segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

UM REFLEXO MENOR: DAS MINHAS NOTAS AOS DISCURSOS MUITO DELIRANTES – REESCRITO DE 2015

“Quando você olhar para a lua cheia, lembre-se que esta luz é um reflexo, quase como o nosso pensamento, cuja fonte é algo sempre maior do que podemos ver. O próprio Sol é mais do que vemos e menos do que outros sóis, mas nos basta.”

Andei pensando muito no que eu sinto, no que eu vejo e no que eu penso como sempre sendo um reflexo menor do que o provoca. Não importando quantas palavras ou quanto engenho eu dedique a descrever o que sinto, vejo ou penso.

Acabei lembrando meu querido professor de filosofia, Paulo Faria que relatava em aula um texto de um físico – Henry Cavendish - sobre o que acontecia na sua frente naquele instante em uma mesa sob seus olhos, sobre a composição da matéria, a energia da matéria e a estrutura do átomo, sobre o fato da nossa mesa à nossa frente e sob nossos olhos ser composta de milhões de átomos e ainda mais longe, que estes átomos estão me movimento e vivos, e que se não percebemos isso é somente porque nosso aparelho perceptual que se compõem de visão e os demais sentidos não foi cunhado e forjado na síntese natural para perceber tais coisas.

É um exemplo claro de que nem tudo que é visto e que nossos sentidos refletem para o nosso pensamento é abarcado como informação ao nosso pensamento. E também de que devemos pensar nisso qu8e está além dos nossos sentidos não apenas como uma coisa em si inatingível, intangível e intocável, mas também como algo cujas nossas antenas, muletas e ferramentas intelectuais, sejam, estes conceitos ou equipamentos sofisticados nos ajudam a alcançar, descobrir e perceber.

Quando você olhar para a lua cheia, lembre-se, então, que esta luz é um reflexo, um reflexo diminuído do sol. E lembre-se também que mesmo o sol que vemos é diminuído ao nosso olhar perante o imensidão do sol real segundo nossa própria perspectiva pode vir a adquirir quando se avança no seu conhecimento físico.

Assim, ocorre quase como no nosso pensamento, cuja expressão é diminuída e cuja fonte é algo sempre maior do que podemos ver. Penso que esta é uma tese interessante com amplas aplicações em filosofia, estética, filosofia da ciência e também ética e metafísica.

Faço associações imediatas aqui com Goethe e Rousseau, com Walter Benjamin e o segundo Wittgenstein, cuja percepção instantânea disso parece ser sentida em uma certa fenomenologia situacional do que o Heliotropismo dos Girassóis é apenas um efeito, do que as afinidades eletivas é apenas um efeito e poderia deslindar aqui por diversas cartas e coringas apresentados por estes autores para voltar ao sentido raso do que poderia chamar de limite ou senso de que há algo além. Não vou citar mais ninguém aqui para evitar este hábito de eruditismo que creio ser desnecessário, me calando então sobre as demais idéias e influencias e sossegando a prosa ao seu objeto.

O próprio Sol é mais do que vemos e menos do que os outros sóis de outras galáxias. Não é considerado um sol gigantesco, porém, o percebemos menor do que é, muito menor é seu reflexo e sua força que para nós se mostra apenas por experimentos. Como aquele experimento de queimar uma folha de papel com a luz do sol sob uma lupa ou lente de aumento que parece restaurar a força desta luz e o calor da luz que o sol produz e que é diminuída por nossa atmosfera e pela distância cuja variável é constante e mantém um arco médio e que nosso planeta guarda do sol.

As palavras são menores que os sentimentos que as provoca e também da mesma talvez pudessem ser restauradas em seu fulgor e força por alguma lupa ou pela ruptura da redução ou diminuição que as aprisiona e me parece que é justamente isto que os poetas fazem tão bem. Eles possuem as lentes que fazem nossos sentimentos se encontrarem e que ajudam a expressar estes sentimentos com mais força.

E no amor o que sentimos sempre é um pedaço menor e refletido do que realmente nos toca ao fundo da alma como dizem os poetas. E nossa admiração silenciosa de alguma coisa, nossa intrigante interrogação sem resposta sobre alguma coisa sempre nos defronta com o mesmo sentimento de que há algo maior ao fundo ou como base do que o mero reflexo nos traz aos nossos sentidos. Parte, creio eu, sinceramente, do grande mistério da natureza está em ver aquilo que outros não viram, explicar aquilo que outros não compreenderam e considerar de outra forma aquilo que é visto apenas como banal pelos reles mortais como eu.

Quando você olhar para o seu amor, lembre-se, então, que este amor que sentes é apenas um reflexo, um reflexo diminuído do seu objeto. E lembre-se também que mesmo o objeto deste amor que vemos é diminuído ao nosso olhar perante a imensidão dele próprio, perante a sua singularidade que inclui aquilo que não percebemos segundo nossa própria perspectiva e aquilo que colocamos nela ao olhar e ao sentir.

Eu disse, em minha primeira anotação sobre isto, que o sentido disto; de que há algo maior no sol que vemos, no amor que sentimos, na visão que temos das coisas nos basta. Mas devo reconsiderar estas palavras, pois se isso nos basta ou não, é a pergunta que fazemos quando não entendemos, simplesmente, que todo nosso reflexo, pensamento ou sentido, visão ou amor é sempre muito menor que sua causa, e ainda mais mesmo quando a causa não se limita ao objeto, mas tem parte em nós e no que nós apenas intuímos por fantasia, imaginação ou paixão.

E isso, enfim, desafia nossa razão ambiciosa e nosso modesto entendimento a pensar que muito maior que a intriga, que maior que o enredo, será sempre a mente que o concebeu e que lhe deu escolhas, assim como a mente que ousa compreendê-lo e que em parte o compreende ganha ai também alguma grandeza.

{este texto parece conter somente idéias filosóficas misturadas com palavras delirantes, mas se enganam e muito, aqueles que acreditam que não há nada de pessoal, político ou histórico nele – tão grande quanto nosso engano sobre o sol, pode ser nosso engano sobre o mundo, sobre o nosso país, sobre as pessoas e sobre aquele modesto jardineiro que em seu jardim cultiva flores que desconhecemos, não entendemos ou sequer percebemos em sua singularidade o que ele está realmente a fazer, a não ser que nos aproximemos dele e vejamos mais de perto o que ele faz e aquilo que ele diz sobre o que está fazendo }


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