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sexta-feira, 14 de maio de 2021

O AFFAIR DERRIDA COM ALGUNS FILÓSOFOS DE CAMBRIDGE: TODOS ESCREVEM

 

O AFFAIR DERRIDA COM ALGUNS FILÓSOFOS DE CAMBRIDGE: TODOS ESCREVEM

Vivos escrevem.

Mortos escrevem.

Todos escrevem.

Esse poderia ser um silogismo derridiano para tratar do mundo intelectual e das disputas infinitas sobre quem faz filosofia de verdade ou quem atravessa as linhas de fronteira porque tem orientação equivocada ou um método equivocado de pensamento.  

Uma das maiores surpresas que eu tive nos primeiros e nos últimos anos foi que no mais das vezes as coisas não são tão simples assim ou que o buraco é sempre mais embaixo. Eu fui constatar que muitos filósofos tratados como marginais ou até mesmo pseudo filósofos pelos porteiros de entrada de muitas academias de filosofia, aqueles que fazem a conferência ou o reconhecimento de certas credenciais, ou aqueles que fazem a seleção crítica e criteriosa do que é filosofia e quem são os filósofos legíveis, validáveis e recomendáveis.

Por outro lado, a presunção que alguns tem de que os que escrevem ou pensam ou que expressam um pouco mais detidamente suas posições, não tem juízo ou responsabilidade é para mim somente uma demonstração a mais de o quanto as pessoas não querem vencer as primeiras páginas dos livros, as primeiras camadas dos fatos e as meras aparências.

Devo ser respeitoso, contudo, mas isso não me impõe aceitar toda negação fácil como refutação ou toda acusação como verdadeira. Seria muito bom que fossemos todos verdadeiros, sábios justos e honestos, mas às vezes parecem que só os outros precisam pensar e para alguns resta apenas concordar ou não...

Mas veja, sou levado a crer que não é indício de sabedoria nem de racionalidade fazer a coisa certa da forma errada. Isto é, a crítica é uma tarefa permanente da filosofia, mas não há uma lata de lixo da filosofia onde será depositado aquilo que você criticar.  

Você nunca conseguirá ser compreendido se proceder assim, pelo menos não será compreendido e nem contribuirá para a compreensão.

Você está respondendo apenas a uma necessidade própria criando uma desmedida para satisfazer sua ambição e urgência ao mesmo tempo. No confronto com a realidade a tua crítica será provada, mas a prova não virá rapidamente ou imediatamente.

Veja que quando isso depende dos demais, estais enfiando goela abaixo aquilo que tem valor e que mereceria mais mediação para ter sua dignidade preservada na crítica. Então, o método não é somente uma questão epistêmica é também uma questão essencialmente política, ética e moral.

Uma das coisas que eu mais gostei nas minhas leituras ligeiras do Derrida foi que ele usa essa abordagem chamada desconstrução para apontar aos limites da contradição daquilo que a gente chama de sentido e também da nossa lógica binária ou classificatória. Ele estica e abre o arco de interpretação do sentido, tanto no tempo quanto em relação a identidade e a intencionalidade do pensamento que é singular em uma escola ou filósofo.

Dando uma olhada nisso de novo pensei em coisas do seguinte tipo: Será que essa insuficiência não é produto de uma negação ao modo de um mecanismo de defesa ou estratégia inconsciente de boicote do outro e de auto sabotagem?

Eu tenho designado isso, a partir de experiências políticas com o poder e a autoridade, como uma espécie de paranoia de controle. Trata-se de uma espécie de patologia intelectual e política muito comum que parece ser movida por um temor de perder o controle, as fronteiras e as distinções rigorosas.  

Usamos uma lógica rígida para o outro e uma lógica alargada para a gente, digamos assim.

Acredito que o que esses camaradas acabaram fazendo com Derrida não passa de uma Patafisica. Como consta na Wikipedia a patafísica, definida como a "ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções", foi criada pelo dramaturgo francês Alfred Jarry, escritor, morto em 1907, autor de obras como Ubu Rei e Dr Faustroll.

     

O AFFAIR DERRIDA COM ALGUNS FILÓSOFOS DE CAMBRIDGE: UM COMENTÁRIO

 

UM COMENTÁRIO A CARTA

A Carta é de 1992. Me parece um tempo carregado de perturbações e o conteúdo é muito sintomático para aquela época. Não subscrevo, entretanto, nenhuma tese de Derrida, abordo aqui apenas os termos dos nossos autores dessa missiva desabonatória que é razoavelmente superficial e que exibe razões que não me parecem tão convincentes nos dias de hoje e a luz do nosso tempo atual, trinta anos após. Abordo parágrafo por parágrafo e despachadamente.

No segundo paragráfo:

“Sua influência, no entanto, foi em um grau surpreendente quase inteiramente em campos fora da filosofia - em departamentos de estudos de cinema, por exemplo, ou de literatura francesa e inglesa.”

Isso dignifica um filósofo no nosso tempo atual. Nem vou citar os exemplos que são bem conhecidos por todos aqui.

No terceiro parágrafo:

“não atende aos padrões aceitos de clareza e rigor.”

No quarto parágrafo, me lembrei de Thomas Kuhn. Posso estar, porém, errado nessa associação.

No quinto parágrafo, “os dias inebriantes da década de 1960” deram origem a muitas coisas que acredito que a filosofia ainda não resolveu. Para citar apenas alguns: a questão da paz e da luta contra as guerras, a respeito do colonialismo, a revolta anti psiquiátrica, o tema dos direitos civis, a questão do amor e a própria música do jazz ao rock e também toda a mudança dos costumes das gerações hippies e power flower, sem falar aqui do papel da juventude em confronto com os sistemas e as instituições. Onde esses filósofos estavam naquele tempo? À margem desses movimentos? Observando de suas torres a vida mundana. Lembro muito e com carinho aqui do nosso compromisso com o mundo. Nesse quinto parágrafo há um ranço com a cultura que é inadmissível para nós hoje, através da platitude contra os poetas, dadaístas e etc.

No sexto parágrafo: “a tal originalidade não dá crédito”. Ora, boa parte de nós todos hoje temos muito clara a necessidade de que se construam abordagens originais. Poder discutir a qualidade delas não pode estar dissociado do fato de que nem sempre a originalidade se mostra de um modo acabado ou assimilável pela tradição. O que mais ocorre é o contrário. A tradição tem certa aversão a originalidade e gosta mais da reprodução bem comportada e dentro do paradigma dominante.  

No sétimo parágrafo, a voz da tradição cito: “Muitos filósofos franceses vêem em M. Derrida apenas motivo para constrangimento silencioso, suas travessuras tendo contribuído significativamente para a impressão generalizada de que a filosofia francesa contemporânea é pouco mais do que um objeto de ridículo.” Sem comentários.

No oitavo parágrafo, eu adorei a seguinte expressão: “um estilo de escrita que desafia a compreensão”.

Pulo o nono para o décimo parágrafo, para encontram in fine o Pecado Capital de Derrida, ainda que sem as provas e parecendo aqui uma expressão coletiva de convicção: “Quando o esforço é feito para penetrá-lo, entretanto, torna-se claro, pelo menos para nós, que, onde afirmações coerentes estão sendo feitas, elas são falsas ou triviais.”

No décimo primeiro e último parágrafo temos a condenação derradeira: “ataques semi-inteligíveis aos valores da razão, verdade e erudição não é, acreditamos, fundamento suficiente para a concessão de um título honorário em uma universidade distinta.”

E, em síntese aqui, eu teria muita dificuldade para resumir a obra de Derrida a isso e se for isso, poderia lembrar que tal Pecado Nietzsche e outros também cometeram. Lembrando Wittgenstein aqui, Nietzsche certamente não seria bem aceito também por estes senhores.

 

Daniel Adams Boeira, em abril de 2021.

O AFFAIR DERRIDA COM ALGUNS FILÓSOFOS DE CAMBRIDGE: A CARTA

The Times (Londres).

Sábado, 9 de maio de 1992.

Senhor, a Universidade de Cambridge deve votar em 16 de maio se o Sr. Jacques Derrida deve ser autorizado a receber um diploma honorário. Como filósofos e outros que tiveram um interesse acadêmico e profissional na notável carreira de M. Derrida ao longo dos anos, acreditamos que o que se segue pode lançar alguma luz necessária sobre o debate público que surgiu sobre este assunto.

M. Derrida se descreve como um filósofo, e seus escritos realmente trazem algumas das marcas dos escritos dessa disciplina. Sua influência, no entanto, foi em um grau surpreendente quase inteiramente em campos fora da filosofia - em departamentos de estudos de cinema, por exemplo, ou de literatura francesa e inglesa.

Aos olhos dos filósofos, e certamente entre aqueles que trabalham nos principais departamentos da filosofia em todo o mundo, o trabalho de M. Derrida não atende aos padrões aceitos de clareza e rigor.

Propomos que, se os trabalhos de um físico (digamos) fossem similarmente considerados de mérito principalmente por aqueles que trabalham em outras disciplinas, isso por si só seria motivo suficiente para lançar dúvidas sobre a ideia de que o físico em questão era um candidato adequado para um grau honorário.

A carreira de M. Derrida teve suas raízes nos dias inebriantes da década de 1960 e seus escritos continuam a revelar suas origens nesse período. Muitos deles parecem consistir em grande parte de piadas e trocadilhos elaborados (' falusias lógicas ' e assim por diante ), e M. Derrida nos parece ter chegado perto de fazer carreira com o que consideramos como uma tradução para o acadêmico. truques de esfera e truques semelhantes aos dos dadaístas ou dos poetas concretos.

Certamente, ele demonstrou considerável originalidade a esse respeito. Mas, novamente, afirmamos, tal originalidade não dá crédito à ideia de que ele é um candidato adequado para um grau honorário.

Muitos filósofos franceses vêem em M. Derrida apenas motivo para constrangimento silencioso, suas travessuras tendo contribuído significativamente para a impressão generalizada de que a filosofia francesa contemporânea é pouco mais do que um objeto de ridículo.

Os volumosos escritos de M. Derrida, em nossa opinião, estendem as formas normais de bolsa acadêmica além do reconhecimento. Acima de tudo - como qualquer leitor pode facilmente estabelecer por si mesmo (e para este propósito qualquer página serve) - suas obras empregam um estilo de escrita que desafia a compreensão.

Muitos se dispuseram a dar a M. Derrida o benefício da dúvida, insistindo que uma linguagem de tal profundidade e dificuldade de interpretação deve esconder pensamentos profundos e sutis.

Quando o esforço é feito para penetrá-lo, entretanto, torna-se claro, pelo menos para nós, que, onde afirmações coerentes estão sendo feitas, elas são falsas ou triviais.

O status acadêmico baseado no que nos parece ser pouco mais do que ataques semi-inteligíveis aos valores da razão, verdade e erudição não é, acreditamos, fundamento suficiente para a concessão de um título honorário em uma universidade distinta.

Com os melhores cumprimentos,

Barry Smith

(Editor, The Monist)

 

Hans Albert (Universidade de Mannheim)

David Armstrong (Sydney)

Ruth Barcan Marcus (Yale)

Keith Campbell (Sydney)

Richard Glauser (Neuchâtel)

Rudolf Haller (Graz)

Massimo Mugnai (Florença)

Kevin Mulligan (Genebra)

Lorenzo Peña (Madrid)

Willard van Orman Quine (Harvard)

Wolfgang Röd (Innsbruck)

Karl Schuhmann (Utrecht)

Daniel Schulthess (Neuchâtel)

Peter Simons (Salzburg)

René Thom (Burs- sur- Yvette)

Dallas Willard (Los Angeles)

Jan Wolenski (Cracóvia)


quarta-feira, 28 de abril de 2021

SOBRE ALCOOLISMO

 

SOBRE ALCOOLISMO

 

O jornalista Juremir Machado fez uma postagem exemplar sobre esse tema hoje no seu perfil do Facebook.

 

Eu fiz um comentário endossando a posição dele contra a romantização do alcoolismo.

 

Álcool é droga. E deve ser usado com cuidados e muita atenção. Não há como beber todos os dias e se julgar saudável e nem tomar um porre por semana e se dizer saudável. Todos esses tipos de excessos são indícios de alcoolismo e, portanto, de doença que deve ser tratada nas suas causas. Se o sujeito é depressivo ou neurótico que busque se tratar. O resto é mesmo romantização do alcoolismo. A gente pode até demorar para entender isso. A gente pode estar em uma relação incrível com o álcool, mas isso passa e vai com o tempo se agravando. Nesse sentido, sou careta também.

 

Duas coincidências para essa postagem pertinente.

 

Basta olhar o perfil no Instagram de Anthony Hopkins, aliás um perfil muito interessante por conta das cenas, do humor e também dos momentos em que ele toca piano, bebe chá, com seu gato no colo, além das pinturas e de diversas imagens legais de momentos da sua carreira e vida. Esta é a primeira. Ele festejou com um vídeo lá, os seus 45 anos sem beber álcool. Foi alcoólatra a metade da vida quase. Logo depois de parar ganhou um Oscar por O Silêncio dos Inocentes e neste domingo ganhou o Segundo Oscar por O Pai. É o ator mais velho a ganhar o Oscar da Academia. Curiosamente nasceu na mesma cidade de Richard Burton que foi outro extraordinário ator, mas que se extinguiu no alcoolismo.

 

E hoje assisti o lançamento da editora Companhia das Letras, da tradução da obra genial de outro alcoólatra Malcolm Lowry, Sob o Vulcão. Com comentários precisos e muito bons do nosso grande escritor brasileiro Milton Hatoum. Este Malcolm faleceu precocemente sem concluir um conjunto de obras tão boas quanto esta obra prima que foi muito bem adaptada ao cinema, sob o título A Sombra do Vulcão, pelo grande diretor John Huston.

 

É uma escolha existencial, sucumbir ou não a bebida, mas quando você olha o perfil de Anthony Hopkins, pode ter certeza cabal de qual a escolha mais serena, satisfatória e exemplar.

 

 Qualquer um tem o direito de fazer a sua escolha, mas dessa escolha pelo alcoolismo não se segue nenhuma glorificação ou glamour real.

 

 Abraço.

 

P.S.: não preciso citar quantas pessoas incríveis perdemos para o alcoolismo e não quero desviar das perdas desnecessárias e evitáveis para a Covid19, em especial aqui no Brasil, graças a essa insanidade que nos cerca.

 

Na imagem #AnthonyHopkins




terça-feira, 13 de abril de 2021

ELOÍSA HELENA CAPOVILLA DA LUZ RAMOS: A PROFESSORA DA ALEGRIA

 

A PROFESSORA DA ALEGRIA




 

“(O conhecimento enferruja / Se a mente não pode amar.)”

 

Flowers and Leaves (1966), Guy Davenport.

 

Hoje é um dia muito triste para muitos humanistas e civilizados, porque faleceu a Grande Professora da Alegria, Eloísa Helena Capovilla da Luz Ramos. Foi professora estadual e do curso de História, incluso pós-graduação em História da Unisinos.

 

Todos que a conheceram tem um testemunho para dar sobre essa querida Professora da Alegria, além das muitas lições e trabalhos que ela deixou com rigor científico e espírito de descoberta. E todos vão guardar ela na memória e vão continuar vivendo, lecionando história ou outras disciplinas, com esse mesmo espírito que é invencível em questões sérias e críticas.

 

Não fui aluno dela, mas a conheci e com ela privei de alguns momentos maravilhosos que merecem registro. Eu teria muitos episódios para apresentar aqui, como exemplos da sua extrema graça e precisão. Vou citar apenas um. Íamos marcar um encontro para dialogar sobre minhas pretensões, e-mails vem e e-mails vão, todos muito preciosos para mim, e de repente estamos fechando, após abundante troca de longos textos, com um laconismo preciso, um horário para nossa conversa e ela tasca “em horário civilizado, depois das 10 horas”.    

 

Para esse pretenso historiador, ela foi de uma benevolência e generosidade muito animadora e espero poder honrar a sua influência e inspiração. Me incentivou muito a ingressar no mestrado de história a partir daquele meu trabalho memorial sobre a praça do imigrante.

 

Ela era uma das professoras de história mais incríveis e generosas que eu conheci. E conheci muitos professores e professoras de história. Pertencia a uma rara tradição na história que muitas vezes é subestimada como folclórica, quando de fato é história cultural e social.

 

Daqueles e daquelas que estudam as festas, os monumentos, as cerimônias, as sociabilidades e as dinâmicas sociais que se encenam nos palcos da vida com uma certa dose de astúcia e de benevolência perante a história da humanidade e suas idiossincrasias de classes, gêneros, identidades e etnias, sem nenhum sacrifício do rigor. É mais uma dessas pessoas maravilhosas que tinha uma sobrante luz na alma e que nós perdemos para a Covid 19.

 

Assim, este é mais um dia que amanheceu muito triste e dá sequência a essa grande tragédia que o Mundo vive. Com mais essa nota mais triste ainda para o Brasil, para o nosso estado e nossa região metropolitana de Porto Alegre que vem perdendo muitas pessoas inestimáveis.

 

Deixo meu grande abraço aos seus familiares, colegas, amigos e amigas, alunos e alunas, orientandos e desorientandos. Vamos honrar a sua memória e o seu espírito!

 

Muito obrigado Capô, por essa passagem linda e fértil de amor e conhecimento!

 

Com muita gratidão!

 

Daniel Adams Boeira, Professor de Filosofia e História da Rede Estadual.

Em 13 de abril de 2021.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

DE VERDADE - SANDO MÁRAI

 

"Um dia despertei, sentei na cama e sorri. Nada mais doía. E de súbito compreendi que não existia mulher de verdade. Nem na terra e nem no céu. Não existe em lugar algum, aquela. Existem apenas pessoas, e em todas há um grão de verdadeira, e em nenhuma delas há o que do outro esperamos e desejamos."

 

De Verdade. Sandor Márai. Tradução de Paulo Schuller. São Paulo: Cia. das Letras.

quarta-feira, 31 de março de 2021

CORAÇÃO PARTIDO: BART E O AMOR

 

CORAÇÃO PARTIDO: BART E O AMOR

 

O filme que está sendo exibido na Netflix, O Recepcionista (The Night Clerk, 2020), tem lá pelos últimos 26 minutos, um último diálogo de despedida entre uma bela jovem, Ana de Armas – a mesma que fez Joi em Blade Runner 2049,  com um jovem com Síndrome  de Asperger, muito bem interpretado por Tye Sheridan. Segue um spoiler.




 

Esta síndrome também conhecida como uma síndrome de espectro autista, uma forma de autismo um pouco mais suave e que permite alguma forma de adaptação social. Nesse diálogo, com uma jovem pela qual ele, seduzido e tocado, se apaixonou, sem receber correspondência e reciprocidade, fica claramente exposta as dores do coração partido.

 

Bart - Meu coração partiu.

Andrea - É mesmo?

B. Sim, dói muito.

A. Eu imagino.

B. Num estudo de 1993, pessoas que se diziam apaixonadas tiveram o cérebro escaneado para ver a atividade mental. O resultado mostrou cores vibrantes sobre a massa cinzenta que indicavam claramente que esse fenômeno do amor romântico libera um fluxo de dopamina sobre o núcleo caudado exatamente como a cocaína e a nicotina afetam o cérebro mostrando que o amor não é uma emoção como se julga, é um vício.

Quando essas substâncias são liberadas no cérebro, nós ficamos felizes e extasiados e a paixão pode ser tão intensa que nós perdemos a vontade de comer e dormir.

Então, é bom quando se tema  droga ou o amor. Mas quando fica sem, você sofre.

A.           Coração Partido

B.            Sim.

A.           Eu sinto muito.

B.            Os vícios são uma coisa muito perigosa.

A.           É, eu sei. Pode acreditar.

B.            As pessoas morrem de amor.

A.           `Pois é.

B.            É o fim. Elas morrem e é o fim.

A.           Bart....que se foda...Bart, sinto muito.

Eu sinto muito por tudo. Porque você é uma pessoa boa. É muito especial.

E se as coisas fossem diferentes, eu...mas não são.

Então, as coisas são assim.

Escute.

Estou feliz por ter te conhecido.

Não vou mais incomodá-lo.

Eu prometo.

Nunca mais.

Cuide-se.      

 

Ela expressa alguma piedade pelo sofrimento dele ao final, porém o que importa aqui é uma mensagem muito importante sobre amor, o tal “coração partido” e os “riscos” do romantismo não correspondido.

 

Achei excelente a forma adotada na narrativa de Bart, e toda a história e, em especial, de que nessa passagem temos uma ótima reflexão de um menino apaixonado, com Síndrome de Asperger, que olha para os seus próprios sentimentos de um modo muito objetivo e para explicar o que ele sente se serve de uma informação sobre os efeitos do amor no cérebro dos que amam que ele encontrou.

 

O diálogo resume de forma clara a assimetria e a perspectiva distinta entre o apaixonado e o objeto de sua paixão. E encerra com essa espécie de non sense declarado entre a amada que na alteridade é compassiva, mas sem conseguir oferecer reciprocidade, porque de fato não ama quem a ama.

 

Cuide-se.

quarta-feira, 24 de março de 2021

The Dark Side of the Moon – Pink Floyd

 

The Dark Side of the Moon – Pink Floyd

 

Preciso agradecer eternamente pela criação desse disco do Pink Floyd.




 

Dá para dar uma bela aula de Rock a partir dele.

 

Porque o Rock tem na sua essência esse espírito de acordar às almas e lançar elas para além do seu mundo imediato ou mesmo contra o mundo imediato.

 

Eu escuto muita música desde menino.

 

E gosto de todo tipo de música.

 

Até deveria divulgar mais isso.

 

Incluso MPB e mais música brasileira, latino americana da vasta coleção que possuo.

 

Mas The Dark Side of The Mion, é talvez aquele disco que eu sempre escuto na hora de trocar o disco e transcender esse ruído ambiental e os pensamentos circulantes.

 

É como um lançamento para o infinito.

 

Somos todos mortais e a única coisa que poderá restar de nós serão as boas obras, as boas palavras e os bons sentimentos de nossos corações.

 

Quem não entende isso ou não sente isso é apenas digno de nossa benevolência, de alguns silêncios e....sim... perdão.

 

Todos passarão...

 

Mas é possível passar melhor por esse mundo.

 

Não custa tentar e ajudar os outros a tentarem, se assim eles quiserem.

 

Goodbye!

sábado, 20 de março de 2021

TRUE DETETIVE E KANT - REVISITADO NA PANDEMIA

 

TRUE DETETIVE E KANT




 

Entre tantas citações possíveis em uma série extraordinária, aqui aquela que considero a melhor citação da série True Detective:

 

 "Você está enganado, a luz está aumentando e estamos vencendo as trevas..."

 

A expressão vem de uma personagem que é um aparente ex-pessimista, ex-nihilista que é mais um convalescente se expressando para um renegado sobrevivente...

 

Rusty (Mathew MacConaughey) e Marty (Woody Harrelson) conversam no final da série sobre o céu estrelado noturno, que Rusty observava quando era menino nas noites do Alasca e sobre a única questão fundamental que é a “briga” entre as trevas e a luz…

 

Rusty, na minha opinião, dá uma reviravolta com o seu Daimon após todo o sofrimento e a batalha final contra o assassino de mulheres e crianças.

 

Essa passagem quase final da série me lembrou em muito o velho Kant: “O céu estrelado sobre mim e a regra moral em mim.”

 

E, podem criticar o maniqueísmo, mas ao fim e ao cabo tudo se resumiu ali à luta do bem contra o mal...da luz contra as trevas, da justiça contra um engodo de um psicopata, da vida contra a morte.

 

E a vida venceu!

 

Mas para vencer é preciso honrar a própria alma e sentir em si uma obrigação moral inegociável, irrenunciável e muito mais persistente, por mais desfavorável e intolerável que seja o ambiente, o balanço das opiniões ou a força das omissões e convivências com o mal e a perversidade deste mundo.

A SAÚDE DO POVO EM PRIMEIRO LUGAR E O PESADELO DO MEU PAI – 20 DE MARÇO DE 2020

 

A SAÚDE DO POVO EM PRIMEIRO LUGAR E O PESADELO DO MEU PAI – 20 DE MARÇO DE 2020

 

Jamais imaginei que fosse viver uma experiência como essa que estou vivendo hoje com todos vocês.

 

Meu querido e amado pai Antônio, já falecido, um eletricista muito habilidoso e muito, mas muito, querido por seus amigos/as e conhecidos/as, acordou num certo domingo de 1975, se não me engano, muito impressionado, pois tinha tido um pesadelo terrível de que havia ocorrido uma guerra nuclear e que ele tinha passado dias juntando alimento e isolado, da melhor forma possível as janelas e aberturas de nosso apartamento.

 

Ele me contou esse pesadelo quando eu tinha dez anos e era um menino muito mais atento e imaginativo do que sou hoje. Ele contou o sonho com detalhes inesquecíveis para mim. Suponho que contou também para outras pessoas. Algumas que inclusive vão poder ler isso aqui e testemunhar sobre o sonho do Antoninho. Ele, disse inclusive que no sonho havia adaptado um ar condicionado para filtrar o ar com uma espécie de condensador muito especial que impedia a entrada de radiotividade em nosso apartamento. O pesadelo ganhou requintes de detalhes com diversos outros acréscimos dele que envolviam os esforços de todos os moradores do nosso prédio e de nossa cidade em fazer a mesma coisa para se protegerem de uma nuvem de radiotividade gerada no bombardeio acidental entre os EUA e a URSS. O telefone vermelho não funcionou. No final da narrativa desse sonho estavam eu e ele, minha irmã Rachel e meu irmão Rafael sentados no sofá num domingo de manhã com os olhos arregalados e agarrados ao meu pai. Simplesmente porque ele disse que o sonho terminava assim e que quando ele acordou lembrou de tudo porque a última hora ele estava com seus filhos no sofá. Já lembrei desse sonho muitas vezes, mas agora ele faz muito mais sentido. Em parte por que ele não está aqui e eu queria muito que ele estivesse para nós ajudar e nos proteger com seu amor, mas também porque hoje, nessa hora da nossas vidas, eu estou aqui com minha filha Antônia vivendo no mundo real e não num sonho algo muito parecido e que é tão terrível quanto aquele sonho. Espero que as palavras abaixo toquem mais os corações de vocês do que as anteriores.

 

A primeira prioridade agora é a saúde das pessoas e inclusive a saúde mental de todas as pessoas. Temos que olhar para as vidas do nosso povo com muito respeito e cuidado. Ajudar o ministério da saúde, a Secretaria estadual da saúde e a Secretaria Municipal da Saúde a fazer isso é muito importante. Devemos pensar todos que nós vamos sofrer, mas que alguns trabalhadores e trabalhadoras vão sofrer muito também ao cuidar de nós e de nossos familiares e também ao ter que testemunhar o nosso sofrimento e sofrerem juntos diuturnamente. Imaginem isso, meus amigos e amigas.

 

Então evitar o contágio e a disseminação desse vírus é apoiar quem tem a tarefa de combater esse vírus e aceitar que adotar a conduta correta é apoiar aqueles que tem a responsabilidade intransferível de tentar reduzir os danos e o sofrimento do povo brasileiro. E isso vale para funcionários e gestores públicos também.

 

Considero um ato de extrema maldade de alguns que passam o tempo todo tentando desacreditar ou desconstituir o trabalho e o grande esforço dos outros. É um tremendo desrespeito e perversidade. Num momento normal já é grave e injusto, canalha e um sinal de covardia fazer isso, seja através de fake news, seja através de críticas fúteis e levianas, seja através da reprodução de informações erradas ou de distorções dos fatos. Nenhum gestor ou profissional é infalível - diga-se de passagem isso, nenhum de nós é infalível, porém é uma maldade tremenda atacar gratuitamente ou maldosamente os trabalhadores e os gestores públicos por esporte ou irresponsabilidade.

 

Não dá, por isso, para perder tempo em fofocas e nem gastar energia em brigas de bugios ou tentando o tempo todo responder a esses idiotas. Esse tempo precisa muito ser utilizado no encaminhamento de soluções e também de medidas positivas. O irracionalismo desses ataques é tamanho e improdutivo e quem faz isso esquece que a sua vida está praticamente nas mãos, no coração e nas mentes dos trabalhadores e dos gestores. Os trabalhadores do estado das áreas de assistência social e segurança pública, manutenção e distribuição de energia elétrica e água. Também os trabalhadores e trabalhadoras que vão manter a infraestrutura de nossas estradas e outras e aqueles que farão a retaguarda administrativa, financeira e legal dos serviços essenciais de estado.

 

E isso inclui também trabalhadores de pequenas, médias e grandes empresas privadas, como  por exemplo, os motoristas de ônibus, o pessoal da limpeza pública, os trabalhadores da segurança pública privada, os trabalhadores dos postos de gasolina, as cozinheiras, os porteiros e porteiras, os condutores de trens, todo esse gigantesco exército de trabalhadores que irá manter os serviços essenciais enquanto nós nos protegemos do vírus trancados em casa. Pensem em todos eles e agradeçam a dedicação deles. Protejam eles, protegendo a vocês também. Tenham respeito. Eu tenho certeza que seremos mais fortes juntos e colaborando uns com os outros.

 

Precisamos ser muito solidários e firmes. Isso vai dividir definitivamente o joio do trigo entre nós, mas poderá também educar nossos filhos e filhas, aliviar a dor de muitos e a nossa.

 

O Brasil está em alerta máximo. Esse alerta não é fantasia ou histeria. É real. Quem não entende isso está em negação. E essa negação fará muito mal a eles e seus próximos, mas também aos desconhecidos e anônimos que vão tentar nos proteger, nos servir, nos cuidar e nos salvar. Pensem muito nisso.

 

Todas as posições do Ministério da Saúde recomendam que as pessoas vão para casa e fiquem em casa nesses próximos 15 dias. E apesar do presidente trapalhão e dos seus seguidores irresponsáveis, isso está absolutamente correto e devemos acatar isso em respeito a todos os brasileiros independentemente de nossos gostos e preferências.

 

Muitos estados tomaram medidas atrasadas e outros bem avançadas para impor isolamento, recolhimento e quarentena. Onde isso né foi acatado o resultado será pior, muito pior. Mas será dolorido para todos. Não vamos escapar dessa dor.

 

Muitos municípios parecem estar esperando e outros estão agindo. Ora, penso que o problema econômico será muito maior se aumentar o contágio e a disseminação do vírus.

 

Até mesmo para recuperar a economia, quanto menor for o impacto em massa do vírus, melhor será a recuperação porque os prejuízos na rede de saúde também vão para a conta humana e econômica. E o sofrimento não será só simbólico, será real e trará danos às famílias, aos colegas de trabalho e aqueles que prezam por suas relações sociais e humanas.

 

Então, meus amigos e amigas que tem empresas não essenciais, nos ajudem, pensem em tá dia nós e fechem tudo e só mantenham serviços essenciais de segurança, saúde, assistência e garantam a distribuição e comercialização de alimentos e o seu transporte.

 

Garantir a circulação somente em extrema necessidade ou para garantir esses serviços prioritários e o abastecimento necessário para a sobrevivência de seus familiares ou dependentes.

 

Devemos cuidar muito uns dos outros e usar esse momento para fortalecer nossos laços e nossa humanidade.

 

E enfim pessoal, estaremos todos nós no mesmo sofá abraçados num domingo de manhã esperando esse pesadelo acabar com nossos filhos e filhas, com nossos irmãos e irmãs, com nossos pais e avós, com primos e amigas, colegas e desconhecidos.

 

Podemos nos salvar muito mais fácil juntos e com esse sentimento de solidariedade, carinho e conforto. Mesmo na distância e isolamento necessários, mas que por aqui nos coloca definitivamente tão distantes, mas tão próximos uns dos outros.

 

Com esperança, com muito respeito e carinho, muito obrigado.

 

In memoriam de meu pai Antônio Boeira Sobrinho (1941-2012) que completaria 79 anos em 14 de abril de 2020.




 

P.S.: A imagem é do meu pai em 1997. Retirada de uma entrevista ao Jornal Vale dos Sinos em que ele explicava a reforma da Sociedade Orpheu e a nova instalação elétrica que ele estava realizando como eletricista, 40 anos após ter feito a instalação elétrica em 1957 como aprendiz de eletricista aos 16 anos de idade. Meu pai veio para São Leopoldo de Vacaria, onde nasceu em 1941, em busca de uma vida melhor. Aqui estudou, viveu e trabalhou a vida inteira. Começou a trabalhar de eletricista com seu tio homônimo Antônio Boeira, fez um curso técnico no Instituto Parobé e atuou nessa profissão até seu último ano de vida, antes de um AVC cerebral em meio a uma cirurgia de implante de uma segunda prótese no quadril.

sexta-feira, 19 de março de 2021

MAIS FAKENEWS EM SÃO LEOPOLDO = 19 DE MARÇO DE 2020

 

MAIS FAKENEWS EM SÃO LEOPOLDO - 19 DE MARÇO DE 2020

 

Tem uma criatura ou indivíduo determinado que agora está disseminando notícia falsa em São Leopoldo. E é recorrente que essa criatura faça isso. As pretensões políticas deste indivíduo fazem uso de atitudes inescrupulosas e irresponsáveis. Isso é um abuso que perturba a ordem pública e é um desserviço a saúde pública.

 

É o mesmo covarde e irresponsável que tentou transformar uma situação grave e dissociada de meningite a um surto viral na cidade no ano passado. É o mesmo que promoveu ataque misógino na câmara de vereadores e foi processado por isso.

 

 Isso é crime!

 

Não há nenhum caso até este momento de suspeita, ou de internação ou também de óbito de covid-19 (corona vírus) em São Leopoldo.

 

Então é mentira e ele está apenas insuflando pânico na cidade e na população.

 

#prendamessebandido

 

#autoridadestomemprovidencias

 

#crimesdigitais

AS COISAS VÃO TER QUE MUDAR - NÃO ADIANTA - NÃO HÁ OUTRO CAMINHO

 

AS COISAS VÃO TER QUE MUDAR - NÃO ADIANTA - NÃO HÁ OUTRO CAMINHO

 

Nós vamos sofrer e muito, mas o mundo vai ter que mudar. E o mundo só vai mudar pela ação humana e coletiva. A mudança não poderá ser só de cima determinada. Até porque é necessário mudar em cima também e muito. Não tem volta e não haverá reversão. Nunca mais as coisas poderão ser da mesma forma como tem sido.

 

Alguns ainda tem muita dificuldade para reconhecer a seriedade do problema que enfrentamos e a profundidade das mudanças nas estruturas que esse problema nos impõe com seu desafio radical.

 

Veja bem não tenho nenhuma dúvida de que um novo tempo Histórico está se abrindo. Uma nova era se inicia e aquele período Histórico conhecido como Idade Contemporânea é sucedido pela Idade Pandêmica.

 

A humanidade não tem como sobreviver sob esse sistema oco, injusto, desigual, mesquinho e desumano, sem promover mudanças sérias, profundas e bem radicais nesse sistema que chegou até aqui por força da forma como autoridades públicas, poder econômico e poder político foram se articulando nos últimos 500 anos e 250 anos. Isso terá impacto global em todas as esferas da vida humana.

 

E nós que vivemos nesse tempo vamos testemunhar apenas ou agir sobre tudo isso.

 

Aqui no Brasil por exemplo, é um momento para lembrar os idiotas que tiraram recursos da saúde acabando com a CPMF, é um bom momento para lembrar que essa política recessiva que implantou teto dos gastos públicos quase destruiu os sistemas de proteção social, educação e saúde, é um bom momento para lembrar os que privatizam e precarizam  o estado e as instituições públicas e que agora vão precisar muito delas, é um bom momento para lembrar que a proibição de concursos Públicos federais e a não promoção deles por estados e Municípios faz o nossos sistemas públicos não terem funcionários e servidores suficientes para fazer frente a uma PANDEMIA, é um bom momento para lembrar dos privilégios e vantagens de algumas castas nos serviços públicos que persistem apesar de toda pompa e desse discurso mentiroso sobre as tais reformas, é um bom momento para lembrar que os ataques a ciência, a educação e a cultura e seus personagens vão depender muito mais dessas atividades para proteger, descobrir soluções e manter uma cultura humanitária e solidária na sociedade,  enfim, é um bom momento para lembrar que tudo isso não devia ser feito, que tudo isso está errado, em especial, quando os recursos economizados ou poupados são praticamente todos drenados para os cofres de bancos, os altos salários dessas castas e a concentração da riqueza com o aumento da exploração dos trabalhadores e trabalhadoras, cidadãos e cidadãs.

 

É bom que os idiotas, os individualistas, os mentirosos, os picaretas e todos esses imbecis que são incapazes de ter responsabilidade coletiva nesse país sejam defenestrados de seus cargos.

 

É um bom momento para separar o joio do trigo e ver quem afinal de contas tem responsabilidade pública efetiva e quem jamais deveria chegar perto de algum posto de responsabilidade pública por mesquinharia, inaptidão e falta de compromisso com a sociedade e todo o povo brasileiro.

 

E isso vai acontecer dessa vez por efeito de uma trágica e muito séria seleção natural e também por efeito de extrema necessidade da humanidade.

TEXTOS DA PANDEMIA

Nesta mesma data, 19 de março de 2021, no ano passado, iniciou o período de Isolamento Social na maior parte dos estados e cidades do nosso país, incluso nossa querida São Leopoldo, com o objetivo de reduzir e evitar a disseminação do Vírus Sars-Cov II, também conhecido como Coronavírus, Corona ou Covid19. 

Considero que esse período marca uma grande mudança de perspectiva histórica, conduta social e atuação política. Tanto nas ruas quanto nas redes se iniciou uma espécie de grande luta pela vida, em defesa da vida contra o vírus e contra o que hoje é chamado correntemente de negacionismo. 

No Brasil esse combate tem algumas peculiaridades políticas muito marcantes, tendo em vista a ocupação da cadeira de Presidente da República de um representante de uma grande aliança entre terraplanistas, negacionistas, evangélicos pentecostais e militares que somados aos liberais, aos conservadores e emprenhado pro uma casat de filhotes da ditadura de 1964 a 1985 e herdeiros do regime militar.

O resultado do Golpe/Impeachment da Presidenta Dilma,  do processo da Lava Jato, da prisão de Lula e da eleição de Jair Bolosnaro está aí a olhos vistos.

Quase 300 mil óbitos por Covid19 e um longo ano de tentativas de enfretamento da Pandemia por parte de governadores/as e prefeitos/as que foram paulatinamente e continuamente boicotados pelo Presidente. Até mesmo a possibilidade de promoção de um grande processo de vacinação e imunização da população brasileira foi negligenciado.

Vou procurar, a partir de hoje, publicar nesse meu blog, dia a dia, os artigos e outros materiais e conteúdos que produzi em meio a esse um ano de luta e de enfretamento da Pandemia.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

SOBRE PORQUE ESCREVER, SEUS ELEMENTOS, COMPOSIÇÃO E UMA ANALOGIA SIMPLÓRIA COM A PINTURA E A MÚSICA

 

SOBRE PORQUE ESCREVER, SEUS ELEMENTOS, COMPOSIÇÃO E UMA ANALOGIA SIMPLÓRIA COM A PINTURA E A MÚSICA

 

Este texto é dedicado a todos que amam, aos que escrevem, aos que fazem artes, aos que educam e aqueles que ainda tem em si preservados os seus meninos e meninas, desejando que aqueles que se perderam, se reencontrem para poderem viver e deixar viver, cuidar e proteger o que mais importa que é a vida.

 

Vamos começar com algo que nos traz o desafio da linguagem, do amor e da vida combinadas, com essa pichação de mais de dois mil anos inscrita em uma parede de Pompéia:

 

"Viva quem ama,

morra quem não sabe amar.

Morra duas vezes mais quem proíbe o amor"

 

Enquanto falava de um assunto delicado das nossas vidas, que temos momentos bons e ruins e que infelizmente, após momentos muito bons e animadores podemos viver também momentos muito ruins e trágicos, eu pensava também em paralelo em mais duas coisas ou questões. E pensava isso, dessa forma aparentemente confusa, porque talvez os escritores e escritoras sejam aqueles que percebem e expressam justamente isso. Acho que esse pichador de Pompéia pensou nisso também.

 

Ou pelo menos, desde Homero temos sob nossos olhos e podemos ouvir essa descrição de uma sucessão de momentos bons e ruins se intercalando na vida das pessoas, dos personagens e mesmo dos deuses gregos de um modo aparentemente irregular, mas que é sucessivo e repetido. Depois da tempestade vem a bonança, mas também após a bonança pode advir a tempestade. A ordem aqui expressa a escolha de uma perspectiva e objetivo consolador. Como uma regra da vida aqui se revelando.

 

Se estais feliz, aproveite muito, porque poderás ter um outro momento logo depois ou mais cedo ou mais tarde de infelicidade também. Viver é suportar isso. E talvez os escritores escrevam e deem testemunhos ou criem ficções com elementos da realidade também para suportar isso ou por algum encanto com isso em suas existências. É um pathos existencial.

 

Mas a questão chave aqui é também outra. De um lado, porque escrevemos e que tipo de paixão é essa? De outro lado, me veio a associação livre entre escrever, pintar e fazer música. Portanto, podemos refletir sobre como fazemos isso e tentar encontrar algumas respostas ou candidatas a respostas ou somente algumas pistas.

 

Em todos esses casos - compor um texto, uma música ou uma pintura, temos uma atividade que consiste em compor algo a partir de um conjunto de elementos simples, complexos e variados. Essa composição envolve uma escolha do material disponível e mesmo uma procura de novos materiais. Na escrita, em primeiro lugar as letras, vogais e consoantes, mas também os sinais de pontuação e acentuação, além de todos os outros sinais e agora também escrevemos com emoticons.

 

Ou seja, na própria linguagem atual desse mundo virtual fazemos a composição também com imagens em meio ao texto ou acompanhando o texto. Os textos passam a ser ou podem ser ilustrados por signos, símbolos e ícones simples. E ainda temos os memes ou as imagens e textos de citações que servem como uma pedra de toque ou ponto de partida para compor. A arte então está na escolha, na busca, na seleção dos materiais e na disponibilidade de um acervo que envolve desde textos lidos até outras associações. O artista compõe tanto na forma quanto no conteúdo, mas também a partir de influências e remissões ou ligações a outras fontes.

 

Mas também lidamos com outros materiais como as palavras que desempenham funções de ligação, marcação e também ênfases nas narrativas ou frases. E mesmo na linguagem escrita fazemos usos de certas expressões que são quase stardards ou padrões e chaves de analogias, metáforas ou figuras de linguagem de uso muito comum. Aqui temos uma demonstração interessante da malha que a linguagem ergue com múltiplas ligações entre milhares de textos dentro de uma cultura e assim tanto o autor quanto a obra podem ser vistos como pontos de ligações entre diversos outros numa trama ou rede temporal, espacial e cultural sobre o mundo.

 

Dispomos ainda de apelidos, gírias e expressões populares em cada cultura, assim como podemos usar também expressões latinas, gregas ou estrangeiras em meio ao texto. E nem sempre isso é feito por exibicionismo banal. Muitas vezes serve para ilustrar ou marcar no texto o que chamamos de ênfases, assim como também podem marcar relações ou conexões desse texto com outros textos.

 

As formas de expressão também tem características que escolhidas dão efeitos à uma narrativa. Por exemplo, o mesmo enunciado descritivo pode ser transformado a um modo poético e ser acrescentado a ele palavras com mais ênfases simbólicas ou metafóricas. Também a retórica pode entrar aqui através de diversos artifícios como a reiteração, a inclusão de interrogação ou exclamação, a mera colocação ou adição de reticências ao final de uma estrofe ou expressão e etc.

 

Analogamente podemos fazer quase as mesmas coisas com a pintura e a música. Com mudanças nos traços e nos componentes e também com a inclusão de cores, misturas ou ruídos e sons, tonalidades e diversos timbres de instrumentos de tal modo que uma frase ou quadro ou retrato simples ganha uma outra característica ou estilo pelo leque de variações possível.

 

Minha mãe dizia que a língua portuguesa era maravilhosa porque justamente tinha uma riqueza vocabular que permitia na analogia dela tocar um piano cheio de notas ao falar ou escrever ao contrário no exemplo dela de outras línguas mais concisas e cujo vocabulário parecia ser mais estreito.

 

Bem, nem preciso exemplificar a partir dessa trama de textos acima indicada, a imensidão do universo de possibilidades já realizado na pintura e na música. Basta se imaginar numa série infinita todas as composições da pintura e da música para de ter uma ideia dessa variabilidade e margem de criação, muito ampla e ainda inesgotada.

 

Nesse ano, por certa fixação temática e obsessão com a relação entre Miles Davis e John Coltrane, andei estudando jazz, por exemplo, e cheguei na teoria do jazz modal que marcou talvez a maior contribuição de ambos em meados dos anos 50. A teoria cromática ou a exploração do modo lídio de George Russell chama atenção por ser talvez a última grande teoria inovadora da música ocidental. Você descobre que ela foi inspirada numa expressão do jovem Miles Davis que ao ser perguntado o que ele queria estudar e fazer em música simplesmente e laconicamente respondeu: todas as possibilidades. A partir disso George Russel desenvolveu sua base conceitual que está contida no livro Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization - The art and science of tonal gravity (1953).

 

Então, um escritor, um pintor e um músico, e em especial um escritor compulsivo e imaginativo nem sempre está preso as formas comuns de expressão e justamente tenta sempre avançar para outras possibilidades de expressão. Ele tenta buscar o além das possibilidades já apresentadas. Aqui, a expressão de Miles Davis de tentar conquistar "todas as possibilidades" tem analogia com um impulso característico da filosofia grega e que vai marcar a filosofia até os dias de hoje: a busca da totalidade.

 

Mas algo me levou a pensar assim. No momento em que estava escrevendo essa resposta sobre porque escrevemos e se havia alguns possibilidade de que fossemos possuídos por algum espírito que nos faz dizer ou registrar certas mensagens, me dei conta deste aspecto lembrando também de Arthur Rimbaud e seu poema das Cores das Vogais. O insight é simples e límpido aqui. Cada vogal é associada a uma cor. Podemos discutir a escolha de Rimbaud e inclusive pensar tanto nos nomes das vogais como nos nomes das cores em todas as línguas possíveis e em suas múltiplas variações.

 

Em princípio, são cinco vogais, mas há o Y que, por exemplo, pode corresponder a uma cor também, mas que não é contemplado. E, além disso, estamos muito presos aqui a dois elementos tradicionais e eurocêntricos. De um lado, as cores básicas e de outro lado não contemplamos, para contribuir no nosso alargamento aqui, as outras línguas além das gregas, latinas ou românicas. O árabe, o chinês e outras línguas tem também seus signos e mesmo símbolos próprios que são extremamente expressivos também.

 

O que se conclui disso, é que muito rapidamente acabamos sempre pulando de um elemento simples ou componente básico para algo mais composto e complexo. O impulso para uma totalidade ou essa busca de uma totalidade se traduz tanto na abertura para um tema, quanto na evolução de uma frase ou expressão, de um desenho ou esboço, de duas ou cinco notas musicais em um determinado ritmo, para uma crônica, um romance, um poema ou uma ópera, uma tela, um triptico, ou uma canção, um lied, uma modinha, um concerto e uma sinfonia..Do menor para o maior, do mais simples para o mais complexo, da frase para a narrativa extensa, de Ulisses foi para a Guerra de Tróia até a Odisséia e a Ilíada.

 

Pois bem, eu creio que é justamente aqui que nós encontramos a sentença que talvez explique esse negócio de escrever. Numa bela metáfora já conhecida, nós temos todo o universo em uma casca de noz, assim como muitas vezes temos toda uma História numa pequena estrofe que lhe serve de base, em um trecho de um poema, em um fragmento filosófico e mesmo com algum esforço de imaginação, para pegar um modo narrativo muito peculiar e extremamente elaborado, podemos construir um romance a partir de uma crônica bem feita, bastando muitas vezes abrir o que nela está subentendido ou em plena gestação, omisso ou subliminar e expor à luz de um texto.

 

Então, o que eu quero dizer é que os escritores e escritoras, em especial os compulsivos que escrevem sempre mais do que publicam e que abrem sendas inteiras em textos, ensaios, crônicas e poemas, sempre começam com uma ideia aparentemente simples e acabam expressando isso de forma mais extensa.

 

Porém, há também aqueles que vão ruminando em suas cacholas por meses e até anos até começarem a por em palavras aquilo que era apenas uma ocupação mental quase silenciosa. Então, esse começam em algum ponto e vão evoluindo de tal modo que aquilo se apresenta em um texto, em uma composição e etc. E alguns até pensam muito na forma de fazer isso. Pensam no modo como vão construir e também selecionam modelos e esquemas alternativos até darem fim a essa composição. Eu creio que o mesmo acontece também com músicos e pintores e que, mudando o que precisa mudar ou usar para isso, eles vivem algo semelhante.

 

Tem um argumento que pode ser aposto aqui contra essa abordagem, aliás bem mais de um argumento, porém eu acredito também que isso tudo possa ser uma experiência mais consciente e menos consciente e que na qualidade não faz diferença alguma. Porque tanto os racionalizadores desse processo quanto os mais intuitivos e aparentemente inspirados acabam escrevendo, pintando ou compondo algo que nos fascina igual e na recepção das suas obras as considerações sobre se o processo e consciente ou não, são simplesmente desprezadas, porque o que nos encanta é a obra e aquelas emoções, pensamentos ou percepções que ela nos suscita.

 

É claro, porém, que isso não torna irrelevante a consideração de um crítico sobre esse processo todo ou mesmo o juízo de um mestre qualquer nessa arte sobre a qualidade da obra do aluno ou aluna e mesmo sobre o virtuosismo ou genialidade da sua execução, performance ou interpretação. Aqui vem a baila outros artistas que também vivenciam nos seus ofícios esses processos.

 

O ator ou atriz, o orador ou oradora, o Professor ou Professora que dá ou faz a mesma peça, discurso ou lição a cada vez com uma interpretação possível. E que reflete depois consigo mesmo, com seus pares de palco, com seus amigos, com a audiência ou com os alunos e alunas em uma interação muito especial para ir moldando aquilo até a sua perfeição ou maestria excepcional. Alguns atores e oradores, professores e senhores fazem isso de modo tão perfeito e excepcional que mesmo que repitam a mesma interpretação, por força de circunstâncias particulares e incontroláveis, cada apresentação é uma só.

 

Essa é também uma demonstração de que mesmo a cópia perfeita ou a reprodução marcadamente similar há de ser diferente, posto que os elementos de sua composição apesar de serem exercitados e selecionados, ensaiados ou escolhidos de um modo metódico, ficam expostos ao improviso, a interação com a plateia e também escapam de forma maravilhosa ao domínio do seu autor, ator ou também receptor.

 

Então, há algo de mágico nesse processo que torna essa experiência muito mais valiosa do que aparece aqueles que não percebem a sua riqueza ou que não tem sensibilidade para apreender ou imaginação para delirar com prazer nessa exposição de elementos em uma composição apresentada assim.

 

Fim

 

P.S.: Fiquei pensando em Walter Benjamim enquanto escrevia os últimos parágrafos. Mas não fiz nenhuma questão de pegar o livro na prateleira para ajustar ou trazer alguma questão do seu clássico e extraordinário A Obra de Arte na Época da sua Reprodutibilidade Técnica.

 

Isso não significa que não deva ser lido ou que seja descartado por mim. Muito antes pelo contrário. A única ideia dele que me cabe aqui e que é sagrada para mim é a da existência de uma "aura" na obra de arte. Na tese dele a aura pode ser perdida com a reprodução. Perder a aura é quase o mesmo que perder o significado. Ou seja, quase ocorre aqui o que ocorre se repetirmos uma palavra mil vezes. Restará só o seu som - o seu corpo físico, mas o seu sentido ou corpo espiritual desaparecerá.

 

Eu desconfio sim que ela, a aura, pode ser perdida, mas também desconfio que muitas vezes ela sequer pode ser apreendida. Porque aqueles que poderiam lhe apreender o sentido perderam seu corpo espiritual - que talvez seja a imaginação livre e sem censura - ou na expressão do pichador de Pompéia não sabem amar. E isso, essa constatação, é de uma tristeza imensa para mim.

 

Porque ela não será aprendida quando a técnica e a reprodução mecânica e automática da vida for tão violenta de tal modo que a sensibilidade humana tenha sido completamente vampirizada pelo sistema e tenha tornado cada um de nós apenas um consumidor grosseiro de coisas, com suas manias próprias, suas drogas próprias e completamente incapaz de perceber a aura no próximo, em suas obras e em suas vidas.

 

Essa neutralização ou supressão do espírito pela mecânica social se apresenta de forma brutal no holocausto e em outras experiências terríveis da humanidade, mas também no uso instrumental do outro e na alienação de si mesmo. E até mesmo um vampirismo amoroso se apresenta em meio a isso, de tal modo que aquele ou aquela que não sabe amar e que também não possui mais aura, mas apenas um simulacro, rouba ou desapropria e expolia de ti os afetos passados, os afetos presentes e os afetos futuros e joga tudo isso na lata do lixo. E é assim que toda a tua amorosidade e capacidade de amar é descartada e desprezada por quem não sabe amar.

 

Abaixo uma imagem minha bem menino num Carnaval da Sociedade Ginástica, contemplando com os olhos atentos o fotógrafo e talvez olhando para mim mesmo no futuro. A minha percepção dessa imagem me mantém com as esperanças e as lamparinas acesas de que o melhor de mim menino persevera em mim adulto e quase velho.




 

Feliz dia das crianças para todos e todas!

 

Que cada um tenha em si o melhor dos seus meninos e meninas que foram um dia, porque isso também é uma arte e isso é da ordem da nossa vida.

terça-feira, 30 de junho de 2020

A DOR DE CADA UM E O NOSSO PAPEL DE CUIDAR DE CADA UM


A DOR DE CADA UM E O NOSSO PAPEL DE CUIDAR DE CADA UM

Meu pai, Antônio Boeira Sobrinho, me disse umas frases memoráveis oito anos atrás quando estava em um leito na UTI do Hospital Centenário. Estou ruminando sobre elas até hoje. E a cada ano revisito elas e me ponho a pensar e completar de novo o que ele disse, porque a época fiz um resumo tão emocionado que tremia ao escrever. Ele estava em recuperação após mais uma intercorrência provocada por seu quadro crônico de saúde. Essas frases e tudo que eu percebi de novo ali me deixaram com um certo sentimento de realidade que no fundo eu creio que todos nós devemos aprender a ter...pelo nosso bem e pelo bem dos nossos próximos.



Não é um sentimento de realidade agradável e nem confortável, mas meu pai tinha essa capacidade incrível que eu encontrei em poucas pessoas nessa vida de enfrentar o Dragão do Mundo e a Cruz da Existência com serenidade, sabedoria, lucidez e muita firmeza. Eu percebi muitas vezes em nossa íntima amizade, em nosso convívio extremamente franco e sincero que toda essa sabedoria dele encobria um espírito muito furioso e muito enérgico, cuja face suave e sorriso simpático e gracioso escondia ou controlava de forma imperativa. Sob a tranquilidade do meu pai havia um vulcão extremamente febril e em alta temperatura que simplesmente aparecia numa tranquilidade e em gestos contidos, controlados, medidos e precisos. Exatamente como a profissão dele exigia. Meu pai tinha desenvolvido desde menino por força das suas circunstâncias existenciais, familiares e sociais peculiares aquele traço não tão simples de ser Capitão da sua própria alma, como clama aquele poema que consolou e fez a fortaleza de Mandela por 27 anos na prisão. Eu acho mesmo que é dessa luta entre a sua fúria e a sua própria alma que se gerou a precisão dele com as palavras e o fato de que ele era muito lacônico e certeiro em seus atos de fala e tirocínios sobre a verdade das coisas. Talvez eu tenha virado estudante de filosofia por admirar isso nele e me perder espantado pensando nas coisas que ele me dizia e no modo como ele me dizia essas coisas. Isso não tira nada da grande conta que que eu devo a minha mãe nesses e em muitos outros quesitos.       

Ele estava internado pela terceira vez – e não seria ainda a última antes de falecer no Hospital Regina em Novo Hamburgo. Tudo ocorreu após uma cirurgia de implante de prótese no quadril que trouxe algumas complicações em virtude de suas vulnerabilidades circulatórias, respiratórias e cardíacas e alguns descuidos dele mesmo em relação às suas doenças crônicas. E eu digo isso aqui porque eu não gosto de culpar médicos ou instituições hospitalares pelos insucessos com a saúde que são resultados das nossas ações, omissões ou negligências. E digo isso não porque não exista erro médico ou negligência médica nesse mundo, mas porque quando não é o caso, é uma grande injustiça atribuir a responsabilidade a outrem pelos nossos hábitos, vícios, desleixos, descuidos ou escolhas.

Meu pai Antônio me olhou nos olhos e me mirou de cima abaixo, com alguma dificuldade, a partir da cama da UTI e me disse:

"Daniel, me aconteceu uma coisa meu filho. Acho que preciso te dizer.  Eu estava ali deitado na maca doente e aquilo tudo que acontecia a minha volta, os sons que eu ouvia, as luzes e corpos, não me parecia nada reais. Mas de repente olhei para você e eu sentia que o meu filho era real. Porque me vinha a minha vida inteira ali presente através de você. Como se fosse um ponto exterior a mim. A realidade é muito dura, meu filho. A gente gostaria que fosse diferente, mas é assim que é mesmo e a gente sofre muito e isso é de verdade mesmo, meu filho. Isso não é um sonho, ainda que pareça um sonho, porque nos deixa meio desfigurados, estranhos. A realidade é muito mais dura mesmo"

Quando a gente escuta umas frases destas, se fica muito impressionado e pensando por muito tempo nela. Fica tentando entender a mensagem e também o seu sentido mais pessoal e o significado e você se dá conta de que você não pode sofrer mesmo pela outra pessoa, se dá conta que pode sofrer junto, ter empatia e sensibilidade, chorar por ela, pegar na sua mão e lhe fazer um carinho, mas jamais poderá sofrer no lugar dela. E devemos lembrar e nos preparar, como dizia Montaigne, porque um dia vai chegar a nossa vez também. Como me disse um amigo semanas depois disso devemos ser felizes e não nos atacar mesmo por pouca coisa. E assim volto à mensagem do meu irmão: a gente tem a obrigação de ser feliz, simplesmente porque estamos vivos. E se tivermos saúde, temos que agradecer muito por ainda escapar dessa dura realidade. E talvez possamos ser o ponto de ligação entre aqueles que sofrem e a realidade exterior. Talvez possamos ser a ponte entre o sofrimento da vida e a possibilidade de sair dele ou as memórias felizes da vida deles. E quando falo deles aqui, não falo somente do meu pai, mas de qualquer ser humano que encontrarmos em sofrimento ou desalento que podemos confortar, cuidar, amparar e apoiar com atenção e dedicação nesses momentos duros da vida.

Essa mensagem vai para todos os médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, técnicos e técnicas, gestores da saúde pública que em meio a essa Pandemia são os pontos de ligação e conexão com a realidade de milhares de pacientes pelo mundo, aqui no Brasil, aqui no Rio Grande do Sul e aqui na nossa São Leopoldo, em especial no Hospital Centenário e em todas as unidades de saúde, nos locais de testagem e vai também para aqueles que aqui em nossa cidade tem a tarefa de ligar para os pacientes em isolamento ou cuidar deles como hoje já é o caso no anexo do Hospital Centenário, o Monte Alverne, cedido pelas Irmãs Franciscanas e que já está em operação e cuidando da vida de pessoas como os nossos pais, mães, parentes, amigos e conhecidos, colegas ou próximos  e desconhecidos.

Muito Obrigado!

P.S.: Reescrevi essa memória pensando em todos aqueles que não podem ter seus filhos ou próximos juntos e no fato de seus cuidadores estão ocupados em cumprir essa tarefa de serem o ponto de ligação com a vida feliz e a possibilidade de sair desse sofrimento ou de lembrar bons momentos da vida. E também como uma homenagem a todos os familiares que não podem acompanhar seus parentes e seus entes queridos nesses momentos de salvação e redenção ou nos derradeiros e infelizes momentos de despedida.            

quarta-feira, 17 de junho de 2020

O RECUO DAS BANDEIRINHAS NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL


O RECUO DAS BANDEIRINHAS NO ESTADO

A data de ontem vai ficar marcada na história da Pandemia do RS pelo recuo do Governador e pela tentativa de avançar dos prefeitos da região metropolitana no enfrentamento da Covid19.

Foi um dia em que estava colocada uma perspectiva de reversão e contenção do crescimento di contágio e da disseminação do vírus, mas que terminou muito mal. Seja pela decisão do governador, seja pelo aumento de óbitos e casos, aumento de suspeitos também e pela iminência de um colapso real do sistema de saúde do estado para os próximos 15 dias.

Ontem dei uma navegada na rede para ver como andam as cidades do Vale dos Sinos, da Serra e do eixo da BR-116, em relação aos números de óbitos e casos. Não gostei nada do que eu vi.

Faço isso a partir da visão e dos dados de São Leopoldo que entrou em estado de alerta. E que com a liderança do prefeito Ary Vanazzi não está negligenciando o perigo e está percebendo a escalada de casos e óbitos e a gravidade do caminho que s região segue.

Ao mesmo tempo, também por provocação do Vanazzi, os 38 prefeitos da região metropolitana - de diversos partidos - se reuniram on line para tratar de forma regional da situação da Pandemia, haja visto que está claro que não existe solução local, que nenhuma cidade é uma ilha, que o nível de contágio chegou nas periferias e que as cidades conurbadas da RMPA que são interligadas por transporte e com alta densidade demogräfica, não terão tranquilidade alguma enquanto não adotarem medidas e estratégias comuns para enfrentar o Covid. Surgiram muitas propostas de estratégias comuns que o Vanazzi levou a consideração dos demais e estes também apresentaram propostas. Estratégias essas que, porém, devem ir para além da testagem ou das barreiras sanitárias e chegar nos regimes de isolamento e distanciamento comuns que envolvem a única estratégia possível de evitar o colapso. Para chegar num acordo sobre isso foi montado um comitê regional.

Depois de tudo isso, que se iniciou pela manhã, eu estava jurando que o governador iria perceber os sinais e ia rever a condição de bandeira da RMPA, por conta da posição estratégica do sistema de saúde dessa região para o estado inteiro e ele vai lá e atenua as bandeiras vermelhas das outras regiões. Na completa contramão ele assim segue, do que todos os dados de crescimento de casos e óbitos indicam para o estado. Estamos a beira do abismo e o empresariado e alguns gestores de Prefeituras e do estado resolvem a essa altura do campeonato nós levar para uma situação muito semelhante a que aconteceu na Itália flexibilizar sob a consideração de que possuem controle e capacidade de suportar a velocidade do crescimento dos casos no sistemas de saúde, quando, na verdade, toda a rede de leitos de UTIs para Covid19, por hierarquia, está justamente chegando no seu limite para passar aí colapso. É nessa direção que caminham os números de crescimento de casos e óbitos.

Por causa disso, a metade desse card é a notícia, a outra metade expressa meu LUTO antecipado pela decisão de recuo do governador.

O argumento dele para recuar se baseia na apresentação de novos leitos de Covid19 nas regiões em bandeiras vermelhas. Sabem quantos leitos?

Procure saber e pense por si mesmo.

#VoltemParaCasa

#FiquemEmCasaDeNovo

#PorFavor