sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

MINHA ENTREVISTA PARA UM ESTÁGIO DE OBSERVAÇÃO

Entrevista – Estágio 1

Fábio Cezimbra Rubo
Lionara Fusari Professora-tutora externa
Centro Universitário Leonardo Da Vinci – UNIASSELVI
Licenciatura em Filosofia (Curso FILO033)


Entrevistado: Professor Daniel Adams Boeira
Entrevistador: Fábio Cezimbra Rubo

1-           Ao lecionar, quais as principais distinções entre as turmas diurnas e noturnas que o Sr. Professor observa?

Observo que os alunos e turmas do diurno tem comportamentos mais infantis, porém tem mais capacidade de concentração e registram melhor os conteúdos, e que os alunos do noturno estão mais cansados, tem dificuldade de concentração e tem mais dificuldade para registrar os conteúdos, que, assim, o tempo de hora aula no noturno é mais reduzido, mas que a maturidade dos alunos do noturno não é suficiente para compensar este tempo mais reduzido. Também é importante observar que no noturno alguns alunos encontram-se em defasagem idade série e que outros ficaram algum tempo afastados da escola. Porém no noturno também temos alunos/alunas adultos e que dão muita importância ao resultado escolar e ao avanço nos estudos para suas vidas, sobrevivência, empregabilidade e renda. Porém, ainda existem alunos que procuram o noturno, não porque trabalham ou precisam, mas porque acreditam que será mais fácil estudar e as exigências serão menores, o que não é o caso. Por fim, devo dizer que algumas destas distinções vão se dissolvendo ao longo de três anos com os alunos, ocorrendo no ensino médio na maior parte dos casos um maior amadurecimento, uma socialização maior e também a superação destas dificuldades com apoio dos professores e disposição e boa vontade dos alunos/alunas.        

2-           As aulas do turno noturno têm preparação e dinâmica diferenciadas do turno diurno?

O que eu faço de diferenciado no noturno é ser um pouco menos expositivo e resumir mais o conteúdo. Minhas dinâmicas seguem ainda um mesmo padrão procurando acentuar uma base conceitual, uma explicação temática com exposição e problematização do conteúdo e abrindo links da matéria com a realidade atual ou conteúdos de outras disciplinas. Tento amparar as aulas nos dois casos com leitura e interpretação de textos didáticos. E cuido muito para inserir cada aula no plano de estudos estabelecendo as relações do conteúdo especifico com o plano geral e explicitando os objetivos. 

3-           O que a aprendizagem de Filosofia pode trazer de significativo aos alunos para o aprendizado das demais disciplinas do currículo escolar?

O que é siginificativo para mim é aquilo que pode ser parte de um mesmo universo de linguagem e de uma determinada prática social. Tenho evoluído, ao longo do tempo em que leciono desde 1995, de uma interpretação e avaliação deste aspecto mais externalista que considera a disciplina de filosofia como mais um conteúdo ou capital cultural separado, para uma abordagem mais internalista que a considera altamente vinculada e conectada com as demais disciplinas. Hoje creio que a filosofia deve ser ensinada como uma espécie de subterrâneo ou paralelo conectado com a história e o desenvolvimento dos demais ramos do conhecimento, da ciência, da cultura e das práticas sociais. Tendo a ensinar filosofia no tempo e e no seu contexto de produção. Por conta disto leciono com um fio condutor histórico e conectado com as demais disciplinas de ciências humanas com temas comuns sob enfoques próprios. Sem querer extrapolar ou supervalorizar nossa disciplina, mas cada dia me convenço mais de que ela pode auxiliar a organizar, problematizar e gerar entendimento da história das ciências e da história humana, cumprindo um papel complementar e integrador de oferecer certo estoque e acervo especifico para os demais ramos do conhecimento ou áreas em diálogo com as questões atuais e do cotidiano atual.     

4-           O que a aprendizagem de Filosofia influencia em geral no cotidiano prático dos alunos?

Em cada alunos esta influencia deve ser diferenciada dado seu acervo cultural e suas condições existenciais atuais, mas imagino que deva contribuir para a aquisição e aplicação de determinadas distinções conceituais, gerar reflexão crítica sobre a existência, o trabalho e suas relações com os demais seres humanos, sendo estas de compromisso ou circunstanciais, e que também deve gerar uma certa compreensão ou esclarecimento sobre as diferenças e os desafios sociais, materiais, econômicos e políticos de cada aluno em suas comunidades e na sociedade. Eu resumiria todos os ganhos possíveis em três palavras: compreensão, reflexão e crítica. E que isto se aplica aos desafios e à busca de soluções a eles na vida cotidiana e prática dos alunos.

5-           O Sr. Professor poderia nos dar um exemplo prático desta influência contando o caso de algum aluno específico seu? (sem citar nomes)

Eu te diria que os exemplos são abundantes, porque tenho alunos/alunas e ex-alunos/alunas que cumprem diversos papéis sociais diferenciados. E creio que parte de minha influencia mais forte sobre eles esteja ligada muito ao estimulo ao seu engajamento sério e comprometido em questões sociais e em cumprir algum papel social. Em alguns casos isso envolve luta social e disputa em debates em outros envolve exercer alguma capacidade de organização e reflexão em sociedade. Muitos ex-alunos/alunas meus e de meus colegas são profissionais bem sucedidos, comprometidos, disciplinados e responsáveis criticamente em suas atividades pessoais, profissionais e cidadãs. Tenho ex-alunos/alunas que são também professores hoje e que me orgulham muito e também uma expressiva parcela deles tenho reencontrado com muita gratidão e reciprocidade. Observo na maior parte dos que reecontro um espírito muito humano, justo e compreensivo que se destaca na forma em que eles se conduzem e tratam os próximos e também as situações da vida. Porém, devo dizer que tributo isto a um resultado coletivo do nosso trabalho coletivo de professores e portanto de outras disciplinas na escola que reforçam estas dimensões e aspectos nos alunos/alunas durante sua formação. Assim, vejo hoje com muita clareza meu papel de formador compartilhado com os demais professores, equipe diretiva, equipe de apoio e servidores dos setores na escola que contribuem para isto.         

6- Quais as principais transformações o Sr. Professor poderia elencar das suas primeiras aulas como recém formando para as suas aulas ministradas nos dias de hoje?

Eu tinha uma metodologia de ensino conteudista e muito planejada e voltada para ensino de conteúdo e que supervalorizava a importância da disciplina no currículo e avaliava com excessivo rigor os alunos. Hoje tendo a ser mais relacional e cognitivo em relação aos alunos e a relativizar com tranquilidade a importância da minha disciplina e entendo também com tranquilidade a hierarquia diversa ou adversa de prioridades e disciplinas na aprendizagem dos alunos e suas dificuldades de apreensão e compreensão. Tento também abrir meu conteúdo para temas mais típicos da adolescência como escolhas profissionais e de vida, questões sobre afetividade e relações humanas, compreensão de diferenças culturais, religiosas e políticas e, também, sobre os desafios de aprendermos a mudar nossas formas de lidar com sofrimento psíquico e social.   

7-    A escola apresenta um peculiar sistema onde os professores têm salas fixas e os alunos encaminham-se para as mesmas a cada troca de período. Por que razão este sistema foi adotado? E quais os resultados observados desta nova dinâmica?

Esta dinâmica de Salas Temáticas foi proposta para promover certa movimentação física nos alunos, se deslocando e se movimentando de uma sala para outra e combatendo assim o sedentarismo e dando espaço para que os alunos mais inquietos se movimentem no ambiente escolar e também para promover um espaço e um ambiente próprio e singularizado para as disciplinas primeiramente e ultimamente as áreas. Eu creio que os resultados são ótimos porque também promoveram integração maior entre os alunos/alunas e, ao mesmo, tempo a qualificação e maior apropriação dos espaços escolares pelos educadores promovendo organizações próprias das classes em sala de aula e a inclusão elementos equipamentos próprios as disciplinas nestas salas. Para mim, em especial, acabou gerando um cuidado maior e um zelo maior com  limpeza e organização do meu espaço de trabalho, dando também certa ênfase às questões e condições físicas e materiais do ensino e do meu trabalho.          

8-           O que a Filosofia representa na sua vida prática e quanto disso o Sr. Professor tenta passar para seus alunos?

Na minha vida prática ela representa uma espécie de ordem de reflexão e compreensão sobre a vida que expresso em palavras e que vou elaborando ao longo de vivencias e experiências de todo tipo. E praticamente transmito isto sistemática e organizadamente aos alunos. Ao longo da minha carreira ocorreu uma espécie de implicação entre vida teórica, cognitiva e cultural e vida prática, sensível e social. Então ocorre que muitas vezes minhas vivências subjetivas e de investigação e reflexão filosófica se relacionam diretamente com minhas experiências, ocorrendo uma alimentação reciproca do um universo pessoal com meu aparente universo profissional. De certa forma não há uma fronteira entre minha vida pessoal e profissional no sentido que sou a mesma pessoa nos dois ambientes e que há conexões profundas entre ambos. Adoto um tom confessional e pessoalizado, contando a minha história de vida e do meu encontro com a filosofia e as questões filosóficas ou outras mostrando este desenvolvimento ligado a uma vida real.        

9-    Nesses bons anos de magistério, quais valiosas lições o Sr. Professor obteve de seus alunos?

Parte fundamental do trabalho de um professor é conhecer a si mesmo, a outra parte é conhecer os alunos e é a partir deste esforço consciente, paciente e reflexivo que se consegue trabalhar com algum tipo de conhecimento e produzir alguma forma de aprendizagem e reflexão filosófica e histórica com eles. Educar é um processo, nunca estamos prontos, sempre podemos aprender mais e isso depende de nossa boa vontade e de nossa disposição. Quando os tempos são favoráveis isto acontece quase ao natural, mas quando as coisas estão difíceis isso é uma exigência indispensável. E não há problema que não possa ser resolvido ou reduzido com tranquilidade, disposição e dedicação. Vamos enfrentar dificuldades, podemos errar e ver outros errarem, mas não podemos desistir. Um dia, (num texto meu cujo título é Como vai a vida professor? Esta o resultado disto), após diversas tribulações e dificuldades e em diálogo com meus colegas e alunos/alunas conclui que era muito mais saudável encarar certas coisas de certa forma. E, então, muito por força das interações com eles, conclui que a roda de Sísifo do professor é desistir de desistir todos os dias e a todo momento que algo não sai ou não está como preferiríamos, desejamos ou gostaríamos e que assim nos tornamos os professores que os alunos querem e precisam. Isto tem sido reforçado em mim a cada dia que passa...  





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