sexta-feira, 17 de junho de 2016

UM TRATAMENTO FILOSÓFICO À CANALHICE E À MITOMANIA: PARA TEMER, SARTORI E SEUS ASSECLAS

A abertura fenomenal do extraordinário ensaio de Clifford:

“Um armador estava prestes a lançar ao mar um navio com emigrantes. Ele sabia que o navio era velho, e que não fora muito bem construído em sua origem; que vira muitos mares e climas, e que necessitara amiúde de reparos. Foram-lhe apresentadas dúvidas quanto à sua navegabilidade. Tais dúvidas tomaram sua mente de assalto e o infelicitaram; ele pensou que talvez devesse vistoriá-lo e repará-lo por completo, mesmo que isso implicasse grandes despesas para si mesmo. Antes que o navio partisse, contudo, ele conseguiu superar estas reflexões melancólicas. Ele disse a si mesmo que o navio atravessara em segurança tantas viagens e suportara tantas tempestades que era vã a suposição de que não retornaria a salvo também desta jornada. Ele confiaria na Providência, que dificilmente deixaria de proteger aquelas infelizes famílias, que deixavam sua pátria em busca de melhor sorte alhures. Ele buscou tirar da mente todas as suspeitas mesquinhas acerca da honestidade dos construtores e empreiteiros. Desta forma, ele obteve a sincera e cômoda convicção de que o seu navio era plenamente seguro e navegável; ele assistiu à sua partida de coração leve, e desejos benevolentes pelo sucesso dos exilados em sua futura terra estrangeira; e ele foi apanhar o dinheiro do seguro quando o navio afundou no meio do oceano e nada mais disse a respeito.”

(tradução de Rodrigo Jungmann de Castro)


"Todos nós sofremos bastante gravemente com a permanência e o apoio a crenças falsas e com os atos fatalmente errados que elas produzem, e o mal em que se incorre quando uma crença dessa natureza é albergada é grande e amplo. Mas um mal ainda maior e mais amplo se manifesta quando uma atitude crédula é mantida e apoiada, quando o hábito de crer por razões indignas é fomentado e tornado permanente [...]. O perigo para a sociedade não é apenas o de crer em coisas erradas, embora esse perigo seja grande o bastante; mas o de que ela se torne crédula e perca o hábito de testar as coisas e de examiná-las; pois assim ela haveria de retornar à barbárie." (idem Clifford)


Grato a indicação do Rogério Lopes...

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