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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

UM SONHO COM MEU PAI - ROTEIRO

 

UM SONHO COM MEU PAI - ROTEIRO

PREÂMBULO

Acho que ele tentou me dizer algo mais do que isso que disse quando me deixou ali naquele lugar e foi embora. Mas enfim disse:

Chegamos aqui, muito bem fique aí a vontade e espere.

Quando era menino ele me levava junto para lugares muito pitorescos.

Onde haviam pessoas pitorescos e muito singulares.

E eu gostava muito desses passeios porque sempre aprendia, descobria ou encontrava algo ou alguma coisa que era aparentemente desimportante, mas cujo valor eu descobria com minha atenção, imaginação e lembrança.

Sim, porque muitas vezes a descoberta me vinha através de um estalo, em que uma lembrança se misturava ao presente e vinha a descoberta.

1.       O CENÁRIO

Deve haver algo como uma espécie de legenda ou portal em todas as cidades do mundo e era esse lugar para mim no sonho.

E dessa vez meu pai me levou para esse lugar 

Locais onde homens estranhos se agrupam, conversam, bebem o que podem pagar ou o que lhes dão

Estacionam carros, carroças ou bicicletas, caminhões e se você procurar bem vai achar até outros tipos de naves, barcos e outros não assemelhados

Não importam marcas, nem anos e nem o estado aparente desses veículos, não importa se se são próprios ou prestados

Não importa também as chaves desses veículos

Qualquer um pode entrar e ligar e sair e voltar a hora que quiser

2.       OS HOMENS

Os homens que vivem meses lugares não tem coisa alguma

Isso não quer dizer que são pobres e nem se distingue isso entre eles mais

Só possuem o que carregam nos bolsos, tem em suas mãos, em suas mentes e memórias e em seus corações inescrutáveis

Eles não brigam e não falam alto e vão chegando e ficando

São mansos ali, não jogam coisa alguma ali

Não tem baralhos e nem mesas de sinuca

Eles não possuem nada

 

Alguns fumam e outros mascam um capim

Não tiram nada de ninguém

E também não roubam ou negociam

O dinheiro quando entra nesses lugares é tratado como coisa e é só isso

Ninguém sabe de onde eles vem e nem para onde eles vão

Em momentos especiais eles aparecem e se encontram e ali ficam para não fazer nada até fazer o que importa

Ninguém fala de família, religião e política e ninguém tem contas a pagar ou a cobrar

O passado é o presente e o futuro é imediato

3.       A PAISAGEM

Nesse lugar a paisagem é um conjunto pitoresco de casebres em três esquinas

Numa esquina eles ficam sentados ou em pé a se olharem e a dizerem coisas laconicamente

O maior Discurso nesse lugar e ouvido em silêncio

E as interrupções são apenas

Rápidas interjeições ou

Sim ou não ou talvez

Mas eles falam

E falam muito

4.       A MINHA PERCEPÇÃO

Você escuta e fica prestando atenção

Quem chega ali pela primeira vez como eu

Sente algo inexplicável

Parece que os olhos vão se abrindo pela primeira vez na vida

E enquanto isso a paisagem e seus elementos vão aparecendo e compondo um cenário

Trazido pelo pai, pelo avó, pelo Padrinho ou pelo irmão tem que apreender e se situar com atenção

5.       AS CASAS

No casebre de ficar temos um chão batido, uma casa sem portas com três aberturas para o leste, o sul e o oeste e um corredor entre elas com alguns cantos onde existem sofás e mesas e algumas tralhas

Parece um ferro velho ou uma borracharia

 

Fica em uma esquina que é rebaixada em relação a rua

Com um pátio grande com uma árvore muito frondosa cujos troncos se espalham em todas as direções sombreando o terreno inteiro e sobre o casebre até a rua

6.       OS ANIMAIS

Na árvore vemos lagartos, cobras e gatos

Eventualmente você vê uma cobra se atracar com um gato ou gata grande colorida

Todos os animais tem nomes e são tratados como gente

E andam para lá e para cá tão a vontade quanto os homens e as mulheres que chegam ao anoitecer

Parece mortal essa briga da gata com a cobra, mas quando você olha melhor descobre que elas estão brincando naquele galho

Se engalfinhando e fugindo uma da outra

Mas você não consegue se fixar muito a isso

Logo passa a observar o comportamento de outros animais e também da diversidade da flora nesse local

Tem ervas e chás em tudo que é lugar

Algumas verduras num campo largo descendo a colina

Mais ao leste um pomar com várias espécies

Espadas de São Jorge muito vividas ao lado do portão principal sem cerca e sem poeira alguma sobre elas

Voltamos a sombra da árvore abrindo nossa visão do lugar

Sob ela ficam os carros estacionados sem ordem e aleatoriamente

Na varanda a leste desse casebre temos dois pilares sobre os quais estão a cobertura que faz sombra ao sol e telhado para a chuva

7.       HOMENS CENTENÁRIOS

E ali ficam esses homens, alguns mais jovens e outros adultos e nenhum deles parece velho

Mas quando você os olha nos olhos parecem ter um brilho centenário nas suas almas

Eles ficam ali conversando dessa forma meio desordenada

Se entra e se sai a hora que quer e não é preciso dizer adeus ou olá

Você vai ficando e quando vê passou uma semana

Comeu diversas refeições

Dividiu o pão e a bebida se souber dar e pegar

8.       O BAR

No outro casebre fica o bar

Na esquina oposta

O que o bar oferece é o que ele tem

E só o dono aceita coisas para te servir

Ninguém mexe na bebida e ninguém grita por atenção

Você só é servido se chegar na hora certa ou,melhor, no minuto certo em que ele ali estiver

Ele sai do bar e vai fazer qualquer coisa em qualquer lugar

Abandona o posto, mas ninguém mexe em nada

Quando volta te atende

9.       VOU BEBER

Você pede cerveja ou qualquer coisa e ele vai te olhar nos olhos para te dizer o que deve beber

Nesse atendimento especial ele pode te dar água na refrigerante, cachaça, licor, vodka ou qualquer noutra bebida e você não pode recusar

No meu caso pedi cerveja e ele já pegou dois limões em um cesto de vime e foi fazer uma caipira

Parecia surdo e mudo e de repente se virou para mim com um copo de caipira muito lindo e disse

Toma, isso é para você

É o que você precisa

Um outra rapaz que estava ali sob aquela choupana ao pé do monte me olhou e assentiu: aceita e bebe

Vai te fazer bem

Ficamos ali e foi bom mesmo

O Barman saiu e foi fazer uma coisa

10.   OS DRAGÕES CHEGAM

Enquanto estávamos ali bebendo chegar dos dragões

Na verdade eram dois lagartos gigantes que primeiro rondaram a entrada e nos olharam balançando duas caudas verdes e abrindo suas bocas grandes e botando as línguas para fora

Para mim, que cheguei ali pela primeira vez me deu acesoevi de ligeiro temor

O rapaz do lado disse bebe tua caipira e relaxa

E assim eu fiquei

 

Os dragões entraram - primeiro no maior e foi cumprimentar ele brincando e esfregando a cabeça no seu corpo como um gato

Eu notei que era um tratamento amistoso e tive então a paciência

Fiquei ali e ele veio a mim

Primeiro chegou ligeiro para me assustar e eu fiquei impassível e não me movi

Então ele pediu carinho e acariciei a sua cabeça

O nome dele era Jack e parecia falar comigo

Depois disso entrou o dragão maior e veio diretamente a mim

O nome dele era Lucius

Já não m assustei mais e em pouco tempo estávamos nós três nos pressionando como amigos em um jogo

Depois disso eles sentaram um de cada lado a mim e eu sentei em um mocho e quando dei por mim já estava recebendo um cerveja gelada para beber e ali fiquei por um bom tempo sem falar nada

11.   A CHEGADA DAS MULHERES E A FESTA

Até que vieram todos os outros homens e jovens e também algumas mulheres começaram a chegar e fizeram uma roda e começaram a bater suavemente nos seus mochos, em metais e vidros, talheres garrafas e copos, com um sono suave

Em seguida chegaram alguns violões de tamanhos diferentes e começaram a tocar uma série De canções que nunca tinha ouvido

12.   O CÉU ESTRELADO SOBRE NÓS

Fiquei ali e antes do anoitecer ligaram uma fogueira baixa enquanto as luzes do crepúsculo deixavam o céu primeiro alaranjado, depois vermelho e por fim arroxeado

Dali onde eu estava dava para ver em oposição ao sol a vc primeira estrela a despontar

E no horizonte que o sol descia duas estrelas a lhe acompanhar

Quando o sol desapareceu completamente atrás da colina vinha despontando uma lua cheia Gigantesca

E a música continuou

13.   A CHEGADA DELA

De repente você veio a mim e me beijou as faces e me abraçou na cintura e ali ficou comigo

Senti antes de você chegar teu cheiro

E quando chegou veio acompanhada de cães e gatos

Que ali ficaram sem cerimônia no espaço que havia para ficar

 

Você olhou nos meus olhos e me disse que era amor

Mas que amor não é energia

Amor não é força ou fraqueza

Amor não é presença ou distância

Amor não é perder ou ganhar

Amor é sempre mágica

 

Agora fica comigo

Nós nos beijamos na boca e o sonho acabou

Fim

SOBRE PORQUE ESCREVER, SEUS ELEMENTOS, COMPOSIÇÃO E UMA ANALOGIA SIMPLÓRIA COM A PINTURA E A MÚSICA (1)

 

SOBRE PORQUE ESCREVER, SEUS ELEMENTOS, COMPOSIÇÃO E UMA ANALOGIA SIMPLÓRIA COM A PINTURA E A MÚSICA (1)

 

Este texto é dedicado a todos que amam, aos que escrevem, aos que fazem artes, aos que educam e aqueles que ainda tem em si preservados os seus meninos e meninas, desejando que aqueles que se perderam, se reencontrem para poderem viver e deixar viver, cuidar e proteger o que mais importa que é a vida.

 

Vamos começar com algo que nos traz o desafio da linguagem, do amor e da vida combinadas, com essa pichação de mais de dois mil anos inscrita em uma parede de Pompéia:

 

"Viva quem ama,

morra quem não sabe amar.

Morra duas vezes mais quem proíbe o amor."(2)

 

Enquanto falava de um assunto delicado das nossas vidas, que temos momentos bons e ruins e que infelizmente, após momentos muito bons e animadores podemos viver também momentos muito ruins e trágicos, eu pensava também em paralelo em mais duas coisas ou questões (3). E pensava isso, dessa forma aparentemente confusa, porque talvez os escritores e escritoras sejam aqueles que percebem e expressam justamente isso (4). Acho que esse pichador de Pompéia pensou nisso também (5).

 

Ou pelo menos, desde Homero temos sob nossos olhos e podemos ouvir essa descrição de uma sucessão de momentos bons e ruins se intercalando na vida das pessoas, dos personagens e mesmo dos deuses gregos de um modo aparentemente irregular, mas que é sucessivo e repetido (6). Depois da tempestade vem a bonança, mas também após a bonança pode advir a tempestade (7). A ordem aqui expressa a escolha de uma perspectiva e objetivo consolador. Como uma regra da vida aqui se revelando.

 

Se estais feliz, aproveite muito, porque poderás ter um outro momento logo depois ou mais cedo ou mais tarde de infelicidade também. Viver é suportar isso. E talvez os escritores escrevam e deem testemunhos ou criem ficções com elementos da realidade também para suportar isso ou por algum encanto com isso em suas existências (8). É um pathos existencial (9).

 

Mas a questão chave aqui é também outra. De um lado, porque escrevemos e que tipo de paixão é essa? De outro lado, me veio a associação livre entre escrever, pintar e fazer música (10). Portanto, podemos refletir sobre como fazemos isso e tentar encontrar algumas respostas ou candidatas a respostas ou somente algumas pistas.

 

Em todos esses casos - compor um texto, uma música ou uma pintura, temos uma atividade que consiste em compor algo a partir de um conjunto de elementos simples, complexos e variados. Essa composição envolve uma escolha do material disponível e mesmo uma procura de novos materiais. Na escrita, em primeiro lugar, as letras, vogais e consoantes, mas também os sinais de pontuação e acentuação, além de todos os outros sinais e agora também escrevemos com emoticons.

 

Ou seja, na própria linguagem atual desse mundo virtual fazemos a composição também com imagens em meio ao texto ou acompanhando o texto. Os textos passam a ser ou podem ser ilustrados por signos, símbolos e ícones simples. E ainda temos os memes ou as imagens e textos de citações que servem como uma pedra de toque ou ponto de partida para compor. A arte então está na escolha, na busca, na seleção dos materiais e na disponibilidade de um acervo que envolve desde textos lidos até outras associações. O artista compõe tanto na forma quanto no conteúdo, mas também a partir de influências e remissões ou ligações a outras fontes.

 

Mas também lidamos com outros materiais como as palavras que desempenham funções de ligação, marcação e também ênfases nas narrativas ou frases. E mesmo na linguagem escrita fazemos usos de certas expressões que são quase stardards ou padrões e chaves de analogias, metáforas ou figuras de linguagem de uso muito comum. Aqui temos uma demonstração interessante da malha que a linguagem ergue com múltiplas ligações entre milhares de textos dentro de uma cultura e assim tanto o autor quanto a obra podem ser vistos como pontos de ligações entre diversos outros numa trama ou rede temporal, espacial e cultural sobre o mundo.

 

Dispomos ainda de apelidos, gírias e expressões populares em cada cultura, assim como podemos usar também expressões latinas, gregas ou estrangeiras em meio ao texto. E nem sempre isso é feito por exibicionismo banal. Muitas vezes serve para ilustrar ou marcar no texto o que chamamos de ênfases, assim como também podem marcar relações ou conexões desse texto com outros textos.

 

As diversas formas de expressão possíveis também tem características que escolhidas dão efeitos à uma narrativa. Por exemplo, o mesmo enunciado descritivo pode ser transformado a um modo poético e ser acrescentado a ele palavras com mais ênfases simbólicas ou metafóricas. Também a retórica pode entrar aqui através de diversos artifícios como a reiteração, a inclusão de interrogação ou exclamação, a mera colocação ou adição de reticências ao final de uma estrofe ou expressão e etc.

 

Analogamente podemos fazer quase as mesmas coisas com a pintura e a música. Com mudanças nos traços e nos componentes e também com a inclusão de cores, misturas ou ruídos e sons, tonalidades e diversos timbres de instrumentos de tal modo que uma frase ou quadro ou retrato simples ganha uma outra característica ou estilo pelo leque de variações possível.

 

Minha mãe dizia que a língua portuguesa era maravilhosa porque justamente tinha uma riqueza vocabular que permitia na analogia dela tocar um piano cheio de notas ao falar ou escrever ao contrário no exemplo dela de outras línguas mais concisas e cujo vocabulário parecia ser mais estreito.

 

Bem, nem preciso exemplificar a partir dessa trama de textos acima indicada, a imensidão do universo de possibilidades já realizado na pintura e na música. Basta se imaginar numa série infinita todas as composições da pintura e da música para se ter uma ideia dessa variabilidade e margem de criação, muito ampla e ainda inesgotada.

 

Nesse ano, por certa fixação temática e obsessão com a relação entre Miles Davis e John Coltrane, andei estudando jazz, por exemplo, e cheguei na teoria do jazz modal que marcou talvez a maior contribuição de ambos em meados dos anos 50. A teoria cromática ou a exploração do modo lídio de George Russell chama atenção por ser talvez a última grande teoria inovadora da música ocidental. Você descobre que ela foi inspirada numa expressão do jovem Miles Davis que ao ser perguntado o que ele queria estudar e fazer em música simplesmente e laconicamente respondeu: todas as possibilidades. A partir disso George Russel desenvolveu sua base conceitual que está contida no livro Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization - The art and science of tonal gravity (1953).

 

Então, um escritor, um pintor e um músico, e em especial um escritor compulsivo e imaginativo nem sempre está preso as formas comuns de expressão e justamente tenta sempre avançar para outras possibilidades de expressão. Ele tenta buscar o além das possibilidades já apresentadas. Aqui, a expressão de Miles Davis de tentar conquistar "todas as possibilidades" tem analogia com um impulso característico da filosofia grega e que vai marcar a filosofia até os dias de hoje: a busca da totalidade(M).

 

Mas algo me levou a pensar assim. No momento em que estava escrevendo essa resposta sobre porque escrevemos e se havia alguns possibilidade de que fossemos possuídos por algum espírito que nos faz dizer ou registrar certas mensagens, me dei conta deste aspecto lembrando também de Arthur Rimbaud e seu poema das Cores das Vogais. O insight é simples e límpido aqui. Cada vogal é associada a uma cor. Podemos discutir a escolha de Rimbaud e inclusive pensar tanto nos nomes das vogais como nos nomes das cores em todas as línguas possíveis e em suas múltiplas variações.

 

Em princípio, são cinco vogais, mas há o Y que, por exemplo, pode corresponder a uma cor também, mas que não é contemplado. E, além disso, estamos muito presos aqui a dois elementos tradicionais e eurocêntricos. De um lado, as cores básicas e de outro lado não contemplamos, para contribuir no nosso alargamento aqui, as outras línguas além das gregas, latinas ou românicas. O árabe, o chinês e outras línguas tem também seus signos e mesmo símbolos próprios que são extremamente expressivos também.

 

O que se conclui disso, é que muito rapidamente acabamos sempre pulando de um elemento simples ou componente básico para algo mais composto e complexo. O impulso para uma totalidade ou essa busca de uma totalidade se traduz tanto na abertura para um tema, quanto na evolução de uma frase ou expressão, de um desenho ou esboço, de duas ou cinco notas musicais em um determinado ritmo, para uma crônica, um romance, um poema ou uma ópera, uma tela, um triptico, ou uma canção, um lied, uma modinha, um concerto e uma sinfonia..Do menor para o maior, do mais simples para o mais complexo, da frase para a narrativa extensa, de Ulisses foi para a Guerra de Tróia até a Odisséia e a Ilíada.

 

Pois bem, eu creio que é justamente aqui que nós encontramos a sentença que talvez explique esse negócio de escrever. Numa bela metáfora já conhecida, nós temos todo o universo em uma casca de noz, assim como muitas vezes temos toda uma História numa pequena estrofe que lhe serve de base, em um trecho de um poema, em um fragmento filosófico e mesmo com algum esforço de imaginação, para pegar um modo narrativo muito peculiar e extremamente elaborado, podemos construir um romance a partir de uma crônica bem feita, bastando muitas vezes abrir o que nela está subentendido ou em plena gestação, omisso ou subliminar e expor à luz de um texto.

 

Então, o que eu quero dizer é que os escritores e escritoras, em especial os compulsivos que escrevem sempre mais do que publicam e que abrem sendas inteiras em textos, ensaios, crônicas e poemas, sempre começam com uma ideia aparentemente simples e acabam expressando isso de forma mais extensa.

 

Porém, há também aqueles que vão ruminando em suas cacholas por meses e até anos até começarem a por em palavras aquilo que era apenas uma ocupação mental quase silenciosa. Então, esse começam em algum ponto e vão evoluindo de tal modo que aquilo se apresenta em um texto, em uma composição e etc. E alguns até pensam muito na forma de fazer isso. Pensam no modo como vão construir e também selecionam modelos e esquemas alternativos até darem fim a essa composição. Eu creio que o mesmo acontece também com músicos e pintores e que, mudando o que precisa mudar ou usar para isso, eles vivem algo semelhante.

 

Tem um argumento que pode ser aposto aqui contra essa abordagem, aliás bem mais de um argumento, porém eu acredito também que isso tudo possa ser uma experiência mais consciente e menos consciente e que na qualidade não faz diferença alguma. Porque tanto os racionalizadores desse processo quanto os mais intuitivos e aparentemente inspirados acabam escrevendo, pintando ou compondo algo que nos fascina igual e na recepção das suas obras as considerações sobre se o processo e consciente ou não, são simplesmente desprezadas, porque o que nos encanta é a obra e aquelas emoções, pensamentos ou percepções que ela nos suscita.

 

É claro, porém, que isso não torna irrelevante a consideração de um crítico sobre esse processo todo ou mesmo o juízo de um mestre qualquer nessa arte sobre a qualidade da obra do aluno ou aluna e mesmo sobre o virtuosismo ou genialidade da sua execução, performance ou interpretação. Aqui vem a baila outros artistas que também vivenciam nos seus ofícios esses processos.

 

O ator ou atriz, o orador ou oradora, o Professor ou Professora que dá ou faz a mesma peça, discurso ou lição a cada vez com uma interpretação possível. E que reflete depois consigo mesmo, com seus pares de palco, com seus amigos, com a audiência ou com os alunos e alunas em uma interação muito especial para ir moldando aquilo até a sua perfeição ou maestria excepcional. Alguns atores e oradores, professores e senhores fazem isso de modo tão perfeito e excepcional que mesmo que repitam a mesma interpretação, por força de circunstâncias particulares e incontroláveis, cada apresentação é uma só.

 

Essa é também uma demonstração de que mesmo a cópia perfeita ou a reprodução marcadamente similar há de ser diferente, posto que os elementos de sua composição apesar de serem exercitados e selecionados, ensaiados ou escolhidos de um modo metódico, ficam expostos ao improviso, a interação com a plateia e também escapam de forma maravilhosa ao domínio do seu autor, ator ou também receptor.

 

Então, há algo de mágico nesse processo que torna essa experiência muito mais valiosa do que aparece aqueles que não percebem a sua riqueza ou que não tem sensibilidade para apreender ou imaginação para delirar com prazer nessa exposição de elementos em uma composição apresentada assim.

 

Fim

 

P.S.: Fiquei pensando em Walter Benjamim enquanto escrevia os últimos parágrafos. Mas não fiz nenhuma questão de pegar o livro na prateleira para ajustar ou trazer alguma questão do seu clássico e extraordinário A Obra de Arte na Época da sua Reprodutibilidade Técnica.

 

Isso não significa que não deva ser lido ou que seja descartado por mim. Muito antes pelo contrário. A única ideia dele que me cabe aqui e que é sagrada para mim é a da existência de uma "aura" na obra de arte. Na tese dele a aura pode ser perdida com a reprodução. Perder a aura é quase o mesmo que perder o significado. Ou seja, quase ocorre aqui o que ocorre se repetirmos uma palavra mil vezes. Restará só o seu som - o seu corpo físico, mas o seu sentido ou corpo espiritual desaparecerá.

 

Eu desconfio sim que ela, a aura, pode ser perdida, mas também desconfio que muitas vezes ela sequer pode ser apreendida. Porque aqueles que poderiam lhe apreender o sentido perderam seu corpo espiritual - que talvez seja a imaginação livre e sem censura - ou na expressão do pichador de Pompéia não sabem amar. E isso, essa constatação, é de uma tristeza imensa para mim.

 

Porque ela não será aprendida quando a técnica e a reprodução mecânica e automática da vida for tão violenta de tal modo que a sensibilidade humana tenha sido completamente vampirizada pelo sistema e tenha tornado cada um de nós apenas um consumidor grosseiro de coisas, com suas manias próprias, suas drogas próprias e completamente incapaz de perceber a aura no próximo, em suas obras e em suas vidas.

 

Essa neutralização ou supressão do espírito pela mecânica social se apresenta de forma brutal no holocausto e em outras experiências terríveis da humanidade, mas também no uso instrumental do outro e na alienação de si mesmo. E até mesmo um vampirismo amoroso se apresenta em meio a isso, de tal modo que aquele ou aquela que não sabe amar e que também não possui mais aura, mas apenas um simulacro, rouba ou desapropria e expolia de ti os afetos passados, os afetos presentes e os afetos futuros e joga tudo isso na lata do lixo. E é assim que toda a tua amorosidade e capacidade de amar é descartada e desprezada por quem não sabe amar.

 

Que cada um tenha em si o melhor dos seus meninos e meninas que foram um dia, porque isso também é uma arte e isso é da ordem da nossa vida.

 

NOTAS:

 

(M) Depoimento de George Russel sobre essa expressão que traduzi como “todas as possibilidades” que no texto é changes e significa todas as progressões e mudanças possíveis. Leia: Miles sort of took a liking to me, when he was playing with Bird1 [in clubs] along the Street [52nd Street]. And he used to invite me up to his house. We’d sit down and play chords. He liked my sense of harmony. And I loved his sense so we’d try to kill each other with chords. He’d say check this out. And I’d say wow. And I’d say listen to this…. I asked him one day on one of these sessions, what’s your highest aim? – musical aim – and he said, to learn all the changes2 . That’s all he said [laughs]. At the time I thought he was playing the changes, you know. That he was relating to each chord and arpeggiating, or using certain notes and extending the chord and all that. The more I thought about that, the more I felt there was a system begging to be brought into the world. And that system was based on chordscale unity which traditional music had absolutely ignored. The whole aspect of a chord having a scale – that was really its birthplace. (p. 151)

SOBRE HONRAR A PRÓPRIA ALMA: PLATÃO, AS LEIS, LIVRO V

 

SOBRE HONRAR A PRÓPRIA ALMA: PLATÃO, AS LEIS, LIVRO V

Fui ler As Leis numa noite desse ano, bem provocado por uma postagem do Professor Roberto Romano da Silva, in memoriam, sobre o tema do amor excessivo de si mesmo, e acabei buscando um pouco antes da  citação dele o contexto do Livro V que antecede essa passagem citada por Roberto, para ver como se chega a esse ponto. Eis que encontrei lá uma passagem para mim muito maravilhosa no núcleo da doutrina tardia de Platão sobre a alma e sobre um tema de ética e de psicologia.

Vejamos a passagem citada pelo Professor primeiro com seu comentário balizador. A questão é que o amor excessivo de si mesmo não honra a sua alma, como veremos depois. A passagem serve sim como bem comenta Roberto a afirmação de Platão para todos os homens.  Segundo Roberto e Platão: O amor de si mesmo (filáucia) é o pior malefício. E conclui Roberto, como nós nos amamos!

 “Todo homem  deve ser ao mesmo tempo apaixonado e gentil no mais alto grau. Porque, de um lado, é impossível escapar dos malefícios de outros homens quando tais malefícios são cruéis e difíceis de remediar, ou mesmo irremediáveis, a não ser por uma luta vitoriosa e auto defesa e pela punição mais vigorosa; e tudo isso nenhuma grande alma pode efetivar sem nobre paixão.  Mas, de outro lado, quando homens cometem erros remediáveis, deve-se em primeiro lugar reconhecer que todo malfeitor é um malfeitor involuntário, pois ninguém em nenhum lugar quer voluntariamente adquirir grande males, menos ainda em suas preciosas posses. E o mais precioso verdadeiramente em todo homem (...)  é a alma. Ninguém, pois, admitirá voluntariamente nesta preciosíssima coisa o pior mal vivendo nele durante toda a sua vida. Agora, o malfeitor em geral que comete erros deve ser lamentado pois é permitido mostrar piedade a quem pratica erros remediáveis, descontar sua paixão e tratá-lo gentilmente (....) mas relativamente ao homem totalmente e obstinadamente perverso e ruim pode-se dar curso livre à ira. Mas afirmamos que pertence ao homem bom sempre ser ao mesmo tempo apaixonado e gentil. Há um mal, maior do que todos os outros presente nos homens (πάντων δὲ μέγιστον κακῶν ἀνθρώποις), implantado em suas almas e que cada um deles desculpa em si mesmo e não faz esforço algum para evitar. É o mal que vem todo homem ser por natureza amante de si mesmo e que é certo ser assim. Mas a verdade é que a causa dos piores erros em todo caso está no excessivo amor que a pessoa tem por si mesma. Porque o amante é cego na sua visão do objeto amado. Ele é péssimo juiz das coisas justas ou e boas e nobres e  se convence de que sempre o que é seu merece mais estima do que merece na verdade (...) Todo homem deve fugir de amar a si mesmo veementemente, mas deve estar sempre à procura do que vale mais do que ele, sem buscar se por, em tal situação, atrás de algum sentimento de falsa vergonha”. (Platão, Leis, 731 d- e)

 Esse amor de si deve ser para alguns apenas algo como vaidade, orgulho ou excessiva auto estima e também narcisismo. Fico me perguntando se não é algo como a Hybris que Aristóteles vai apontar depois em suas Éticas, a Nicômaco e a Eudemo. Parece que sim, porém, não no sentido negativo sempre divisado, mas sim como aquela grandeza que só quem tem caráter e dignidade inegociáveis pode ter.

Por outro lado, é impressionante como Platão parece introduzir essa nova modalidade de vocabulário moral nesse texto. Você abre lá As Leis, sua última obra, e se dá conta dessa determinação originária da consciência moral ocidental em Platão. Talvez seja só uma impressão minha, mas a releitura desse Platão tardio pode nos ajudar a retomar um fio da meada perdida na trama da moralidade e da imoralidade contemporânea.  

Na passagem, Platão apresenta uma abordagem do que me parece ser uma questão muito fundamental Sobre Honrar a Própria Alma. Então resolvi fazer esta leitura.

Fiquei, primeiramente muito feliz com essa reflexão e me dei por conta de que o fundo oculto mesmo das questões atuais é de fato o tema das virtudes intelectuais e da nossa consideração adequada de respeito a si mesmo e de respeito ao próximo. Na acepção platônica da Leis trata-se de honrar a própria alma como uma forma de preservar sua dignidade ou mérito próprio e ser capaz de compartilhar ou na expressão da tradução platônica repartir   

“De todos os bens que se possuem depois dos deuses, o mais divino é a alma visto que é o mais pessoal.” "Nada que é maligno confere honra."

PLATÃO, As Leis, Liv. V, 726.

E o núcleo que divide absolutamente o mundo, os homens e todas as almas: "Nada que é maligno confere honra."


IN MEMORIAM ROBERTO ROMANO DA SILVA

 

PLATÃO: VIDA E OBRA - PARA O POLÍGRAFO DA ESCOLA: PRIMEIROS ANOS

 

PLATÃO: VIDA E OBRA - PARA O POLÍGRAFO DA ESCOLA: PRIMEIROS ANOS

Vamos tratar aqui, resumidamente,  vida e obra de Platão.

Esta não é uma teoria de nomes próprios - como a mais clássica teoria de Saul Kripke que trata da relação entre este nome e seu portador, e do valor de verdade de certas proposições em relação a este sujeito em Naming and Necessity - mas sim apresentar as coleções de proposições mais plausíveis sobre este homem que foi chamado de Platão, mas que foi batizado por seus pais com o nome de Aristocles.

Platão - nasceu Em 428 a.C. (427 a.C.), após a morte de Péricles, nasceu em Atenas Aristócles que depois passa a ser chamado de Platão, por conta de seus ombros largos. Era de uma família tradicional e aristocrática e recebeu boa educação. Na juventude, Platão torna-se um discípulo de Sócrates e já interessava-se em política e filosofia. Não teve esposa e nem filhos.

Quando, em 399 a.C., Sócrates é julgado e morto, Platão fica descrente dos rumos da democracia ateniense e se sente inseguro como muitos outros discípulos de Sócrates. Então resolve viajar e sair de Atenas. Vai à Magna Grécia (sul da Itália) onde conhece Arquitas de Tarento, um governante e filósofo que o inspira  a pensar e elaborar sobre a idéia de um rei-filósofo para a solução dos problemas políticos. Passa em 388 em Siracusa, cidade localizada na Sicília, onde conhece e torna-se amigo de Dion, cunhado de Dionísio, tirano da cidade. Será nesta cidade que Platão tenta aplicar suas idéias sobre política. Mas não consegue. Ainda durante essa viagem, Platão vai ao Egito, mas o que aconteceu durante essa jornada é praticamente desconhecido. Nessa época Platão escreve seus primeiros Diálogos e, provavelmente, começa a esboçar a obra República, uma de suas maiores obras. Os Diálogos dessa fase são considerados "socráticos", como a Apologia de Sócrates e Eutífron (além destes O pequeno Hípias, O grande Hípias, Protágoras, Íon, Criton, Alcibíades, Cármides, Laques, Lisis  e Górgias até aprox. 390 a.C. ).

Por volta de 387 a.C., já em Atenas, Platão funda sua Academia. Durante vinte anos,  dedica-se ao ensino e a produção de suas obras. Desse período são os Diálogos considerados de  transição ou maturidade, como Menéxeno, Menon, Eutidemo, Crátilo, Fédon, Banquete, República e, finalmente, Fedro.

Em 367 a.C., Dion convida Platão à Siracusa. Dionísio I seria sucedido por Dionísio II. Platão vê nessa situação a chance de mudar a política da cidade, mas fracassa, pois ele não consegue seu intento junto à Dionísio II.

Retornando à Academia temos a última fase de sua obra que pode ser considerada a fase do amadurecimento de sua filosofia que o afasta de seu mestre Sócrates. É nessa fase que podemos ver sua visão do mundo das idéias em sua plenitude em obras como Teeteto, Parmênides, O Sofista, O Político, Timeu, Crítias, Filebo e As Leis  (que é inacabada e é geralmente considerada a última obra de Platão). Para além destes diálogos, existem ainda uma série de escritos apócrifos e treze cartas cuja autenticidade não é unanimemente reconhecida, salvo a Carta VII.

Platão morre em 348 a.C. (ou 347 a.C.), cerca de dez anos antes de Felipe da Macedônia conquistar a Grécia. Isso mostra que talvez ele estivesse certo em criticar a democracia e a política ateniense de uma maneira geral por temer que ela levasse ao fim do período clássico, como de fato acabou por ocorrer. Advindo logo depois a decadência grega com a abertura do período helenístico após Alexandre o Grande em 323 a.C.

Mas mesmo assim a Grécia acaba triunfando culturalmente sobre todas as civilizações posteriores em influência e se constitui na tradição mais sólida dos últimos 3000 mil anos, só pareada pelo cristianismo. Perderam na política - os estados gregos deixam de existir e até hoje a Grécia segue dependente de outras matrizes econômicas e políticas regionais e européias, mas a sua cultura e a sua herança não sofre um milímetro de sombra de nenhuma outra cultura ocidental ou oriental no mundo moderno.

P.S.: Parte mais relevante do texto foi usada na escola para introduzir Platão aos alunos de ensino médio em setembro de 2013.

A VERTIGEM METAFÍSICA EM HEIDEGGER

 

A VERTIGEM METAFÍSICA EM HEIDEGGER

 

"Para quem fica impressionado/a com alguns poucos intelectuais que defendem, apesar de todas as evidências de autoritarismo e de suspeitas de corrupção,  Bolsonaro basta lembrar que o grande filósofo Heidegger era nazista e fez discursos em defesa do Führer. Não é uma questão intelectual. É uma questão de poder e de sua afirmação."

Érico Andrade

O post do amigo e professor de filosofia, de meses atrás, Érico Andrade sobre os intelectuais que persistem na defesa de Bolsonaro me faz ter a sensação de estar em uma grande bolha progressista.  

Mas também me provoca a curiosidade de saber quem seriam esses intelectuais resistentes ao que já está mais do que insustentável e indefensável. Porém, essa curiosidade se dissolve rapidamente pela insignificância dos mesmos. Me questiono também sobre onde eles encontram razões ou razoabilidade para fazer a defesa de Bolsonaro. Suponho que devam ser razões muito tortuosas e que talvez façam esse tipo de defesa com um excesso de retórica que despreze a verdade escancarada.

Seria uma negação ou uma versão de negação no âmbito moral e filosófico, sociológico e também ideológico?

Mas a comparação com Heidegger deveria ser apenas parcial e, bem analisada, absolutamente inaplicável. Pois nenhum deles possui qualquer virtude intelectual, produção sem igual ou algum traço de uma grande reflexão metafísica que mereça destaque e consideração.

Sobre Heidegger, me parece claro e insofismável que Heidegger foi um zero em política e que tinha uma extrema dificuldade para considerar algo além da sua carreira pessoal e de suas ocupações intensas com a filosofia e a metafísica. Que por mais relevante que seja a sua leitura da Metafísica, a profundidade de suas leituras dos gregos e mesmo a sua concepção filosófica em Ser e Tempo, ele era incapaz também por uma certa negação em reconhecer a monstruosidade de Hitler. E essa negação talvez esteja ligada a uma falta de parâmetro político e campo de interlocução política relevante.

O caso Heidegger que já é um escândalo bem conhecido carrega junto também a compreensão e a tolerância afetiva de Hannah Arendt com ele. Certamente a âncora que Hannah Arendt lançou a ele naufragado, se deve ao notável vínculo pessoal de ambos e a importante consideração dela as contribuições dele a metafísica. É preciso sim reconhecer a importância da reflexão ou verstehen metafísica de Heidegger, mas o fato dele nunca ter dado o braço a torcer ou ter reconhecido a insensatez dessa escolha e decisão, dessa adesão sem reflexão, me leva a crer - como em outros casos, que filósofos correm o risco de se perder em paixões e insensatez.

A traição vergonhosa ao mestre Edmund Husserl e também a conduta de Heidegger na Reitoria é um momento muito triste e trágico para a filosofia e em especial para a filosofia alemã do século XX. A adesão de Heidegger ao nazismo não é apenas um detalhezinho. E a ausência de qualquer autocrítica ou o silencio dele após esse episódio talvez marque justamente a sua permanência não no nazismo, mas naquilo que chamo de vertigem metafísica ou certo isolamento espiritual. Essa é uma sombra do negativo ou do lado escuro da força no mundo intelectual alemão que paira sobre a racionalidade subjetiva e autocentrada.

Estou às voltas, por outro lado, nesse momento com o caso de Rousseau, por exemplo, que em sua concepção de casamento colocava a mulher na condição de satisfazer as necessidades do homem e lhe ser subserviente. E fico pensando também que talvez essa seja uma condição comum ao pensamento de que em todo o pensar poderia haver uma espécie de "lado sombra" não resolvido, em que os filósofos são incapazes de escapar a condição de seu tempo, por mais que tentem ir além de seu tempo, atingir a totalidade do real e serem capazes de interpretar e se posicionar para além do seu tempo, para além do passado na história do pensamento.

Talvez seja também o risco de uma razão instrumental no pensamento. Ou, ainda, as consequências daquilo que tendo a chamar de absolutismo da razão em que se buscam soluções absolutas e somos seduzidos por perspectivas que tentam superar as contradições do real através de uma medida ou solução absoluta e definitiva.  

Essa vertigem Metafísica talvez seja o descaminho ou o risco mesmo de toda aventura na filosofia e no caminho do pensamento.

O que se passa? Que mecanismo é esse? Quanto mais se busca a totalidade, mais se desprezam as singularidades e diferenças.  Quanto mais se busca a razão, mais pessimistas ficamos. E talvez assim, por esse pessimismo mesmo, acabe por ocorrer essa sedução do absoluto.

É nisso que encontro a comparação que merece mais distinções com a Vertigem Metafísica de Heidegger e a miséria moral do Bolsonarismo entre intelectuais que podem ser considerados no mínimo desonestos. No sentido, de se precisar fazer a distinção clara entre as poderosas reflexões Metafísicas dele e a miséria moral e política da conduta dele. Acredito em que ele foi reacionário por estar profundamente desconectado de um círculo mais amplo e consistente de intelectuais alemães.

Tudo se passa como se ele só se dedicasse mesmo aos seus trabalhos numa cabana, ler e escrever sobre os gregos, sobre os pré-socráticos, Platão e Aristóteles e sobre Nietzsche, Hölderlin, Kant e Descartes e que, portanto, não tinha mesmo tempo para acompanhar algo como um pensamento coletivo e refletir profundamente sobre as contradições políticas do seu tempo.

Porém, ninguém poderá negar que sua obra Metafísica e releituras e interpretações da filosofia possuem uma grandeza notável e extremamente singular. Ninguém que se dedique efetivamente aos temas filosóficos que ele estuda poderia diminuir o seu valor. Alguns tentam vincular a Metafísica dele às suas escolhas e descaminhos políticos. Eu creio que isso é enganador e absolutamente injusto com a sua obra.  

Heidegger sucumbiu, então, talvez por mergulhar muito mais profundamente na tradição, a uma certa vertigem da Metafísica ocidental. Sim, vertigem no sentido de tonteira e uma perturbação do equilíbrio, mas também como queda no abismo de uma razão cega e não apropriada dos seus limites. 

Que isso parece ser uma perspectiva profundamente individualista e egocentrada em Heidegger. E uma Vertigem bem mais miserável e improdutiva nesses intelectuais brasileiros adoradores do mito ou do novo anti-logos negacionista.

Eu penso que precisamos fazer uma revisão da Metafísica de tempos em tempos. Ou como já disse Nietzsche, são nos tempos difíceis que a Metafísica dá seus saltos e mergulha muitos no seu abismo. Como se fosse uma esfinge da história a desafiar a racionalidade e a busca da totalidade.

O real tem esse ou parece ter sempre uma espécie de seu avesso que leva aos descaminhos ou labirintos do pensamento e da liberdade. O problema dessa vertigem desafiadora parece ser intrínseco a isso. Cada vez que nos deixamos levar a isso acabamos negligenciando ou descuidando mesmo os assuntos mundanos. Perdemos o chão sobre o qual pisamos. Isso não ocorre por uma transcendência virtuosa, mas sim pelas desventuras viciosas ou ansiosas do pensamento que quer se livrar das contradições do real com um absoluto.



Eu me convenço às vezes que não tem como. Deveríamos pensar todos em sermos solidários aos metafísicos e eles aos mundanos. Tanto para evitar essa vertigem do absoluto, quanto o mergulho na contradição do real.

Bem de boas. Podemos olhar para outra coisa também. Uma certa divisão do trabalho intelectual. Por fim, após toda essa peroração aqui, também penso na provável falta de "qualidade acadêmica aceitável".

Quem são estes que, apesar de todas as advertências e ocorrências negativas, ainda resistem nesses descaminhos e nessa estrada da perdição? Certamente não serão bem lembrados no futuro, tanto porque erram na caminhada, quanto porque são absolutamente inexpressivos em suas áreas de atuação e jamais poderiam ser comparados a um Heidegger e sequer podemos aplicar a eles alguma causa como a grande vertigem metafísica descrita e ao meu ver com justiça aplicável a Heidegger.

P.S.: esse texto foi esboçado no inicio do ano e estava guardado. Resolvi publicar para gerar reflexão. Reconheço que poderia fazer algumas revisões ou melhorias, mas desejo que cada leitor ou leitora reflita por si mesmo.

SONETO 116 - SHAKESPEARE - outra tradução

 

SONETO 116 – Trad. Vasco Graça Moura (2005)

 

Não haja impedimentos à união

de almas fiéis; amor não é amor

se se alterar ao ver alteração

ou curvar a qualquer pôr e dispor.

 

Ah, não, é um padrão sempre constante

que enfrenta as tempestades com bravura;

é estrela a qualquer barco navegante,

de ignoto poder, mas dada altura.

 

Do Tempo o amor não é bufão, na esfera

da foice curva em bocas, róseos rostos;

com breve hora ou semana não se altera

e até ao julgamento fica a postos.

 

E se isto é erro e em mim a prova tem,

nunca escrevi e nunca amou ninguém.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

MILITARES, PANDEMIA E GOVERNO

 

MILITARES, PANDEMIA E GOVERNO

 

A situação mais crítica que a nossa nação já enfrentou em toda a sua história é essa da Pandemia que iniciou em janeiro e fevereiro de 2020.

Dizem que são nos momentos difíceis e desafiadores como esses que se põem a prova todos os homens e mulheres, lideranças, instituições e organizações. E uma Pandemia nessa dimensão é como uma Guerra Mundial. Ou seja, é um teste absoluto para todos. Não se passa por isso sem grandes provações, mudanças profundas e uma espécie de seleção natural de instituições e lideranças.

Assim, além da grave perda dos seres humanos, é possível que se percam também diversos hábitos, costumes e rotinas. Isso coloca a prova todas as instituições. Ao mesmo tempo, uma situação como essa não pede mudanças ou clama por mudanças. É usada corretamente a expressão de que o vírus não negocia com ninguém, pois podemos dizer que uma situação como essa não negocia mudanças, mas impõe mudanças. Tanto para de sobreviver quanto para se reconquistar alguma qualidade e segurança, é necessário mudar. Me parece que no Brasil pós Pandemia muita coisa vai ter que mudar.

E as forças armadas no Brasil não passam incólumes por isso. Como qualquer ser humano sensato e razoável deve saber, a principal exigência do atual cenário que se desenrola desde janeiro de 2020 é o sentido de responsabilidade.

Com o comportamento claramente irresponsável do Presidente e do seu Governo, a resposta das Forças Armadas, o que inclui a participação de mais de sete mil oficiais da ativa e inativos no Governo Federal, é trágica, vergonhosa e vexatória. Os dados estão escancarados todos os dias no noticiário. Na CPI da Pandemia a cadeia de erros estratégicos, escolhas equivocadas, omissões e condutas de negligência, incompetência ou pura insensatez fica mais e mais escancarada. E a conduta, as falas do Presidente concentram tudo isto em uma única personagem.

Não há argumento que justifique mais a atual situação, a conduta e a baixa qualidade das nossas forças armadas que acompanham e pelo visto respaldam esse presidente mais do muitos outros por escolha e opção ideológica. É muito certo dizer que qualquer civil, cidadão ou cidadã, esperava muito mais e uma resposta melhor de um exército que é profissional e que é mantido às expensas de nossos impostos. E não se trata somente de Garbo ou Asseio, de ter uma farda bonita, um cabelo bem cortado e saber atirar, obedecer ordens e ter disciplina. Isso nunca bastou para um exército realmente eficiente.

É preciso ter engajamento real, e é preciso ter esclarecimento,  é preciso usar a máxima inteligência, adotar conduta de interpretação rigorosa de informação e planejar, dirigir e executar ações com melhor uso dos recursos disponíveis, buscando também a suplementação e a previsão de mais recursos.

E isso não ocorreu, não ocorre em não vai ocorrer, enquanto estiverem ocupados com essas quimeras da guerra fria, adotarem a conduta interesseira e corporativa exclusivamente ocupada com seus ganhos pessoais, vantagens e soldos, e enquanto persistirem em seguir um Irresponsável e genocida, os militares vão persistir colocando em risco não somente o seu papel pessoal na história brasileira na presente quadra, mas arriscando no declínio das instituições em que atuam de modo profissional.

 

Não adianta nada, assim, ter certas distinções e empilhar medalhas no peito, ostentar medalhas e condecorações, enquanto mais de 500 mil brasileiros e brasileiras sucumbem ao vírus que não recebeu combate e Enfrentamento adequado do Governo Federal.

Vejam o caso das escolas militares. Hoje muitos defendem por aí a transformação de escolas públicas em escolas militares. Se for para reproduzir isso que eu está escancarado aos nosso olhos, é melhor não. Acredito que os quartéis precisam mais da escola pública do que a escola pública de quartéis, e uma prova disso é tudo que eu disse antes.

Para terminar com a nossa paciência e tolerância mesmo vejo bem isso: qualquer um que observa a conduta, a retórica, as mentiras e a incompetência gritante do ex-ministro Pazuello e que descobre que este cidadão é um General de Brigada, deve concluir imediatamente que há algo de muito errado na formação e na carreira militar no Brasil. E deste General de Brigada e de sua conduta surgiu justamente o maior caso de indisciplina e de falta de respeito a hierarquia na história do exército brasileiro. Para a desonra de todos, os dois maiores atributos necessários às forças armadas, disciplina e respeito a hierarquia, segundo a doutrina atual foram abandonados.

Resta evidente que tem algo errado nisso e que talvez essa doutrina esteja ultrapassada ou a formação atual e a qualidade dessa formação atual é insuficiente.

COMO CHEGAMOS A ESSA MONSTRUOSIDADE?

 

COMO CHEGAMOS A ESSA MONSTRUOSIDADE?

A História que leva ao que vivemos hoje no Brasil é longa. Ela envolve momentos do final da ditadura militar, momentos e episódios da redemocratização e a retomada dos monstros, a partir da descontrução midiática, jurídica e política dos governos do PT. Já no primeiro governo Lula as operações entraram em modo automático com o Mensalão, mas antes disso já haviam sinais do uso de fake News e da mídia hegemônica contra o Governo de Olívio Dutra no período de 1999 a 2002. Parte das medidas adotadas para obstaculizar o Governo Olívio Dutra no RS, foram colocadas em jogo contra os governos federais do PT. A direita, o centrão e parte da social democracia no Brasil, não suportaram a derrota para Lula em 2002, mas com as quatro vitórias de Lula e Dilma, para eles o quadro se tornou insuportável.   

Já na terceira derrota do PSDB em 2010, para a presidência da República, e já naquela época e campanha, a adoção pelo Zé Serra do terrorismo e do vale tudo ao estilo Steve Bannon na campanha contra a Dilma nos meios digitais, incluso com Fake News, geraram o despertar dos monstros que hoje governam o país. Chegamos até aqui por esse caminho sim. Mas temos alguns sinais anteriores, tanto na Anistia, quanto no pacto social da nova República, quanto no lawfare do Mensalão. A perda ou o abandono dos escrúpulos, é exatamente o que gerou todo esse despudor que assistimos horrorizados com a morte de mais de 520 mil Brasileiros e Brasileiras nessa Pandemia.

Os monstros assassinos genocidas viram que dava para sair do armário com tranquilidade já ali. Mas antes disso, teve o tal do Mensalão que lançou a tese do domínio do fato, já dando sinais de que a justiça no Brasil avançava para o arbítrio e começava a ter posição, interesses e ações de natureza exclusivamente política, incluso em retaliação por ressentimentos corporativos e salariais e também por um terceiro no turno dissimulado contra os seus interesses eleitorais.

Depois disso o Aécio avançou definitivamente o sinal com sua atitude na campanha e no pos derrota de 2014. No meio disso, tivemos 2013 e o uso de uma estratégia muito perversa para derreter as bases da política brasileira. Frente ao cenário pesado, o MDB resolveu primeiro, logo após as manifestações de junho de 2013, não apoiar uma reforma política e, em segundo, trair Dilma para construir a ponte para o nada, a negação e a mais plena monstruosidade que se manifestou no Impeachment, no Golpe, no Governo Temer que podia ser corrupto, desde que fizesse as reformas. São os mesmos que cerraram fileiras no apoio vergonhoso a Bolsonaro contra Haddad no segundo turno. E assim foi dado o último sinal de civilidade no segundo turno de 2018.

No meio disso tudo, voltamos ao sistema judiciário, quando o partido do Lava Jatismo e seu LawFare - ou seja, justiça e poder a qualquer preço, e a mídia, imprensa e comunicadores sociais que adoraram a toada do “precisamos destruir o PT" afundaram o país na mais completa barbárie moral.  Não vou falar aqui de militares e pastores e nem de caminhoneiros ou classe média e outros setores específicos, mas foi com mais isso. A questão é: como sair disso e como criar as condições para que isso nunca mais aconteça?

Com a Pandemia, esse espetáculo de horrores e essas monstruosidades conseguiram a façanha no Brasil de, mesmo com a potência do SUS, tornar o Brasil o cenário da maior tragédia, morticínio e genocídio por negligência, irresponsabilidade e canalhice.

 Aquela perda de escrúpulos lá atrás e as canalhices e monstruosidades perversas que se seguiram nos levaram direitinho até isso.

Não há um vínculo diretamente causal entre todos esses pontos. Mas há um espírito geral e um modus operandi inescrupuloso que paira sobre tudo. E enquanto alguns progressistas, pseudo democratas e pseudo republicanos degenerados não recuperarem o juízo vai continuar assim.

E o problema não é mesmo polarização ou se tem ou não terceira via, o problema é reparar integralmente o mal feito e aceitar mesmo de uma vez por todas a vontade majoritária do povo brasileiro, sem fazer uso de mentiras, golpes, manobras ou uma retórica tortuosa contra isso. 

Esses dias disse que a Alemanha do Pós Guerra extinguiu o Partido Nazista e colocou no ostracismo todos que levaram a Europa e o Mundo para a maior guerra da história da humanidade, em prejuízo do povo alemão e também com o sacrifício de mais de 80 milhões de seres humanos, incluso aí os 6 a 7 milhões de vítimas do holocausto e da fábrica de extermínio dos campos de concentração, em que judeus, ciganos e muitas outras etnias, homossexuais, deficientes físicos e mentais e também membros das resistência e lideres políticos e simpatizantes de esquerda foram assassinados, bem como, nós massacres de Hiroxima e Nagasaki, em que mais de 240 mil japoneses foram dizimados em dois dias e muitos outros  instantaneamente foram feridos de morte para o que sobrou de suas vidas. Essa não é.uma questão subjetiva, nem uma questão de moral do tipo dou perdão ou compreendo ou não dou perdão e não aceito.

A outra questão que se apresenta nesse inquérito aqui: é se aceitando a necessidade de uma punição rigorosa tanto criminal, quanto política e institucional qual a linha de corte no juízo de responsabilidade sobre os eventos acima? É um problema muito grande e muito semelhante ao que foi provocado pela Anistia ao final da ditadura no Brasil, essa mesma que colocou no armário os monstros que reapareceram depois em 2010 e que em 11 anos nos levaram até essa tragédia atual.

A velha solução intermediária de um novo pacto social pela democracia e em defesa da República no Brasil, se coloca de novo. Mas como em todo Contrato Social outra velha questão retorna: quem será o fiscal desse contrato e em que instância a correção às violações de suas cláusulas serão corrigidas, punidas e reparadas. No pacto anterior, me parecia tácito que isso estava colocado tanto sobre todos os partidos quanto nas posições majoritária dos três poderes, incluso no Judiciário e no Executivo, cuja síntese se limita a 11 juízes e um ou uma presidente.

Então, aquela expressão golpista sintetiza plenamente o tamanho da responsabilidade de todos já no golpe e nos processos paralelos: com Supremo e com tudo e a democracia e o direito a vida digna e a vida de milhões de brasileiros se foi.

Quando Lucianinho Hulk falou esta semana que a democracia está ameaçada, me dei conta do Rubinho da Política brasileira ou do tamanho prejuízo que essa cegueira causada por falta de escrúpulos provoca. E não se trata somente de uma faísca atrasada ou de uma reflexão tardia desse retardado, o nosso problema, porque na mesma semana quatro ministros do STF disseram que o Impeachment dessa monstruosidade poderá prejudicar a imagem do país no exterior. E é assim que esse vírus do faz de conta e da insensibilidade se mostra presente como sustentáculo máximo dessa monstruosidade. Não somente foram tolerantes com aquilo que jamais poderia ser aceito ou tolerado, quanto continuam a ser tolerantes com isso.

E alguém ainda acredita que a culpa de toda essa insensatez é do PT? Ora, convenhamos. Essa estupidez e covardia toda me cansam a moleira.

#ForaBolsonaro

#SóPráComeçar

Pondé naturalizando a corrupção

 

Pondé naturalizando a corrupção

 

Diz ele no título e no subtítulo do artigo:

 

"O Brasil é inteiramente rasgado pela corrupção; sem ela, ele não anda"

 

&

 

"A natureza humana tende ao corrompimento pelas mãos do poder, do dinheiro e do sexo"

 

 

Assim fica fácil ser intelectual no Brasil.

 

Quanto papo furado e retórica para naturalizar desvios de caráter e ficar fazendo sombra na realidade brasileira.

 

Em qualquer outro país do mundo corrupção é obra de corrupto e é punida, mentira é obra de mentiroso e é punida e desonestidade intelectual é desmascarada sem papo furado relativista ou retórica tortuosa.

 

Aqui no Brasil nós temos uma escola de naturalização de desvios que ganha espaço em mídia e posa de compreensiva.

 

Essa é a base para o fascismo e a impunidade. Só falta arguir a ausência de culpa ou responsabilidade.

 

Cara de pau é pouco.

A Grama é Verde: as Forças Armadas e as Ilusões Políticas e Símbólicas

 A Grama é Verde: as Forças Armadas e as Ilusões Políticas e Símbólicas




 

As forças armadas ou melhor, uma fração das forças armadas, adotaram uma posição política e ideológica.  Essa posição levou elas à certos agravos, em parte por ambições e de outra parte, por certas ilusões de imagem e de narrativas.

 

Mas não se resumiram em apoiar esse ou aquele candidato, apoiaram, construíram um programa e assumiram um lado com todos os riscos que isso impunha. E os riscos eram muito grandes e notórios.

 

Na sua grande maioria, eles só observaram as vantagens. De um lado, garantiram vantagens que nenhum outro servidor garantiu, tanto na reforma da previdência, quanto na reforma administrativa. De outro lado, conquistaram espaços na administração pública federal, tanto em postos chave, quanto em postos técnicos, muitas vezes sem competência e expertise algum para esses cargos. São, estima-se, mais de 6 mil cargos que militares da ativa e aposentados ocuparam. É praticamente uma ocupação. Então, eles obtiveram êxito nos seus propósitos. Porém, os resultados são terríveis.

 

Do ponto de vista militar, porém, entramos em uma Guerra e nesta guerra que é a Pandemia, os militares e o seu presidente não poderiam ter tido pior atitude. Num primeiro momento, houveram negligências consideráveis. A desculpa de que não havia como fazer barreiras sanitárias nos portos e aeroportos por falta de servidores na vigilância sanitária - a desculpa Mandetta, é pífia e vergonhosa. O próprio Exército, a Aeronáutica e a Marinha - mais Polícia Federal e outros órgãos federais e estaduais organizados e articulados poderiam ter feito isso muito bem. Porém, para tristeza nossa, de todos nós civis e militares, não havia senso de disciplina e responsabilidade e nem visão estratégica para fazer isso. Muitos poréns e senões em sucessão não levam a boa coisa.

 

Depois começou o ciclo de boicote ao isolamento e às medidas sanitárias dos estados e municípios com um presidente dando show em cercadinho, nas ruas e em passeios contra as medidas. Na sequência disso, boicotes em caravanas da morte e ataques com manifestações em frente aos quartéis pela "volta do AI5", pelo fechamento do supremo e do congresso e todas essas besteiras que somente irresponsáveis e soberbos tem a coragem de defender com sacrifício da sua própria vergonha. O resultado está aí. Há uma psicose coletiva que foi longe de mais. Parcela dos brasileiros estão embaraçados nessa ilusão e embarcaram nessa canoa furada.

 

Porém, não foi só isso que aconteceu. A CPI da Covid19 no Senado Federal, malgrado eles, revela a cada dia que passa, um escândalo na compra das vacinas e um claro crime de lesa pátria. No meio disso tudo, desses mais de 500 mil mortos por Covid, temos um banho de incompetência e imperícias de toda ordem.  O problema é que temos - e isso não pode ser negado - militares em diversas posições e situações envolvidos com essa corrupção. Na linha de comando que vai do Presidente até os ministros, passa por diretores e também pela intromissão e interferência clara de senadores e deputados de situação, temos um escândalo. Isso não pode ser mais negado.

 

E não falei nada das rachadinhas contumazes da quadrilha Bolsonaro, dos usos e abusos do poder por parte de outros ministros e apoiadores do governo.

 

A verdade, então, é que os militares deveriam abandonar de vez qualquer pretensão em defender essas ações irresponsáveis tanto para salvar a dignidade da maioria deles, quanto para contribuir para tirar o Brasil desde inferno.

 

Se as vaidades e as veleidades deles são tão grandes que os impedem de enxergar essa flagrante realidade, se preferem prosseguir nas suas Ilusões e fantasias corporativas, se preferem manter seus interesses pessoais ao preço de prejudicar todo o povo brasileiro, então devem ser corrigidos mesmo, pelos órgãos a quem cabe fazer isso. E aqui incluímos o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal podem fazer exatamente isso. E a opinião pública acompanhar e contribuir nessa correção, se manifestando sem medo e com respeito.

 

Quando falam em seus exercícios de retórica em Disputa de Narrativa, exibem que estão embaraçados no maravilhoso mundo das fakenews. Eles acreditam deliberadamente em suas próprias quimeras e ilusões de si mesmos e dos demais. Porém, é bom levar em consideração mais uma vez os limites dessas fantasias deles que os fazem desejar se manter impunes por suas escolhas.  Aí já é demais.

 

Não basta a mulher de Cesar ser honesta, é preciso que ela pareça honesta.

 

Ora, com esse comportamento dos militares, tudo que eles tem feito e no modo como se manifestam, as coisas não estão nada boas para a mulher de Cesar. Quanto mais ameaças eles fazem, mais se aprofunda o vexame pelo qual estão passando. Tentar constranger aqueles que observam isso, é parte desse mergulho nas profundezas da tragédia brasileira.

 

Está na hora de dissipar essas nuvens do céu e ajudar a corrigir os rumos do nosso país. Está provado já que ninguém fará isso sozinho.

 

As consequências estão aí.

O SENHOR DO TEMPO

 O SENHOR DO TEMPO

 




O senhor do tempo é impiedoso e age sem aviso. 

Ele que encerra ciclos e abre novas semeaduras, que faz tremer aos tolos e dá conforto aos sensatos, que surpreende a todos, ao chegar sem aviso e que nos lembra o quanto esta passagem precisa ser comemorada, aproveitada, refletida e produtiva. 

Todo dia é preciso lembrar que pode ser o último. 

O tempo cuja verdade é a primeira filha vem te lembrar o teu valor. 

O resto é o silêncio...

Pela eternidade...

Pluralismo e Democracia e o Pessimismo Necessário

 

Pluralismo e Democracia e o Pessimismo Necessário

 

Está obra singular do mestre Norberto Bobbio (1909-2004). Cujo título, As Ideologias e o Poder em Crise, remete diretamente ao tema das democracias e seus limites em artigos de Jornal publicados em meio às polêmicas, críticas e graves situações cotidianas da democracia italiana e que conectam essas situações as análises de filosofia política de Bobbio.

 




Tanto os clássicos políticos, quanto as conjunturas de crise são analisadas a partir de uma abordagem acessível aos leitores comuns, não familiarizados com as teorias mais fundamentais ou progressistas da ciência política. Assim, pluralismo, socialismo, comunismo, terceira força e terceira via são pela conjuntura desafiadora de construção de consenso ou dissenso no regime democrático testadas no laboratório representativo da Democracia nacional italiana. É importante dizer que a obra foi escrita entre 1976 e 1980, período no qual a democracia italiana enfrentou crises e situações violentas que culminaram com o assassinato de Aldo Moro em 9 de maio de 1978.

 

Me surpreendi com um artigo em especial "O dever de sermos pessimistas" (pp. 177-181), em que o mesmo aponta a necessidade de reconhecermos que o pessimismo é um "dever civil porque só com um pessimismo radical da razão pode despertar com uma sacudidela aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram conta de que o sono da razão gera monstros."

 

É um clássico da hora e do século XX que se aplica ainda hoje e claramente ao Brasil e aos países democráticos do mundo que sofrem o desafio de enfrentar os monstros criados pelo sono da razão e acordar em meio aos pesadelos que ameaçam as democracias em que o desespero e as fragilidades dos estados nacionais e suas instituições aos interesses selvagens e irracionais presentes em suas sociedades.

O CONTRATO INFELIZ: NOTAS SOBRE ROUSSEAU

 

O CONTRATO INFELIZ EM ROUSSEAU

Vou pegar algumas notas e estou redigindo uma espécie de mapa crítico dessa questão que parece nos levar para a derrocada do contratualismo no seu núcleo essencial.

Talvez o mais interessante seja explicar a posição de Rousseau como uma espécie de sacrifício teórico em virtude de outras ideias contratuais e do eixo liberdade e submissão sob o conceito de vontade geral.

É uma condição curiosa do contratualismo e das teorias do contrato social que por mais que se elogie a constituição de um contrato como superação de uma condição prejudicial, perigosa ou desconfortável anterior, na condição posterior permanece uma marca infeliz nos traços fundacionais e na duração dos contratos.

Os contratos, como todos dizem, podem ser feitos, podem ser voluntários e deliberados racionalmente por dois ou mais pessoas – no casamento monogâmico por dois, no contrato social por muitos ou vários, mas podem ser rompidos porque em todos paira uma clausula de encerramento da relação contratual.

As relações consubstanciadas nos contratos mudam de caráter do modo natural e informal para o modo institucional ou formal. Todas elas tentam superar uma certa situação original desfavorável ou infeliz, em que o livre jogo das vontades ocorre sem uma pactuação explicita e sem regras escritas ou implícitas. Assim, o contrato está propondo um novo regramento dessas relações naturais, introduzindo um controle e constituindo um poder formal na pactuação com regras, incluso a regra de encerramento desse contrato.

A Metafísica ocidental parece ser autocentrada num sujeito e este sujeito estabelece suas relações segundo seus interesses e valores. É um fato curioso que os temas da intersubjetividade e da alteridade na filosofia começam a tratar da questão do outro apenas na modernidade. Mas isso se arrasta ainda muito por séculos e tem suas recaídas.

De qualquer modo, a relação estabelecida entre o eu e o outro tem sido diferente de fato quando se trata de uma relação entre dois homens ou entre um homem e uma mulher. Na relação entre os homens os contratos procuram preservar algo anterior e garantir algum ganho. Nas relações entre os homens e as mulheres, parecem mesmo que os ganhos a serem produzidos e o que procura ser preservado parecem ser macho centrados também.  

Estou às voltas, nesse momento, com o caso de Rousseau, por exemplo, que em sua concepção de casamento colocava a mulher na condição de satisfazer as necessidades do homem e lhe ser subserviente. E fico pensando também que talvez essa seja uma condição comum ao pensamento de que em todo o pensar poderia haver uma espécie de "lado sombra" não resolvido, em que os filósofos são incapazes de escapar a condição de seu tempo, por mais que tentem ir além de seu tempo, atingir a totalidade do real e serem capazes de interpretar a história do pensamento.

E eis que então vai dar para liquidar com a concepção de Rousseau da relação homem e mulher e descobrir, que horror, que essa contradição no núcleo essencial do contratualismo é tão brutal, que não sobra nada. Vejo que quanto mais estudo, mais piora a situação. E só piora.  

Vejamos o núcleo da teoria de Rousseau no Emílio:

"Na união dos sexos cada qual concorre igualmente para o objetivo comum, mas não da mesma maneira.”

"Dessa diversidade nasce a primeira diferença assinalável entre as relações morais de um e de outro."

"Um deve ser ativo e forte, o outro passivo e fraco: é necessário que um queira e possa, basta que o outro resista pouco."

Dependência, passividade e submissão são parte do destino das mulheres em relação aos homens. A educação de Sofia no Emilio tem por objetivo garantir a sua submissão e confinamento na esfera privada do lar.

A impressão que nos passa essa passagem é que a igualdade e a liberdade é concebida como restrita ou exclusiva dos homens. Cabendo às mulheres preservar a desigualdade natural e adotarem a submissão de uma possível liberdade contratual a liberdade do homem. O contrato matrimonial e sexual faz, então, a mulher abdicar de sua liberdade natural a partir da sua inferioridade física natural e a consolida a partir da sua desigualdade original como submissa. Ou seja, uma assimetria física natural é uma espécie de base que vai consolidar a submissão n o contrato.

Eu acho que, na verdade, o casamento, essa instituição, como contrato, é uma instituição, que tem um caráter aberto, está sempre sob avaliação. E o problema de estar sob avaliação, significa que nem sempre a avaliação é compartilhada, o efeito tem como forma como comungada, digamos assim, como através de um diálogo. Às vezes o momento do diálogo não aparece. E há um outro elemento importante é que, o problema é que o abre ali, me parece claro, é que as pessoas mudam, né? As crianças crescem, os homens envelhecem, as mulheres também a libido e várias outras questões aparecem em jogo. O que talvez explica a instabilidade ocultada durante muito tempo das relações matrimoniais.

Ou seja, o casamento é uma instituição artificial. Mais artificial tem menos que estado, porque a sustentação dela depende de dois, da vontade, entre aspas, soberana, autônoma e reflexiva, sentimental, através de paixões, através de razões de cada um por si no fundo, ela se torna, fecha aspas, estável. Casamento no fundo de uma instituição aberta. A minha inspeção contrata infeliz tem a ver com isso, talvez, com o fato de que esse contrato não é tão livre esclarecido o quanto a gente gostaria. E a submissão é forçosamente uma situação que tanto o homem resiste a ela, porque o homem também tem essa questão da submissão, portanto, essas obrigações matrimoniais, como a mulher.

E assim se entende que os seres humanos não suportam a submissão por muito tempo ou todo o tempo. Talvez aí tenha uma um, digamos, um grito do nosso homem primitivo, ou um grito da nossa mulher primitiva. Que a submissão não é uma situação confortável, ou pelo menos não é confortável durante o tempo todo. Durante algum tempo, talvez sim, mas era o tempo todo, não.

Grande abraço Eduardo e parabéns pelo livro, é um livro que merece um prêmio, viu? Merece tradução, inclusive, próprias línguas, gostei muito, assim. Tem os, a erudição, que eu acho que faz parte, mas a coisa mais legal é a retórica atualizada sim senhor, um estilo irônico e bem humorado no tratamento de um tema tão desafiador quanto o casamento, que não é, não é uma instituição fechada e está como qualquer contrato sempre aberto a discussão, portanto, se eu digo que ela é aberta, não é uma instituição tão sólida, como as pessoas gostariam que ela fosse.

Algumas esperam que ela seja por causa de um contrato assinado, um papel passado. Por fim, me parece importante frisar nessa nota o tema da questão dos compromissos tácitos, implícitos. Porque, às vezes, revelar os compromissos é um desprazer. E talvez isso explique um contrato de interesse.

Grande abração, parabéns, gostei muito. Li aqui, de forma relâmpaga, o teu texto, mas eu gostei muito, quero ler com mais detalhe e eu abri um buracão aqui, acho que ele contratou a tua lista, porque tradição interna. Ao modelo de contratalismo que não inclui as mulheres, na conquista da igualdade da liberdade, não é um pecado pequeno, é de natureza essencial e como diz a Yara Frateschi, no vídeo que eu vi, amanhã vamos fazer questão de citar isso, né? É uma contradição intra-núcleo central do sistema. Se os princípios de igualdade e liberdade são fundamentais pra constituição do contrato, que se preserve os para todas as partes.

Me parece também que o velho Hegel fornece duas pistas interessantes externas a Rousseau, mas que exibem na dialética do senhor e do escravo - que eu sempre uso nesse tema das relações de dependência material, afetiva e espiritual e a necessidade de uma instituição acima dos homens em sua crítica à Vontade Geral. Mas isso fica para uma outra abordagem.

 

BIBLIOGRAFIA:

MEDEIROS, Eduardo Vicentini de. Até que a razão os separe: dez cenas sobre casamento e filosofia.1ª Ed. Porto Alegre: Abre Parêntese, 2021. E PDF

Veja também o video do nosso diálogo no link a seguir:https://open.spotify.com/episode/0iiKrWl34tMit6tDvXdfNo?si=9dUVDbVWTyKexNYzqRoOWg&utm_source=whatsapp&dl_branch=1