segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

UMA GOTA, UMA IDEIA, UM PENSAMENTO E UMA REFLEXÃO SOBRE UMA PEQUENA MAS IMPORTANTE DÚVIDA

Os melhores argumentos sempre são aqueles que não precisam ser muito usados nem muito construídos. Eles são lembrados e são reconhecidos muito rapidamente. E mesmo que as pessoas não lembrem de toda a sua estrutura ou raciocínio e seus elementos, por exemplo, que sejam lembradas apenas algumas premissas - uma ou outra ou mais - e sua conclusão ou, para simplificar, suas proposições de base e seu resultado, ocorre que eles são lembrados como se estivessem enraizados em um subconsciente racional das pessoas. Mas nem sempre as coisas são tão simples assim. Ocorre que parece haver uma concorrência contra bons argumentos porque eles indiretamente atacam certos interesses. Tenho dúvidas gerais e específicas sobre isto, mas vou adiantar aqui uma problematização.

E, curiosamente, os piores argumentos são aqueles que esquecem dos primeiros e que vez ou outra são lembrados por caridade ou generosidade de alguém. Mas também nem sempre é assim. Creio que vivemos um tempo em que os piores argumentos estão sendo lembrados e defendidos, mesmo contra todas as refutações ou impugnações formais e mesmo contra todas as evidências materiais existentes ou verificáveis. Parece haver à la Goebbels - uma mentira repetida mil vezes vira verdade - um movimento de reprodução de péssimos argumentos e posições que tem dominado o tal senso comum ou opinião média na sociedade.

A educação de uma pessoa depende muito disso, de que alguém lhe ensine dialeticamente e pedagogicamente como adquirir, desenvolver e promover discernimento para bons argumentos, mas a educação de uma civilização inteira depende de que tenha alguém lembrando á todo tempo este limite. Tal como um guardião da verdade ou vigilante da verdade. Ocorre que estas pessoas começam a ser derrotadas junto à opinião pública porque há um forte interesse em derrubar os argumentos, não por suas qualidades intrínsecas, mas por seus resultados e consequências. Nós temos bons argumentos para defender a justiça, a igualdade e a humanidade, mas...

Ao contrário do que dizia Descartes que o bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada, parece hoje ocorrer o contrário. Quando a imprensa, os tais formadores de opinião, as propagandas e a tal catrefa pseudo esclarecida começa a adotar argumentos ruins parece ocorrer uma espécie de virose social. Se alastra então uma reação com argumentos ruins contra argumentos melhores. Assim ocorre com o anti intelectualismo e com o facismo. Notem que ambos sempre andam juntos porque o facismo depende da supressão da liberdade de opinião e crítica para aceder ao poder, e para se manter depende de que o impulso à diversidade, o impulso ao debate, à crítica e a liberdade de contestação sejam promovidas..

Quando se perde isso - a possibilidade de crítica e de formulação mais teórica - temos, então sérios problemas. Não darei exemplos aqui, porque isso não depende mesmo somente do meu conhecimento ou sabedoria, mas sim da lembrança e do reconhecimento de todos ou da maioria ou dos mais sábios. Mas quem são os mais sábios? Provavelmente somente aqueles que não falam do que não sabem.

Medimos, então, a qualidade inteira dos discursos aqui e acolá por este parâmetro mesmo. Onde houver mais discurso vazio, mas discurso pretensioso, mais discurso intempestivo ou precipitado, ali neste lugar mais obscuro estão a ausência de argumentos e a ausência de revelações, libertações e reflexão.

Num filmezinho bem tranquilo sobre Wittgenstein, Derek Jarman, optou em sua primeira cena - e pouco impota a veracidade biográfica disto, pois encaixa mesmo na personagem - por iniciar por um paradoxo infantil do pequeno Wittgenstein que nos interroga: Que valor teria a verdade se não houvesse o falso? Que valor, em outras palavras, teria o acerto se não houvesse o erro? Não sei - o pouco que sei é que não haveria valor algum se nada de bom ou melhor fosse pensável. E o bom ou melhor só é pensável com liberdade de crítica e de opinião. E a verdade quando pensável é maravilhosa e na falta dela aceitamos até algo que dela se aproxime, ainda que não completamente.

Mas Merleu-Ponty fez uma pergunta também [ argumentando ] sobre todos estes discursos, opiniões, posições, decisões, escolhas, conhecimentos e informações possíveis - que podem ser verdadeiras ou falsas - que para mim é mais intensa e densa em relação à isso - e espero que cada um aqui procure encontrar os argumentos que eu não estou dizendo ou apresentando por seu próprio esforço. Isto é, que à saber: "Circula mais verdade nos dias de hoje do que no passado?"


Agradeço in memoriam ao Bento Prado Junior esta nota. Ou perdemos muitos argumentos bons em nossa caminhada que talvez seja bem importante resgatá-los? lendo um livro ou estudando bem mais antes de falar a coleção de bobagens e opiniões que a liberdade nos faculta, sem reflexão alguma?

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