Como espancar a esquerda sem
precisar pagar a conta do hospital, sem ser preso pela polícia e sem se
preocupar com o destino da humanidade? Essa parece ser a questão fundamental
para alguns fascistas, conservadores, neoliberais e crentes em certo fanatismo
de natureza política, religiosa e econômica. Trata-se de fazer isso como uma
mera disputa de ideias e teorias, enquanto a violência aumenta, os seus crimes,
torturas, assassinatos, massacres e violências ficam impunes e a humanidade
desce quase inteiramente pelo ralo abaixo da barbárie generalizada. Isso me
parece um propósito apocalíptico. O que você me diz?
POLÍTICA, HISTÓRIA, FILOSOFIA, SOCIOLOGIA, DEMOCRACIA, DEMOGRAFIA, GEOGRAFIA, lITERATURA, POESIA E ARTE - TEXTOS PARA INFORMAR, DIVULGAR, LER E CRITICAR - Daniel Adams Boeira - 13 de junho de 2009 - daniel underline boeira arroba yahoo ponto com ponto br
sábado, 20 de abril de 2019
quinta-feira, 18 de abril de 2019
OS COMENTÁRIOS AGRESSIVOS E A DESUMANIDADE
Lendo comentários agressivos e
perversos nas redes sociais. Sobre o suicídio de Alan Garcia e em outros temas
percebo a total perde de dignidade e respeito para com o outro ou o próximo. É
muito triste ver como os espíritos mais rebaixados e desumanos afloram nas
redes sociais. As pessoas que fazem esses tipos de comentários perdem o
controle sobre seus impulsos, são impiedosos e jogam todos os escrúpulos na
lata do lixo com uma forma de prazer indigna e vil. A partir dessas condutas e
expressões tornam o mundo pior e fazem uma lamentável contribuição na promoção
do ódio gratuito e inadequado. Eu fico muito triste porque esse extraordinário
meio de promoção do diálogo e da comunicação passa a se resumir apenas a uma
arena de espancamento, agressão e maldade. O pior argumento que eu vejo ser
utilizado nesses casos é o da liberdade de expressão que se reduz ao direito de
dizer qualquer coisa de forma insensata, insensível e inconsequente. Minha
única esperança é que isso cause vergonha em outros e aversão na maioria dos
que lêem isso. Nada de bom há de sair de tanta maldade. Feliz Páscoa e que o
amor ao próximo e a todo o próximo ressuscite nesses corações que jogam pedras
nos demais seres humanos e que espancam a humanidade inteira com seus ataques e
agressões.
um subterrâneo muito escuro
“A obscuridade das distinções e dos princípios de que se
servem é a causa de poderem falar de todas as coisas como se as soubessem e de
sustentarem o que dizem contra os capazes e os mais sutis, sem que se tenham
meios de os convencer. Por isso, tornam-se comparáveis a um cego que para lutar
sem desvantagem contra alguém que não é cego, levasse o adversário para o fundo
de um subterrâneo muito escuro.”
Rene Descartes
A EXPERIÊNCIA DA VIDA
A EXPERIÊNCIA DA VIDA
Cada um de nós possui uma existência muito singular, mas em
algum sentido ela é comum a muitos outros seres humanos. Pois, nessa existência,
penso que somos testados repetidamente numa árdua prova para tentar
compreender, interpretar e pouca vezes explicar o que ocorre em nossas vidas e
nas vidas das pessoas que conhecemos. Tentamos explicar mesmo a vida de pessoas
que vieram antes de nós para esse mundo ou, nos dias de hoje, com larga
comunicação e informação, muitas biografias, páginas policiais, colunas
sociais, fofocas, obituários e diversos outros exemplos que podem ser obtidos
aqui ou ali no mundo, podemos até tentar compreender, interpretar ou até mesmo
distorcer e criar versões alternativas para explicar ou julgar a vida de muitos
outros distantes de nós ou de quem só muito remotamente temos informação ou
pelo papel, por ondas de rádio, tevê ou séries e filmes a que produzimos e temos
acesso. Com essas fontes todas e ensaios próprios e de outros tentamos entender
a nossa própria experiência de vida e de outros seres humanos.
Mas o que ocorre conosco quando fazemos estes exercícios?
Encontramos uma lógica rigorosa e uma narrativa padrão para fazer esse processo
de interpretação de si e do outro? Possuímos a varinha de condão da verdade e
da justiça para revelar como essas pessoas eram, são ou serão no futuro, a
partir do que apreendemos delas?
Parece que não. Assim como muitas vidas estão expostas ao
acaso, ao azar, a sorte, aos planos bons, aos planos não tão bons, aos planos
ruins e aos planos muito ruins, em seus destinos, todos nós nos defrontamos com
sucessos e insucessos aparentemente explicáveis, mas que, ao fim e ao cabo,
vistos mais de perto, melhor analisados, são inexplicáveis. Não se resume a
vida de uma pessoa por suas escolhas, sem conhecer as opções que lhes são ofertadas
ou reconhecíveis.
Eu diria que nossa tentativa de explicação da experiência de
vida é feita, então, com muitas concessões e generosidade ao nosso próprio espírito
de síntese e racionalização da existência. Por quê fazemos isso desse modo?
Penso que talvez seja uma necessidade nossa - como muitas outras necessidades
nossas que ganham instituições para concretizar seus nobres objetivos em prol
da saúde psíquica, em prol do bem estar coletivo e muitas vezes em prol de seus
autores e seguidores.
Deve ser necessário mesmo dar sentido à nossa experiência de
vida ou aquele pontinho da história que representa a nossa vida, ao qual se
resume nossa existência e que na vida excepcional ou extraordinária de alguns
ganha muitas tintas ou é exemplar e na vida de muitos outros, na vida da grande
maioria dos seres humanos que vieram a vagar nesse mundo, mal tem um registro,
um número ou tracinho de lápis numa lista qualquer em que somos representados
ou figuramos como "alguém", aquele outro ou uma pessoa.
Temos, então, uma certa experiência de vida muito básica
aqui: ou somos visíveis e notórios por um tempo ou algum tempo que se resume
aos nossos convivas e aos nossos laços sociais ou, então, ao contrário, somos
invisíveis, anônimos ou metas imagens de pessoas que se misturam na multidão
desses quase oito bilhões de habitantes que vivem hoje nesse mundo ou aos
trilhões - suponho eu - que já viveram.
Nossa experiência de vida pode ser, assim, visível e
invisível, comum ou incomum. E, se eu seguir nessa toada, podemos descobrir,
talvez, algo mais sobre os outros e nós mesmos. Como, por exemplo, porque é tão
difícil para os seres humanos aceitar e defender a existência do outro e lutar
junto pela dignidade de todos e não apenas de si mesmo? Creio que isso é algo
que faz parte da nossa experiência de vida e divide o mundo para mim também de
uma outra forma, mais ou menos binária, entre aqueles que se preocupam e se
dedicam a isso e aqueles que não dão a mínima pelota para esse assunto.
Talvez aí resida também um dos limites da nossa dificuldade de
compreender, interpretar e explicar o outro, porque se nós nos dedicássemos de
fato a isso teríamos que assumir certas "responsabilidades e
compromissos" frente aos quais, para a grande maioria seriam uma perda de
tempo, desperdício de recursos e empenho demasiado com a vida dos outros, a
existência dos outros, que não caberiam na nossa experiência de vida.
P.S. Pensando na Páscoa, pensando no sentido da vida, na luta
entre nós pela vida e, só para variar, pensando numas leituras e reflexões que
me provocam. Paul Auster e muitos outros. Experiência de ou da Vida é uma
abordagem mais próxima de tudo que tem me desafiado no que toca à minha compreensão,
a compreensão de minhas escolhas e à compreensão de todos os demais seres
humanos que me chegam ao conhecimento e reflexão sob diversas formas.
Obs. A imagem é um recorte de dois frisos de quatro da capa
de Catatau de Paulo Leminski. Trata-se da capa da edição mais recente pela
Iluminuras em 2000. Foi feita por Éder Cardoso e é baseada na capa da primeira
ata edição da obra de 1975 que foi executada por Miran. Imagem: Cenas de luta
na sala de uma tumba em Beni Hasan (Egito, Circa 2000 a.C., anônimo.)
domingo, 31 de março de 2019
A PAIXÃO DAS HUMANIDADES E A NEGAÇÃO DO HUMANO NO OUTRO
A paixão pela filosofia, pela
ciência, pela psicanálise ou a busca da sabedoria - que muitos resumem como
auto-conhecimento, não é apenas uma paixão para si ou de si mesmo, é a paixão
de conhecer e compreender a humanidade inteira ou toda a partir de si mesmo.
Vira paixão e, portanto, te captura
a partir de um auto exame e essa paixão se dá de forma consciente. Isso fica
consciente, quando você percebe que está usando a si mesmo para fazer isso.
Quando você percebe que isso é possível ocorre uma espécie de envolvimento
maior com a compreensão e a auto compreensão que parece te levar diretamente
para a rede das ciências humanas. Essa sensação parece te fisgar e te atrair
para os conhecimentos das humanidades, letras e artes. Você fica capturado por
esse tipo de reflexão que eu chamava de transitiva ou transitividade da
compreensão. O contrário disso me parece ser a negação do outro, a partir de
uma perspectiva de que ele é absolutamente diverso de ti e de que não há
reflexão alguma que te faça compreender ele, entender suas razões ou mesmo,
para pegar um exemplo paradigmático, colocar-se no lugar dele. Então, quero dizer
com isso, que a paixão pela sabedoria, pelas ciências humanas, é um ato de
empatia.
Ela pode ocorre, é preciso
reconhecer ainda isso aqui ao final, de forma mitigada com menos consciência ou
até com mecanismos de negação do conhecimento, entendimento ou compreensão do outro
a partir de si mesmo, isto é, essa paixão pode ser inconsciente ou subconsciente.
Nesses casos, me parece que ocorre uma espécie de dinâmica de resistência que
reprime essa reflexão. Afinal, deve ser difícil comparar-se o igualar-se a um
outro que nos gera aversão, a buscar razões naquele sujeito que te parece não
possuir razões. Assim, pode ocorrer que essa paixão fique adstrita aos julgamentos
morais – de culpa, auto punição ou repressivos, como diria Freud, mas nesses
casos as pessoas ficam impossibilitadas de reconhecer as motivações para a
ação, mesmo as ações erradas no outro e passam a somente tratar esse outro como
um diverso negativo ou inferior de si.
Imagino que essa é a base da
discriminação, do preconceito e do raciocínio que leva uma criatura tão
miserável quanto as outras, a se sentir superior ou em um nível de justificação
superior para a sua existência em relação as existências dos demais.
quinta-feira, 28 de março de 2019
SISTEMA DE CASTAS E DESIGUALDADE
Na semana passada foi o tempo de
avançar no estudo da desigualdade social e das estruturas sociais sobre o
sistema de castas. Após a leitura do texto didático que tratava desse tema
clássico na sociologia, me lembrei da novela da Rede Globo Caminho das Índias
de 2009, para ilustrar o conteúdo. Perguntei se alguns alunos ou alunas
lembravam da novela em que as personagens viviam numa sociedade em que a
identidade distintiva de castas era sempre tema de discriminação e preconceito.
Muitos lembravam e haviam visto ela nesse exato horário das aulas, há dez anos
atrás. Quando eles tinham entre seis e dez anos, em sua maioria viram a novela
e guardaram as suas lembranças. Eles arregalaram os olhos quando perguntei quem
viu a novela.
Lembrei de um aspecto no drama de
uma difícil relação social ou mudança impossível de status de um dalid, por
exemplo, se apaixonar por uma brâmane ou
de um brâmane se apaixonar por uma dalid - podes pensar em outras combinações.
A censura e a pressão ou veto das famílias e da sociedade recai sobre eles por
pressão dos costumes que tem mais de três mil anos já. Mas também lembrei desse
tipo de divisão econômica na nossa sociedade que é herdeira dos estamentos e
divisões de classes do período colonial ainda, e que também é encenada em quase
todas as novelas. Isso aparece como um dilema romântico nas novelas em que um
pobre não pode se envolver com a filha da madame ou do patrão ou vice-versa ou
recombinado. Lembrei de meus testemunhos desse fenômeno de inclusão ou exclusão
de classe. Das perguntas sobre quem é o pai ou a mãe, para saber com quem você
estava se metendo, andando ou se envolvendo ou das histórias dramáticas,
juvenis e às vezes bizarras dos tais amores ou amizades proibidas. Lembrei da
expressão corrente das boas ou más companhias que encobria só a questão
econômica sob um manto moral ou comportamental. Por fim, ou quase fim como
verás, acabei pautando o quanto essa encenação ou drama permanece de enredo em
todas as novelas, de uma ascenção social por relação, casamento, amor ou
amizade ou mero convívio é ilusória. É a velha fantasia de uma espécie de paz
social inexistente. Ou de uma democracia racial plena e tranquila. E o quanto
essa separação de classes, castas ou estamentos exibe a desigualdade social e
também os mecanismos de dominação e exploração, sujeição e submissão dos
inferiores aos superiores seja por qual critério for. Por um instante parei e
perguntei aos alunos e alunas quem representa a classe social deles nos
parlamentos ou governos e baixou um silêncio profundo na sala. Deixei o tempo
correr e fiquei fitando eles e esperando. Um menino me perguntou: isso não é
uma inversão? Eu respondi, entendendo bem a aplicação alargada dele daquela
palavra naquele contexto, dizendo que não era bem uma inversão, mas sim um
logro, o fato de alguém que não tem nenhuma identidade de classe comigo ser
eleito por mim e atuar contra os interesses da minha classe, como no caso da
reforma da previdência. Em instantes a aula acabou e ele saiu balançando a
cabeça e resmungando de cenho franzido. Então, eu que votei nesse cara, votei
nele para ele fazer algo contra mim só porque tinha a ilusão de que ele estava
do meu lado. Nominou o candidato, seus colegas baixaram a cabeça, um citou
aquele meio frango grátis e outra aluna passou com os olhos expressivos que
suspendiam todas as interrogações da sala e a aula acabou.
Sim, é a triste verdade, o povo
brasileiro parece um bando de dalids votando em bramanes para preservar o
sistema de castas e a desigualdade social arrasadora e massacrante que vivemos
nesse país.
quarta-feira, 20 de março de 2019
SOBRE O TAMANHO DA NOSSA VIDA
“Não tente viver para sempre... você não vai conseguir.”
Georg Bernard Shaw*
Não vamos vencer a morte, nem a medicina irá fazê-lo. Ela
pode ser atenuada, retardada, mas também é imprevisível e vai continuar assim.
Shaw diz ai que você não vai conseguir viver para sempre. Então, a questão é
como você encara isso, quando não há mais tempo para desviar desse assunto e
quando você parece precisar responder de alguma forma pensando sobre isso um
pouco mais?
Você e eu temos uma relação com ela com certeza. Isso é
comum para nós todos, mas incomum quando ocorre porque é muito único quando
ocorre. Ocorre uma vez só e vai ser de um modo determinado. Determinado por
força maior ou aleatoriamente. Por mais que se expliquem suas causas, ela
sempre tem um quê de incerteza. Foi assim, mas poderia ter sido de outra
maneira. Se fosse diferente, que diferença de fato faria? Nenhuma, só no
detalhe ou na causa, pois o resultado ou o fim seria igual.
Temos um lance com essa senhora. Um encontro marcado que não
tem data na nossa agenda. A senhora morte age a nossa revelia de certa forma.
Apesar de ser num determinado momento muito nossa, completamente própria da
gente. Ela deve passar pela gente e dizer hoje não, quem sabe agora, quem sabe
depois, deve desistir, mas está ali próxima, quase ao lado. Talvez a gente
drible ela como aquele personagem do Ingmar com algumas perguntas ou movimentos
certos e precisos no tabuleiro da vida.
Para alguns ela chega de surpresa, abruptamente,
repentinamente, para outros parece que tem que ficar esperando, em alguns casos
sofrendo e em outros vivendo razoavelmente bem. Outros ainda sofrem quedas e
são confrontados por ela através de doenças ou acidentes.
Enfim, você conclui que não sabes a tua hora, nem sabes o
teu destino. Tem o fator surpresa e a incerteza. Por mais que fique planejando
e construindo o amanhã, construindo a semana que vêm, o mês que vêm, o ano que
vêm e alguns anos da vida, até que ela acabe aparecendo por aí. Quando não
acaba, alguns planos não dão certo e você precisa se readaptar, reacomodar,
fazer mudanças e faz elas. É uma decisão essa de fazer o que é preciso
Quase todos fazem planos, mas alguns não. É interessante
isso. Alguns fazem planos e conseguem realizar eles e outros não. Isso não
ocorre porque alguns são melhores e os outros não. Ocorre porque alguns colocam
para si esse desafio, fazem escolhas, deliberam e decidem e vão fazendo alguma
coisa de acordo com isso. É um erro, ao meu ver, pensar assim que estes são
melhores que aqueles. Os planos dependem e às vezes independem dos teus
esforços. Pode dar tudo errado, pode ser a sorte, a fortuna ou algum predicado
que habilita melhor ao sucesso ou a sobrevivência naquele momento, naquele
lugar e naquelas relações com o mundo e as coisas. É bom lembrar que, para algumas pessoas, a
sobrevivência é um grande sucesso. A
sobrevivência para essas pessoas é um sucesso dentro do impossível.
Não sabes nada sobre tua própria sorte, tuas graças e bônus,
mas podes colecionar algumas chances a mais. Pode prestar mais atenção aos
sinais e tentar tatear no escuro o interruptor que vai iluminar teu quarto e a
tua casa, tua sala e tua vida. Podes te
cuidar. Se movimentar com delicadeza e prevenção. Podes prestar mais atenção ao
teu mundo e às tuas relações. Ver o lugar das coisas e das pessoas e estar
preparado para mudanças na disposição delas e na tua também.
Conheço pessoas que diriam que não adianta nada planejar ou
ter boa vontade. Porém, me parece, que pode se sofrer menos assim. Parece que
sim, que o caráter e a natureza da tua
intencionalidade ajuda. Não resolve teus problemas todos e não munda a
disposição das coisas, mas muda tua intenção e tua forma de compreender esse
grande jogo do mundo e os pequenos jogos das pessoas que correm apesar de tua
vontade ou teu desejo. Estamos todos tentando sofrer menos. Ainda que alguns
façam de tudo para contradizer isso promovendo seu próprio sofrimento e de
outros seres humanos.
Na nossa vida isso, esse sentimento do encontro com a morte,
pode demorar um pouco para nos pegar de frente, nos pegar de jeito. Às vezes
passamos uma vida inteira - ou melhor, boa parte dela - sem sentir isto, até
que...a miudinha chega e começa a corroer as bases da tua existência. Pode começar contigo e pode começar com outras pessoas. Como o cupim que pode roer uma cadeira inteira e não chegar na
mesa, mas pode roer a mesa e a cadeira juntas. Aquele relógio de areia do tempo
te dá a sensação de ter feito a última virada. Você fica então pensando em
quanta areia tem e se ela vai escorrer muito rápida para o bojo inferior ou se
será mais lenta.
Os sinais são dados no teu corpo e na existência de teus
familiares e amigos próximos e você vai aprendendo algo sobre isso. As pessoas
começam a desaparecer à tua volta. Você pode se desesperar com isso. Vai
descobrindo a finitude e o desparecimento pelos outros e sente a aproximação da
morte. Você sempre soube que ela existia, pelo menos desde o primeiro enterro
de familiar do qual tem lembrança. Ou aquela noticia no jornal. Mas sempre
achava que seria depois. A invisibilidade da morte na existência da gente é uma
dádiva, mas isso não faz ela deixar de existir como uma experiência que virá.
Entretanto, devemos reconhecer que essa invisibilidade é um bom presente para
nossa vida ser melhor aproveitada e considerada. Não saber quando e nem o que
virá depois, pode nos fazer levar melhor a vida até esse dia fatídico.
A vida terá um fim, chamamos este fim de morte e tentamos
sempre pensar que não é com a gente, mas é. Esta dama vai te visitar um dia. E
nesse dia você não vai conseguir mandar ela embora. Ela somente será retardada,
poderá perder o ônibus ao ir te visitar, poderá esquecer teu endereço e mesmo
ficar um bom tempo vendo como você tem se ocupado nesta vida. Talvez ela fique
como os anjos de Wenders admirando teu esforço e tua paixão, teus enganos e
erros e te dando chances a mais.
Podes pensar à vontade em teus planos, sonhos, desejos,
filhos, mas você não vai conseguir mesmo viver para sempre, então relaxa, te
acalma e vai vivendo. Você é livre para escolher, assim, entre estas duas
opções de pensar. Aquela temerária e trágica e a que se alegra com cada dia que
nasce. Pode parecer pouca coisa, mas é mais e talvez tenha um gosto da presença
– de um sempre de curta duração – do que ainda é. Se você descobre e entende
que não vai conseguir vencer a morte, talvez comece a ver que a vida já é uma
grande vitória, não só pelos planos que deram certo, mesmo com os que deram
errado, com os desvios e acidentes, se sobrevive parcamente ou vive plenamente,
está ai no mundo ainda. Então aproveita isso, tente tirar o melhor de si e dar
o melhor de si nesse tempo que te resta. O tamanho da nossa vida não é medido
pelos anos que vivemos, mas sim pela forma que vivemos. Isso você pode
conseguir.
* Prefácio de Georg Bernard Shaw em O Dilema do Médico
(1906). Citado por Freud em correspondência (in: GAY, Peter. FREUD: Uma vida
para o nosso tempo. 2a. ed. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Cia. das Letras,
2012. p. 426). Estava aqui pensando em Moacir Scliar, liberdade, política e na
vida.
P.S.: Reescrito, revisado e estendido. Sobre um original de
novembro de 2014. Nada melhor que um
trânsito de Plutão sobre o Sol para tratar disso. E numa novembrada típica do
escorpião que há em todos nós. Os experts nesse tipo de mistificação e
credulidade, a despeito de terem mais conhecimento do que eu no assunto, me
entenderão. Para os demais vou só apontar que é uma semântica e uma sintaxe
simbólica que também pode ser vista como uma metáfora ou espelho das nossas
vidas. E pode ser um recurso literário também.
TROTSKI; A SÉRIE E O PERSONAGEM
Olhei toda a série Trotski da produtora russa que assumiu
essa grande tarefa de fazer séries em homenagem ao centenário da Revolução
Russa. Acho - uma opinião minha sujeita a crítica e revisão - que ela peca em
vários aspectos.
O primeiro, para mim o pior de todos porque exagera muito na
simbologia e culpa, é essa demonização forçada de Leon. Segundo, a completa
faxina na reflexão intelectual, política, econômica e cultural dele que só
aparece superficialmente. Trotski era um homem de elevada reflexão e jamais
pode ser resumido a um sujeito passional ou meramente de ação. É um
empobrecimento medíocre. A terceira, que pode em parte ser perdoada, pelo
perfil ofensivo de Trotski que o afasta da pequena burguesia e do campesinato,
é o exagero no voluntarismo e no esquerdismo de Trotski.
A série, porém, permite vislumbrar a capacidade tática e
estratégica dele que não era calcada apenas em atos de violência estupida e
extrema, ao qual ele é resumido. Pelo menos em alguns momentos vemos a
combinação da disposição para a luta com a noção de tempo e oportunidade de
agir corretamente. Também desvaloriza demais os colaboradores construindo mais
uma vez a mitologia do homem heróico e individual e não prestando atenção ao
intelectual coletivo do partido bolchevique que era muito mais dinâmico e
intenso do que um partido dividido em pequenas caixinhas de reflexão. Eu não
tenho a menor dúvida de que a dinâmica coletiva dos líderes da revolução era
muito mais intensa e íntima do que aquela que é resumida a três personagens
apenas. Trótski, Lênin, Stalin não pensaram, não agiram, não decidiram e não
planejaram sozinhos. Não se pode subestimar e nem diminuir todas as demais
personagens dessa revolução. Para mim,
isso é extremamente deseducativo e explica porque atrás desse mito heróico
raramente ocorrem outras revoluções. A desconsideração sobre as demais peças
dessa engrenagem política – o que inclui as muitas mulheres que atuavam no
processo também, pesa contra o entendimento do processo. O conselho político,
sua composição, formação e dinâmica de decisão e reflexão, é para mim o
principal segredo de toda revolução ou processo histórico. Um personagem não
atua sozinho, nem três personagens. O coletivo envolve no mínimo entre 20 a 50
personagens articulados, afinados e com múltiplas relações, informações e
orientações sociais, culturais, políticas, religiosas e econômicas que se
fundem numa síntese que ora está em disputa e ora está em harmonia. A tomada de
decisão e a síntese final sempre é mais mediada do que é apresentada por essa
forma que mitologiza alguns indivíduos e enfeitiça as fantasias mais subjetivas
e personalistas dos expectadores. É a síntese disso o segredo guardado atrás
dessa mitologia. Por fim, me deu aquela coceira da práxis coletiva no espírito.
Outro aspecto que citei acima é o papel secundário das
mulheres na revolução que também é encobridor do sujeito real. Que é também um
dos sujeitos ou sujeitas revolucionárias cruciais na revolução.
A melhor parte desse seriado é que no oitavo episódio me
reconciliei ou, melhor, me reaproximei de vez com Trótski. Eu fiquei mais
trotskista do que nunca. Uma chama de coragem e virtude ferve em mim. Se unindo
em minha mente e em meu coração. Então, embaixo da camada grossa de
fetichização, deminização e personalização culpada do individuo histórico
consigo entender porque e qual tipo de honra revolucionária há nele.
Vale a dica.
TROTSKI: PEQUENO COMENTÁRIO SOBRE O RADICAL E O COLETIVO
Estou na última parte do filme/seriado da teve russa Trotski.
E vejo que o troço todo tem uma coisa que me chama muita atenção nele. O papel
da disciplina. A disciplina e a capacidade de ler a realidade. Já disse antes que
o filme força um pouco a mão na demonização do sujeito revolucionário. Mas como
eu já disse em outro texto antes, tem coisas que são bem interessantes. E eu
creio mesmo que Independente de fazer revolução se adaptar ao sistema ou não, é
certo que será muito mais seguro que tal
sujeito histórico, precisa mesmo assim ter muita disciplina Até porque
não é só a previsibilidade que as pessoas esperam da gente, elas também esperam
da gente é aquela estabilidade e firmeza de espírito, valores e propósitos.
Então, antes essa questão da estabilidade parecia uma coisa que pode fazer e
trazer muito resultado. Por mais rebelde, selvagem ou marginal que a gente
seja, aos olhos conservadores, no sentido do que dizem que convém, no sentido daquilo
que pedem através das convenções tradicionais e conservadoras, tem que saber
trabalhar com isso direito. E eu pensei
também que mesmo o espírito mais radical, revolucionário, transgressor ou
mudancista, tem que ser domesticado por
si mesmo e pelos seus, para poder ser realmente posicionado no sentido de
adquirir uma eficácia e eficiência, para usar a linguagem padrão. Veja que aí
está a serenidade que é preciso ter junto para conseguir ter resultados. E eu
acho que se pegares essa lição, vais te
dar muito bem com essa fé na necessidade da mudança social radical e que é uma
coisa que quando a gente tem, ela dá muito mais força e eu sei disso porque eu
já percebi isso várias vezes mesmo com meus amigos com a minha vida e com a
vida de muitas pessoas que conseguiram mudar alguma coisa nesse mundo.
LABIRINTO E SISTEMA
Para quebrar de vez com o pensamento único ou o espírito
coroado e glorificado do capitalismo é preciso não romper com o sistema, ou sistema
filosófico particular, mas ser capaz de coletivamente encarar todas as
contradições e estradas furadas do labirinto e olhar ele por cima em sua
totalidade e essa não é uma tarefa para um gênio solitário ou iluminado, mas
para muitos homens e mulheres que consigam suportar a crise e a dogmática
original de suas crenças. A superação pode começar no indivíduo, mas só se dará
de fato num coletivo. Talvez seja essa a intuição mais maravilhosa da
democracia grega e do panteão grego e africano, pois essa intuição parece
expressar que é na diversidade organizada que se explica a totalidade. Quem
puder entender isso em sua complexidade e abnegação individual, que se disponha
a fazer isso com mais alguns com a mesma generosidade e profunda coragem.
MARCELO YUKA
"Faltou luz, mas era dia/ O sol invadiu a sala/ Fez da
TV um espelho/ Refletindo o que a gente esquecia"
Marcelo Yuka.
O ESFORÇO DA CONCILIAÇÃO
"Escutar diariamente o que se fala de nós, ou mesmo
cogitar sobre o que se pensa de nós — isso aniquila o homem mais forte.
Por isso nos deixam os outros viver, para diariamente estar
certos em relação a nós! Não nos tolerariam, se tivéssemos ou quiséssemos ter
razão em relação a eles!
Em suma, façamos um sacrifício em prol da conciliação geral,
não escutemos quando de nós se fala, quando somos alvo de elogios, censuras,
votos, esperanças, nem sequer pensemos nisto!"
Nietzsche - Aurora
sábado, 9 de fevereiro de 2019
PUBLICAÇÕES
Quero muito voltar a publicar textos aqui. Desde 2016 tenho reduzido as publicações. Entretanto, isso não significa que não tenho escrito. Ao contrário, considero esse período de lá para cá um dos mais produtivos da minha vida. Envolve tanto contribuições históricas e institucionais, sobre literatura e cinema, umas poucas coisas filosóficas e muitos comentários políticos. Vamos ver se consigo desencalhar tudo isso.
Abraço aos meus poucos, mas frequentes visitantes, leitores, amigos e amigas.
terça-feira, 2 de outubro de 2018
O PESADELO DOS PROFESSORES ESTADUAIS PRECISA ACABAR
O PESADELO DOS PROFESSORES
ESTADUAIS PRECISA ACABAR
A hipótese de Sartori e Leite
irem ao segundo turno nos coloca frente a um filme de terror em andamento. Pior
do que isto é imaginar que as duas opções significam apenas prosseguir no
roteiro de humilhação e desprezo dos educadores estaduais.
Com Sartori, passamos quatro anos
sem reajustes, com salários parcelados e atrasados e tivemos muitas perdas nas
nossas condições de vida e de trabalho. A possibilidade de prosseguir nisso é
algo que coloca em desespero muitos educadores, faz outros abandonarem de vez a
carreira e vai transformando a nossa categoria num conjunto de pobres
assalariados e sem perspectiva nenhuma de melhora. O PMDB fez muito mal aos
educadores no período 2015 a 2018.
Com Leite do PSDB, temos uma
perspectiva aparentemente desconhecida e incerta, mas não creio mesmo que este
vá fugir muito do modelo já conhecido de gestão do PSDB que foi aplicado em
minha cidade – São Leopoldo com PSDB e PMDB juntos - entre 2013 e 2016 com
resultados desastrosos, violência contra educadores e também queda ou
estagnação do IDEB municipal. No estado do Rio Grande do Sul, com Yeda Crusius,
o modelo também foi aplicado e, no estado do Paraná, com requintes de crueldade,
Beto Richa promoveu até mesmo um massacre covarde e violências contra
professores a céu aberto. Já no estado de São Paulo, o requinte é combinar
violência e dissolver os vínculos dos educadores com as escolas e promover ao
máximo contratos temporários. O modelo que é aplicado duramente em Porto Alegre
por Nelson Marquezan Júnior tem também outros requintes. Tratam eles sempre de
precarizar as condições de trabalho dos educadores. Flexibilizar ao máximo os
contratos e reduzir os direitos dos educadores.
Como educador estadual pressinto
então muitas ameaças graves vindas de ambos, Leite e Sartori: o fim do plano de
carreira dos educadores e a dissolução definitiva dos contratos de trabalho com
demissões em massa de professores sob a justificativa de redução do custo de
máquina pública, mais fechamento de escolas e percebo que até mesmo o ensino
médio noturno passará a ser alvo de questionamento em sua oferta.
A abordagem típica desses caras é
só fazer as contas, reduzir os gastos e privatizar ou terceirizar os serviços.
Quem botar seu voto em Sartori e
Leite estará autorizando a aplicação desse modelo neoliberal que só serve para
esvaziar e reduzir o estado passando a iniciativa privada determinados
serviços.
Aos professores que apoiam isso é
bom lembrar que as condições de trabalho e sobrevivência na iniciativa privada
não são melhores. Nessa abordagem o educador se transforma em figura
descartável, substituível e dispensável. O efeito imediato dessa política no
sistema de educação será piorar as condições de trabalho e sobrevivência,
porque os salários passarão sem reajustes, mas não somente isso, é bem possível
que ocorra um achatamento dos salários em virtude dos vínculos mais precários e
da perda do plano de carreira e das possibilidades de progressão.
Não custa lembrar aos esquecidos
ou aqueles que acharam irrelevantes os reajustes recebidos nos governos Olívio
Dutra 1999-2002 e Tarso Genro 2011-2014, nos dois governos nosso plano de
carreira foi respeitado, foram feitos concursos públicos para o ingresso na
carreira e os salários foram pagos em dia com reajustes na maior parte dos
casos acima da inflação.
Rosseto e Ana já prometeram pagar
os salários em dia e viabilizar as melhorias necessárias para as condições de
trabalho dos educadores. Então, eu realmente não entendo porque alguns colegas
insistem mesmo em arriscar perder muito mais com Leite ou Sartori, ao invés de
começar a recuperar alguma coisa como já foi o caso com Olívio e Tarso.
Pelo bem da educação estadual e
dos educadores do estado eu voto #RossetoAna #13 sem titubear e além disto faço
campanha intensamente.
Grande abraço.
Na imagem um servidor público
estadual aplica o #EleNon no Sartori e o #EleTbNão no Leite.
Quem tá certo é esse servidor.
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
TOMADA DE POSIÇÃO
TOMADA DE POSIÇÃO
Aprendi a observar com mais
cuidado as opiniões, posições e expressões dos políticos e dos homens e
mulheres públicos, das autoridades e, também, das celebridades em geral, após
uma advertência de um professor de filosofia que dizia basicamente que política
é a arte de tomar posição. Meu professor João Carlos Brum Torres, não dizia exatamente
que era uma arte, mas que o segredo da política é tomar posição. Hoje, passados
alguns bons anos dessa lição, eu penso que ele seguia algo como uma inspiração
sartreana desde jovem. Não conheço toda a história de militância dele, mas
sempre observei suas tomadas de posição e de outros e percebia e percebo o
quanto ele valorizava esse gesto e sua responsabilidade nisso. Assim, apesar de
nossas divergências partidárias e também algumas refregas eleitorais, sempre
pude considerar sua posição como importante no debate. E é assim até hoje, por
exemplo, quando ele se posicionou contra o golpe de Temer ou quando considerou
um crime o fechamento da FEE – Fundação de Economia e Estatística, entre outras
posições que o separavam das iniciativas dos membros do seu partido.
Ele queria dizer com isso que a
questão não era tanto se a posição estava certa ou errada, mas sim que ela
demonstrasse uma abordagem alternativa à realidade e à opinião frágil ou fraca
sobre ela.
Numa perspectiva mais formal, nós
podemos até mesmo fazer inquérito sobre as posições divergentes e tentar
monitorar a evolução dos acontecimentos para ver que posições se mostraram acertadas,
quais, mesmo erradas ou equivocas, contribuíram para a reflexão pública sobre
determinado assunto e, também, quais representavam apenas um beco sem saída ou
a mera negação de uma outra perspectiva ou posição.
Na trajetória política deveria
ser balanceado isso de alguma forma. Alguns somam pontos por sua lucidez e
eventual ousadia em tomar posição, outros perdem pontos por simplesmente
vomitarem suas biles, seu ódio, raiva ou grosseria no debate público.
Com o tempo se aprende a observar
a mísera diferença entre fanfarrões, oportunistas, parlapatões, grossos e a
perceber a grandiosa diferença daqueles que se expressam com responsabilidade e
serenidade de tal modo que conquistam nosso respeito e deveriam receber mais
atenção do público, enquanto os demais deveriam ser desvalorizados no grande
mercado de ideias políticas. Porém, ocorre que de vez em quando observamos uma
espécie de surto de insensatez e algumas figuras grosseiras cujo destino
deveria ser a nota de pé de página da história, procuram ter capítulo especial
como se tivessem algo a dizer, algo a ensinar e algo a fazer, mas não.
Lembrei deste tema da tomada de
posição ao saber que uma menina muito querida se posicionou contra o coiso e
faz isso muitas vezes ao dia porque não suporta a ideia de ver o Brasil nas
mãos desses caras e que tem também muitas precauções contra a mentalidade que
ele desperta ou dissemina em seus apoios. Ela toma posição e argumenta todos os
dias por #EleNão e #EleNunca.
Eu fico muito orgulhoso ao ver
isso. Porque sei que assim ela assume posição e responsabilidade pelos assuntos
públicos e vai à medida que o fizer com juízo e serenidade conquistar o
respeito público e contribuir de alguma forma para a sociedade. Para aqueles
que gostam de ficar sobre o muro, seja por prudência seja por auto preservação,
talvez seja importante observar que quem não tem posição ou não contribui no
debate público, tem muito pouco a dizer na esfera privada que tenha algum valor
e que o valha.
Tomar posição é da essência da
política e só quem toma posição compreende o quão sério deveria ser o
tratamento dado aos assuntos públicos.
P.S.: Homem fraco em política é
aquele que é incapaz de controlar a sua ambição e vaidade nos assuntos
públicos. E, em geral, quem não controla essas duas partes de sua alma comete
sucessivamente um absurdo ou estupidez atrás do outro. Num seriado que assisto,
há um homem mau para cada temporada e a mocinha se vê às voltas com ele. Na
vida real, há muitos homens maus e a maior parte deles se engendra sobre a proteção
vaidosa da expressão homens de bem que apenas esconde o propósito de fazer mau
a outros seres humanos. Veja que aqui ambição está em desmedida e que toda vez
que ela aparece e triunfa, ocorrem tragédias. Eu admiro e respeito muito todas
as pessoas que estão lutando contra isso e respeitando aqueles que estão ao seu
lado, bem como, respeitando, na expressão de suas palavras, mesmo aos seus
adversários. O estado de beligerância não será desarmado sem essa atitude e os
alegados extremismos deveriam ser melhor sopesados no espectro político
brasileiro. Nesse sentido, eu só vejo dois lados no cenário todo. Um, daqueles
que usurparam o poder ou que querem persistir fazendo isso e, o outro, daqueles
que resistem e vão continuar lutando contra estas tentações e iniciativas.
Assim, para mim, homem fraco e homem mau é aquele que se posiciona do lado dos
primeiros. O resto é apenas ensaio de diferença.
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Merli - 1
MERLI - DEBATE NA 33• FEIRA DO
LIVRO DE SÃO LEOPOLDO - RS
Nesta quinta-feira, às 19 horas,
vou conversar com a Professora Elvira Hoffmann, apaixonada pela série e com o
público que prestigiar o evento. Tudo com a mediação e a proteção do mestre
Jari da Rocha, Diretor de Cultura da Secretaria Municipal de Cultura e Relações
Internacionais de São Leopoldo.
A SÉRIE E O ENSINO DE FILOSOFIA
NO ENSINO MÉDIO
Convido para comparecerem ao
debate sobre esta série e apresento algumas considerações sobre ela aqui. Sem
spoiler nem da série e nem da minha fala sobre ela para a ocasião.
A série tem como personagem
principal Merli que é um professor de filosofia razoavelmente excêntrico,
crítico e que se arrisca muitas vezes em relação ao ambiente escolar, em
algumas errando e em outras acertando, mas que é muito dedicado e que
estabelece uma relação intensa e dialética com seus alunos e alunas e também
colegas na escola. É um personagem muito bem construído pelos autores e pelo
ator, cujas experiências apresentam uma espécie de somatório de muitas
experiências de outros educadores que são orientados pela ousadia e
criatividade. Ele encara as contradições da vida e provocativamente gera nos
alunos e alunas uma espécie muito singular de autoconhecimento e
autocompreensão que os estimula a ter uma vida refletida em suas relações com
os outros seres humanos.
Na série, é importante destacar,
os jovens alunos, meninos e meninas apresentam características muito bem
boladas e construídas em seus personagens. Apesar da turma ter 25 alunos, a
série se concentra nas vivências e experiências de 11 alunos e alunas. Os demais
da turma são coadjuvantes sendo citados e nominados apenas mais cinco. Os
demais alunos da escola figuram no cenário dando uma bela ambientação e ideia
de um ambiente escolar completo. Destaco em relação a escola mais duas coisas.
De um lado a estrutura física da escola é razoável e também o fato da escola
ficar em frente a uma bela praça arborizada - na minha opinião isso poderia ser
uma diretriz excelente para todas as escolas brasileiras.
Em quarenta episódios a série
apresenta os três anos na formação do ensino médio de jovens espanhóis, em
Barcelona, em uma escola pública de ensino médio. A série nos permite
estabelecer claramente uma leitura da experiência formativa dos alunos e
alunas, as contradições e conflitos geracionais entre alunos e pais, os
conflitos e desafios pedagógicos inerentes ao espaço escolar e também consolida
- ao meu ver - um paradigma educativo que é fundado no conhecimento dos alunos
e alunas por parte dos professores.
Um outro aspecto muito importante
e bem trabalhado na série é a questão da educação afetiva e sexual dos
adolescentes com exemplos muito bem trabalhados sobre este tema, seja no
universo dos jovens, seja no universo dos adultos, pais e professores. Ao mesmo
tempo, a série nos permite ter uma visão da educação como uma atividade e uma
prática de cuidado e de proteção, apoio, amparo e compreensão dos jovens. As
experiências em três anos mudam a compreensão dos jovens e promovem o seu
amadurecimento, melhorando suas relações sociais e afetivas. As questões de sexualidade
e gênero tem papel fundamental também ao longo de toda a trama.
No que respeita aos conteúdos
filosóficos ministrados pelo professor Merli é preciso destacar a inclusão de
autores mais contemporâneos a uma série de autores considerados mais clássicos.
O tratamento resumido dos autores é exemplar e auxilia muito aos professores e
professoras da disciplina a repensarem ou trabalharem estes autores e os temas
elegidos em cada um deles. Creio que a principal lição pedagógica da série se
expressa no seguinte: é possível lecionar filosofia no ensino médio desde que
se estabeleça uma relação entre os temas dos autores e as questões existenciais
atuais suscitadas pelas vivências dos alunos, alunas, professores e
professoras. Em meio a isso tudo destaco quatro ou cinco temas que me parecem
centrais na série toda: a sinceridade, o segredo, a surpresa, a mentira e a
verdade. E isso no que toca a questões de adultos e de jovens.
Por fim, a minha impressão
pessoal é que a série valoriza de forma muito adequada um método dialético e
libertário de ensino de filosofia, quer dizer, o uso do diálogo, da
interrogação e da provocação sistemática e ousada da leitura, reflexão e
expressão dos alunos e alunas em relação a si mesmos e ao mundo, dissolvendo
preconceitos e confrontando as tendências a mera reprodução de conteúdos,
convenções e tradições.
Daniel Adams Boeira - Professor
de filosofia licenciado na UFRGS em 1993 e que exerce o magistério em escola
estadual desde 1998, atualmente na
Escola Estadual Olindo Flores da Silva,
em São Leopoldo, Rio Grande do Sul.
Dirigismo Cultural: Queer Museum e a reação a estética autoritária.
Dirigismo Cultural: Queer Museum
e a reação a estética autoritária.
A pretensão de dizer o que deve
ser criado, exposto e usufruído é a expressão máxima do dirigismo cultural. Se
segue a ela também a determinação de como você deve ou pode viver. Você só pode
gostar disso. Você só pode viver assim. Você deve morrer assim. O sacrifício
vale a pena. Todos os sinais estão dados.
É muito mais conveniente para o
sistema rebaixado e planificado pelo império da burrice, impor uma estética,
tal qual um sistema completo de determinações.
Pelo achatamento estético da sociedade e da arte, passa o trem e suas
malas carregadas de ódio e raiva. A energia a necessária para o grande
sacrifício.
Na Alemanha onde houve talvez um
dos maiores laboratórios disso o mau gosto era impuro, degenerado, contra uma
tal estética Ariana. Era uma estética clássica mas sem o caráter dionisíaco e
livre ou agônico. Por isso, que foi tão fácil sacrificar a metade do povo
alemão em duas guerras. Na primeira pela ambição imperial da nação que quer ter
supremacia política e econômica na Europa. Um gesto de coragem de um povo e de
heroísmo de seus jovens. Depois a raça pura se vinga daqueles que a exploram,
com a máxima violência do que segue o sacrifício de milhões de judeus e outros
povos. Na Rússia socialista, o realismo impõe a máxima impessoalidade também.
Depois, só o grande pai Stalin, a personificação da nação. Por isso, o
sacrifício de milhões também foi possível. Tanto na implantação e primeira
década de consolidação do regime, depois na perseguição aos traidores internos,
por fim, na própria segunda guerra cujo sacrifício dos russos é absolutamente
imbatível em números e em consequências. Veja que o gosto dirigido ou bem
dirigido permite grandes milagres que vão da estética à demografia. Não vou
falar aqui de outros exemplos. Na própria América, a estética foi absorvida
pelos esforços de guerra. Na Inglaterra e mesmo na França a resistência aos
invasores forjou uma estética ou contra estética de sobrevivência. No Brasil da
ditadura militar quase toda a MPB afinou o samba em uma estética de
sobrevivência para escapar ao dirigismo cultural da censura.
O que o MBL tenta fazer hoje é
justamente isto: tentar impor um metro, uma medida e determinar os limites da
arte aceitável e tolerável. Não se trata somente de uma conduta de censura.
Com a militância gaúcha mais conservadora
desse movimento surgiu a fração mais reacionária e moralista do MBL. A
contradição é tão grande com as frações de SP - e coloque o PSDB "de
fé" por traz disso, que talvez a melhor cura seja trazer a musa nua e
verde amarela para o sul e fazer ela militar nesse meio por liberdade sexual e
orgiástica no movimento. Aqui no sul o MBL caminha então para a sublime
purificação da carne, provavelmente num esforço desesperado de encontrar
santidade por traz do seu venal pecado golpista. É fácil de entender ou ensaiar
uma explicação do fenômeno aqui no Santander: eles estão desesperadamente em
busca da pureza estética.
Compatibilizar isso com Alexandre
Frota, Dória e sua faxina estética nos grafittis paulistas, Marquezan e seu
apaixonado secretário de cultura, que encontrou o novo Caetano na política, são
expressões do mesmo dirigismo cultural. Se vingar esse esforço de dissimulação
e purificação, só precisamos aguardar os sacrifícios. Como diz a voz da
experiência: isso ocorre assim desde que o mundo é mundo. O dirgismo cultural
ou o cânone moral fazem um esforço de planificação é achatamento justamente
para levar a padronização, a supressão do diverso, do rebelde - do livre? -
para permitir a justa e firme direção ao grande sacrifício de purificação e
salvação. Não é preciso voltar à idade média ou à Grécia e Roma antigas para
saber no que vai dar.
Nietzsche tinha razão na sua
grande intuição dialética entre o apolíneo e o dionisíaco. Quanto maior o
esforço numa direção, maior o saldo na conta da direção oposta. Ou seja, a
sociedade super livre, moral, organizada, limpinha, esconde em seu bojo a
realização do maior caos e sacrifício. A beleza de Apolo, solar e celestial é
intocável, já o Dionisíaco e seu instinto carnal pode ser destruído. O
dirigismo cultural do MBL é uma façanha histórica, pois ensaia, na estética, aquilo que busca no
social: a aniquilação do real, do carnal e da expressão do diverso. Só podemos
agradecer a iniciativa de acelerar com seu gesto extremado a reação contrária
que precisa ser cada vez mais forte, porque é vital para a sobrevivência da
liberdade real de criar, expressar, viver e pensar. O MBL tem, portanto, uma
contribuição a dar ao Brasil com essa contradição entre o que chama de
liberdade e aquilo que esconde em sua limitação conceitual e estreiteza
essencial, onde é apenas um movimento que se quer "livre de alguma
coisa", como aliás o nazismo se queria livre dos judeus e de mais alguém, ao
ponto de querer e acabar sendo livre do próprio povo. É genial o efeito manada
que encontramos ao prosseguir nessa análise, porque podemos perguntar todos
aqui agora: o sacrifício vai chegar de que forma e quando?
Pois aviso que já chegou. Você
que não está percebendo ou te tocando.
Olhe para os teus direitos, sendo dilapidados e destruídos com a ironias e metáforas insuperáveis - do que a
propaganda do "não importa como você chegou até aqui" do Santander é
talvez símbolo mais insuperável do grupo
golpismo curativo e libertário, da agenda golpista inteira, olhe nas reformas
trabalhista e previdenciária, olhe para os milhões do Geddel e os milhões do
Temer, olhe bem as riquezas nacionais
que sofrem mais uma vez a sanha do entreguismo, olhe para os educadores em
greve, olhe para as políticas sociais exterminadas, para a democracia
vilipendiada, para os abusos e arbitrariedades na justiça, olhe para a fome, a
miséria e a desorganização material e espiritual da vida das pessoas. O
dirgismo cultural é apenas a contrapartida estética do golpismo, assim como a
reforma educacional do novo ensino médio, é apenas a realização na escola sem
partido ou do partido único de um projeto de purificação e da supressão da
diversidade. O dirigismo cultural não é sintoma, mas justamente o modelo
adotado para achatar e preparar a plebe rude e pseudo ilustrada, para o grande
sacrifício. A ponte para o futuro nos leva a todos para o abismo. Será que
precisamos de mais avisos ainda? Me parece também, para lembrar como está caminhando
o santo e seu andor, que precisamos mais uma vez de uma estética articulada e
diversa de sobrevivência. E é bom que se aproveite os vãos de liberdade que
ainda sobrevivem para fazer uma nova guerrilha cultural e impedir a
consolidação desse novo dirigismo cultural. Aqui nosso impulso estético é
vital.
P.S.: Texto publicado no ano
passado por ocasião da censura ao Queer
Museum pelo MBL e que foi aceita pela direção do Santander Cultural de Porto
Alegre.
AMIZADES E QUALIDADES - REVISTO
AMIZADES E QUALIDADES
Quando a gente começa a se
interessar por uma pessoa, seja qual for o interesse, a gente passa a prestar
atenção nela. Observar e avaliar com cuidado seus gestos, palavras,
comportamento e modos. Se começam a descobrir os valores e princípios dela. Ao
que conduz a sua ação. É um processo bem consciente no meu caso. Não sei quanto
a outros, mas comigo isso é um processo em que aprendo muito também sobre a
minha percepção das pessoas. Quando a pessoa demonstra uma qualidade, seja ela
qual for começamos a registrar e ir confirmando se essa qualidade é solitária
ou isolada. Observamos também se essa qualidade ou virtude se mantém, em
diversas circunstâncias. Se passa a ver se não há outra qualidade associada a
ela. Cria-se até uma certa expectativa em relação a isso e, assim, se passa a
ter uma ideia do caráter e da alma da pessoa. É como se olhássemos para dentro
dela e percebemos sua estrutura moral e de valores. Com o tempo, essa pessoa
pode demonstrar falhas, erros ou até mesmo vícios, manias e coisas ruins com o
que não concordamos ou não aceitamos, mas quando gostamos dela isso fica um
pouco ao largo e não traz prejuízos grandes a imagem positiva que temos dela.
Porém, nesse momento a avaliação se prepara para subir de nível. Você começa a
usar mais boa vontade e paciência, começa-se a compreender mais do que julgar.
Isso explica porque mantemos certas pessoas nas nossas vidas, porque apesar dos
pesares, elas ganham mais valores e qualidades na nossa tabelinha de
julgamentos. Nossa sensibilidade passa a aguardar o próximo gesto. Ponderamos,
então, as suas qualidades e apostamos em que essas qualidades vencerão as
demais notas características e triunfarão sobre elas. É nesse momento exato que
começamos a ajudar essa pessoa mais do que antes. Quando isso acontece, ela
também começa a perceber esse processo ao seu modo e, assim, ambos se ajudam.
Raramente falamos sobre isso. Mas é assim que acontece e é assim que as pessoas
encontram no outro a possibilidade de mudar e evoluir. Isso gera um
relacionamento de amizade e afeto mais durador. Quando isso acontece é
maravilhoso. Eu só posso agradecer por receber esse tipo de atenção e tenho
muito prazer em dar atenção dessa natureza a alguém. A gente começa a aprender
com as qualidades do outro e ajuda até a aperfeiçoar elas. E assim seguimos.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
BANALIZAÇÃO DE PARADIGMAS: MACLUHAM, GOEBBELS, HITLER & BOLSONARO - Para o Gabriel Dos Santos
Enquanto a roda da história ainda
está girando e podemos dizer alguma coisa antes do fim definitivo de nossa
liberdade e da democracia brasileira.
Recebi um questionamento ou
pedido de auxílio e orientação de um ex-aluno sobre dois temas de Marshall
MacLuhan. Os dois temas não me eram muito distantes, mas fui rever isso.
Trata-se do que ele apresenta como distinção entre meios quentes e meios frios
de comunicação e também o que é paradigma midiológico ou tecnológico?
Confessei de saída que não tinha
domínio do autor. Em seguida me dispus a dar uma “olhadinha”. Fazendo isso me
defrontei com dois temas que estão relacionados diretamente a um tema que já me
desafia em reflexões sobre o que ocorre na cultura e nas sociedades que vivem
fenômenos regressivos de volta a sistemas mais autoritários e menos
democráticos e o abandono de uma perspectiva emancipatória ou progressista.
A única pista que encontrei sobre
isso em minhas especulações – que merece verificação ou demonstração, refutação
ou correção dos historiadores e dos especialistas, é basicamente certa
coincidência nos períodos históricos desses processos: em quase todos que
observei há uma espécie de avanço dos meios de comunicação ou de circulação de
informação e de conhecimento que causa certo atrito entre as visões
tradicionais e as visões mais elaboradas ou reflexivas e no mais das vezes as
visões tradicionais ganham num primeiro momento por simplificação e as forças
progressistas resistem – com diversos tipos de vítimas, entre elas a verdade e
a justiça entre os homens e mulheres – para mais adiante conquistarem algum
terreno, após uma árdua disputa de valores e de concepções de vida e de
sociedade. Abaixo meu debate que deixo como contribuição especulativa e
prospectiva talvez de alguma saída progressista ao impasse que vivemos com
fascistas, golpistas, usurpadores, manipuladores e interesseiros inescrupulosos
que fazem pouco caso da democracia ou em relação a vida dos cidadãos comuns,
ainda que apelem justamente ao sentimento de insegurança dos cidadãos comuns e
“banais” para triunfarem.
A segunda questão do paradigma
midiológico é simples para mim. Envolve apenas a ideia de que uma nova
tecnologia de comunicação traz consigo um novo paradigma dominante. Observo que
o conceito de paradigma foi utilizado de forma muito importante em filosofia da
ciência por Thomas Kuhn nos anos 60 para marcar as mudanças de concepção e
visão do mundo que ocorrem quando as ciências mudam, após uma árdua batalha
entre paradigmas concorrentes para explicar os seus fenômenos. Após, um período
em que a ciência normal e a ciência revolucionária concorrem disputando entre
elas seguidores ou após o desaparecimento dos defensores da ciência normal,
ocorre um período de transição e a mudança.
O termo paradigma tem sido usado
e disseminado largamente na academia e já está de certa forma popularizado e
banalizado também. Mas veremos adiante que esse é uma espécie de risco de
teorias novas ou de novos conceitos tendem a ser apropriados, simplificados e
mesmo que suas definições sejam muito claras – o que no caso de Kuhn é
controverso por muitas outras razões internas ao tema de filosofia da ciência –
ocorre com ele um empobrecimento e achatamento. Pode se dizer que as teorias de
Darwin, Comte, Marx, Freud, Nietzsche, Foucault e muitos outros e outras
autoras sofrem o mesmo processo.
Assim, apesar de achar essa
questão do paradigma mais importante do ponto de vista histórico, cabe aqui uma
aplicação mais ampla ao meu ver. Você pode compreender muitos processos do tipo
de uma revolução industrial ou tecnológica e também tentar analisas as suas
consequências sociais, políticas e culturais a partir disso. Em se tratando de
formas e novas formas de produção, disseminação, distribuição e deturpação de
conhecimento, comunicação, informação e formação de opinião veremos o tamanho
da minha especulação e seu alcance no tempo atual.
Aliás, tenho pensado muito que a
cada avanço nas comunicações, desde Gutemberg ocorrem dois processos
combinados. De um lado, o acesso a mais informação e conhecimento e, de outro
lado, uma espécie de rebaixamento e simplificação do conhecimento e da
informação que marca os conflitos de opiniões e, também, algo como uma
regressão cultural ou um retrocesso civilizatório que nos coloca de novo frente
aos abismos da barbárie e das guerras de extermínio. Os exemplos desses meios
novos: literatura, jornal, novelas, revistas, rádio, televisão, internet,
telefonia, não exatamente nessa ordem. Após um momento ideológico de
instabilidade e dos seus riscos regressivos, tipo fascismo na América, na
Europa e no mundo, mas quem quiser pode dar uma olhadinha nas revoluções
modernas, no século XIX e todo o século XX, como lhes aprouver, vejo que ocorre
um reequilíbrio e um avanço de forças progressistas.
Se minha tese está correta, o que
ele chama de meio quente não existe mais porque, por maior que seja a definição
da mensagem sempre vai haver participação e distorção ou interpretação o que
vai diversificar o sentido e rebaixar a qualidade do conteúdo por simplificação
e banalização.
Tem um fenômeno, assim me parece,
semelhante em economia no que eles chamam de taxa de confiança que envolve a
formação das expectativas nos agentes econômicos e sociais e a disseminação de
uma certa interpretação após concorrência dos fenômenos econômicos que chegam
simplificados aos consumidores. As ondas de consumo de determinados produtos e
o marketing por traz disso, faz uso desse mesmo mecanismo. Simplificação e
confecção de um atrativo ou embalagem ao produto ou mensagem.
Para mim, usando a terminologia
de MaCLuhan, com certa distorção deliberada e intencional, esse processo
deveria ser considerado hot ou dançante enquanto o outro seria mais passivo e
contemplativo. Ao contrário do que ele mesmo propugnava. Quanto maior a
definição, mais quente o processo. Não sei se me entendem ou se me faço
compreender. Quero dizer que o que torna uma comunicação mais conflitiva e
poderosa e o que gera um maior engajamento é justamente a sua alta definição e
seu alto poder de disseminação. Então, quanto maior a disseminação e definição
maior a influência e a participação dos expectadores na defesa de suas ideias.
Essa seria a base da manipulação de massas e dos efeitos manadas que temos
assistido no Brasil promovidos por forte direcionamento de retos na mídia dominante
e nos setores dominantes e elitistas contra alternativas progressistas e mais
populares.
Estou, com todo risco inerente a
isso aqui, cruzando áreas bem grandes de conhecimento aqui. Mas é uma reflexão
especulativa que pretende apenas provocar.
Quando Macluhan fala em menos
informações, nos meios frios, em outras palavras, ele parece esquecer que essa
simplificação dissemina standards de interpretação, chavões e simplificações
que tendem a ser mais conflitivas porque jogam fora o que já existe de qualitativo
no tema.
Meu exemplo objetivo é Bolsonaro
que está conseguindo doutrinar um bando de preguiçosos mentais, com muita anti
intelectualidade e criando uma horda quente de opinião em torno de si com
algumas poucas ideias simples e absurdamente estúpidas que jamais teriam vez se
não fosse esse ciclo de imbecilização e banalização do conhecimento e da
informação que vivemos, com impactos elevados em setores antes imunizados a
isso, como o judiciário, os cursos de direito, economia e outras carreiras de
novel superior. É quase a mesma coisa que Hitler e Goebbels fizeram na
Alemanha. Lá também empresários, intelectuais, quadros superiores de estado e
um populacho caminharam para o sacrifício de seus concidadãos judeus e de si
mesmos em duas guerras.
Curiosamente ele faz isso
acompanhando um ciclo de disseminação da comunicação via celular, smartphones,
redes sociais e quetais. Na mesma onda do Donald Trump.
Bem, chega, vou voltar ao meu
soninho filosófico.
Boa noite!
domingo, 2 de setembro de 2018
SIMONE DE BEAUVOIR – MEMÓRIAS
Por que eu gosto de Simone de
Beauvoir? – Uma provocação bem recebida a que vou tentar responder aqui dando
um passo à frente.
Você quer saber mesmo? – Preciso perguntar
isso para tentar compreender se esta provocação tem importância e relevância
real e efetiva para você.
Pois bem, eu gosto muito de ler
os textos autobiográficos dela. Mas também comecei a gostar dos seus romances. É
interessante que não estou falando aqui de seus ensaios ou do clássico
feminista dela, O Segundo Sexo, mas é assim que tem sido comigo. Ela é uma boa
memorialista e para a história do existencialismo ou do grupo que circulou em
torno de Sartre, ela é uma excelente fonte. Gosto da precisão e do modo como
ela narra tanto os episódios de sua vida, quanto as suas descrições do
comportamento dos seus contemporâneos. Ela poderia ser caracterizada como
piedosa nessas descrições dos demais e impiedosa em relação a si mesmo. O metro
que ela usa para si mesmo é diferente do metro para com os demais.
Não sou especialista em literatura,
mas por causa dela e de Virginia Woolf tenho dado muito mais atenção às
escritoras do século XX. Creio que o estilo literário dominante nos seus textos
autobiográficos, quanto em seus romances que misturam muito o elemento da ficção
com elementos biográficos, ultrapassa a fronteira da moral tradicional ou
convencional. Às vezes a ficção fica melhor e em outras vezes as biografias são
melhores. Estou lendo, já faz algum tempo, com vagar e reflexão, o texto dela
que me dá o repto dessa resposta, A Força das Coisas, me faz ter todas essas
notas aqui. Nessa obra, ela mesma faz a crítica de suas ficções e conta algo
mais sobre suas ambivalências em relação às suas obras, tanto as peças de
teatro quanto aos seus romances, e gostei muito do que ela faz. Uma
característica que fica ressaltada nela é que escreve suas obras meio que como
uma resposta ao seu tempo, uma resposta às ideias e obras de outros e ela mesma
relativiza e faz a crítica de suas próprias obras. O que eu gostei foi da
lucidez e da clareza com que ela explícita suas razões e ideias que nem sempre
parecem ficar claras em suas ficções. Semana passada quando li uma certa crítica
ao Murakami também fiquei pensando
nisso. A diferença está entre saber ou vislumbrar as intenções dos autores ou
buscar traços de gênio e de alta inspiração. Porém esse estilo corre o risco de
parecer raso e uma narrativa mais trivial. É isso que talvez aborreça alguns
críticos, a semelhança dela ao estilo memorialista.
O ponto favorável, porém, parece
ser bem esse: ter certo grau de informação sobre contexto de produção literária
e compreensão das intenções da autora. Simone é uma testemunha altamente
reflexiva da história e dos fatos do seu tempo. Mas confesso minha
insuficiência para avançar muito nesse debate. Em parte, porque não li toda sua
obra e de outra parte porque também não li e não tenho domínio do contexto todo
e das obras e personagens que são suas contemporâneas e às quais ela faz referências
constantes. Nesse sentido, a leitura dela poderia parecer algo para os
especialistas no período e nas escolas literárias do entre guerras e pós guerra
na França. Fico imaginando o que resta para nós no Brasil que possuímos temos
uma boa tradição memorialista – ao meu ver – mas temos raros escritores que tentam
fazer este esforço de relacionar a filosofia, a literatura e as autobiografias
de seu tempo. Nesse sentido, sinto certo prazer com Simone, pois ela me dá
aquilo que eu não conseguiria juntar sozinho de seu tempo, obras e autores.
Eu gosto dela, portanto, por
diversos motivos bem curiosos. Gosto das ideias dela e da forma como ela as
apresenta com uma certa clareza e finesse, mas sempre indo direto no ponto. Eu
não diria que ela é menos filósofa que Sartre, nem menos importante. da mesma
forma que quando leio Hannah Arendt, não vejo nela um filósofa menor que
Heidegger, ainda que para mim Heidegger seja um verdadeiro gigante ou, como diz
Paulo Faria, Heidegger “parece o cara que leu tudo”. No caso dela, porém,
podemos estar enganados em muitos sentidos, mas isso não ocorre justamente
porque ela é menor, mas sim devido a sua grandeza e excepcionalidade - com
todos os riscos que toda forma de grandeza acarreta. Entre estes riscos, o fato
de que aumentam as possibilidades de interpretação, deformação e incompreensão.
Penso também nesta condição feminina na filosofia: o fato de que as filósofas
tem essa extrema ocultação de suas obras por, aparentemente, tratarem de
questões laterais ou de fronteira na filosofia. Uma coisa que parece colocar
sempre a mulher ou o feminino na lateral dos combates. Não sei se uma figura ou
metáfora cai bem aqui. Penso que não. mas me vem a calhar uma certa semelhança
com o que ocorre com a guerra, a meia guerra só é vivida nas laterais da
história. A verdadeira guerra ocorre dentro de nós mesmos, em especial daqueles
que não estão nas cadeiras do estado maior contemplando o teatro de operações.
E a consciência disso às vezes nos suaviza e às vezes nos enfurece. Nenhuma
filosofia sobrevive ao engano ou ao sonho. No entanto o pensamento de Simone me
parece vivo, presente, ativo, bem acordado por assim dizer.
Posso estar enganado, mas creio
que deveríamos olhar com mais atenção para estes fenômenos das mulheres na
filosofia do século XX. Na maior latitude possível. O que inclui aqui Rosa de
Luxemburgo, Simone Weil, Susan Sontag e também algumas que ficam nas áreas de
fronteira entre a literatura e a filosofia, a história, a antropologia e mesmo
em ciências exatas e biológicas.
Afinal, são sim obras do
pensamento de um tempo, reúnem testemunhos, ideias e também novas formas e
concepções de se encarar a vida. Algumas hoje podem parecer triviais, mas no
seu tempo não o foram. Simone de Beauvoir foi capaz de narrar com lucidez as
suas vivências e o seu tempo e percebe-se nela claramente a relação entre o
curso do pensamento e o curso da vida.
Obs.: Na imagem, a obra de Simone
de Beauvoir, A Força das Coisas, primeiro volume com o marcador de página que
recebi de lembrança direto da China de minha amiga APS.
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