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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A FLOR QUER DIZER ALGUMA COISA


A FLOR QUER DIZER ALGUMA COISA



Olá, tudo bem?

Eu sou uma flor.

Você vê duas flores, mas eu vou falar pela minha irmã contigo.

Provavelmente você nunca conversou com uma flor, mas fique sabendo que eu também nunca conversei com um humano.

Mas hoje tive vontade de dizer algumas coisas, às vezes isso acontece, é imaginado por alguém e acontece.

E enquanto era carregada por estas mãos gentis, para minha futura dona pensei na gente.

Fui adquirida e escolhida, em meio a diversas outras espécies, para presentear a minha atual dona.

Sou agora um presente de amor.

Quem tirou esta minha foto ficou tirando fotos de mim até achar esta que ele achou legal.

É esta então minha primeira foto e estas são minhas primeiras palavras.

Isso para mim não é tão comum assim.

Minha espécie e meu filo recebem muitas deferências, tiram muitas fotos da gente, nos manipulam e nos levam para lá e para cá, mas dificilmente falamos.

Aliás, não há notícias sobre tal proeza conhecidas em nosso mundo vegetal. Salvo alguns desenhos e fantasias exageradas.

O máximo que eu faço é levar minha vida, no tempo que ela existe, na duração que ela tem.
Sou impermanente.

Na verdade, veja bem, sou parte de uma outra vida.

Sou parte de uma planta ou de um vegetal.
Mas também sou parte da vida na terra como você

A minha maior honra é saber que somos chamados de um reino e que este reino é o da flora.

Assim, devo ser importante.

Assim como você que é humano.

Eu floresço e desapareço e vem outra flor no meu lugar e floresce ao meu lado.

Com o tempo, mesmo minha planta, desaparece e ai uma irmã dela ou parente - poderíamos dizer assim? você deixa eu me expressar assim? pode ser? - aparece ao lado, se assim lhe for permitido pelo jardineiro ou jardineira ou pelos animais, inclusive você humano.

Talvez você não saiba, mas existem milhares de flores como eu que nunca viram um ser humano como você e só conhecem ou tem experiências de outros animais e outras plantas.

Muitas experiências interessantes e diferentes poderiam ser narradas aqui.

Vou ficar só nas boas.

Nós também nos damos muito bem com os minerais.

Porque eles ficam ali no lugar deles, na deles, por assim dizer.

Bem, eu vim aqui dizer para você que me acha bela: aproveite sua vida, no tempo que ela durar, porque um dia você também vai desaparecer e seu retrato vai ficar, seu selfie vai ficar, mas aquilo que deve ser mais belo de você, seu movimento, sua animação, suas cores, peles, brilhos e graças vão desaparecer.

Então, enquanto você olha para mim e me acha bela lembre-se que você é bela ou belo também e que enquanto houver alguém que te admira e que fica feliz contigo talvez faça algum sentido estar aqui.

Cresça, floresça e apareça em todo seu ser.
Este é o melhor conselho, o melhor que eu posso te dar.

Amanhã, depois de amanhã e daqui há muito tempo outros estarão no seu lugar ou no meu lugar e daí será, então, a vez deles ou delas fazerem ou não as outras pessoas, flores, animais, minerais, a vida nessa terra, mais felizes.

Te mando um perfume imaginário para que penses o quanto minha cor expressa em silêncio todo o meu ser.

Receba de mim essa beleza como um conselho.

Seja belo e seja bela, em tua vida, em tua existência.

SOBRE CONTRA INTUITIVOS


SOBRE CONTRA INTUITIVOS



Esse é com certeza um baita tema. Para a Vida, a História, a Filosofia, a Literatura e as Artes e todo resto que pudermos pensar, refletir, narrar e agir.

Ocorreu o diverso do que esperávamos. Isso nos surpreendeu por que estávamos habituados a ver o curso natural ou normal das coisas seguindo sempre em certa direção. Com nossas expectativas frustradas descobrimos, porém, como foi boa essa surpresa, porque apesar da estranheza que se abateu em muitos de nós, nós começamos a considerar, com razoável espanto, mas também certa satisfação, que as coisas podem ser diferentes.

Concluímos, então, que talvez a História inteira, muitas vidas e acontecimentos só possuem alguma originalidade e graça, contrariando a repetição tediosa das coisas, situações e papéis ao infinito, justamente por serem contra intuitivas, não se segurirem mecanicamente das mesmas causas conhecidas os mesmos efeitos. Talvez o artífice da vida e também o bom escritor ou escritora tenham isso em comum. Contrariam as nossas expectativas.

Mas também há algum refinamento naqueles que percebem essas diferenças e as compreendem como possíveis, mesmo naqueles momentos em que apenas sinais muito modestos e discretos pronunciam a reversão em algum curso dos acontecimentos. É fascinante observar isso.

Mas é mais fascinante ainda ser capaz de fazer isso e escapar do raciocínio linear e mecânico a que muitos de nós seguem prisioneiros, escravos e guiados cegamente sem maior reflexão e liberdade de pensamento.

Adoro isso.

O texto foi suscitado por um reclame da amiga, também artista nesse tema, em traduções ou na maneira de abordar as questões, minha cara Denise Botmann.

A imagem é da grande amiga que me surpreendeu e alegrou muitas e muitas vezes Marilza Alves Eches  - in memoriam.

A INDIGNAÇÃO DE LULA


A INDIGNAÇÃO DE LULA



Depoimento do criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro - Kakay

“Saímos agora do interrogatório do Lula em um processo criminal na 10 Vara em Brasília. Somos advogados de um empresário, corréu e estávamos acompanhando o interrogatório por dever profissional. Foi impressionante a postura do Lula durante a audiência. A dignidade com que se porta, a eloquência, a inteligência, a coragem no enfrentamento, a ousadia na defesa pessoal.

Ao final fez um eloquente discurso. O Procurador fez questão de frisar que não era o autor intectual da Denúncia, que era um negro vindo da periferia, quase que agradecendo ao Lula pelos avanços conseguidos pelo Governo no período Lulista. Ao final o Lula o abraçou. Ao ver esta audiência eu passo a entender por que parte deste MP político o perseguiu e o denunciou.

Passo a ter certeza da posição política, parcial, maldosa deste juiz que hoje é Ministro. Se não o prendessem não teria ninguém para fazer frente ao Lula numa eleição democrática.

Usurparam, roubaram, estupraram a verdade, a democracia. Este fascista completamente inepto, despreparado e ignorante que preside o país deve ao grupo que dá sustentação ao Ministro da Justiça ter chegado à Presidência.

Na verdade, é o mesmo grupo, este bando que leva o país ao caos. Tudo milimetricamente pensado.

Ou resistimos ou todos os avanços serão liquidados. Se tiveram a ousadia de tramar este golpe, com o Judiciário, mídia e tudo mais, não vão parar. A fibra do Lula no interrogatório e a dignidade com que se portou são um estímulo à resistência . Mesmo sem ser Lulista ou petista é necessário fazer parte de uma discussão lúcida que nos afaste deste obscurantismo e deste desastre.”

DO OSSO DURO AO CORAÇÃO


DO OSSO DURO AO CORAÇÃO

O famoso osso duro do peito fica bem no centro superior do nosso tórax, e alguns para dar demonstração de força afirmam que tem que matar tudo no osso duro do peito.

Ora, mas quem realmente segura as pontas na nossa vida é aquele que fica um pouco mais à esquerda do peito, ou da linha mediana, o nosso querido e magnânimo coração.



Esquecer dele é imperdoável e por mais forte que tu seja meu caro e minha cara, sem ele você não vai mesmo fazer nada de qualidade nesta vida.

É dele que parte o amor para derrubar toda a maldade do mundo, é dele que parte a boa vontade para desarmar o mau humor e perdoar as ofensas e é dele que partem também a gratidão e a generosidade, para dar mais ou devolver a quem merece e também para dar a quem precisa.

Essas coisas que ele faz com a gente tem duas direções. Para cima e para frente. Para cima até o nosso pensamento e para frente ou para fora em relação ao próximo ou ao outro.

Assim, a melhor resposta aos golpes da vida, a dureza do coração do outro ou a dureza do destino, às fatalidades e tragédias, às infelicidades e desconfortos, é mais amor.

Quando se aprende a responder assim não há de haver mal que não termine e mesmo a nossa compreensão se transforma em proteção da vida, da liberdade e da dignidade de si e do próximo.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O DÓLAR, O SR. MERCADO, HITLER E OS LEÕES


O DÓLAR, O SR. MERCADO, HITLER E OS LEÕES



Tem uma coisa que me chama muita atenção na maior parte das pessoas que gosta de ficar construindo boas ou más expectativas e receitas para satisfazer o Sr. Mercado. Adoram afirmar que as reformas, privatizações e controle da dívida pública resolve o problema.

Essas pessoas devem ficar imaginando o Sr. Mercado como um menino guloso, mas cheio de boa vontade e que se satisfaz com uma alimentação balanceada, equilibrada e comedida.

O primeiro problema é que o Sr. Mercado, não é um menino que foi convidado para um lanchinho ou um almoço. Se observar bem ele é mais de um personagem. O Sr. Mercado é um conjunto diverso de indivíduos. Porém, há um problema aí. Ele não é um conjunto diverso de indivíduos cujos interesses são regulados por alguma racionalidade ponderada ou justa.

É um conjunto de indivíduos pouco colaborativos e que em sua maioria são absolutamente insaciáveis. Tão insaciáveis que se observarmos mais de perto seus comportamentos veremos que eles nunca estão satisfeitos e muitos deles tem tendências criminosas e perversas e que são absolutamente despreocupados em relação às consequências dos seus atos.

Para o terror de quem me lê aqui: o mercado é na verdade uma quadrilha de serial killers. E eu não preciso dizer o que eles fazem quando não há nada que imponha a eles algum limite, regra ou punição.

Então, é de uma ingenuidade atroz aqueles que procuram dizer que estão negociando com o mercado e que vão conseguir deixar ele satisfeito ou que vai dar certo qualquer tipo de acordo com eles.

Isso, para terminar, me lembra muito a dura opinião de Churchill sobre Hitler: não há acordo possível porque você botar a cabeça na boca de um leão e acreditar que vá sair a salvo disso, é pura tolice.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

ARY VANAZZI É UM SERVIDOR PÚBLICO


ARY VANAZZI É UM SERVIDOR PÚBLICO



O atual prefeito de São Leopoldo, Ary José Vanazzi, disputa eleições desde 1988.
Eleito em duas eleições de vereador: 1988 e 1992.

Três eleições para deputado federal: 1994, 1998 e 2002. Sendo suplente nas duas primeiras, toma posse na segunda e é eleito na última.

Uma eleição na condição de vice-prefeito: 1996. Não eleito.

Três eleições como candidato a prefeito: 2004, 2008 e 2016. Sendo eleito nas três eleições.

Em 2001 e 2002 foi Secretário Estadual de Habitação.

Ora, somando os anos em exercício de mandato, devemos considerar que ele exerceu mandato público seja via eleição, seja via delegação de eleito, de 8 anos de vereador, 6 anos de deputado e/ou secretário, mais 11 anos, a completados em dezembro de 2019, totalizam 25 anos de serviço público praticamente ininterruptos e sempre legitimados pelas urnas e pela vontade majoritária dos eleitores.

Além disso exerceu mandato de Presidente da Famurs em 2012-2013 e Presidente Estadual do Partido dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul, de 2013 a 2017. Em 2019 foi eleito Presidente da Associação Brasileira dos Municípios. Nesta função, representa e cuida das pautas de interesse dos municípios de todo o Brasil.

Em todas as eleições que disputou e venceu foi reconhecido pelos eleitores e legitimado nas urnas.

Para constar, Ary Vanazzi é atualmente o prefeito da maior prefeitura do Partido dos Trabalhadores no Brasil e a cidade de São Leopoldo é a cidade com maior geração de empregos no estado do Rio Grande do Sul nos últimos três anos que equivalem a esse período de sua gestão corajosa e determinada em recuperar a cidade do caos e da destruição implantada pela gestão anterior do PSDB e MDB.

Ou seja, Ary Vanazzi serve com dedicação e exerce seus mandatos dando resultados para os eleitores e o povo de São Leopoldo e do Rio Grande do Sul.

Então, não precisa adorar ele, mas é preciso respeitar!

Contra aqueles que forjam Fake News, a verdade vai triunfar!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

AS ILUSÕES BURGUESAS DA CLASSE MÉDIA BRASILEIRA


AS ILUSÕES BURGUESAS DA CLASSE MÉDIA BRASILEIRA

– PEQUENO ESBOÇO DE UM PROBLEMA DE ANÁLISE SOCIAL –

Meu amigo, colega e Professor de Filosofia Alexandre Noronha Machado, fez uma analogia muito especial sobre a teoria de Thomas Kuhn presente na obra As Estruturas das Revoluções Científicas. Vou usar ela aqui para ilustrar talvez o que ocorre com a classe média no mais das vezes. Como ela funciona em relação a sua aderência às crenças e valores das classes superiores. Em sua adesão à burguesia e à elite.

Isso talvez sirva para explicar porque muitos mesmo na penúria, no fracasso, no aumento do desemprego, no aumento do gás e da gasolina, do diesel e da luz, no aumento da contribuição previdenciária e em todas as coisas, m....s e lixos que se escuta por aí, ainda continuam embarcados na nau dos insensatos cujo timoneiro tem mudado de Serra para Aécio, de Cunha para Temer, de Moro para Bolsonaro e deste para o que mais vier, porque é um problema de adesão a crenças.

Como diz o Alexandre, em sua analogia excelente a Thomas Kuhn:

 "mesmo que o barco esteja fazendo água, se ele ainda está flutuando, você não se atira no mar."

Trata-se, portanto, de um paradigma e talvez só uma nova geração dentro da classe média possa mudar ele. E para isso a nova geração vai ter que romper com a geração dominante desse estrato social. Será que isso é possível?

Isso dependerá da dissolução do que tenho chamado de ilusão burguesa da classe média brasileira. Para ajudar na esperança da gente. Isso já ocorreu antes. Entre 1960 e 1980. E poderá ocorrer de novo. Naquela época havia de um lado um ciclo de urbanização, industrialização combinado com ditadura militar e crise econômica. Na atual quadra ocorrem outras mudanças também. Alguns acreditam que se faz o movimento inverso. Para verificar isso precisamos olhar para o regime de adesão a crenças e examinar quais as tendências dominantes.



Uma das formas mais claras de identificar as ilusões burguesas da classe média se apresenta na sua adesão, indiferença ou aversão a determinadas causas das classes superiores ou inferiores.

O que eu chamo de ilusões burguesas aqui é simplesmente a ideia de pertencimento a elite ou a burguesia que ocorre com muita frequência com a classe média, seja por melhoria das condições materiais, seja por inserção em atividades laborais ou intelectuais mais elaboradas, seja por sedução ou alguma espécie de engajamento em que fica flagrante a fantasia de pertencimento a uma classe superior. A classe média parece ter uma identificação natural a burguesia por uma espécie de desejo de sucesso e projeto comum. A classe média olha para o burguês e a elite e pensa de forma consciente ou inconsciente: eu vou ser você amanhã.

Uma forma de verificar esse intento aparece na adesão ou defesa  de crenças que representam os interesses de sustentação desse segmento superior. Ou seja, quando ela é capaz de aderir mecanicamente em defesa das demandas da burguesia que não lhe atendem nenhum interesse material concreto.

Inversamente, observamos o quanto ela quer se afastar das condições inferiores, quando ela se comporta sendo completamente avessa a qualquer forma de solidariedade real às classes inferiores. Mas essa adesão ou afastamento não é linear em todas as questões ou pautas. Pode ocorrer que um mesmo setor ou estrato seja capaz de ser solidário em algumas causas e indiferente em outras ou avesso a outras.
Nos últimos anos, as políticas de inclusão – cotas de todos os tipos – as políticas de distribuição de renda, as políticas de universalização do acesso a educação e a saúde e as políticas habitacionais efetivas, para ficar nesses poucos exemplos de adesão, indiferença ou aversão, tem representado um teste de corte da classe média em alguns fragmentos ou setores específicos.

Para não ser brutal com a classe média inteira – o que infelizmente é uma tendência corrente - com uma simplificação e generalização que desconhece ou não reconhece suas mutações e diferenças dentro dela, vou dividir ela em três seções ou estratos. No estrato superior da classe média, aqueles que tem as tais ilusões burguesas e são conservadores de um status quo, desde que se sintam, nem que em mera fantasia, inseridos nele. Esse é o estrato conservador que avalia a ascensão social por mérito individual. O segundo estrato me parece intermediário. Ele poderia ser caracterizado como indiferente.

Mas é bom lembrar que tanto a posição conservadora quanto indiferente não é integrada ou definidora perante todas as causas. Pode ocorrer de ser avesso a uma causa e aderir a outra ou, mesmo, ser avesso a uma e indiferente a outra. Em todas as combinações possíveis em relação as causas podemos encontrar sujeitos e estratos mais rígidos e consistentes ou mais flexíveis e idiossincráticos.    
 
Essa adesão, entretanto, não se dá de forma linear porque nem toda classe média possui ilusões burguesas. Há um elemento de desagregação intraclasse que pode ser medido por influências culturais mais críticas ao establishment ou ao status quo. A classe média é confusa de um ponto de vista do seu pertencimento. Talvez essa seja uma constatação artificial e contestável, devo reconhecer, mas é o que parece. Parte do meu raciocínio e exposição de conjecturas aqui tenta explicar porquê. 

Mas tenho uma impressão, de certa forma empírica e não verificada, seja por estatística seja por observação metódica, que a classe média não constrói consciência de classe basicamente porque - ainda que essa polarização classista possa ser inaplicável aqui - porque ela sempre está num sentido de transição que pode envolver um ponto de partida Cultural ou Material e um ponto de chegada.

Ou seja, a confusão ou dificuldade de formação de uma consciência de classe específica se agrava com a aceleração de possibilidades de ascensão ou com a redução dessas possibilidades. Como esse fenômeno de aceleração e redução nunca é estável no tempo, porque envolve fatores praticamente incontroláveis e muito diversos para todos os indivíduos do mesmo segmento ou classe social, então fica essa impressão de confusão ou indefinição de consciência. O que resta é uma nesga de identidade do que se acha que é e daquilo que se quer ser.

Fatores esses que podem envolver variaco s negativas e positivas em relação a condições diversas nessa classe multifacetada, desde estrutura familiar estável, condições de escolaridade e permanência na escola e aquisição de formação profissional, condições de saúde individuais ou familiares e também acesso a informação de qualidade e relativa a oportunidades.

Todas essas questões fazem parte do que eu gostaria de chamar perfil biográfico específico do indivíduo intraclasse. 

Essa transição e esse estado dinâmico de suas posições sociais instáveis tanto para o descenso ou ascensão social é o que me parece justamente produzir essas ilusões burguesas. Fica claro e deve ser aceito como razoável que os indivíduos dentro de suas classes de pertencimento tenham desejo de ascensão social. Deve ser aceito também que este desejo se traduz em uma tentativa de pertencimento simbólico, estético e cultural a classe superior. Mas também deve ser aceito que parecer ser isso ou aquilo ou pensar ser isso ou aquilo não equivale materialmente a ser isso ou aquilo.

Nesse sentido, creio que podemos pensar sim nesse tema do pertencimento material a determinada classe social e, então, pertencer ou não a uma determinada classe social vai depender efetivamente dessa linha de corte entre classes baixas, médias e superiores. Nas classes superiores é corrente se colocar as elites e a burguesia, mas é também importante fazer uma observação aqui em relação ao termo ou categoria de elites.

Pode se pertencer a elite no sentido puro da palavra, sem pertencer as camadas superiores, porque em cada estrato social sempre vão existir ou se constituir indivíduos cuja posição em relação a própria classe original e sua posição dentro dela, podem nos levar a crer em seu caráter de elite. Não vou dar exemplos porque creio que todos que leem esse texto podem imaginar os indivíduos que possuem essa característica de ser de uma elite entre os seus iguais.

É interessante olhar assim para a classe média porque talvez se explique a baixa adesão dela às lutas dos de baixo - por um esforço de não identificação ou não aceitação de um pertencimento - e a adesão quase instantânea da classe média às demandas da camada superior burguesa ou da elite que ela almeja ser ou julga ser nessa ilusão de classe pertencer. Então, por fim, parte das ilusões burguesas da classe média está orientada pelo desejo de ascensão social, não tanto por uma consciência ideológica ou cultural, mas sim por uma adesão simbólica a características que criam a ilusão de pertencimento a classe superior ou ao almejado status social.

P.S.: Esse texto e o que ele expressa não tem caráter fechado e nem definitivo. É um ensaio que tenta acertar num ponto específico que chamou minha atenção. É apenas uma tentativa de ficar bolando essa questão das ilusões burguesas da classe média. Estará sujeito a revisão e questionamento do próprio autor ou daqueles que assim entenderem.

Daniel Adams Boeira

07/02/2020

E-mail para comentários in off: daniel_boeira@yahoo.com.br

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A DISPUTA CULTURAL CONTRA A HERANÇA COLONIAL


A DISPUTA CULTURAL CONTRA A HERANÇA COLONIAL

Eu começo a acreditar com determinação que o nosso principal desafio de conscientização da sociedade para que ela seja efetivamente justa, é tratar da estrutura de desigualdade da sociedade brasileira e desse mecanismo de restauração, reação e resistência das minorias e das elites perante a possibilidade de mudança social e da participação do povo no poder e no jogo da partilha da riqueza do nosso país.

Tratar, portanto, da herança colonial e dos costumes e hábitos discriminatórios e de submissão das elites sobre o povo e também da tradição autoritária, moralista e punitivista que sustenta essa dimensão cultural.

E é muito importante, de fato, para superar o pêndulo e deixar de lado o tal temor da Polarização e do Revanchismo, bem como, de outro lado, acabar de vez com essa pecha de que tal projeto é populista.

O antipopulismo é, no fundo, um elitismo e uma expressão de Resistência da dominação da doutrina da elite contra qualquer possibilidade do povo poder decidir o destino desse país, com liberdade, sem manipulação e em defesa da igualdade e da democracia.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O INDIVÍDUO AUTOSSUFICIENTE E AS ILUSÕES SERVIS


O INDIVÍDUO AUTOSSUFICIENTE E AS ILUSÕES SERVIS

A modernidade é marcada pela afirmação do individualismo. Muitos filósofos plantaram nesse campo ideias de autonomia, independência, autodeterminação e autossuficiência. Seria desonesto intelectualmente dizer que é tudo a mesma coisa. As distinções entre esses termos e conceitos perante a nossa existência são razoavelmente reconhecidas semanticamente ou conceitualmente e também no jogo de linguagem da nossa vida comum. Ainda que possamos nos atrapalhar com elas. 

Basta se deter um pouco para perceber as diferenças reais e o status de cada um desses conceitos nas nossas vidas ou quando são atribuídos a nós mesmos. Isso, entretanto, por mais claro que possa ser visto, não escapa ao espírito geral do individualismo moderno.

A razão disso não é intelectual, isto é, não é por conta de falta de reflexão que esses conceitos ficam embaralhados e parecem estar entrelaçados na cabeça do indivíduo. O que ocorre de fato, ao meu ver, é que o laço que une esses conceitos na cabeça do individuo envolve duas questões aparentemente dissociadas, mas que tem relações fundamentais com esse projeto de homem ou mulher modernos. Um dos temas envolve a liberdade e correlatamente a liberdade de escolha. 

O outro tema envolve a construção de um projeto de vida e a liberdade de poder fazer essa escolha de projeto com mais ou menos independência do meio, das suas relações e daquilo que, inclusive, contra a nossa vontade e desejo, o destino e a história nos impõem.

A ideia de liberdade e de projeto individual envolve uma opção pela escolha solitária de um destino e de uma vida. Mas tem um dia em que você descobre que não faz mais mesmo certas coisas sozinho. É limite do indivíduo autossuficiente que é descoberto aí.

O limite de Nietzsche sempre é atingido na vida real. Nem Zaratustra e nem o Super Homem são reais, por mais sábios e poderosos que sejam. Ambos dependem e muito de que o agricultor plante os alimentos, que o lixeiro recolha o lixo e que, de certa forma, a humanidade inteira faça algumas coisas para que ele possa eventualmente não fazer nada ou ficar só pensando.

Ele tem, ecce homo, este limite individual que foi bem demonstrado em sua própria vida. Quando olhamos mais de perto a vida dele sempre percebemos que foi dependente de outras pessoas.

A mãe, a irmã, as mulheres, os amigos, o pai morto como uma sombra que paira em sua mente, as enfermeiras e médicos dos sanatórios, pois é que seu corpo não sobrevive sozinho e sua mente não funciona sem certos cuidados de outros.

No final, ele repousou a sete palmos com a ajuda dos outros também. E com todos nós vai ocorrer a mesma coisa, para além da terra redonda e desse mundo que dá suas voltas, para além do tempo que passa e da vida que segue. E para além também da nossa mortalidade porque atinge todos os demais. A morte é um dos fins mais justos. É como a divina providência para todos aqueles que viveram desiguais durante todas as suas vidas. Existem mortes diferentes sim. Algumas com mais sofrimento e outras com menos. Algumas de surpresa e outras esperadas. Algumas mortes cruéis e outras tranquilas. 

Parece estranho falar disso, mas é um mistério insondável relacionar a boa vida a boa morte. Às vezes é tudo ao contrário. A vida ruim sobrevém a boa morte. E a vida boa sobrevém a morte ruim. O que aparece aqui é uma espécie de motivo para reduzir a preocupação, pois se ao perverso é possível a boa morte e ao bondoso a morte dolorosa, então não há porque se preocupar com isso. E cada indivíduo há de ter o seu desfecho, ainda que talvez mal possa saber como será, como é e como foi.

Nosso mundo ocidental vive este tipo de mitologia do indivíduo, do caminhante solitário e do herói por si mesmo, mas isso tem aqui um claro limite. Isso pode ser o caso em muitos momentos, mas não é mesmo o caso o tempo todo e na vida inteira.
Esta ilusão do indivíduo acaba servindo na maior parte das vezes para tornar a vida mais difícil ainda. Então, como é possível e porque criar esta pretensão de prescindir dos outros e a julgar os outros desimportantes? 

É um erro brutal que deve ser combatido e criticado pelo bem de cada um e de todos. Pois se não há final garantido até lá vamos continuar sim dependendo uns dos outros.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

SOFREMOS O MAIOR ATAQUE DA NOSSA HISTÓRIA – PROFESSORES DO RIO GRANDE DO SUL


SOFREMOS O MAIOR ATAQUE DA NOSSA HISTÓRIA – PROFESSORES DO RIO GRANDE DO SUL

O Governo é tão ruim que a maioria dos professores que fizeram greve sequer receberam seus salários independentemente de terem começado mais cedo ou mais tarde, saído mais cedo ou mais tarde do movimento.

Se formos levar a sério o calendário letivo de 2019, para efeitos de pagamento ou remuneração, o máximo que poderia não ser pago dos salários é o período equivalente entre 18 ou 19 de novembro e 20 de dezembro. Nem o final do mês de dezembro e nem mesmo o mês de janeiro poderia ser cortado com o famigerado e absurdo corte de ponto. Esperamos receber nossos salários e que a justiça repare a covardia e a chantagem do corte de ponto que viola nosso direito de greve e a tradição de recuperarmos os dias letivos.

Para terminar o nível da covardia estadual, não há nenhum educador de fato que posso ficar satisfeito com o estrago aprovado na Assembleia Legislativa ontem. Mesmo atenuado o estrago nas carreiras e a usurpação dos diretos foram cometidos. O mais impressionante é o facínora que atacou a nossa carreira dizer que vai reduzir impostos com esse projeto. Trata-se apenas, portanto, de medida que visa beneficiar os empresários mais um pouco e manter em seus caixas recursos que faltam ao estado para pagar salários e investir nos serviços públicos e na infraestrutura, na saúde, na educação e na segurança e mesmo em outras áreas que precisam muito de apoio do estado. Vão apenas aumentar a concentração de riqueza no estado. Enquanto isso, os altos salário de outros poderes e do poder executivo vão continuar em festa.

Que meus colegas e os demais servidores se dêem conta disso e tenham Indignação. Não há dignidade possível quando se sofre injustiça e se é atacado tão covardemente, sem reagir.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

HISTÓRICO DA SÃO LEOPOLDO FEST - NOTAS


HISTÓRICO DA SÃO LEOPOLDO FEST - NOTAS

A São Leopoldo Fest foi concebida e realizada pela primeira vez em 1990. Inspirada nas tradicionais comemorações, festividades e atividades culturais realizadas pelos imigrantes alemães e seus descendentes em clubes sociais, com danças, jogos, feiras, comidas e bebes com bandas típicas que faziam muito sucesso. Assim, no mês de julho a cidade entra em festa para celebrar a imigração alemã e o aniversário de fundação da Colônia alemã. A SL FEST é a maior festa do vale do rio dos sinos. Recebe milhares de pessoas e turistas. A festa tem gastronomia originária, diversos shows com artistas e bandas famosas, comércio, artesanatos, parques de diversões, passeios, oficinas, exposições e palestras.

As primeiras edições até 2004 ocorreram sob a égide de uma concepção mais folclórica, apesar de trazerem já atrações nacionais e estaduais de diversas formas de expressão. A partir de então a festa ganhou uma expressão mais intensificada, com as atrações nacionais e estaduais e incluindo com mais força as locais. Ocorreu um incremento tanto no seu planejamento e estruturação quanto no seu papel institucional, histórico e cultural passou a ser mais salientado. Agregou-se um componente de intercâmbio com culturas latinas e os artistas locais passaram a fazer papel protagonista nos diversos tipos de palcos que foram sendo diversificados. Debates históricos e cerimônias oficiais são realizados. A mudança para o Centro de Eventos em 2012, garante estrutura permanente para a festa e outras feiras.

O evento faz não só o resgate da cultura alemã, através do encontro dos imigrantes, danças, teatro, artesanato, música, com apresentação de bandas típicas, visitação aos museus e variada gastronomia, bem como, permite fortalecer a integração de todas as identidades étnicas e religiosas que formaram e povoaram a região do Vale do Rio dos Sinos. A SL FEST consolidou-se como uma grande festa popular, envolvendo a comunidade e expandindo sua influência cultural e as atividades comemorativas a muitos municípios da região. Esta festa reintegra culturalmente as populações que habitam hoje os municípios da antiga São Leopoldo.

Em 2018, a SL FEST segue no Centro de Eventos, divulga um conjunto de atrações nacionais e populares na programação de shows e movimenta a economia municipal e regional comemorando a história da cidade, a contribuição alemã e todos os imigrantes que produzem a atual diversidade étnica e cultural do povo da região do vale do rio dos sinos.

Já em 2019, a SL FEST voltou para o Centro da Cidade, no Largo Rui Porto e foi um grande sucesso de público com muitas atividades ligadas aos preparativos Bicentenário da Imigração Alemã, com acendimento da Pira no Monumento ao Imigrante, e um Festival de Música Extraordinário, além das atrações musicais.

HISTÓRIA POLÍTICA DA PRAÇA DO IMIGRANTE – PEQUENAS ANOTAÇÕES


HISTÓRIA POLÍTICA DA PRAÇA DO IMIGRANTE – PEQUENAS ANOTAÇÕES

A Praça do Imigrante foi construída em diversas etapas entre 1922 e 1934. Sua mais difícil e vultosa edificação foi o cais  que envolveu escavações e edificação de uma barreira de pedra grês e o posterior aterro da margem do rio e a antiga passagem da Rua do Passo entre 1926 e 1928. O término da obra envolveu o ajardinamento e a colocação do mobiliário, bancos e iluminação. Mas essa não era uma mera obra pública para a época.

No mesmo período de construção da praça, muitas outras obras públicas importantes foram realizadas. O período abrange 1920 a 1938 e é um dos períodos de maior êxito econômico da cidade e de incremento de sua influência política no estado, apesar da crise econômica estadual. É um período de incremento comercial e industrial e também de aumento da sociabilidade e das confraternizações locais que, apesar dos diversos tipos de conflito por terra, por poder e também por visibilidade e legitimidade social

Subjaz a construção da praça e as comemorações do Centenário uma larga contenda política entre Republicanos e Liberais na cidade e também entre Católicos e Luteranos. Tudo começou com a morte do Intendente Florêncio da Silva Câmara em meio ao exercício do seu mandato em janeiro de 1902.

As novas eleições conduziram Guilherme Gaelzer Neto, o qual se manteve por um longo período no governo local. Ocorre que Gaelzer ou o “Kayser de São Leopoldo” e este é reeleito ainda em 1904, 1908 e 1912, gerando um inconformismo político agravado também por este ser nascido luterano, numa comunidade Mucker da Ferrabrás e representava de certa forma a ascensão dos luteranos ao poder.

Tal contenda esta que está na base do movimento de emancipação de Novo Hamburgo e também na conformação política da cidade até os anos 60. E não parece ser mera coincidência, também, que a proposta das comemorações tenha sido primeiro discutida pelo então interventor Mansueto Bernardi  e sua equipe e, depois disto, apresentada por seu vice-intendente, então Presidente da Câmara Municipal, João Frederico Wolfenbuttel em reunião específica na Câmara de Vereadores.

Isso provavelmente respondia a necessidade de comemorar o Centenário, mas principalmente de integrar diversas facções políticas em disputa à época.

É bom citar que Mansueto até 1919 era Secretário particular de Borges de Medeiros na capital. Este assume uma árdua missão que é manter o PRR no poder em São Leopoldo, e num quadro de disputas acirradas tentar conquistar o eleitorado com medidas pacificadoras e saneadoras da crise da cidade. Com a renúncia do intendente Gabriel de Azambuja Fortuna também interventor designado por Borges de Medeiros, transferido de Passo Fundo para São Leopoldo para tentar apaziguar os ânimos entre alemães e portugueses, luteranos e católicos, hamburguenses e leopoldenses, este sente que não logrou êxito. A mesma tarefa foi posta a Mansueto e este, como veremos, de certa forma cumpriu bem esta missão, ou seja, até o limite de sua própria tolerância. Foi nomeado interventor em 1919 e eleito em 1921 com a maior parte dos votos contra o, adversário do Partido Libertador.   

Assim, para o glaúdio dos locais, surge a tal proposta de comemorações do centenário. Wolfenbuttel assume a prefeitura com a renúncia de Mansueto em 1923 e procura acelerar o objetivo também olhando para a sua própria sobrevivência política. Ele acaba eleito deputado federal constituinte alguns anos depois com muitos méritos também em outras áreas de governo, em especial na saúde pública e saneamento. Nesta famosa reunião da Câmara em que é apresentado o plano de erigir o monumento e de, finalmente, construir a praça que já constava nos planos de 1833 do piloto português Manoel Gonçalves dos Santos, é que Frederico consegue integrar, por assim dizer, os interesses de todos.

                A inauguração do monumento também foi retardada, segundo este reconhecido historiador, para permitir os festejos sem chuva e sem enchentes do mês de julho de 1924 para setembro de 1924. E mais tarde em 1934 foi feita a inauguração da praça como Praça do Centenário com todo o ajardinamento do seu entorno já concluído como vemos nas fotos do período.

                Para construí-la, através de um trabalho de comissões, foram colhidas diversas contribuições e subscrições dos cidadãos da cidade. Estas subscrições eram publicadas na imprensa local e também serviam como forma de publicidade e de divulgação das empresas locais que apoiavam a causa da importante comemoração do centenário da imigração alemã.

Desta vez, ela marca também, após a revolução de 1923 contra o Borgismo, e a construção da sucessão através de Getúlio Vargas e da adoção de um novo padrão de relação política entre os gaúchos para superar as contendas, promover a conciliação e a pactuação de facções opostas no estado e, também, com uma maior participação política dos imigrantes e seus descendentes e, também, com a superação necessária dos conflitos regionais no Rio Grande do Sul que construíram, pavimentaram e permitiram as novas bases para as políticas urbanas, modernizadoras e de industrialização do Brasil, apresentadas e desenvolvidas a partir da Revolução de 30.


PERSONA, Ingmar Bergman 1966


“Acha que eu não entendo isso? O impossível sonho de ser. Não parecer, mas ser. Consciente o tempo todo. Vigilante. Ao mesmo tempo veja o abismo entre o que você é para si e para os outros. Um sentimento de vertigem e o desejo de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo aniquilada. Cada tom de voz uma mentira, cada gesto, uma falsidade, cada sorriso, uma tristeza. Cometer suicídio? Oh, não, nem pensar. Isso é feio. Não se faz coisas deste tipo. Mas você pode se recusar a se mover e ficar em silencio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então, não tem que interpretar os papéis, fazer caras ou gestos falsos. Assim acreditaria que sim, mas... a vida e a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é a prova d’água...a vida penetra por todos os poros. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não, se é sincera ou mentirosa. Isso só é importante no teatro. Mas ...talvez nem nele. Eu entendo muito bem por que não fala, por que não se movimenta. Sua apatia tornou-se um papel fantástico. Eu te entendo Elizabet, entendo e admiro você. Acho que deveria representar esse papel até o fim… até que não seja mais interessante. Assim como você, pouco a pouco, deixa todos os outros papéis. Então… pode esquecer, como esquece seus papéis... É realmente importante não mentir, falar de forma que tudo soe verdadeiro? Pode-se viver livremente, sem mentir e inventar desculpas? Não é melhor ser preguiçoso, negligente e enganador? Minhas palavras não significam nada para você. Pessoas como você não podem ser alcançadas. Eu me pergunto se a sua loucura não é o pior tipo. Você age saudável, representa tão bem que todo mundo acredita em você - todos, exceto eu - porque eu sei como você é podre."



Monólogo da Doutora com Elisabet. Persona. Ingmar Bergman. 1966.



Nota: O texto é uma adaptação que junta diversas traduções e citações e também transcrições de legendas do filme. Em algumas passagens optei livremente por escapar da concisão e incluir dois sinônimos usados para a mesma expressão em uma ou outra legenda. O texto do monólogo é soberbo e tem mais subliminares do que parece. Recomendo ler pausadamente e se refletir como aquele que profere e aquele que escuta. No caso do filme, como a doutora que profere refletida e duramente, amargamente até, num sinal de talvez inveja e em outros momentos de provocação e pancadas e daquela que Elizabet que escuta catatônica e aparentemente indiferente. É um filme, um monólogo e um texto maravilhoso. Recomendo que vejam o filme, porque nada substitui a obra de arte em si mesma fechada e complexa. Me perdoem.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O POETA É UM AMANTE PRAGUEJADOR, para Walt Whitman


O POETA É UM AMANTE PRAGUEJADOR - para WALT WHITMAN




Sonhei com o que é o ser do poeta. Deve ser meu inconsciente querendo me dizer alguma coisa do tipo: faça. Faça poesias e faça amor. Se fizer pode dar certo e pode dar errado. E o poeta vai praguejar em ambos os casos. E o amante pode sofrer em muitos casos também. E pode praguejar também se assim lhe aprouver. Se é poeta e amante por excesso ou por falta. Porque esse fazer aborrece a alma em sua intensidade e descontrole. Envolve romper uma barreira. Envolve aceitar algo indomável e incontrolável, intenso e livre na gente. É preciso dar voz a esse ser. É preciso deixar ser o que se é. 

E pensei em você quando acordei. Não tenho certeza porquê. Mas minha intuição me leva a pensar em você. E as intuições sempre dispensam as certezas e adoram confundir e contrariar a razão. Não sei, portanto, se tenho razão e como esse pensar é pura poesia, que importância faz? Nenhuma. Não é preciso ter razão para pensar em amor. E amar demais não pode ser proibido. E quanto mais reprimido for, maior será a pressão para sair para a fora. Então, eu deixo sair para fora. Não fico com medo ou vergonha de amar demais.

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O poeta deve ser, então, essa espécie de praguejador suavizado ou bruto que anuncia sem medo ao mundo seu sentimento, lamento ou encantamento. Ele não tem saída e nem precisa ter mais saída. Por isso, ele o faz, sem medo e não há nada que o impeça de fazer. Deve e não pode, porque é necessário que faça. Não poderia, com ele ser diferente. Porque fazer a poesia e sentir o amor que ele sente pelo sentido e pela vida é uma libertação. Ele pragueja porque sabe que isso é difícil. Só ele sabe o quão difícil é sentir isso, amar assim e pensar assim. Não se trata para ele de uma escolha ou opção.

Não se escolhe amar só um pouquinho ou amar demais. Nem a poesia é dessa natureza opcional. Você sente e ama e ponto. Você escreve e aceita e ponto. Talvez ele pragueje mais quando começa a tentar. Lá no início dessa caminhada em que ele pensa mais em porquê do que para quê. Faz isso porque não acredita mesmo, não aceita o que aparece ou que faz. Fica insatisfeito e aborrecido com o resultado. É insuficiente para o seu sentimento e pensamento. Exclama: não está a altura. Isso é pouco. Então ele prossegue resmungando e esboçando um modo de expressar melhor o que sente. Até que chega no ponto em que ele dá de ombros, pragueja mais um pouco, mas passa a fazer. O poeta, então, deve ser aquele que não cala e que aprende a dizer e ensina a dizer, o que se sente.

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Dentro dele devem brigar e se abrigar dois gênios: o do amor mais puro e sublime, que é quase indizível, e o gênio da perfeição e da palavra. Ele deve passar um bom tempo tentando satisfazer a ambos e fazer ambos chegar num acordo e ponto comum. Quando consegue isso a poesia está pronta. Mas ele também pode praguejar para ambos e se libertar deles. Dessas exigências tão tradicionais de um passado e não de um presente.  

O poeta, apesar desses grandes gênios em si, em disputa, deve ser livre, inclusive deles. Deve aceitar a inspiração. Deve aceitar o que lhe vem a mente e ao coração e tentar lhe dar forma. Deve ser sem censura, seja para ser um fingidor seja para ser o mais verdadeiro dos homens ou mulheres. Quando é um fingidor é por uma dor que deveras sente, e talvez, nesse sentido, o que ele finge sentir sempre será menos ou mais do que aquilo que ele realmente sente. Talvez por isso mesmo seja um praguejador. Por que precisa ser verdadeiro e porque precisa fingir ao mesmo tempo. Deve ter algo errado, mas não parece ser com ele, então ele faz, ele escreve e ela ama assim mesmo, em toda a sua incompleta perfeição.

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O poeta deve encontrar a palavra ali onde há o espanto, ali onde há a surpresa, ali onde há aquela pergunta sem resposta ou aquela resposta errada. Deve encontrar a palavra onde falta o sentido, onde falta a expressão. Onde o seu impulso é maior que o desafio ou o obstáculo e, convenhamos, é exatamente isso que ele faz.

O poeta deve ser também um praguejador modulado por todas as misérias e glórias deste mundo e, talvez, por isto mesmo o poeta deve estar e repousar além deste mundo. Ele está fora do mundo, fora de casa, fora da caverna e fora de si. Vive no excesso e numa intensidade que não é natural, que é humana e ao mesmo tempo sobre humana. E talvez seja por isso também que quando a gente lê o que ele escreve e o que ele faz, nós também praguejamos. E praguejar é proferir um palavrão, você sabe, ali onde as palavras tranquilas não tem mais lugar.     

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Não admire o poeta por ser um deus, por mais divino que ele parece ele é apenas poeta por ser homem, por ser mulher, por ser criança e, enfim, por ser nada ou quase nada em meio a criação. Ele é um maldito praguejador que faz barulho e incomoda ali onde a maioria cala, onde a maioria fica em silêncio ou apenas chora. Ele faz aquilo que todos querem fazer, mas não podem, porque ele aceitou que praguejar e resmungar em nossa linguagem é parte integrante de nossa vida. Ele é poeta porque é humano.   

Daquela moita onde ele estava escondido e de onde ele sai nada mais virá, mas já foi o bastante. O poeta deve ser o que é, quase ser mais do que é e praguejar muito mesmo, quando sentir isso. Porque conseguiu deixar ser o seu próprio ser e se libertou do silencio, do sofrimento e do mero pesar e acabou respondendo ao mundo do seu jeito e com seus gênios. Se você entendeu, e para o poeta a maioria entende mesmo, então pode praguejar também. Não há nenhum mal nisso, não há nenhum mal na poesia, não há nenhum mal em amar em demasia.    

domingo, 26 de janeiro de 2020

O RISCO DE SER GESTOR PÚBLICO NO BRASIL


Este é um pequeno comentário em lembranças e memórias que me ocorrem com o falecimento de Ibsen Pinheiro e a situação do Brasil.Vou postar algo aqui. Porque o buraco é muito mais embaixo do que a discussão da perseguição injusta que Ibsen sofreu no erro de cálculo que o jogou no meio do escândalo dos Anões do Orçamento. Tem uma cadeia inteira de coisas que precisam conspirar para uma injustiça dessas ser cometida. Ou seja, muita gente deixou passar a denuncia como certa. O próprio Ibsen representou durante um bom tempo a Resistência ao entreguismo e ao anti nacionalismo nas hostes do PMDB e dos partidos de centro. O que explica ou a omissão ou o endosso de seus pares.

Seis anos atrás, um pouco antes de assumir o Ministério da Educação do Brasil, após convite da Presidente Dilma Rousseff, na sequência da demissão do Gomes, o Professor de Filosofia Renato Janine Ribeiro, fez uma postagem em que tratava do ambiente perverso da política.

Eu fiz um comentário confirnando a opinião e impressão dele. Eu dizia, com algumas atualizações, veja que com os níveis de exposição à chantagens, vendettas, canalhices, erros jurídicos e administrativos, erros de gestão financeira e exposição à perseguições políticas e jornalisticas possíveis e o vale tudo nas disputas da esfera política, ser gestor público hoje é mesmo um ALTO RISCO. Principalmente para quem só quer mesmo trabalhar bem e honestamente, ser absolutamente responsável por seus atos e contribuir para a melhoria do estado brasileiro no atendimento às diversas necessidades e demandas estruturais do país. Esse ambiente de risco é perverso mesmo porque afasta quase que a priori todos que tem conhecimento das tradicionais conspirações, manobras e equívocos possíveis. É preciso muita coragem para entrar, muita persistência para se manter e muita sorte e juízo para sobreviver ao ambiente. Isso inibe qualquer disposição de pessoas razoáveis a entrar nessa Seara arriscada. Não quer dizer que os que entram não são razoáveis. Significa apenas que aceitam esse risco, como quem entra numa roleta russa com muita fé no seu trabalho, estrela e de olho atento ao tambor do revólver que gira na mesma velocidade que a roda da vida

Eles corajosamente e em muitos casos cheios de precauções e arranjos de proteção, laços de confiança sólidos e muita determinação ingressam nesse ambiente.

Quando se expõem a esse risco todo de cair em vendetas, armadilhas e toda sorte de confusão que não depende exclusivamente de suas competências, desempenhos e habilidades, fazem uma aposta pela sociedade e pelo bem dos cidadãos. Sobreviver nesse meio, portanto, é uma façanha que deve ser muito respeitada dada essa ambiência de disputa selvagem e também de alta exposição seja aos mal entendidos, seja a má fé, seja a incompreensão ou também a uma espécie de juízo de expectativas que quer solução absoluta aos males sociais.

Nesse quadro muita gente boa já foi massacrada, perseguida e nefastamente atingida pelo interesse de ocasião ou estratégico que órgãos de comunicação, partidos políticos, camarilhas e esquemas de elites ou frações organizadas muito poderosas e inescrupulosas. Não é nada fácil esse ambiente e ele parece estar reproduzindo claramente a dominação da esfera política pelo interesse econômico maximizado e impositivo.

Poderia dar a lista aqui de como isso se distribui, numa lógica perversa por partidos e instituições aparentemente respeitosas, mas deixo para pensarem não em ilações, mas em hipóteses explicativas alternativas aos problemas que o país enfrenta e não consegue resolver. E a lista é grande e pode começar pelo esquema de juros bancários vigente, passar pela justiça desigual e também pela gritante diferença salarial entre servidores públicos e carreiras públicas, bem como, pela não tributação de grandes fortunas e também por esse absurdo que é o patrimonialismo brasileiro dos grandes latifúndios e da falta de terra, moradia e também dignidade básica da maioria da população brasileira, mesmo num país cujas riquezas naturais, o clima e todo o território é fértil, produtivo e praticamente sem par em relação a nenhum outro país do planeta.

Agora, com esse acirramento da reação das elites brasileiras e de uma classe média com ilusões burguesas e conservadoras, se assiste ao descalabro da entrega de mais patrimônio nacional aos interesses adversos a nossa soberania. E isso ocorre com o testemunho do exército e de partidos cujo interesse nacional não poderia ser negociável ou transigido jamais.