Meu pai em certas circunstancias me
dizia que nunca devemos arrebentar nada. E isso era algo muito interessante
para mim porque ele mostrava assim uma dose de moderação para quem trabalhava
com atividades perigosas. Poderia ter
dito isso também porque o final de todas as coisas não é nosso mesmo. E quando dei
meus primeiros passos e meio que comecei por conta a estudar filosofia
encontrei um texto do Kant sobre O Fim de Todas as Coisas, que trata um pouco
disso, dizendo que o fim de todas as coisas é “uma expressão habitual
[corrente], principalmente na linguagem piedosa [religiosa], atribuir a um
moribundo [homem que está à morrer] dizer que passa do tempo para a eternidade.”
Eternidade ao conceito kantiano ai “não é um tempo que passa ao infinito.”
E a lição é bem básica aqui: o
tempo final não está ao nosso alcance e nem ao alcance da nossa compreensão.
Assim nossas considerações morais talvez não nos levem com segurança alguma até
o final de todas as coisas. Não seria assim pelo fim que deveríamos agir bem,
pensar bem e julgar corretamente, mas sim por princípio. E por conta disto Kant
afirmava ainda na primeira página do seu texto que trata-se de algo que nos atrai,
por sua inacessibilidade e que contém certa forma terrível. Kant chamou isso de
o Sublime Terrível e anotou “em parte pela sua obscuridade, em que a imaginação
costuma agir com maior poder do que na claridade da luz.”
Eu botei esta semana a tal música
apocalíptica The man comes around do Jonni Cash que é baseada no livro bíblico
e que é uma espécie de trilha sonora de massacres e violêncais extremas no
cinema americano. Pensei muito nestes dias que passamos e a ouvi várias vezes pensando
no porque, afinal de contas, eu gosto tanto
dela, mas porque também ela tem um refrão e muitas passagens parecidas com a forma
como meu pai pensava sobre problemas, pessoas, coisas e situações como as
atuais em que o melhor mesmo é deixar para lá.
The man comes around – essa canção póstuma e porrada do Jonni Cash aqui..
Esta canção que tem uma batida,
um ritmo e um texto muito bom.
E tem nela também uma passagem que
eu gosto muito e que me faz pensar – não filosofar – mas que me lembra o “deixa
estar” ou o “deixa prá lá” do meu pai
que é como um não olhe para além do que tua vista alcança ou não te ocupe tanto
com o que não te diz respeito. Talvez ele tentasse me fazer evitar o tal Sublime
Terrível ao que suponho que ele tinha conhecimento e tinha chegado a partir Ed suas
próprias experiências e seu próprio pensamento. E nós aqui sabemos que é este
aterrador futuro – que é infalível e inexorável
virá de alguma forma. E outros já sabem que
pensar nisto deixa em desespero também aos cérebros mais poderosos e é uma
espécie de perdição as inteligências incapazes de fazer o retorno ali onde o raciocínio
esgota suas chances de avançar com sucesso.
Trata-se ai – devo deixar claro –
de algo o que eu jamais faria na minha juventude e mesmo hoje tenho certa resistência
a ficar indiferente ou não aceitar provocações, mas tenho aprendido a lidar melhor
com isso mesmo – e fui daqueles jovens que fica muito indignado ao ver
injustiça, maldade, ignorância e mentira – uma coisa meio filho de Ogum como
disse um amigo certa vez...
Assim, confesso que este deixa
prá lá é algo que eu usei com bem pouca situações na vida, isto é, poucas vezes
recuei ou fiquei resignado e aceitando simplesmente as coisas, as pessoas e as
situações como elas são e como elas estão – e é bom dizer que algumas coisas,
pessoas e situações não estão assim como estão sem motivos, causas, razões ou
propósitos, mas tem uma certa altura da
vida em que parece que a pessoa aprende mesmo a fazer um ajuste na vida,
aprende a parar de corrigir, retrucar ou responder a tudo que se lhe apresenta
sob os olhos, ao seu testemunho e então “deixa estar”....
"Quem for injusto, deixe ser
injusto
quem for correto, deixe ser
correto
quem for sujo, deixe ser sujo”
Isso é uma estrofe que traz uma
questão clara de que ponto pode ir nossa resignação, mas que na verdade é estrofe
que traz um aviso de uma voz lá do alto ou lá do fim de todas as coisas que tem
este caráter sublime e terrível apontado por Kant e diz para ti mesmo: não te
mete, deixa comigo que eu resolvo, estou vendo e a cada um lhe será dado o que
merece. Então, deixe cada um ser como é, julgar como é e agir como age.
Fiquei em silêncio, escutei bem,
prestei atenção, então, que há uma força
que resolve tudo isso, que ajusta os cavalos e os gonzos do mundo e que
equilibra com a máxima força, mas da forma muitas vezes suave e outras estrondosa,
tudo isso. Meu astrólogo ao lado assopra que isso é algo bem Plutão, o
invisível e sutil, o intocável e incompreensível, o inesperado e o imprevisto que
atua sobre tudo que há como num juízo final que virá, não se sabe quando nem sabe
por onde . Mas que não vem quando você quer nem como você quer, mas sim através
dos seus insondáveis desígnios aparece e resolve e desaparece e resolve a
parada. E todas as imagens que conhecemos dos cavaleiros do apocalipse são para
nós terríveis, são para nós anjos vingativos montados em seus cavalos e que vem
ceifando corpos e almas num juízo definitivo e impiedoso sobre as culpas e os pecados
de todos os homens.
Parece uma bobagem reconfortante,
uma muleta esperançosa ou uma idéia ilusória, um auto-engano reconfortante,
este deixa estar, mas que porém tem um poder incrível.
Na canção do Jonni Cash me parece
que o cara tem em mãos o caderninho do juízo final e não há nada que possa
apagar seus registros da verdade.
Isso toca em mim como uma solução
absoluta ou uma bomba que pode explodir tudo e dar cabo de vez com o problema.
Mas não é assim, não há aí na nossa longa jornada ou breve jornada esta
dimensão de solução, a solução aí é paciente, as vezes benevolente e outras
vezes impiedosa. Mas eu não temo.
Aprendi com meu pai também algo
sobre a força que se aplica para também aqui – do que já falei em outra ocasião
– força não é força sem controle, e tem a maior força sempre aquele que faz de
tudo para não precisar usá-la, adota condutas e medidas, contornos e atalhos,
táticas e arranjos para manter a força, mas não usar ela pro qualquer motivo ou
a qualquer pretexto.
E ele dizia que nenhum poder é
mais temível do que aquele que você não sabe medir ou que não consegue ver. E
assim passei a olhar para mim mesmo
notando que o deixa estar era aliviante, um conforto e agradável ao meu sentido
e ao meu pensamento.
Eu sempre lembro que meu pai
tinha um autocontrole incrível. Ele não era assim só comigo não, e eu notava
isso sempre em situações de aperto e de dificuldade. Mas também era uma forma
dele se imunizar contra certas pessoas. Ele também dizia “isola” em relação a
certas pessoas e meu irmão era quem mais sabia fazer isso. Tirar o time quando
a coisa ia numa direção intolerável era meio que uma regra dele e ele não fazia
isso por covardia, mas sim porque gostava de evitar sempre de alguma forma
fazer o que não se deve fazer ou reagir perante aquilo que não vai se mudar
nada. Não dava vantagem nenhuma ele dizia, não se ganhava nada em enfrentar um
cabeça-dura ou em discutir com alguém que não possuía nenhuma disposição para
se corrigir. Não adianta grunfar, nem espernear, nem argumentar, porque não era
o caso “deixa estar”.
E eu penso muito nestas idéias perante
certas coisas, pessoas e situações, mas não temo nada, não temo o que pode
acontecer se eu agir nem se eu não agir. Cheguei num ponto que talvez deva ser
Zen, só agir ou só fazer algum esforço para agir quando pode gerar solução
efetiva. E é isto para mim uma economia de ação.
E, por outro lado, às vezes a
situação é tão complexa que a gente enfrenta e não fica esperançoso e nem satisfeito
com o resultado. Porque não há uma garantia mesmo de que por mais racional,
razoável e objetivo que você tenha tratado a questão, que advirá na reação do
outro ou na recepção do outro um acerto. Não há garantia de que sua ação vá ser
eficaz ou positiva e isso acontece assim mesmo. Parece que a gente tem que
morder um pedaço grande de carne e que o bote tem que ser dado com todos os
dentes e qualquer um de nós pode pensar aqui que as vezes é muito difícil abrir a boca inteira
e usar todos os dentes na mordida de uma questão.
Porém para pegar direito nada
está garantido e eu falo isso porque às vezes a gente também pega só uma
coisinha e já é o suficiente. o que para gente é pouco ou quase nada para o
outro é uma demasia e já vi isso muitas vezes em enfrento bem tranqüilo da situação
que vier.
A letra inteira de Jonni Cash é
incrível e se você buscar os videos com seu título no Google, vai descobrir ela é muito usada no cinema
americano e que tem trailers e passagens de filmes, séries e até videos contra
a violência que usam ela se aproveitando desta impassibilidade que parece ser
inerente na canção, na sua letra e no seu ritmo. É, então, uma resignação que
esboça uma atitude contemplativa e passiva de deixar estar, não porque aceita
simplesmente acriticamente a situação posta, mas porque tem certa fé nela de
que um acerto de contas ainda virá, que o caderninho será aberto e que a cada
um será dado um juízo final e definitivo segundo seu mérito, sua correção, sua
sujeira ou sua a injusta avaliação e muitos que se servem desta imagem e que usam
dela parecem temer, não tanto por seus pecados e culpas, mas por saber que talvez
mesmo nela – numa instancia superior – não haverá garantia de uma justiça e a
nossa inacessibilidade ao fim de todas as coisas quase como um arquétipo profundo de nosso
inconsciente nos reserva também a outra face do sublime terrível que já não é
mais sobre o outro, mas sobre nós mesmos.
E para tratar daquela situação
absolutamente impossível de ser superada, pois não depende de nossas palavras,
ações ou pensamentos – para tratar da força deste outro sobre nós ou sobre si mesmo
– nada nos resta a fazer, dizer ou pensar.
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