação e percepção da realidade. Nem as técnicas e nem as tecnologias dão conta ou tem resoluções finais para a nossa existência. A necessidade de pontes entre as disciplinas, de integração dentro das áreas e também de esvaziar este discurso dominante de que tal disciplina é mais séria, teórica ou formalmente do que outra precisa ser encarada. 

Mas aponto aqui uma questão que talvez toque nisto: onde isto é feito sobre as ciências naturais? Qual a proposta apresentada que faça ocorrer integração entre as ciências naturais? Biologia, química e física já possuem tantas áreas de encontro e pontes de contato no mundo da ciência real e não da ciência pedagógica que não podemos continuar lecionando, pensando e debatendo isto como conhecimentos estanques ou dissociados.

Outro exemplo que me parece de natureza estratégica para o conhecimento científico e também tecnológico no Brasil é como se fará a necessária ponte ou integração mais efetiva entre física e a matemática? As áreas de contato continuam intocadas, na minha opinião e gostaria muito de estar errado neste aspecto, e por conta disso a base não construiu ainda esta organização do conhecimento. Mas quais as respostas e propostas que temos apresentadas para encarar isto e enfrentar este desafio?

Esta discussão requer muito diálogo com os educadores e um esforço científico coletivo da academia em contato com as escolas e os educadores, em contato com os alunos e os cidadãos. Nada contra os trabalhos em comissão e nem as especialidades dos cientistas e das linhas de pesquisa afastadas disto e deste tema do ensino. Mas se queremos de fato produzir mais ciência neste país não é chegada a hora de um esforço nesta direção?


Se queremos de fato que a educação brasileira avance e tenha um salto qualitativo e sistemático não seria a hora da academia dar coletivamente uma atenção maior a este desafio?        

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