segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

CASE DE FILOSOFIA DA MENTE - GRATO AO GREGORY GABOARDI

Com minha leitura rápida e brejeira, que talvez seja ingênua no tema, fiquei pensando na relação entre os dois hemisférios como uma relação de duplicidade, espelhada ou não espelhada, com dependência ou independência e me lembrei da relação complementar entre nossas duas mãos ou duas pernas e também da nossa capacidade operacional com uma mão só ou uma perna só (pulando!). Me coloquei pensando também na consciência ocultada e no genial problema dela poder reaparecer ou como incidiria sobre a consciência ativa. Espero ansiosamente as respostas do David Chalmers. Muito interessante...

“David, tenho uma pergunta sobre a consciência na qual o que está em jogo parece mais do que filosófico. Espero que você não se incomode por ela ser um pouco maior que algumas das outras perguntas. É sobre meu filho. Ele está passando bem depois de uma hemisferectomia (do hemisfério direito), que foi necessária para parar com uma epilepsia catastrófica. Como você provavelmente sabe, essa operação é indicada quando convulsões intratáveis estão restritas a um hemisfério, para permitir que o hemisfério ‘bom’ se desenvolva normalmente. Hemisferectomias agora são normalmente realizadas sem que de fato se remova a maior parte do hemisfério afetado; em vez disso ele é ‘meramente’ desconectado do hemisfério bom e do tronco cerebral. Uma vez desconectado (com parte do lobo temporal removida no processo, para permitir que o cirurgião faça a desconexão) o hemisfério afetado continua a apresentar atividade em uma EEG (eletroencefalografia), incluindo convulsões.

Crianças podem ficar muito bem depois da operação; conhecemos (em um retiro anual e uma conferência para famílias afetadas) cerca de 80 outras crianças, incluindo algumas que se graduadaram em faculdades. Claramente meu filho e seus colegas têm consciência apesar de seus cérebros consistirem em um hemisfério em vez de dois. Eles não parecem ter nem um pouco a menos de consciência que aqueles de nós que têm dois hemisférios, e a plasticidade desempenha um grande papel nas suas recuperações ainda que existam alguns efeitos cognitivos permanentes, como você esperaria.

Minha pergunta é sobre o hemisfério desconectado, ainda eletricamente ativo, mas isolado do resto do corpo e da maioria, se não de todo, estímulo sensorial. Dado que sabemos que um hemisfério é suficiente para sustentar a consciência (pela evidência dos pacientes com consciência pós-hemisferectomia), devemos concluir que talvez o hemisfério isolado, mesmo com partes faltantes ou danificadas pela cirurgia invasiva, retém o potencial de alguma consciência independente? Afinal, ele continua ativo, como determinado pelas leituras de EEG; continua sendo alimentado por vasos sanguíneos, etc. Agora, no caso do meu filho, ele não seria afetado por essa outra consciência, se ela existir, dado que ela estaria restrita ao hemisfério isolado que apenas acontece de ele carregar consigo em seu crânio. E por isso que os médicos me dizem que minha pergunta é filosófica, que não tem a ver com o paciente deles/meu filho. Eu concordo — não estou preocupado com meu filho. Mas, poderia haver ‘alguém’ que pensava ser meu filho, que agora é distinto do meu filho, e que retém ciência de sua própria existência, talvez até mesmo com acesso aos estímulos do campo visual esquerdo que está ligado através do hemisfério direito? Para essa pessoa, se tal pessoa existe, a questão certamente não é filosófica. Nós (os pais; os médicos; qualquer um) temos responsabilidade para com essa pessoa? Se há qualquer consciência presente, imagino que seja uma existência aterradora, incapaz de se comunicar ou receber estímulos do corpo (realmente não sei sobre o nervo óptico, se ele é desconectado na cirurgia ou não — eles desconectam o tecido neural para que as convulsões não se propaguem, mas eles deixam os vasos sanguíneos intactos). Não está exatamente encubado, mas quanto mais eu penso sobre ele mais me parece haver algo sobre ele parecido com estar em uma cuba.

Na maior parte do tempo não me preocupo com esse outro hemisfério e com o que pode estar silenciosamente transpirando dentro dele. Ele foi bastante danificado na cirurgia, e a maioria das EEG mostra somente atividade de convulsão nele. Mas, de tempos em tempos me pergunto se podemos realmente ter certeza de que não há restos de consciência ali, e se há, se deveríamos nos preocupar com isso.

Se você tiver algum insight sobre essa questão ou algum tempo para dar uma sugestão acerca de como pensar sobre ela, eu apreciaria ouvir de você.”

Gregory Gaboardi me postou isto - verti muito rapidamente com o tradutor aqui e ficou assim - Resposta do Chalmers foi bem modesta, ele já não tem mesmo pensado em uma questão como essa e ela envolveria conhecimentos neurobiológicos que fogem ao alcance dele: "essa é uma pergunta séria que eu não tinha pensado antes. Eu não sei a resposta e não quero especular sem possuir boas razões. Acho que a resposta depende do fatos neurobiológicos sobre que tipo de funções permanecem no hemisfério desligado, e eu não conheço estes fatos. Eu ficaria muito surpreso se houvesse sofisticado as funções cognitivas. Que provavelmente iria aparecer ou se expressar através de várias medições no cérebro. Como aspectos afetivos no seu funcionamento (por exemplo, a tua preocupação sobre estar em um estado de terror), diria que isso iria também aparecer por diversas outras medições no cérebro. Se a principal atividade cerebral que aparece é uma convulsão, acho que podemos estar razoavelmente confiantes de que não há algo sofisticado ou cognitivo em efetiva atividade. É possível que haja alguns resquícios de consciência, ou mesmo de experiência visual? Eu ficaria surpreso, mas não posso descartar com certeza. Ao mesmo tempo, não posso excluir, com certeza, que os subsistemas do meu próprio cérebro tem o zumbido de fundo da consciência. Mas eu não acho que os subsistemas são muito parecidos com o que pensamos como pessoas ou como agentes morais. Do mesmo modo meu bem desinformado palpite é que para o hemisfério desligado é extremamente improvável que ele possa cumprir os critérios razoáveis para ser uma pessoa ou um agente moral. Mas somente os médicos estão em melhor posição para contar algo sobre estes fatos neurobiológicos. Ainda bem que o teu filho está bem, e desejo-lhe as maiores felicidades para o futuro.".


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