quarta-feira, 9 de outubro de 2013

SILÊNCIO, PENSAMENTO, JUÍZOS

Entre as coisas que eu tenho observado muito ultimamente é isto mesmo.  A dificuldade que as pessoas tem tido em fazer uma transição tranqüila entre o silêncio, o pensamento e os juízos. Às vezes isso ocorre por dificuldades pessoais e outras vezes porque o ambiente, a audiência e os circuitos nervosos das pessoas impõem barreiras ao dizer.  Em geral, se observa nestas circunstancias a falta corrente do termo intermediário: o pensamento. Poderia parecer uma ironia minha, mas não é. Falta pensamento para quem diz e muitas vezes também para quem escuta o que é dito. E ao faltar pensamento não falta somente entendimento, falta sensibilidade, generosidade, boa vontade e também compreensão. Ou seja, ou as pessoas estão caladas e surpresas sem palavras ou bloqueadas em suas expressão, ou os juízos saem meio que abruptamente e numa espécie de tentativa lacônica que só foge à precisão do objeto, da situação ou da pessoa com a qual se comunicam. Há uma impaciência nestes tipos de diálogos e exposições que só prejudica o comunicado e a recepção do que é comunicado.

Claro que tudo isto nos leva ao ponto seguinte que é o do cuidado na expressão dos nossos pensamentos através de juízos. Havia afirmado este ano – em outra postagem – que ao escrever, ao discursar ou ao comunicarmos alguma coisa para uma audiência, postar aqui ou ao falara com um interlocutor em um diálogo, estávamos a tocar as pessoas com as palavras. Pensava que, portanto, o dizer, a escolha das palavras e o falar era um gesto que quase tocava o corpo das pessoas e que este cuidado com as palavras poderia nos ajudar a nos comunicarmos melhor e a deixar as pessoas se comunicarem melhor também. Mas ao ver algumas discussões por aqui e por ali, percebo que muitos ainda dirigem seus veículos de discurso com tanta barbeiragem que as diferenças principais de opinião, pensamento e juízo, sucumbem, ao sair do silêncio e virarem palavras, ao que não é tão significativo nem tão importante assim. E o resto disto, o resultado destas interações comunicativas, é muito ruim. Gera um desentendimento sem clareza da diferença e uma atitude arrivista entre as pessoas, puramente gratuita. Pois gera um patrulhamento sistemático não tanto das idéias por razoáveis ou não, mas das condutas, das liberdades, das simpatias e dos entusiasmos. Muita atitude Poser, Blasê  e elitista tem aparecido por ai. E acompanhadas de aparentes apelos ao direito à diferença, expressões superficiais de independência e originalidade, e vejo também gritos de liberdade supérfluos e de pouco significado.  

Esta forma patrulhamento esgrimida aqui e ali tem sido feita de forma velada por um  não querer ouvir, ou não querer falar, ou não querer dizer, ou não querer que digam ou não quere ou aceitar que escrevam. Isso é tão forte que vejo silêncios que são provocados não por coragem ou sabedoria, mas simplesmente por medo. Mas também há os silêncios por conveniência, por sensibilidade, como um gesto de não tomar parte no festim das opiniões. Eu penso que temos que simplificar as coisas neste sentido. As pessoas devem ser livres para falar, para calar quando quiserem, para não falar ou para errar por falar ou por não falar. Se todas as palavras que saírem da nossa boca forem extremamente medidas, rigorosamente e excessivamente julgadas. Se as interpretações forem muito fechadas vamos perder muitas coisas, inclusive aquela margem de manobra sempre necessária para dissolver mal-entendidos, deslizes linguísticos ou erros simplesmente. Eu penso que estamos excessivamente preocupados com a humildade dos demais também e que isto tem feito com que a sabedoria tenha sido negligenciada. 

Uma grande verdade não precisa ser diminuída em seu valor porque vem de onde vem, nem um homem justo precisa se envergonhar de ser justo. Nós podemos errar, nós vamos errar, mas podemos corrigir isto com palavras e até mesmo com pequenos gestos. O nosso cuidado nos juízos também vale reciprocamente. E o silêncio é sim muito precioso também porque nos faz pensar sobre quais são as melhores palavras para aquela situação. Eu sempre tenho opinião, conceito, mas tenho aprendido a esperar um pouco mais e a pensar um pouco mais e isto porque o silêncio e não a profusão de palavras as vezes ajuda muito mais no pensamento. E ajuda mais ainda a vontade de se expressar com amor, com compreensão e com muito cuidado com o outro. Desarmar a expressão pode sim mudar o mundo e mostrar que o cuidado com o outro não é somente uma questão de educação, mas uma questão de respeito e que isso abre uma avenida bem grande para o entendimento e uma atitude mais sensível e humana entre todos. 




Assim como aqueles belos azulejos portugueses parecem tão harmônicos com todas as suas diferenças poderíamos nos entender melhor aceitando as diferenças e também nossas imprecisões ou detalhes com mais tranquilidade. Podemos compartilhar este espaço de forma sempre melhor e dando nitidez a cada um. Passando do silêncio ao juízo com mais pensamento e mais compreensão. 

Idealismo....talvez sim...talvez seja mais simples que isso....

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