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segunda-feira, 6 de maio de 2019

HISTÓRICO DO HOSPITAL CENTENÁRIO


O Hospital Centenário foi concebido no ano de 1924. Na ocasião, foi lançada a pedra fundamental do Hospital Municipal, na Praça 20 de setembro e um imposto foi criado com objetivo de prover fundos para a construção do hospital. Além disso, a comunidade se organizou na busca de recursos extras através de doações, chás, concertos e peças teatrais com a arrecadação totalmente destinada a este fundo.

Em função da Revolução de 1930, as obras foram aceleradas, pois o Governo do Estado mandou prover o hospital para deixá-lo em condições de receber revolucionários feridos. Encerrada a revolução o governo manteve a subvenção que permitiu finalizar a obra.

Em 15 de fevereiro de 1931, na administração do intendente Theodomiro Porto da Fonseca, aconteceu a inauguração do Hospital, que foi denominado Centenário em homenagem aos 100 anos de fundação da Colônia de São Leopoldo. Na ocasião o Hospital Centenário era administrado pelas Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade.

Em 1933, foi iniciado o projeto de áreas de isolamento e o Hospital Centenário já era referência em atendimento à população do Vale do Sinos. Nessa época o HC era mantido por taxas cobradas pela Prefeitura, subvenções do Estado e pequena arrecadação de pacientes particulares. No ano de 1960 o Hospital Centenário passou a contar com plantão médico 24 horas.

No ano de 1989, através do Decreto nº 1858/89, foi criada a Fundação Hospital de Clínicas de São Leopoldo – Hospital Centenário (FHCSL), à época a FHCSL era uma fundação pública de direito privado, tendo sido transformada em 1990 para uma fundação pública de direito público através da Lei nº 3640/1990.

A Lei Municipal nº 4902, de 02 de abril de 2001 reestrutura a Fundação Hospital de Clínicas de São Leopoldo – Hospital Centenário que passa a chamar-se apenas de Fundação Hospital Centenário.

No dia 28 de agosto de 2017, o prefeito Ary Vanazzi assinou o decreto que transforma em 100% SUS os serviços prestados pela instituição. Um conjunto de medidas para redimensionar os serviços ao seu real custeio foram postas em prática durante 60 dias. Uma das medidas foi tornar toda a capacidade instalada do Centenário para o atendimento à população que utiliza o Sistema Único de Saúde.

O município passa por uma grande crise financeira herdada da gestão anterior que lhe legou duas folhas de pagamento atrasadas, 13º e férias atrasadas, além de diversas dívidas com fornecedores. Isso obrigou, inclusive, a parcelar os salários do funcionalismo desde o início da gestão. Em síntese, o decreto de número 8.843 determina que a Fundação Hospital Centenário destine 100% de seus serviços de saúde, ambulatoriais e hospitalares, exclusivamente ao Sistema Único de Saúde e concede prazo de 60 dias para que a Fundação proceda todas as adequações necessárias.

Hoje, em 2019 a situação continua igual, pois a Prefeitura de São Leopoldo custeia cerca de 78% da Fundação Hospital Centenário, o governo federal pouco mais de 19% e o governo do estado menos de 3%. Sendo que em muitos casos no ano de 2018 foi necessário judicializar os repasses dos recursos estaduais.

Em virtude dessa crise e do não pagamento por parte do estado de recursos devidos, o município e a direção da Fundação Hospital Centenário sustaram o atendimento de neurologia e neurocirurgia que abrangia pacientes de 15 municípios para os quais o Centenário era referência na rede de saúde para esta especialidade. O serviço foi transferido para o Hospital de Canoas, mas mesmo lá também ocorrem dificuldades no atendimento por falta de recursos de custeio por parte do estado.

Assim, a crise do Hospital Centenário tem impacto regional – que ganha concretude em uma dívida de R$ 40 milhões ao ano, com passivos mensais que ameaçam diariamente a manutenção de suas atividades. Isto se expressa em distintas formas e âmbitos, que perpassam a assistência em saúde, gestão de trabalho, gestão hospitalar, gestão financeira e sua participação social. Analisar esses diferentes aspectos de sua crise, torna possível refletir e elaborar planejamento para o futuro dessa instituição.

A atual situação do Hospital Centenário é resultado destes impasses que, ao longo dos anos, entre repasses de recursos insuficientes para suas atividades (subfinanciamento da saúde) por ineficiência de algumas gestões (insuficiência de planejamento de médio e longo prazo, que pressupõem conhecimento das necessidades de saúde, com metas claras e precisas e perspectiva de alcance de qualidade).

Lembremos que a Política Nacional de Atenção Hospitalar preconiza que o financiamento da assistência hospitalar é realizado de forma tripartite, pactuado entre as três esferas de gestão, considerando sua população de referência. Assim, causa estranhamento que um Hospital com a complexidade do Centenário, com habilitações em alta complexidade e características regionais, não tenha efetivado um Financiamento por Orçamentação com recursos suficientes para desenvolvimento das atividades em saúde; estranheza em relação às escolhas realizadas de gestão municipal e a falta de políticas de Estado que busquem equacionar e solucionar as desigualdades de financiamentos. O subfinanciamento da saúde não acontece por acaso, é realizado para diminuir, asfixiar, uma política pública, que compreende saúde como direito de todos. Para os analistas de políticas o não-fazer configura-se em política, são escolhas realizadas pelos governantes e tomadores de decisões.

A insuficiência de repasses estaduais e federais e cronogramas irregulares de repasses vem forçando os municípios a investirem cada vez mais em seus hospitais. E, em muitos casos, a maior parte dos municípios tem reduzido a oferta de serviços e atendimentos.

O Sistema Único de Saúde é uma política que traz em si expressa responsabilidades para os três entes federados (União, Estados e Municípios) com objetivo que se garanta a saúde como direito para todas e todos, cidadã e cidadão. Dessa forma, essa política deve ser desenvolvida, com diálogo, respeito e transparência, para efetivação de uma política que é estatal e não de governo.

Em virtude desse quadro que atinge nossa cidade e seu povo e mais cidadãos e cidadãs de 25 municípios que são atendidos no Hospital Centenário, convidamos a população a somar esforços nessa luta.

O HOSPITAL CENTENÁRIO DE SÃO LEOPOLDO E DA REGIÃO

Vou publicar aqui, neste blog, uma série de artigos sobre a disputa do Governo Municipal de São Leopoldo sob a liderança do Prefeito Ary Vanazzi, por mais repasses para o financiamento do Hospital Centenário que atende 25 municípios. Espero contribuir pela distribuição justa de recursos para a saúde de São Leopoldo e que isso contribua para desonerar a administração municipal do profundo ônus que tem arcado no atendimento a saúde da população de nossa cidade e das demais vinte e cinco cidades que são referenciadas ao nosso hospital. 

domingo, 5 de maio de 2019

MEU VELHO ESCRITÓRIO


SOBRE MINHAS INFLUÊNCIAS PEDAGÓGICAS - RESPONDENDO A UM ACADÊMICO – REVISADO E AMPLIADO DE UM ORIGINAL DE MAIO DE 2017


Optei aqui por não tratar de teorias específicas e nem nominar as personagens que incidiram sobre mim na prática e na reflexão pedagógica.  Construo a minha forma de ser professor a partir da experiência e da reflexão sobre ela. Tento articular sempre a prática docente com teorias e ideias pedagógicas, psicológicas, sociológicas e filosóficas as quais tive acesso na minha formação e que eventualmente são revisitadas. Mas também procuro me atualizar e muitas vezes me vejo às voltas com teorias novas ou com conhecimentos que não tinha apreendido. Também me ocorrem revisões e melhorias em relação às minhas compreensões das teorias e das práticas pedagógicas e docentes. Baseio muito minha os conteúdos e os métodos de minhas docência sobre o contexto histórico que vivemos e sobre o qual devemos refletir, interpretar e nos posicionar. Me ocorrem também insights e descobertas a partir de experiencias e vivências pessoais e de colegas.  Assim, além da aquisição de teorias, creio que é preciso incorporar a sabedoria prática ou técnica de outras pessoas. Confesso que aprendi muito com dicas, sugestões e observações de meus colegas de outras disciplinas, da mesma área de humanas e da mesma disciplina. Mesmo de outros educadores que não lecionam na mesma escola ou rede – municipal, estadual, pública ou privada, em nível superior ou básico – recebo alertas e observações e mantenho um diálogo com eles sobre temas pedagógicos e gerais. Também é importante defender e construir uma compreensão sobre certos valores humanos e culturais. Seguir exemplos de paciência, boa vontade, boa fé e respeito a dignidade das pessoas. As influências de meus pais, irmãos e parentes foram muito importantes nesse sentido, de meus professores e professoras são decisivas, e sou permeável também às influências de muitos amigos e amigas, alunos e alunas, colegas e, também, de pessoas comuns de outras profissões e atividades. Meus professores de história, geografia, letras e artes foram fundamentais durante a educação básica. Mas também professores de outras disciplinas com os quais tive certos privilégios. No ensino superior, muitos professores e professoras e, também, colegas me influenciaram em aulas e em diversos tipos de discussões, painéis, defesas de teses e dissertações e apresentações de trabalhos. Recebo muitas influências de diversos teóricos da educação e a participação em seminários, debates, projetos, programas e também minha participação sindical me influenciaram muito. Mas também recebo no meu ofício de professor uma forte influência do teatro, do cinema, da música e de muitas outras artes. Minha forma de ser professor é baseada nesta apreensão de exemplos e no exercício de construir a experiência em sala de aula e na preparação das aulas, das atividades e das avaliações e feedbacks ou retornos dos alunos e alunas. Confesso também que fico muito atento aquilo que os alunos e alunas trazem de suas experiências e posso até mesmo mudar os planos conforme aquilo que se apresenta em sala de aula no contexto imediato e não planejado de interação e conhecimento dos alunos e alunas.    

domingo, 28 de abril de 2019

NÃO TENHA PENA DE MIM

Cheguei destruído em casa estes dias atrás. Foi um daqueles dias de cão em que você chega ao final do dia e não sabe nem como descansar e nem como desligar. Muito trabalho intenso e agendas se sobrepondo umas sobre as outras. Como precisava muito me distrair um pouco e relaxar, fui olhar um filme. Caçada Mortal, com o Liam Nesson. Um filme razoável de 2014 e com uma trama violenta que, porém, traz um aspecto sensível e profundamente humano. Há uma sequência de diálogos ótimos entre o investigador e ex-policial arrependido por ter matado por acidente uma criança em um tiroteio com bandidos quando estava bêbado. Ele conversa com um menino negro que vive nas ruas de Nova York e que frequenta a biblioteca da cidade fazendo pesquisas e passando o tempo e que vai acabar por ser seu parceiro na investigação que ele realiza. Os dois, bem vistas as coisas, são no fundo dois miseráveis que resumem a sua dignidade própria e seu senso de responsabilidade por suas vidas num diálogo reciprocamente repetido assim:

- Não tenha pena de mim.

- Eu não tenho.

Os dois miseráveis resumem sua dignidade própria e seu senso de responsabilidade por suas vidas num diálogo reciprocamente repetido assim, creio, porém, que esse diálogo apresenta o tipo de linha de corte e emancipação que a gente precisa estabelecer sempre na relação com quem sofre e com quem vive dificuldades. Não se trata de perder a sensibilidade ou a piedade ou empatia perante o próximo. Mas sim de preservar a sua dignidade acima de tudo. Se não se quer sucumbir a uma vitimização e a lamúria típica de relações que são apenas mais um capítulo da humilhação, submissão, dependência e indignidade doentia entre as pessoas. Todos sofrem, mas não é digno ter dó ou sentir pena do outro ou de si mesmo, porque isso só consagra mais ainda a situação desprezível da qual se deveria fazer um esforço para escapar, seja por disposição psicológica, seja por condução, luta ou trabalho material.

E nas relações de amizade, afeto e familiares, isso me parece ser mais do que interessante. É necessário. Sob pena - maldita pena - de apenas se reproduzir o sofrimento sem vencer ele no seu primeiro campo de combate que é a consciência.

Respeito, um profundo e inegociável ou indeclinável respeito. Ter pena não é mesmo a melhor atitude para com o outro. É trazer a miséria do mundo e sua dinâmica para dentro de uma relação com o outro. No caso específico, ambos trocam migalhas de afetos, mas preservam acima de tudo sua dignidade.

Um pouquinho disso ou daquilo. Nesse caso, pouco importa de que lado se está na condição de coitados. O filme é exemplar nisso e carrega essa mensagem. Pois apesar da assimetria de condição material dos dois, há uma simetria de certa miséria em ambos. Eles se encontram frágeis e tocados pela dor e dificuldade de sobreviver. É, portanto, quando você sabe que o outro está ferrado, mas não toca no assunto diretamente e conduz a relação com extremo respeito a ele. Não trata ele como um coitado ou ela como uma coitada, carente ou miserável.

Eu acho que isso é algo presente na cultura civilizada inglesa. Pelo menos é o que eu percebo sutilmente nas relações entre eles. Posso estar errado. Talvez tenha que pensar mais. De qualquer modo, encontrei um exemplo de simetria que parece ajudar a abordar essa questão da dignidade e do respeito ao outro.

Falei em respeito acima, mas parece envolver também a visão de que a integridade do outro deve ser preservada de modo absoluto. Lembrei de uma parábola do Jesus. O que a mão direita dá, a mão esquerda não percebe. Na caridade deveria ser assim para não haver humilhação do próximo. Aqui surge talvez um ditame da impessoalidade ou anonimato do homem generoso, mas no fundo trata-se mesmo de manter o respeito a autonomia do outro.

Ambos personagens tem plena consciência de sua condição miserável. Não se precisa dizer nada um ao outro. Isso faz a simetria.

Veja que, no meu caso, pode acontecer muitas vezes de dizer que: pareço estar melhor que você, mas não se engane porque eu também tenho minhas dores e misérias.
Ou quando te digo: não fique achando que você é a única pessoa que sofre neste mundo ou que é a pessoa que mais sofre. Todo mundo, de uma forma ou de outra, sofre nesse grande vale de lágrimas que é o mundo.

Shakespeare usava muito essa expressão e essa dimensão: somos todos miseráveis e seremos todos atingidos, mais cedo ou mais tarde, pelas dores do mundo. Expressava ai um fato inarredável que ninguém escapa das dores desse mundo. É a condição humana.

É a condição humana geral. Ninguém, ninguém mesmo, escapa dessa condição. Pode dissimular, disfarçar, negar, esconder, maquiar, negligenciar ou, inclusive, ser na maior parte das vezes indiferente. Mas não escapa.

Além disso, temos que pensar nos tipos de sofredores que surgem dessa condição humana. Tem o sofredor ressentido e tem o sofredor com dignidade. Parece haver uma diferença aí. Nietzsche dizia que o ressentido é muito indigno, porque jamais enfrenta a sua real condição. Apenas projeta no outro ou no sistema essa condição. Em virtude disso é alguém que já entra derrotado e submisso na luta pela vida.

É o famoso homem que usa as muletas da fé para sobreviver nesse mundo. Precisa de um amparo transcendental para andar sobre a terra. É um pacifista por covardia. Tem medo de lutar e de enfrentar de fato sua real condição. Daí para a submissão ou covardia política e moral é um passo. Por isso, quando se leva mesmo a sério isso, não tem solução mais ou menos. Também por isso, a revolta, organizar a revolta e a revolução é um ato de extrema dignidade moral e política, em especial, quando não é baseada no coitadismo ou na vitimização, no ressentimento ou no desejo de vingança, mas na mais plena consciência de dignidade e de disposição para defender ela sobre tudo e sobre todos ou todo e qualquer um que parar a tua frente.

Nenhum dos dois personagens, então, se refugiava em sua dor e gostava de dar meia pataca nos assuntos dos quais tratavam.

NÃO TENHA PENA

NÓS VAMOS SOBREVIVER, MAS O QUE REALMENTE IMPORTA É A SOBREVIVÊNCIA DO POVO


O diálogo do Uber ontem em uma corrida rápida foi algo. O motorista, primeiro, me explicou que corridas curtas eram boas porque significavam um bom valor na cobrança de curta distância em virtude da taxa mínima. Também falou que quanto mais corridas, melhor, porque aumentava a pontuação dele e incluía o motorista em promoções e premiações.

Depois mudamos de assunto. Ele me perguntou sobre a minha profissão. Respondi que era professor. Depois ele falou que a coisa estava bem feia. Eu disse que sim. Que no meu caso e dos meus colegas, professores estaduais do RS, estamos 40 meses com salários atrasados e congelados sem nenhum reajuste por mais de quatro anos. Ele me perguntou o que eu ensinava. Respondi que lecionava Filosofia e História e, também, Sociologia e Geografia, quando necessário. Ele então exclamou que as coisas estão feias para professores de filosofia e sociologia. Eu disse que sim, que o atual governo do Brasil negligenciava a importância das nossas disciplinas e da educação.

Ele me olhou e disse, então, está difícil, mas a gente vai sobreviver e isso vai passar. Eu olhei para ele e disse que sim. A gente vai sobreviver, com mais dificuldades, mas vamos sobreviver. Mas disse, então, que o problema disso tudo que está acontecendo não é exatamente a nossa sobrevivência, o problema é se os outros – todo o povo que não tem defesas - vão sobreviver. O problema é a vida do povo brasileiro que já está sofrendo muito. Terminou a corrida. O jovem me deu cinco pontos na avaliação. Me despedi, desci ou desembarquei do carro e sai pensando nisso. Depois fui, em casa, ver a entrevista do Lula. E ele disse praticamente a mesma coisa afirmando estar muito preocupado com a vida do povo brasileiro. Lula disse que estava na cadeia e que via todas as notícias e que estava muito preocupado com o que estavam fazendo no Brasil.

Muita gente, portanto, ainda precisa entender que a questão atual no Brasil não é a própria sobrevivência, mas a sobrevivência do povo brasileiro, que não é protegido e tem sido atacado pelo atual governo em seus direitos e condições de vida como na reforma trabalhista já aprovada, a reforma da previdência que ataca gravemente os trabalhadores e trabalhadoras brasileiras e no teto dos gastos que tem impacto profundo nas políticas de saúde, educação, habitação, seguridade social e assistência social que estão sendo dizimadas num ciclo de vinte anos. A miséria e o desemprego, com a fone e o desalento tem aumentado, a economia não se recupera com o receituário neoliberal e o governo do Bolsonaro não funciona direito e passa o tempo todo fazendo maluquices e bobagens que não ajudam em absolutamente nada.

ESTA LUTA SEMPRE FOI DURA


Sempre foi uma luta árdua e muito dura para fazer o Brasil mudar e para defender a dignidade do povo brasileiro, defendendo seus direitos e conquistando mais direitos. Hoje não está pior do que ontem, a diferença é que hoje se agravam as ameaças e a vergonha nacional está escancarada no Governo Federal e suas medidas. O que ocorre é que o golpe, a crise e as manobras políticas no judiciário e na mídia brasileira, fez com que os agentes do atraso, do descaso e dos reacionários colocaram todas as suas cartas na mesa. Porém, também ocorre hoje uma certa inversão de ônus e se entende melhor porque o problema nunca esteve em um ou outro partido, mas sim no sistema político inteiro. As frações das classes dominantes e privilegiadas promoveram esse retrocesso político, como uma reação aos avanços que o ciclo de Lula no Brasil promoveu. Convivemos mesmo, após o interdito com os trezentos picaretas e a entrevista de Lula, com a dura verdade de que isso não é mais questão de opinião ou artifício retórico, mas a expressão mais dura e pura de um quadro escancarado e disseminado em todos os poderes que parecem não possuir mais nenhuma reserva moral ou possibilidade de supremacia moral sobre os desmandos e descaminhos. Não podemos, porém, esmorecer e nem conceder nenhum espaço de manobra para eles sem a nossa reação coletiva e organizada. Esta luta é dura, mas a vida exige de nós sabedoria e coragem, muita coragem para fazer justiça e fazer mais política ainda. É possível e necessário e que cada um ocupe o seu espaço a fazer isso e assumo o seu papel nessa reação e resistência ao atual quadro brasileiro. Pelo bem do Brasil e do seu povo.  

sexta-feira, 26 de abril de 2019

CHINCHAR

Em 2012, no último ano de vida do meu pai, num dia 23 de abril, consegui almoçar com meu pai na casa em que ele estava se recuperando de um AVC isquêmico. Apesar da dificuldade para ver e também se movimentar, foi bem tranquilo e deu para conversar sobre como se colocam os arreios em um cavalo. Tudo começou quando usei a expressão CHINCHAR e ele lembrou o nome de cada uma das peças e o significado de chinchar. Eu usei essa expressão estes dias aplicando a uma situação de acabamento de um processo delicado que chegava ao seu final.  Pelo que ele disse à época, estava certo ao dizer que alguns animais e homens, quando chega a hora de chinchar, corcoveiam ou perdem o controle desperdiçando os esforços anteriores, como se tudo que você fez até ali houvesse sido absolutamente em vão e não significasse a aceitação do que viria depois. Pensei, então, ou você fez algo errado estragando tudo ou está te faltando uma doma de si mesmo meu amigo. E é assim que conhecemos algumas pessoas, quando chega a hora de chinchar, diria o velho sábio de estância, vamos ver se ele consegue montar ao cavalo e ficar firme sobre a cela da montaria. Nessa hora algo sai errado porque ou você sabe o que está fazendo ou você acha que sabe o que está a fazendo.

NÃO TENHA PENA DE MIM


Cheguei destruído em casa ontem. Foi um dia de cão. Muito trabalho intenso e agendas se sobrepondo umas sobre as outras. Como precisava muito me distrair um pouco e relaxar, fui olhar um filme, Caçada Mortal, com o Liam Nesson. Um filme razoável de 2014 e com uma trama violenta que, porém, traz um aspecto sensível e profundamente humano. Há uma sequência de diálogos ótimos entre o investigador e ex-policial arrependido por ter matado por acidente uma criança em um tiroteio com bandidos quando estava bêbado. Ele conversa com um menino negro que vive nas ruas de Nova York e que frequenta a biblioteca da cidade fazendo pesquisas e passando o tempo e que vai acabar por ser seu parceiro na investigação que ele realiza. Os dois, bem vistas as coisas, são no fundo dois miseráveis que resumem a sua dignidade própria e seu senso de responsabilidade por suas vidas num diálogo reciprocamente repetido assim:

- Não tenha pena de mim.

- Eu não tenho.

A NECESSIDADE DA REVOLUÇÃO


Tenho pensado muito nisso também. Nessas horas, é bom lembrar o velho Marx. Ele não prescrevia uma Ditadura do Proletariado porque simplesmente tinha um ódio venal e de classe à burguesia ou considerava uma prioridade vingar toda exploração e dominação, explicação e submissão imposta ao proletariado ao longo da história. Marx não era um revanchista. Tratava de uma outra questão muito mais crucial: a burguesia não vai conceder de mão beijada ou por boa vontade qualquer grande alteração no sistema econômico e político de exploração e dominação, seja a um partido eleitoral ou a um grande líder do proletariado, através da via democrática. A disputa de classe ou a luta de classes em que interesses opostos se enfrentam, não tem essa dimensão negociada ou mediada. Toda vez que o proletariado quiser obter algum ganho ou melhoria para além de meras concessões conjunturais, haverá de ser pelo uso da força e pela imposição inarredável de seu poder. Por isso, também a mudança efetiva e real das  estruturas da sociedade, na perspectiva de Marx e outros socialistas e comunistas que são considerados radicais, só será possível pela via revolucionária e através da ruptura violenta e impiedosa do regime jurídico e estamental que sustenta esse sistema de exploração e dominação de uma classe sobre a outra. É por isso que a Ditadura do Proletariado, o vaticínio odioso para a burguesia, é a única via de mudança social efetiva e sustentável e que permite conquistar, manter e solapar de vez com as bases jurídicas e materiais de classe do sistema político e econômico dominante no capitalismo. Você pode não gostar de violência, você moralmente pode desejar a paz e preferir sempre a democracia e é razoável que pense assim e que deseje isso com convicção, mas toda vez que o fizer deves pensar que a não violência de teu método e propósito, há de deixar espaço para a extrema violência da exploração e da dominação continua da burguesia sobre o proletariado e suas frações de classe. Nesse caso, não se trata de comparar o número de vítimas ou a insensatez do sacrifício de um lado ou do outro, por uma via ou por outra, como um cálculo de custos e benefícios ou uma contabilidade de perdas humanas, mas sim de refletir sobre que todos os sacrifícios você se dispõe a aceitar para sepultar de vez o sacrifício constante e regular da vida de milhões de pessoas no capitalismo, num aparente regime normal e estável, cuja normalidade aparente é enganosa, pois através da miséria, da fome, da doença, da falta de oportunidades e dos diversos procedimentos legais que dão base ao massacre de uma grande parte da humanidade, se observa o alto preço que homens e mulheres pagam, com suas vidas e existências para sustentar os privilégios e prerrogativas de muito poucos das classes dominantes burguesas. A espada de Dâmocles repousa – a espada da morte e da responsabilidade – paira balançando sobre as cabeças daqueles que tem o poder ou o talento e a liderança de decidir qual das duas vias seguir. Não é uma questão pequena essa. Sou daqueles que me ressinto da condição de Lula e de seu destino e sacrifício pessoal que está atrelado diretamente ao destino do povo brasileiro, como é fácil ver hoje para muitos que não queriam aceitar isso antes ou que já haviam esquecido disso. É preciso reconhecer que a escalada golpista que levou ao atual quadro nacional é produto direto dessa não concessão e não admissão de alguns ganhos ao proletariado e a classe proletária brasileira. A pergunta que deve ser feita, então, quando se adota essa percepção e constatação é: porque será que é tão difícil para certos sujeitos históricos compreender seu lugar numa revolução real da sociedade? E por consequência por que a maior parte do proletariado não se vê num papel revolucionário por necessidade de sobrevivência real de si e de sua classe?

FILOSOFIA ARMA E DESARMA


A filosofia faz uma coisa muito louca com a gente. Parece que, após uma experiência de formação e estudo, a gente não muda nada. Porque ela nos arma e nos desarma ao mesmo tempo. Nos arma com uma certa coragem e ousadia para lutar e para fazer e acontecer com a nossa inteligência e existência. Mas, por outro lado, nos desarma com a prudência e a virtude. De tal modo que, por força da exploração máxima de nossa inteligência e existência, podemos não fazer nada pelo extremo sentido de responsabilidade que conquistamos com ela. Então, aparentemente somos iguais ao que éramos antes. Ignorantes, porque aprendemos a reconhecer que não sabemos exatamente o que fazer e temos mais dúvidas do que antes, mas sábios, porque sabemos que temos que fazer alguma coisa, temos um imperativo que se impõe, apesar das dúvidas e apesar de toda a prudência que adquirimos. Quando entendemos isso ficamos iguais ao que éramos, mas um pouco diferentes, porque mais cedo ou mais tarde, logo mais, vamos acabar por agir.

sábado, 20 de abril de 2019

QUO VADIS?


Respeitei a constrição necessária e saudável da páscoa. Por isso, só agora respondo ao grande demérito do renegado. Que se serviu de uma circunstância para transformar em provocação a intolerância um mero e simples evento cultural. Fazendo coro à insensatez e irresponsabilidade dos conhecidos arrivistas locais. Declinar de todos os escrúpulos em plena semana santa é mal sinal. E demonstra claramente a disposição desesperada do ex-candidato que faz mais uma vez o papel de renegado. No primeiro exemplo, ao dar por morto o nosso prefeito que está bem vivo, se serve de maldade e no segundo caso de oportunismo ao explorar a agenda cultural para promover litígio religioso sem escrúpulos.

O EX-CANDIDATO VIROU UM RENEGADO


É impressionante que esse cidadão tenha abandonado a democracia e se bandeado de vez para a típica conduta dos fascistas e dos fanáticos religiosos que adoram espancar a esquerda e promover violência simbólica para autorizar violência física. O ex-candidato, ao dizer que o prefeito está morto, assina recibo de desespero de causa, mas também mostra que é capaz de ultrapassar qualquer limite e abandonar completamente os escrúpulos. Esse é o tipo de coisa que um cidadão que fez juramento para ser um educador da civilização esclarecida e um defensor da humanidade contra a barbárie, jamais pode se dar o direito de fazer. Lamentável e vergonhoso, se não para ele, pelo menos para os seus fiéis seguidores que o avistam como líder, mas que procuram preservar sua sensatez e lucidez, apesar das refregas. Desejo que suas almas sempre andem acompanhadas pelo respeito à dignidade e integridade do próximo. E que sejam preservadas dessa conduta do renegado.

A TRAVESSIA ESTÁ SEGUINDO PARA O FASCISMO


Com todo esse ressentimento do ex-candidato expresso em suas palavras parece ficar claro que ele se encontra incontido e se transformou num instrumento fácil para a exclusiva promoção de ódio e de vingança, em vez de se portar com a compostura necessária e defender o bom senso e a democracia em nossa cidade. Ele atravessou o Rubicão do fascismo e já se encontra em conluio com os métodos dos fascistas. Péssimo exemplo para os jovens que se iniciam na política e um estímulo aos velhacos e insensatos que já andam dando seus sinais de que estão dispostos até mesmo a correr o risco de ser identificados com covardes e mentirosos para atacar o governo do atual prefeito de São Leopoldo.

DISPUTA CULTURAL?


Como espancar a esquerda sem precisar pagar a conta do hospital, sem ser preso pela polícia e sem se preocupar com o destino da humanidade? Essa parece ser a questão fundamental para alguns fascistas, conservadores, neoliberais e crentes em certo fanatismo de natureza política, religiosa e econômica. Trata-se de fazer isso como uma mera disputa de ideias e teorias, enquanto a violência aumenta, os seus crimes, torturas, assassinatos, massacres e violências ficam impunes e a humanidade desce quase inteiramente pelo ralo abaixo da barbárie generalizada. Isso me parece um propósito apocalíptico. O que você me diz?

quinta-feira, 18 de abril de 2019

OS COMENTÁRIOS AGRESSIVOS E A DESUMANIDADE


Lendo comentários agressivos e perversos nas redes sociais. Sobre o suicídio de Alan Garcia e em outros temas percebo a total perde de dignidade e respeito para com o outro ou o próximo. É muito triste ver como os espíritos mais rebaixados e desumanos afloram nas redes sociais. As pessoas que fazem esses tipos de comentários perdem o controle sobre seus impulsos, são impiedosos e jogam todos os escrúpulos na lata do lixo com uma forma de prazer indigna e vil. A partir dessas condutas e expressões tornam o mundo pior e fazem uma lamentável contribuição na promoção do ódio gratuito e inadequado. Eu fico muito triste porque esse extraordinário meio de promoção do diálogo e da comunicação passa a se resumir apenas a uma arena de espancamento, agressão e maldade. O pior argumento que eu vejo ser utilizado nesses casos é o da liberdade de expressão que se reduz ao direito de dizer qualquer coisa de forma insensata, insensível e inconsequente. Minha única esperança é que isso cause vergonha em outros e aversão na maioria dos que lêem isso. Nada de bom há de sair de tanta maldade. Feliz Páscoa e que o amor ao próximo e a todo o próximo ressuscite nesses corações que jogam pedras nos demais seres humanos e que espancam a humanidade inteira com seus ataques e agressões.

um subterrâneo muito escuro


“A obscuridade das distinções e dos princípios de que se servem é a causa de poderem falar de todas as coisas como se as soubessem e de sustentarem o que dizem contra os capazes e os mais sutis, sem que se tenham meios de os convencer. Por isso, tornam-se comparáveis a um cego que para lutar sem desvantagem contra alguém que não é cego, levasse o adversário para o fundo de um subterrâneo muito escuro.” 

Rene Descartes

A EXPERIÊNCIA DA VIDA


A EXPERIÊNCIA DA VIDA



Cada um de nós possui uma existência muito singular, mas em algum sentido ela é comum a muitos outros seres humanos. Pois, nessa existência, penso que somos testados repetidamente numa árdua prova para tentar compreender, interpretar e pouca vezes explicar o que ocorre em nossas vidas e nas vidas das pessoas que conhecemos. Tentamos explicar mesmo a vida de pessoas que vieram antes de nós para esse mundo ou, nos dias de hoje, com larga comunicação e informação, muitas biografias, páginas policiais, colunas sociais, fofocas, obituários e diversos outros exemplos que podem ser obtidos aqui ou ali no mundo, podemos até tentar compreender, interpretar ou até mesmo distorcer e criar versões alternativas para explicar ou julgar a vida de muitos outros distantes de nós ou de quem só muito remotamente temos informação ou pelo papel, por ondas de rádio, tevê ou séries e filmes a que produzimos e temos acesso. Com essas fontes todas e ensaios próprios e de outros tentamos entender a nossa própria experiência de vida e de outros seres humanos.  

Mas o que ocorre conosco quando fazemos estes exercícios? Encontramos uma lógica rigorosa e uma narrativa padrão para fazer esse processo de interpretação de si e do outro? Possuímos a varinha de condão da verdade e da justiça para revelar como essas pessoas eram, são ou serão no futuro, a partir do que apreendemos delas?

Parece que não. Assim como muitas vidas estão expostas ao acaso, ao azar, a sorte, aos planos bons, aos planos não tão bons, aos planos ruins e aos planos muito ruins, em seus destinos, todos nós nos defrontamos com sucessos e insucessos aparentemente explicáveis, mas que, ao fim e ao cabo, vistos mais de perto, melhor analisados, são inexplicáveis. Não se resume a vida de uma pessoa por suas escolhas, sem conhecer as opções que lhes são ofertadas ou reconhecíveis.

Eu diria que nossa tentativa de explicação da experiência de vida é feita, então, com muitas concessões e generosidade ao nosso próprio espírito de síntese e racionalização da existência. Por quê fazemos isso desse modo? Penso que talvez seja uma necessidade nossa - como muitas outras necessidades nossas que ganham instituições para concretizar seus nobres objetivos em prol da saúde psíquica, em prol do bem estar coletivo e muitas vezes em prol de seus autores e seguidores.

Deve ser necessário mesmo dar sentido à nossa experiência de vida ou aquele pontinho da história que representa a nossa vida, ao qual se resume nossa existência e que na vida excepcional ou extraordinária de alguns ganha muitas tintas ou é exemplar e na vida de muitos outros, na vida da grande maioria dos seres humanos que vieram a vagar nesse mundo, mal tem um registro, um número ou tracinho de lápis numa lista qualquer em que somos representados ou figuramos como "alguém", aquele outro ou uma pessoa.

Temos, então, uma certa experiência de vida muito básica aqui: ou somos visíveis e notórios por um tempo ou algum tempo que se resume aos nossos convivas e aos nossos laços sociais ou, então, ao contrário, somos invisíveis, anônimos ou metas imagens de pessoas que se misturam na multidão desses quase oito bilhões de habitantes que vivem hoje nesse mundo ou aos trilhões - suponho eu - que já viveram.

Nossa experiência de vida pode ser, assim, visível e invisível, comum ou incomum. E, se eu seguir nessa toada, podemos descobrir, talvez, algo mais sobre os outros e nós mesmos. Como, por exemplo, porque é tão difícil para os seres humanos aceitar e defender a existência do outro e lutar junto pela dignidade de todos e não apenas de si mesmo? Creio que isso é algo que faz parte da nossa experiência de vida e divide o mundo para mim também de uma outra forma, mais ou menos binária, entre aqueles que se preocupam e se dedicam a isso e aqueles que não dão a mínima pelota para esse assunto.

Talvez aí resida também um dos limites da nossa dificuldade de compreender, interpretar e explicar o outro, porque se nós nos dedicássemos de fato a isso teríamos que assumir certas "responsabilidades e compromissos" frente aos quais, para a grande maioria seriam uma perda de tempo, desperdício de recursos e empenho demasiado com a vida dos outros, a existência dos outros, que não caberiam na nossa experiência de vida.

P.S. Pensando na Páscoa, pensando no sentido da vida, na luta entre nós pela vida e, só para variar, pensando numas leituras e reflexões que me provocam. Paul Auster e muitos outros. Experiência de ou da Vida é uma abordagem mais próxima de tudo que tem me desafiado no que toca à minha compreensão, a compreensão de minhas escolhas e à compreensão de todos os demais seres humanos que me chegam ao conhecimento e reflexão sob diversas formas.

Obs. A imagem é um recorte de dois frisos de quatro da capa de Catatau de Paulo Leminski. Trata-se da capa da edição mais recente pela Iluminuras em 2000. Foi feita por Éder Cardoso e é baseada na capa da primeira ata edição da obra de 1975 que foi executada por Miran. Imagem: Cenas de luta na sala de uma tumba em Beni Hasan (Egito, Circa 2000 a.C., anônimo.)

domingo, 31 de março de 2019

A PAIXÃO DAS HUMANIDADES E A NEGAÇÃO DO HUMANO NO OUTRO


A paixão pela filosofia, pela ciência, pela psicanálise ou a busca da sabedoria - que muitos resumem como auto-conhecimento, não é apenas uma paixão para si ou de si mesmo, é a paixão de conhecer e compreender a humanidade inteira ou toda a partir de si mesmo.

Vira paixão e, portanto, te captura a partir de um auto exame e essa paixão se dá de forma consciente. Isso fica consciente, quando você percebe que está usando a si mesmo para fazer isso. Quando você percebe que isso é possível ocorre uma espécie de envolvimento maior com a compreensão e a auto compreensão que parece te levar diretamente para a rede das ciências humanas. Essa sensação parece te fisgar e te atrair para os conhecimentos das humanidades, letras e artes. Você fica capturado por esse tipo de reflexão que eu chamava de transitiva ou transitividade da compreensão. O contrário disso me parece ser a negação do outro, a partir de uma perspectiva de que ele é absolutamente diverso de ti e de que não há reflexão alguma que te faça compreender ele, entender suas razões ou mesmo, para pegar um exemplo paradigmático, colocar-se no lugar dele. Então, quero dizer com isso, que a paixão pela sabedoria, pelas ciências humanas, é um ato de empatia.

Ela pode ocorre, é preciso reconhecer ainda isso aqui ao final, de forma mitigada com menos consciência ou até com mecanismos de negação do conhecimento, entendimento ou compreensão do outro a partir de si mesmo, isto é, essa paixão pode ser inconsciente ou subconsciente. Nesses casos, me parece que ocorre uma espécie de dinâmica de resistência que reprime essa reflexão. Afinal, deve ser difícil comparar-se o igualar-se a um outro que nos gera aversão, a buscar razões naquele sujeito que te parece não possuir razões. Assim, pode ocorrer que essa paixão fique adstrita aos julgamentos morais – de culpa, auto punição ou repressivos, como diria Freud, mas nesses casos as pessoas ficam impossibilitadas de reconhecer as motivações para a ação, mesmo as ações erradas no outro e passam a somente tratar esse outro como um diverso negativo ou inferior de si.

Imagino que essa é a base da discriminação, do preconceito e do raciocínio que leva uma criatura tão miserável quanto as outras, a se sentir superior ou em um nível de justificação superior para a sua existência em relação as existências dos demais.                 

quinta-feira, 28 de março de 2019

SISTEMA DE CASTAS E DESIGUALDADE


Na semana passada foi o tempo de avançar no estudo da desigualdade social e das estruturas sociais sobre o sistema de castas. Após a leitura do texto didático que tratava desse tema clássico na sociologia, me lembrei da novela da Rede Globo Caminho das Índias de 2009, para ilustrar o conteúdo. Perguntei se alguns alunos ou alunas lembravam da novela em que as personagens viviam numa sociedade em que a identidade distintiva de castas era sempre tema de discriminação e preconceito. Muitos lembravam e haviam visto ela nesse exato horário das aulas, há dez anos atrás. Quando eles tinham entre seis e dez anos, em sua maioria viram a novela e guardaram as suas lembranças. Eles arregalaram os olhos quando perguntei quem viu a novela.

Lembrei de um aspecto no drama de uma difícil relação social ou mudança impossível de status de um dalid, por exemplo,  se apaixonar por uma brâmane ou de um brâmane se apaixonar por uma dalid - podes pensar em outras combinações. A censura e a pressão ou veto das famílias e da sociedade recai sobre eles por pressão dos costumes que tem mais de três mil anos já. Mas também lembrei desse tipo de divisão econômica na nossa sociedade que é herdeira dos estamentos e divisões de classes do período colonial ainda, e que também é encenada em quase todas as novelas. Isso aparece como um dilema romântico nas novelas em que um pobre não pode se envolver com a filha da madame ou do patrão ou vice-versa ou recombinado. Lembrei de meus testemunhos desse fenômeno de inclusão ou exclusão de classe. Das perguntas sobre quem é o pai ou a mãe, para saber com quem você estava se metendo, andando ou se envolvendo ou das histórias dramáticas, juvenis e às vezes bizarras dos tais amores ou amizades proibidas. Lembrei da expressão corrente das boas ou más companhias que encobria só a questão econômica sob um manto moral ou comportamental. Por fim, ou quase fim como verás, acabei pautando o quanto essa encenação ou drama permanece de enredo em todas as novelas, de uma ascenção social por relação, casamento, amor ou amizade ou mero convívio é ilusória. É a velha fantasia de uma espécie de paz social inexistente. Ou de uma democracia racial plena e tranquila. E o quanto essa separação de classes, castas ou estamentos exibe a desigualdade social e também os mecanismos de dominação e exploração, sujeição e submissão dos inferiores aos superiores seja por qual critério for. Por um instante parei e perguntei aos alunos e alunas quem representa a classe social deles nos parlamentos ou governos e baixou um silêncio profundo na sala. Deixei o tempo correr e fiquei fitando eles e esperando. Um menino me perguntou: isso não é uma inversão? Eu respondi, entendendo bem a aplicação alargada dele daquela palavra naquele contexto, dizendo que não era bem uma inversão, mas sim um logro, o fato de alguém que não tem nenhuma identidade de classe comigo ser eleito por mim e atuar contra os interesses da minha classe, como no caso da reforma da previdência. Em instantes a aula acabou e ele saiu balançando a cabeça e resmungando de cenho franzido. Então, eu que votei nesse cara, votei nele para ele fazer algo contra mim só porque tinha a ilusão de que ele estava do meu lado. Nominou o candidato, seus colegas baixaram a cabeça, um citou aquele meio frango grátis e outra aluna passou com os olhos expressivos que suspendiam todas as interrogações da sala e a aula acabou.

Sim, é a triste verdade, o povo brasileiro parece um bando de dalids votando em bramanes para preservar o sistema de castas e a desigualdade social arrasadora e massacrante que vivemos nesse país.