segunda-feira, 22 de setembro de 2014

SOBRE A FORÇA OU FRAQUEZA DA FILOSOFIA EM SALA DE AULA

A declaração de Dilma sobre a redução do número de disciplinas nos currículos do ensino médio, que já tinha aparecido com poucos detalhes na sabatina de O Globo da semana retrasada, gerou uma onda de incompreensão e de terrorismo cujos efeitos são interessantes, pois passam de uma tese sobre o fim da filosofia em sala de aula, até mesmo uma diluição dos conteúdos. Esta discussão vem e volta desde os anos 80 quando uma comissão considerou que não haviam professores preparados para o ensino. E vira e meche num cipoal de teses absurdas sobre a racionalidade, reflexão ou perda disso sendo posta em risco.

Meu colega Alexandre colocou a questão em outros termos sobre a possibilidade da filosofia efetivamente promover o aperfeiçoamento moral e cognitivo dos alunos no ensino médio.  Assim: “Eu acho no mínimo ingênua a crença de que a filosofia, esta ensinada nas escolas e universidades por professores e professoras de carne e osso, torna alguém melhor, moral ou cognitivamente. Só quem tem uma visão otimisticamente distorcida da realidade do ensino de filosofia pode acreditar nisso com sinceridade.”

Além disso comentou em seguida a grande ironia desta história: “Certos comentários sobre o que Dilma disse, vindo de gente da filosofia, me parecem a prova de que o ensino de filosofia falha miseravelmente na tarefa de "fazer pensar".”

Eu comento esta passagem e problema assim: Eles estão substituindo o medo da filosofia pela filosofia do medo. Que é o que este medo de debate representa para mim também. Sem levar em conta que a grande maioria deles deve estar completamente por fora - mesmo lecionando em instituições públicas e privadas, cujo principal escopo é formar professores e pesquisadores, a respeito do Pacto Pelo Fortalecimento do Ensino Médio, sobre o SISMÉDIO e como sempre negligenciam todas as matérias pedagógicas como uma área mole do ensino.

E isso veio a calhar porque foi este justamente o debate hoje sobre o capítulo do senso moral no livro didático da Marilena. Um aluno hoje em sala de aula, após a leitura do capítulo e a partir de uma discussão sobre senso moral que avançou no debate a partir do programa mais médicos e de que lado está o senso moral se do governo que propõe e implementa o programa ou dos médicos que o recusam? O mesmo aluno que também usou como um recurso em meio ao calor do debate a anulação do mais médicos em tom  diversionista e acabou tratando, então, do Mensalão e da Petrobras sobre a política e a moralidade política e fechou sua participação dizendo que estes tempos são amorais e que toda a discussão que pudéssemos empreender, as lições que fossem possíveis construir, precisam lidar com isto. O problema é simples: qual lado passa a avaliar e ser justo em relação a situação da saúde? O governo com a proposta de solução da extrema carência de atenção básica ou a classe médica que lhe foi contrária? Eu redargui afirmando a que a percepção de amoralidade dele tem como base uma percepção impressionada da realidade política e social do país e que ele generalizava injustamente sobre muita coisa que ele desconhecia. Precisamos lidar sim com a amoralidade, mas precisamos visualizá-la também na conduta dos cidadãos e não somente de um lado da cerca, por assim dizer. Deu de ombros  e repetiu a proposição e provavelmente seguirá assim até o dia em que for desperto desta nebulosa moral em que vive. Cujos negros vapores da bile provém de um pessimismo desenfreado, uma chorumela braba, uma revolta insensata porque não trata de nenhuma das causas e somado a um misto de ceticismo cujas bases são justamente a incredulidade no outro, mas também a ausência de qualquer conhecimento mais profundo, ausência de um compromisso coletivo e de qualquer projeto de engajamento na mudança da sociedade. 

A filosofia faz ilusão na maré baixa quando supõe que seu principal trabalho é simplesmente questionar um sistema cuja lógica e função desconhece. E é bem fácil atuar numa perspectiva de negação crítica que mal dá conta da história da sociedade e do estado. Não dá mais para negar sem razões, nem sem argumentos e esta é uma conduta de senso comum, cuja contrapartida moral é não levar a sério ao outro. Para questionar o sistema e transformar o sistema é preciso compreendê-lo. A pura negação faz mais um desserviço de jogar jovens ao mundo como Dom Quixotes desarmados que se batem contra tudo que vem pela frente, sem nenhum discernimento ou reflexão para mudar na realidade aquilo que precisa ser mudado. Tratar disto no pressuposto de que tudo está errado, como um espectador sabichão que jamais fez algo neste sistema é somente uma presunção e uma soberba cujo alicerce se desmorona logo ali num confronto sem proteção coma realidade. A filosofia não torna alguém melhor moral e cognitivamente, mas pode pedir razões e argumentos em defesa de determinadas posições, pode pedir razoabilidade ali onde a insensatez é gritante e pode também tratar dos dois problemas morais e cognitivos trazendo a lembrança que um jovem hoje não é o primeiro a pensar nisto, que mais gente já pensou nisto antes e que seria bom dar uma olhadinha e um conversada sobre isto. Não há uma correção, apenas a problematização e um choque de opiniões, mas em sala de aula isso atinge tanto aqueles que defendem posições mais radicais como os que possuem aquela qualidade muito interessante de tentarem refletir moderadamente sobre as coisas. E foi isso que eu percebi em sala de aula hoje. Claro que também percebi aqueles para os quais nenhuma das posições interessa, por conta de que pouco valor dão para estes debates. E pouco interesse tem em debater diferenças e opiniões. Sendo mais cômodo para alguns não crer que a possibilidade de diálogo e o exercício de diálogo faça alguma diferença. Mas parece fazer, porque coincidiu com o tema de tua postagem meu amigo Alexandre Noronha Machado...

Além disso, eu participo também do Pacto de Fortalecimento do Ensino Médio, compartilho muitas opiniões postas sobre sua importância e que este debate vai levar à muitas tarefas recíprocas na área de ciências humanas e não sou pessimista em relação às mudanças. Temos que parar também de fazer mistério glorioso com a filosofia. Tem muito professor de outras disciplinas que consegue compartilhar e debater filosoficamente e rigorosamente.


Por fim, eu coloquei este exemplo, porque de fato ocorreu hoje. E ainda é uma turma de terceiro ano que já me colocou às voltas com a teoria de Kolhberg, a partir de um filme em que a discussão em termos morais foi reduzida a vingança e onde um aluno tem extrema e persistente dificuldade prática e teórica para aceitar como razoável a saída da perspectiva exclusivamente individual e adotar uma conduta com respeito ao coletivo, às regras e á autoridade.

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