sábado, 23 de novembro de 2013

PLATÃO - NAS AULAS SOBRE O MITO DA CAVERNA FIQUEI PENSANDO EM SÓCRATES, NA JUSTIÇA E NA DEMOCRACIA



Sócrates foi condenado pelos atenienses em segunda votação e por ampla maioria, a qual foi aumentada, após suas argumentações e esclarecimentos aos seus algozes em sua própria defesa. Platão deixou estes argumentos relatados na Apologia de Sócrates. Condenado a ingerir cicuta e morrer por acusações de impiedade, ele reagiu muito bem até o final, com altivez, não se deixou quebrantar pelos adversários e acusadores, e teve completo desassombro perante a morte e as ameaças de seus inimigos durante toda a sua vida. Ao contrário de outros, em sua defesa não pediu nada, praticamente não se defendeu, pis a coisa mais próximade um pedido foi sugerir que sua pena fosse uma indenização de 30 Dracmas - uma mixaria em moedas da época, Ele passou a atacar a falta de escrúpulos e os absurdos de seus acusadores de uma forma até impressionante para qualquer advogado que zela por argumentos convincentes e convenientes. Provavelmente já sabia que a causa era perdida e pensava simplesmente em deixar claras as coisas, Assim, não pedia qualquer regalia e reagia com muita coragem. Enfrentou argumentando serenamente até o final seus algozes, sem nenhum temor ou tremor, nem pela morte, nem por qualquer outra pena. Seus discípulos sofriam e ele os acalentava lembrando a longa vida que tinha vivido. 71 anos, afinal, era bastante tempo. Defendeu  a obrigação de refletir sempre e de agir de forma reta nesta vida, defendendo a verdade acima de tudo. Dizia que uma vida sem reflexão não valia a pena ser vivida. Não temia a morte porque julgava que nada pior poderia lhe sobrevir depois de tudo que havia vivido.

Corria o ano de 399 a. C. e segundo alguns dos autores, era o mês que corresponde ao nosso mês de janeiro. Naquela época, por mais diversas que fossem as coisas, me parece razoável supor que poderíamos dividir a audiência do julgamento entre dois grupos: aqueles que compreendiam tudo que Sócrates dizia e que ou bem não aceitavam ou bem aceitavam seus argumentos e aqueles que não entendiam nada do que ele dizia. Ainda que possamos julgar aquele julgamento como revestido de um grande teor de retaliação, vingança e perseguição política, o que deveria ser um elemento que fechava os ouvidos a argumentos sensatos e impedia qualquer possibilidade de entendimento, há que se imaginar que deveria ser uma ato de muita audácia matar aquele homem. E que somente um poder superior a razão era capaz de fazê-lo e foi o que se deu. Suponho que o juízo condenatório se afastava tanto do logos que ninguém foi capaz de escrever um diálogo sequer louvando tal racionalidade, tal acribia argumentativa. A história se fez diferente neste e em outros casos, sabemos mais das qualidades do réu, das qualidades da vítima e não há uma legenda decente sequer para os seus algozes, carrascos, acusadores e inimigos.

Me parece inviável realizar ou fazer um censo dos analfabetos funcionais ou dos  seres efetivamente raciocinantes gregos daquele período, para determinar qual o perfil dos votantes que o julgaram e condenaram, mas a gente pode supor sim que ele foi morto em especial por aqueles que entendiam perfeitamente o que ele dizia e pensava, mas não concordavam com ele e que estes votos foram somados aos sufrágios daqueles que não o compreendiam mesmo sendo aqueles que o compreendiam e que constituíam uma pequena minoria resistente e principalmente constituída por seus discípulos e homens comuns de sua jaez.

Entretanto, a votação não foi algo tão notável assim. Votaram no julgamento 501 cidadãos atenienses, destes 281 votaram pela condenação em 220 foram contrários. Ou seja, 56% dos cidadãos atenienses julgaram Sócrates culpado das acusações e aceitaram a pena proposta pelo acusador. É algo para se pensar ai...que cada um pense mais em justiça, em democracia e na força das opiniões e na força dos hábitos. Talvez as profundas convicções de alguns sejam somente mais uma injustiça entre tantas da história deste mundo. Enquanto for possível pensar diferente, nós vamos argumentar... 

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