segunda-feira, 11 de novembro de 2013

HANNAH ARENDT E MARTIN HEIDEGGER

HANNAH ARENDT E MARTIN HEIDEGGER:
PEQUENO ENSAIO SOBRE A
 FILOSOFIA, O AMOR E AS IMPOSSIBILIDADES -


“Há uns que nos falam e não ouvimos;
há uns que nos tocam e não sentimos;
há aqueles que nos ferem
e nem cicatrizes deixam,
mas... há aqueles
que simplesmente vivem
e nos marcam por toda vida"
Hannah Arendt


“Todas as mágoas são suportáveis, 
quando fazemos delas uma história
ou contamos uma história a seu respeito.”
Karen Blixen (ou Isak Dinesen):


       Quando leio Hannah Arendt (1906-1975), não vejo nela uma filósofa menor que Martin Heidegger (1889-1976). E não se trata de afirmar ou repetir retoricamente o gigantismo de ambos, o que não cabe aqui, mas simplesmente de reconhecer a forte e marcante impressão de ambos. Para qualquer leitor deles medianamente informado e criticamente posicionado a leitura de suas obras traz grandes surpresas, muitas descobertas e coloca o nosso pensamento em uma dimensão que certamente é da boa filosofia. Nenhum dos dois é um repetidor, um reprodutor ou um mero exegeta ou intérprete das filosofias anteriores ou que lhes são contemporâneas. Em ambos, percebo claramente um pensamento novo, um pensamento diferente e que acrescenta algo na compreensão do fazer filosófico, do pensamento humano e deste mundo.

           Em relação ao panorama filosófico no qual os dois se inserem seja no século XX, seja na história da filosofia, vista de um muito largo e longo plano histórico de observação e estudo, é indubitável que ambos figuram com grandeza em suas áreas de investigação, atuação e reflexão. E podem com certeza pertencer com suas obras e ideias, problemas e investigações àquilo que meu estimado professor Ernildo Stein chama de um Cânone da filosofia.    

         Reconheço a grandeza e o gigantismo de Heidegger, que se projeta para toda a história da filosofia – com todos os riscos que toda forma de grandeza acarreta - e estou muito distante de algum dia mudar de opinião sobre isto e a cada leitura, à cada releitura, tendo a ficar mais convicto de sua importância filosófica. Ao mesmo tempo, à medida que o tempo passa, à medida que minha formação se dilata pelo conhecimento de outros autores vão se confirmando as fortes impressões de que suas teses principais de Ser e Tempo, aquela do esquecimento da questão do ser e aquela da necessidade de se retomar certa compreensão da finitude, se tornam mais e mais fundamentais na leitura da história da metafísica e da filosofia. 

   Apesar do oceano de incompreensão e de dificuldades para compreendê-lo, a partir de um olhar mais influenciado seja pela escola analítica, seja pela filosofia da lógica e da filosofia da linguagem, seja mesmo pela hermenêutica e pelos esforços contínuos que são produzidos contra ele em função do seu período de reitor do nazismo – seu pecado ou erro político de ser o reitor por dez meses de uma universidade, não reconheço como razoável o julgamento da grandeza da obra Ser e Tempo (1927) ou da preleção O que é Metafísica? (1929), entre outras, como dependendo do valor ou do baixo valor da sua escolha ou de seu gesto de 1933.

    Aliás, tem ocorrido com freqüência na história da filosofia que a infelicidade política deste ou daquele filósofo tenha lhe impingido a incompreensão ou mesmo uma espécie de esquecimento forçado, um exílio forçado, no mais das vezes por uma leviandade e, também, esta sina que parece envolver todo o pensamento do diverso neste mundo. Desde antes de Sócrates mesmo, após ele e com muitos outros filósofos isto tem ocorrido. De tal modo que pareceria razoável em primeiro lugar aos próprios estudantes de filosofia, aos professores de filosofia e aos autodidatas na matéria – e mesmo aqueles que são tratados como filósofos ou que se auto denominam em tais ocupações e com tais atributos – mais cuidado nestes juízos condenatórios ou avaliativos. E ainda que alguns tenham obra tão notável, fundada simplesmente na crítica à obra de outros, nem mesmo estes obtém qualquer triunfo ou glória objetiva ao fazerem o que é feito com Heidegger ou Hannah Arendt. 
 
        O fato ocorrido em 1924 de que Heidegger, um professor de filosofia, casado, pai de dois filhos, com 35 anos, se envolve amorosamente com uma aluna, de 18 anos apenas, e que com esta assimetria de idades e de posições em relação também à filosofia, esta relação persiste, não pode ser, por outro lado, somente um enredo de curiosidades e de detalhes de um relacionamento peculiar ou picante, como tem sido tratado também por ai. Ambos, independente disso, contraíram muitos inimigos. Ele por conta de sua simpatia, aproximação, adesão ou flerte com o nazismo, que passa pela Reitoria da Universidade de Freiburg, e ela também por conta de suas críticas a uma certa forma de semitismo em seu Eichmann em Jerusalém. Ou seja, ambos com suas liberdades de escolha e com seus próprios juízos conseguiram a façanha de atrair a atenção negativa e os juízos condenatórios por conta da questão judaica e da questão nazista.

        Também reconheço a grandeza do pensamento filosófico e político de Hannah Arendt que se projeto sobre toda a filosofia política e com certeza suponho que suas obras merecem nossa vista quando quisermos compreender, explicar ou fazer uma revisão crítica das mazelas da política e do pensamento político no século XX. 

          A verdade é que mesmo que os dois não tivessem uma relação, receberiam ambos diversos ataques por suas posições e condutas. Mas não ficou só nisso, ocorreu também que a “aluna judia” e o “professor nazista” tiveram um caso amoroso.  Disto passar-se para a polêmica não é um passo, é num piscar de olhos.

          Ao pesquisar um pouco este tema me dei conta de um pequeno detalhe: seria injusto dizer aqui que a nenhum dos seus grandes críticos, pela questão nazista ou judaica conhecidos, foi dada a honra ou constituído o mérito de produzir uma obra fundamental seja em metafísica e filosofia, seja em política ou em história, mas também é injusto medir a qualidade da obra de ambos pelas mesmas questões.

       O caso é que ambos, apesar de seus inimigos, críticos, detratores, se tornaram fundamentais para o pensamento do século XX, ainda que de formas diferentes e a partir de pontos de vista diferentes. Assim, apesar deles acabarem tendo que tomar caminhos diferentes, em parte por opção dele e de outra parte pelo rumo dos acontecimentos, os quais como forças do destino guiaram os dois existencialistas para direções opostas, um para o exílio nos EUA e o outro para Reitoria e a adesão ao Nazismo, isso não reduz a importância do seu encontro.

 E mesmo assim este envolvimento se perpetuou por 50 anos, o que deve dizer algo também sobre os dois e sobre a filosofia dos dois, apesar das impossibilidades que se concretizaram e das virtualidades que se consagraram ao longo destes anos todos.

           Vou fazer um pequeno desvio inicial e intencional aqui. A palavra filosofia é sempre e geralmente cunhada e analisada etimologicamente pelas expressões amor (em grego filia) e sabedoria (em grego sofia), o filósofo seria um amigo ou amante da sabedoria. Sempre preferi dizer que o filósofo é o amante da sabedoria ou aquele que tem amor pela sabedoria e sei já que para alguns isso tem um significado ultrapassado ou não corresponde às suas preferências ou predileções conceituais e lógicas. Pois eu continuo neste caminho de procurar dar sentido afetivo a esta atividade e não tenho me afastado de um encontro com ela em que além do estranhamento e admiração, o espanto – me foi dado gosto pela atividade, o qual a medida que fui desenvolvendo e praticando, se pode chamar também de um certo amor.

         Aristóteles abre curiosamente uma de suas diversas lições sobre o conhecimento afirmando que “todos os homens tem desejo de conhecimento” e que “uma prova disto é o prazer das sensações”. Já gastei e vou ocupar ainda algumas aulas abordando esta pequena passagem e procurando mostrar o quanto é preciso que esta expressão de Aristóteles seja entendida não como uma esperteza de professor que procura cativar ou capturar a curiosidade de seus alunos e a atenção deles. Mas sim porque devemos atentar como uma gigantesca e muito severa solução para o problema de demonstrar como nossa alma intelectiva se ocupa com os objetos dos sentidos, com as coisas, e tem algum prazer ao conhecê-las. E como, em uma pequena anotação agora, de uma pequena curiosidade ou admiração nós ascendemos ao conhecimento das causas últimas e primeiras e contemplamos a verdade conquistando a sabedoria. No caso aqui conquistar sabedoria só é possível com gosto, com atenção, com perseverança e se realiza sim como uma forma de amor. Com um único senão de que precisamos diferenciar o gosto pelo conhecimento do amor à sabedoria no sentido de que este último é um fim em si mesmo e que o primeiro se realiza também tendo em vista outras coisas, ainda que para aqueles que o produzem seja também um fim em si mesmo. É assim que posso diferenciar o desejo de conhecimento tendo em vista sua aplicação do desejo de conhecimento que se realiza em si mesmo, per si.   

             Assim, digo a filosofia, não é somente um processo de obtenção de conhecimento per si, mas que é um processo recíproco de conquista da sabedoria em que ocorre uma certa sedução mútua entre o sujeito e seu próprio objeto de conhecimento, ainda que este objeto não tenha vontade própria, ressalvadas as hipóteses de um outro sujeito ou de que o pensamento possa ser um grande coletivo de ideias que ao longo da história se materializam ou se instanciam neste mundo e que uso aqui como adágio de abertura deste texto, porque ali adiante isso talvez ajude a nos colocar de outra forma esta relação de Heidegger com Hannah Arendt e de ambos com a filosofia. Valendo aqui a clássica situação do amor Platônico em que ambos se amam tendo em vista um terceiro elemento que é a filosofia e que é mais amado por eles. Quem sabe, assim, se possa mostrar também que esta relação dos dois é como que mais uma narrativa também deste amor pela sabedoria em que o gosto, a paixão e o enigma e o mistério também estão presentes. O enigma de saber-se quem tomou a iniciativa e como o enredo se construiu entre o professor e a aluna e o mistério de saber o que torna tão firme o laço amoroso entre ambos, apesar de tudo.

       Jamais poderemos saber, além disso, mesmo que publiquem todos os textos, anotações, cartas, bilhetes e documentos inéditos de ambos, o que em Hannah e o que em Heidegger os aproximaram tanto em pensamento e em desejo. Assim só nos resta pegar vestígios disto que se passou e tentar narrar com cuidado e zelo o que pode ter acontecido com eles, mesclando com aquilo que foi o caso efetivamente. Quer dizer só é possível construir uma narrativa hipotética sobre fatos estabelecidos e fazendo ligações com cuidado.

Um exemplo disto é o filme recente de Margarethe von Trotta, Hannah Arendt (2012), em que ela dá atenção especial ao tema de Eichmann em Jerusalem e do escândalo crítico e leviano que se seguiu a interpretação dela da “banalidade do mal”. A direção e o roteiro tem uma elegância e uma qualidade muito boa ao enfatizar inclusive com um sinal de uma espécie de relação muito especial entre os dois, que passa para além da malícia da pergunta da grande amiga americana de Hannah, Mary Macarthy sobre o amor de Hannah por Heidegger e que no texto do filme sobre se a relação é a mais importante ou “é a melhor ( )” dela. Margarethe faz de certa forma justiça, citando Santo Agostinho pela boca de um Heidegger claramente apaixonado citando que “Não há maior convite ao amor do que precedê-lo amando.”

A versão latina de Santo Agostinho que é citada: “Nulla est enim maior ad amorem invitatio, quam praedenire amando.” Nos traz muitas evocações interessantes. Em primeiro lugar, porque esta passagem clássica, recebeu um comentário notável de nosso padre Antônio Vieira, no Sermão da Primeira sexta-feira da quaresma de 1644. Vou citá-lo aqui não por mera erudição, mas porque o seu comentário põe luz em uma dificuldade na interpretação da relação de Hannah e Martin, a qual é tocada pela doutrina agostiniana do amor. Vejamos o texto brilhante sobre a força do amor:  

“Santo Agostinho, em menos palavras não disse menos. Nulla major est ad amorem invitatio, quam amantem amore praevenire. Et nimis durus est animus, qui si dilectionem nolebat impendere, nolit rependere: O maior e mais certo motivo de ser amado, é antecipar o seu amor quem quer alcançar o alheio. Todos os outros motivos, por mais fortes que pareçam, e por mais usados que sejam, conquistam vaidade e engano, mas não verdadeiro amor. A formosura entretém os olhos, as dádivas enchem as mãos, a discrição lisonjeia os ouvidos, os regalos saboreiam o gosto, o poder e a majestade faz dobrar os joelhos; mas sujeitar e render o coração, só o amor. E o coração humano tão generoso, que não se rende senão a seu igual, nem há outro interesse, força ou arte com que se possa conquistar, senão amando: Nulla major ad amorem invitatio, quam amore praevenire. A palavra invitatio soa a invite, e o praevenire é ganhar por mão. Quem tomou a mão em amar primeiro, esse levou o resto ao amor. A razão é — diz Agostinho — porque se no mundo houver algum coração tão duro e duríssimo, que nem ame nem queira amar, nenhum haverá tão alheio de toda a humanidade — ainda que seja esse mesmo — o qual, depois de amado, não queira responder com amor: Et nimis durus est animus, qui si dilectionem nolebat impendere, nolit rependere. Notai muito aquele nolebat e este nolit. Antes de o amarem, poderá haver coração tão duro que não ame nem queira amar; mas, depois de se ver amado, há de amar e querer amar, ainda que não quisesse.”

Com esta citação cuidadosa de Santo Agostinho sobre o amor e o convite ao amor e o esperar amando, julgo que ela foi muito bem escolhida, pela autora do filme, a qual nos apresenta a força do amor entre ambos, mesmo na ausência, mesmo na espera, mesmo na distância, mesmo na diferença, o que se deu por força de muito querer de um ou de outro, não interessando, nem no filme, nem na vida real, quem, afinal? Deste modo vemos um enredo elegante e cuidadoso em que este amor é encenado e fica muito bem feito, calando as levianas leituras e superficiais interpretações deste tema, em todas as suas cinco passagens sobre o tema do affair.

A prova de interpretação deste affair é um bom desafio também para vermos quanta filosofia há na análise desta ligação entre ambos e que sentido eles construíram a partir dela. Vejo nesta análise um grande desafio também para uma tarefa de compreensão do papel inaugurado pelas mulheres na filosofia do século XX, através destas grandes personagens. Papel este que, ao meu ver, tem sido ainda negligenciado e diminuído por conta de uma forma ainda machista de ler a filosofia e, também, assim me parece por uma espécie de secundarização ou desvalorização de toda e qualquer filosofia aplicada, ou seja, uma espécie de predomínio ainda dos temas clássicos da filosofia das três grandes áreas como a Metafísica (ontologia), a Lógica (ou filosofia da lógica) e a Ética (ou Moral), em relação a uma – por assim dizer – filosofia pura. É uma característica própria destas mulheres que fizeram filosofia no século XX que elas tenham se dedicado mais a uma filosofia aplicada ao real.

Quando me coloquei, lá no início do ano este desafio, a partir de certas leituras de Simone de Beauvoir, Simone Weil, me dei conta de que parecia haver um certo esforço historiográfico para colocar Hannah Arendt à sombra de Martin Heidegger e Simone de Beauvoir à sombra de Jean Paul Sartre. É talvez apenas uma curiosidade que estes dois “casais” ou “pares” nada convencionais, sejam ambos orientados por uma filosofia cujo nome tem sido o Existencialismo e que irrompeu como um grande passo na metafísica e que politicamente se bifurcou em um Sartre Marxista ou Neo-Marxista, um Heidegger engajado no Nazismo – pelo menos por algum tempo, e tanto Hannah Arendt quanto Simone de Beuavoir promovendo – ao meu ver ainda – ambas uma revolução na política e também na temática de gênero e direitos humanos.    

          É preciso também refletir um pouco sobre o quadro geral em que se insere esta relação entre Hannah Arendt e Martin Heidegger nos idos de 1924. Além de representar um relacionamento entre-guerras, ocorre que talvez um dos temas mais presentes e debatidos no meio intelectual europeu – e em especial no meio dos alemães dos anos 20 é de uma crise na civilização, crise nas ciências, os anos 20 representam um tempo em crise para boa parte de seus pensadores. E é possível até mesmo encontrar uma espécie de mal estar civilizatório e sombrio como que marcado pelo morticínio da primeira guerra e que antevê o que ocorrerá na segunda guerra mundial. E este mal estar gera críticas contra a sociedade, contra o tempo, contra o clima espiritual e muitos  

        Penso também nesta condição feminina na filosofia. Algo que tem ocorrido e que parece colocar sempre a mulher ou o feminino na lateral dos combates da história do pensamento humano e que parece ter mudado no século XX, mas que, mesmo assim, mantém esta imagem estranha. De que há um lugar na lateral da história reservado para elas, um lugar delimitado e preservado, e que elas assim parecem ser lidas por nós ainda hoje. Não sei se uma figura ou metáfora cai bem aqui.

       Penso que não é correto ler a questão da mulher na filosofia assim, mas me vem à calhar que a guerra, a meia guerra só é vivida nas laterais da história. E não me parece que Simone de Beauvoir – para mencionar outra filósofa que merece mais atenção, tanto em relação ao seu par próprio, ou Hannah Arendt tenham, no século XX, nos debates que protagonizaram e travaram, que elas tenham vivido meias guerras. A verdadeira guerra, por outro lado, também ocorre dentro de nós mesmos. E a consciência disso às vezes nos suaviza, nos amacia e às vezes nos endurece ou nos enfurece e nos lança sobre grandes desafios. Este é o modo como vejo a grande empreitada de Hannah Arendt, desde a sua formação e tese sobre o amor em Santo Agostinho, passando pelos tratamentos do Totalitarismo, da Violência, da Revolução e, por fim, da banalidade do mal que depois em especial após as questões do anti-semitismo e da segunda guerra mundial lhe tocam até o final da vida, até meados dos anos 70.

       Nenhuma filosofia que presta, podemos anotar, sobrevive ao engano, ao engodo. Mas isso não torna de modo algum filosofias que tiveram ampla circulação ou que possuem ampla acolhida, enganos. Com a filosofia existencial, a fenomenologia e outras que saíram de cena nos últimos anos alguns julgam haver um engodo, mas isso me parece somente um exagero nas novas pretensões oficiais e acadêmicas de determinarem os paradigmas dominantes e certas linhas de pensamento privilegiadas.  De tal modo que ao flagrar um jovem refletindo de que deveria ir com calma para escolher seu objeto de investigação e seu método de predileção eu lhe disse afetuosamente que talvez ele devesse ir com calma mesmo porque poderia ser seduzido por algum método ou objeto de reflexão. No entanto, ainda que alguns vejam nela uma moda ou grandes coisa, portanto, é a mesma coisa que dizer que é um engano passageiro, ou um gosto ocasional para mim o pensamento de Hannah Arendt que me parece vivo, presente, ativo e colocado ainda no horizonte da reflexão atual.

     Posso estar enganado, sim, sempre posso estar enganado, mas creio que deveríamos olhar com mais atenção para estes fenômenos das mulheres na filosofia do século XX. Na maior latitude possível e com um ímpeto e impulso mais compreensivo do que tenho notado, observado e registrado neste pequeno empreendimento aqui.

     Hannah não é somente diferente, mas também tem sua expressão e força de pensamento que vinga e estabelece um marco no pensamento filosófico do Século XX. E o pensamento filosófico dela, ao meu ver, que fica mais apresentado não nos seus objetos de análise, sobre os quais aplica seu próprio pensamento conceitual e que são, em geral, fenômenos fatuais e históricos, políticos e sociais do século XX, mas sim onde ela apresenta o seu método e nos seus conceitos que ela desenvolveu ao longo de toda a sua trajetória intelectual que segue de 1926 a 1975.

     Assim, para mim Hannah Arendt era uma filósofa, mesmo que ela recusasse esta designação em entrevistas e em algumas passagens de suas obras. Isto não tira nenhum mérito das outras designações que ela recebe de cientista política – que é aquela que ela mesmo preferia receber - ou filósofa política, pois suas obras concorrem em muitos sentidos para a formação e consolidação de um novo pensamento político contemporâneo do século XX cuja principal característica é explicar e compreender os fenômenos violentos e totalitários e ao mesmo tempo construir uma teoria democrática para a ciência política. E esta nova teoria democrática não pode ser simplesmente afiliada ou encarrilhada nos vagões de um grande trem que seria o pensamento liberal americano ou moderno. Mesmo que se estude mais a fundo a démarche de Hannah Arendt em relação à Marx e ao pensamento marxista do século XX e suas retomadas de Kant na teoria política seria muito superficial alegar, por conta disto, que ela se resume a uma nova liberal. Eu diria inclusive que há mais filosofia no pensamento político de Hannah Arendt do que propriamente política e isto ao meu ver provém da forte influência de Heidegger e da marca desta relação dele com a filosofia. 

         “Ninguém sabe dar uma aula como você dá, e ninguém deu uma aula igual antes de você, sendo um excelente professor que dominava a filosofia como se tivesse doado totalmente a ela e como se ela fizesse parte do seu eu”. Hannah Arendt sobre o professor Heidegger.

           Mais tarde ela mesma confessa sua forte afiliação e influência filosófica na tradição alemã, não tanto na política na história ou no marxismo. Mas, a relação de Hannah Arendt com a filosofia e Martin Heidegger ultrapassa a relação de contemporaneidade ou de formação filosófica aproximada na Alemanha dos anos 20. Ele como professor e ela como aluna de filosofia e logo em seguida doutoranda em filosofia. Há um outro motivo para vermos os dois juntos e eventualmente compará-los ou traçar linhas sobre suas relações.

           Nos chama muita atenção a relação afetiva e controversa entre Hannah Arendt e Martin Heidegger. Alguns consideram esta relação com origem em um interesse e motivação intelectual que ela veio a tornar-se passional ao longo dos primeiros meses o que levou a uma espécie de afastamento de Hannah de Marburg. O interesse nisso coincide com o fato de que para ambos este período biográfico é chave. Para Heidegger é aquele de seus grande impulso para a publicação de Ser e Tempo e para ela alavanca a sua relação com a filosofia existencial que havia se iniciado com leituras e estudos de Soren Kierkegaard e Teologia Cristã em Berlin em 1924, nas lições de Heidegger de 1924-1925 em Marburg, Edmund Husserl em Freiburg 1926 e passam para Karl Jaspers em 1927-1928 em Heidelberg.

           Como se constata Hannah Arendt, a partir de sua educação básica em Konigsberg, na qual teve contato precoce coma obra de Kant, onde descobriu aos 14 anos que seria filósofa,  passou a freqüentar boa parte das mais importantes instituições universitárias alemãs em plenos anos 20 e teve como mestres e professores os mais importantes intelectuais e filósofos alemães daquela década. Assim, o interesse por esta relação pessoal com Heidegger que permanece até  o ano de 1933 com a adesão de Heidegger ao Nazismo ao assumir  a reitoria, com suas idas e vindas, não é tanto por uma curiosidade ou necessidade de invadir ou desvendar uma intimidade de uma relação pessoal entre ambos.

           O fato de Heidegger, que era casado, não aceitar pensar na ideia de se separar e a relação se manter entre ambos nos provoca uma interrogação com duas alternativas de resposta. Havia, é razoável supor, uma grande dependência de Hannah em relação à Martin ou, então, havia de fato uma dependência de ambos e a indissolubilidade do casamento para Heidegger bloqueava um vínculo efetivo, formal e público, em virtude também de suas mudanças de religião que passaram por conversão ao catolicismo e o bloqueavam a fazer mais este “giro” em sua existência.  Estou adotando aqui deliberadamente uma visão mais compreensiva, mas isto não quer dizer que não se possa pensar em que o preço pessoal tanto para Heidegger quanto para Arendt. Creio, que no fundo eles pagaram alto preço pessoal e afetivo com esta circunstância.  

         Além disso, serve para pensar o fato que foi uma relação sempre secreta, da mesma forma que foi com uma segunda aluna de Heidegger antes, haja visto que o mesmo já havia se casado dez anos antes em 1915 com Elfriede Petri, que já havia sido sua aluna também. Esta relação com Hannah que foi durante muito tempo completamente encoberta tanto por segredo, dissimulação e muito sigilo “por causa das aparências”, mas também porque eles levaram esta relação, por assim dizer em uma evolução, partindo de um primeiro envolvimento afetivo e amoroso de uns dez anos, segundo a maior parte dos biógrafos, até chegar na maturidade em uma amizade compartilhada e assentida inclusive pela esposa de Heidegger, mas que envolveu, em minha opinião e juízo, uma dependência portanto afetiva que é bem recíproca com uma natureza bem real e objetiva de ambos apesar de suas relações com os outros cônjuges próprios. Ou seja, pode se dizer sim que estes dois grandes pensadores do século XX, tanto para a filosofia quanto para a política, preservaram um relacionamento, apesar das circunstancias, tão indissolúvel quanto indissociável ali naquela esfera que interessa realmente, na esfera da intimidade.

           O outro ponto de curiosidade ultrapassa a vida íntima dos dois e passa para o tema da relação entre as ideias de ambos, sobre uma possível influência ou provocação recíproca e também – talvez aqui esteja o principal ponto de atração para o nosso interesse – desvendar a natureza dos diálogos entre ambos ao longo destes praticamente 52 anos de vida dos dois – cujo único hiato se deu com a ruptura de relações entre os dois a partir de 1933 – a posse de Heidegger com reitor - e a amizade retomada em 1949, após a desnazificação, por assim dizer. São 16 anos que o silêncio das cartas e palavras ao nosso ver não significou o silêncio do pensamento, das lembranças e quem sabe do afeto muito íntimo e pessoal entre ambos. 

        Os dois – e esta parte da história é bem conhecida e já foi muito detalhada e documentada - se conheceram na Universidade de Marburg, em 1924. Isso ocorre quando ela era uma jovem estudante de 17 anos, e ele, um professor de 35 anos que já possuía destaque e uma platéia concorrida de muitos alunos em suas aulas. Ele, que ainda não tinha publicada sua principal obra Ser e Tempo (1927), mas que já tinha ampla audiência, preferência e muita atenção dos demais professores de filosofia de sua época, incluso ai o mestre Edmund Husserl.

            Ela, segundo consta, freqüentou as aulas de Heidegger por um ano e um pouco depois disto iniciou-se um tórrido romance entre os dois.

           Mais tarde ela resolve se afastar de Heidegger e Marburg e segue para Freiburg e, então, sem seguida  é recebida por Karl Jaspers em Heidelberg (cidade que fica a Xkm de Marburg). A tese de doutoramento de Hannah, defendida em 1929 sob orientação de Jaspers, foi fortemente marcada por categorias heideggerianas segundo André Duarte e versava sobre o “conceito de amor em Santo Agostinho”. E não é possível se imaginar tal objeto de pesquisa e tal influência heideggeriana, sem imaginar a relação amorosa entre ambos e, no mínimo, uma conexão entre a temática e a sua própria vivência ou realidade.

No começo de 1926, ela não suportava mais a situação embaraçosa e decidiu trocar de universidade, indo para a universidade Albert Ludwig de Freiburg, para ter mais lições de filosofia com Edmund Husserl. Ela também estudou filosofia na universidade de Heidelberg e se formou em 1928 sob a tutoria de Karl Jaspers, com a sua tese O conceito de amor em Santo Agostinho ela marcou um tento interessante sobre este tema e sua efetividade existencial.

A amizade com Jaspers duraria até a morte do filósofo. Hannah Arendt não nasceu em Konigsberg – mas foi educada em seus primeiros anos na cidade natal e o único lugar em que o grande Kant viveu sua vida inteira – mas também estudou Kant e recebia uma educação, apesar disto, bem liberal de sua mãe que era uma viúva cujo marido havia falecido, quando a menina Hannah possuía apenas sete anos.

Heidegger disse certa vez que “a origem não está atrás de nós ela está à nossa frente”

Mas, enfim, Arendt “se as coisas tivessem seguido algum dia os trilhos corretos entre nós” ela dedicaria o livro A Condição Humana à Heidegger...  


 FIM

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