segunda-feira, 30 de setembro de 2013

À OBRA INAUGURAL DO JARI: TEXTÍCULOS

À OBRA INAUGURAL DE JARI: TEXTÍCULOS

A apresentação, a natureza do artífice, do êxito. O NEOLOGISTA pleno de uma nova lógica e de nova analogia entre a literatura e a vida. A nova lógica é questão de estilo diriam uns, para mim, a vida é mais importante que o estilo. A principal disposição de quem escreve. Após milhões de páginas já escritas por todos (as) os escribas. Desta forma: todo escritor quer nova síntese entre a vida e a literatura. Aqui o estilo está subordinado, na obra, à forma de vida.

Os pares iniciais: ordem/desordem; fingir/sentir; contente/descontente; NADA/TUDO. São pares do nosso gosto metafísico. Aquele gosto quer deixar de ser triste, deixar de sofrer e de se resignar, que não quer, no fundo, contentar-se com coisa alguma. Que – apesar do preço que a vida cobra – ainda quer TUDO. Ainda joga no TUDO ou NADA.

O endereço é certo: a LIBERDADE ABSOLUTA. Não dá a mínima ao que lhe for contrário. Vês sofrimento contente, na exata medida em que te libertas ao gritar, usando as vozes das musas, no canto de poesia, nos sonetos e quase haikais. É uma crônica ou prosa miúda e quase mínima, cujo nome assume, assina em baixo, em cima e aos lados.

O dEus desta obra, evoca a imagem de espelho dos "eus" que as vezes conseguem ser. Após tempo de vida é o único dEus que resta. É que sobrevive à morte de todos os deuses e ao desaparecer de uma palavra única, da única mensagem da verdade. No princípio era verbo e já estamos na enésima conjugação. Ainda é plural, pois que é sempre plural em nós sua forma de apresentação, sua forma de manifestação. E olha que não está sempre presente. Tira férias, abandona e vai e volta em corações, em emoções. Aguardamos e procuramos e não o encontramos. Ou seja, muitas vezes não está conosco. Lembro Daimon de Sócrates. E do preço que ele paga por pensar que possuí um Daimon seu. Sim, Sócrates o ímpio. Um êxito superior ao que possamos imaginar.

Cazuza: "dias sim, dias não, e eu vou envelhecendo sem um arranhão..." Vemos, assim, mais a tranquilidade prosaica do que um desespero intelectual ou existencial. A obra nasce madura. Imagino que mais há nas gavetas, pastas e arquivos para ser publicado. Imagino que não será difícil fazê-lo. É pouco provável que esta miscelânea de textos não tenha mais umas páginas irmãs. O texto, em forma e conteúdo, é um indicio disto, pois representa o autor que já atingiu a maturidade. Em geral os autores ao lançarem seus primeiros livros parecem mais juvenis do que literários.

Tem sonetos – formalmente dois - que mostram uma grande elegia à forma mais nobre da poesia. O que mostra também a abertura para esta empresa tão admirável de fazer e tecer mais sonetos.

Uma obra não precisa ter uma bela recepção, e nem sempre tem, mas é uma dádiva que esta tenha. Não há motivo a priori ou nobre para elogiar esta obra, mas me satisfaz e muito fazer isto. Digamos que vou quase pegando uma carona no sucesso e êxito dela o que, de fato, todo crítico acaba por fazer

São Leopoldo chegou em letras até aqui. Os grandes personagens chegaram. Não há dúvida que vão bem mais longe. E este efeito e expectativa positiva é digno de reconhecimento. A moça deve ler...


Daniel Adams Boeira – Professor de Filosofia - daniel_boeira@yahoo.com.br

EDIÇÃO PARA PUBLICAÇÃO NO JORNAL VS OU OUTROS LOCAIS 

OITO MOTIVOS PARA VOCÊ LER O MANUSCRITO ORIGINAL DE ON THE ROAD - POR AMANDA MORAES

Oito motivos para você ler On the road – o manuscrito original:
1. Tudo o que está sugerido no texto editado está explícito no manuscrito. E eu estou falando aqui sobre sexo.
2. Não há nem sombra das “milhares de vírgulas supérfluas”das quais Kerouac tanto se queixava, o texto segue acelerado e sem freios.
3. O autor dá nome ao bois: nada de pseudônimos. Poetas e escritores amigos como Neal Cassidy e Allen Ginsberg aparecem com seus nomes originais – no texto editado, eles são mascarados como “Dean Moriarty” ou “Carlo Marx” respectivamente.
4. A introdução de Howard Cunnel é um dos textos mais completos sobre o contexto e a produção do manuscrito. Acho, inclusive, que essa intro já vale o livro.
5. On the road não foi escrito num rolo de 36 metros de papel por acaso. Kerouac montou esse estrutura com outro rolos e fitas adesivas, pois queria que a experiência de criar seu livro tivesse a cadência da autoestrada.
6. Não só a experiência da criação deveria ser a própria experiência da estrada, mas também a da leitura. É por isso que o texto se encaminha num bloco sem parágrafos, como uma pista interminável.
7. Não estou falando aqui apenas de censura, nomes verdades e estilo. É perceptível que várias situações importantes são trocadas por outras ao cotejar os dois textos. É aquilo que leva a gente a se perguntar “por que o autor escolheu essa, e não aquela, esquina para seguir?”.
8.“Não tive poder de lutar por meu estilo, para o bem ou para o mal”, Kerouac afirmou depois do lançamento da edição revisada. Finalmente você vai poder saber do que ele está falando. por AMANADA MORAES in: Oito motivos para você ler o manuscrito original de ON THE ROAD

ONE MORE THING & STEVENOTES: STEVE JOBS, COLUMBO, WODDY ALLEN E BOBBY GOREN



ONE MORE THING & STEVENOTES:

Estive estudando e escrevendo, entre outras coisas, sobre as Stevenotes neste final de semana. Stevenotes é o nome que tem sido dado aos Esboços e Notas de Steve Jobs para suas apresentações de produtos, balanços, idéias e propostas que tem de forma pública ocorrido entre janeiro de 1984 e agosto de 2011.

Este estudo foi provocado por minha esposa que assistiu no sábado pela manhã a cinebiografia de Steve Jobs e veio me contar o que viu e acabou por me fazer falar em coisas que eu sabia da vida dele, coisas que eu suspeitava e, também, sobre aspectos da inteligência cultural e discursiva dele e as capacidades especiais e visionárias que ele possuía.

Existem diversos locais aqui na rede que oferecem listas de expressões consideradas marcantes de Steve Jobs.

Eu sempre cito que ele dizia que daria toda a riqueza e fortuna dele para poder ter a oportunidade de ficar uma tarde conversando com Sócrates. E em dias como hoje isso para mim é mais significativo ainda, pois tenho me reencontrado com Sócrates ultimamente e neste trimestre fecharei o ano lendo Platão, como nunca li antes na minha vida, formação ou estudos.

Também dei uma pesquisada no GOOGLE e vi alguns vídeos sobre o tema das STEVENOTES. Descobri um site brasileiro que tem links para todas as Stevenotes (http://stevenote.tv/), e verifiquei de novo que o método de Steve Jobs de construção de suas exposições, envolvia certas técnicas e macetes de como manter a atenção da audiência e como gerar e ampliar a curiosidade, mesmo chegando ao final de uma apresentação. E nisto encontrei ONE MORE THING (STEVE JOBS - ONE MORE THING 1999-2011 ) e resolvi compartilhar isto.

A lista dos produtos divulgados em ONE MORE THING por Jobs é a que segue:

0. A Retomada da rentabilidade da Apple na MacWorld Expo, San Francisco 1998 (dois anos após o retorno de Steve para a APPLE).

1. O iMac apresnetado em cores na MacWorld San Francisco 1999.

2. O 22 "Apple Cinema Display em Seybold 1999.

3. O AirPort estação base e cartão AirPort após o iBook foi introduzido na MacWorld Expo New York 1999.

4. O iMac DV, iMovie e iMac DV Special Edition em um evento especial em outubro de 1999.

5. Na MacWorld SF 2000, Aqua (interface de usuário) foi introduzido.

6. Jobs anunciou que ele iria continuar em seu papel como CEO na Apple, em uma base permanente, deixando o "i" (para "interino") a partir de seu título "iCEO".

7. O Power Mac G4 Cube , na MacWorld NY 2000.

8. O PowerBook G4 , na MacWorld SF 2001.

9. O 17 " iMac G4 , na MacWorld NY 2002.

10. O Power Mac G5 na WWDC 2003.

11. O 12 " PowerBook G4 Aluminum na MacWorld 2003.

12  iPod Mini , na MacWorld 2004.

13. O iPod Shuffle , na MacWorld 2005.

14. A quinta geração do iPod com vídeo, anunciada em uma conferência de imprensa intitulada "Só mais uma coisa ..."

15. O MacBook Pro , a Macworld Expo 2006.

16. Introdução da venda de filmes pela iTunes Store em setembro de 2006,

17. Um segundo "Só mais uma coisa" na mesma apresentação também revelou um produto próximo apelidado iTV (renomeado para Apple TV na Macworld 2007).

18. Um terceiro "One More Thing" foi o lead-in para apresentar uma performance ao vivo da música "Esperando o mundo mudar", de John Mayer no final da apresentação.

19. Introdução do Safari para Windows beta, a WWDC 2007

20. The Aluminum Unibody MacBook , em um evento notebook em outubro de 2008.

21. A câmera de vídeo e alto-falante na quinta geração do iPod Nano no evento de música da Apple em setembro de 2009.

22. FaceTime chamadas de vídeo para o iPhone 4 na WWDC 2010.

23. O Apple TV (2 ª geração) rodando em iOS em de setembro de 2010 Apple Music Event.

24. A revista MacBook Air em um evento para a imprensa, intitulado "Back to the Mac" em outubro de 2010.

25. Os iTunes Combinar serviço a WWDC 2011.

(fonte da lista e das primeiras descrições de STEVENOTES é a seguinte: http://en.wikipedia.org/wiki/Stevenote)

Na verdade, estou escrevendo a partir disto, por interesse próprio algo bem maior sobre estas STEVENOTES por diletantismo e prazer e, também, porque não gostei do que li em traduzido em português e acho que pode ser mais aprofundado e reeditado também e  por ai vai e porque julguei que estava sendo apresentadas pistas insuficientes como ilustração de um método muito bom. Sim, às vezes os filósofos ou professores de filosofia como eu gostam e olham mesmo muito mais para o método do que para as coisas.

O estudo disto me vale sim um ensaio razoável sobre método também, tendo em vista que continuo entrando em sala de aula e lecionando aulas de 50 minutos por semana (um período de filosofia e um período de sociologia. O que é um desafio muito bom na construção das aulas e no desenho ou esboço do que se fará neste tempo.

No meio disso encontrei a pista e a referência das STEVENOTES para o clássico dos clássicos One More Thing - só mais uma coisinha - usado com maestria pelo detetive Columbo - Peter Falk, (veja aqui: COLUMBO ) Sim, Peter Falk é o mesmo ator que Win Wenders nos apresentou como um anjo apaixonado pela vida humana em Asas do Desejo. 

Pois a chave One MOre Thing (Só mais uma coisinha ou mais uma coisa), era usada como estratégia pelo detetive Columbo no momento em que ele ia desmontar um álibi que parece perfeito de um criminoso ou desconcertar alguém com uma espécie de pergunta surpresa ou bomba após singelas interrogações e triviais perguntas.

A descrição e caracterização de Columbo na WIKIPEDIA/PT nos ajuda aqui:

“Columbo é educado e faz de tudo para não ofender os suspeitos e, aparentemente dispersivo, dá a impressão que não tem a mínima chance de resolver o crime. Passa ao assassino uma falsa sensação de segurança, pois faz perguntas tolas e sem pretensões. Apesar disso, aos poucos e metodicamente, junta os pedaços do quebra-cabeça a partir dos mínimos detalhes e sempre consegue desmontar o álibi e desvendar o crime, para espanto do assassino. Resolve os crimes pela lógica.”   

Lembro também da outra frase dele - do Columbo - que acompanhava isso: "Minha esposa não vai me receber em casa ou não vai me deixar dormir se eu não perguntar ou falar disso." 

A ironia e a graça aqui é que ele provavelmente nem morava com esposa nenhuma ou era separado e a esposa nunca aparecia no seriado. Esta era somente uma chave, após certas situações desconexas, impressões de delírio do investigador e em alguns episódios certos devaneios extremamente engraçados, para surpreender e pegar o interrogado, suspeito, informante ou até seu chefe de forma surpreendente.

Em geral - e eu me lembro disso muito bem - a gente assistia a série esperando este momento chave...e todo mundo devia pensar em seu interior como ele ia fazer isto e quando seria. E eis que, então, bah lá vem ele!!! E ele fazia aquela pergunta chave ou colocava a questão de forma decisiva como se tivesse montado por mágica todo o quebra cabeça que iria elucidar o crime.

A gente notava que era raciocínio puro (a lógica como foi dito acima na WIKI) e que ele simplesmente juntava as peças, pistas, suspeitas e o desenho da investigação dele funcionava em sua investigação como um tabuleiro móvel ou flexível. Se você quiser associar isso a imagem de um tabuleiro de xadrez imaginário em que a as peças vãos e movendo e se pensa no movimentos anteriores e posteriores até o xeque mate. Assim, na imaginação e inteligência investigativa de Columbo, acontecia que as coisas iam sendo arrumadas conforme avançava a investigação dando um termo ao quebra cabeças. Em geral, é bom que se diga aqui, como anotação e pista o método dele era dedutivo e dava pouco espaço para pressuposições.  

Entretanto, havia uma parte muito interessante também que apresentava os elementos irracionais ou emocionais, parte da investigação esta que me parece que bem depois vai ser mais explorada pelo outro discípulo de Columbo, Bobby Goren (interpretado entre 2001-2011, por Vicent d’Onoffrio na Série Policial Law & Order: Criminal Intent). Assim, as motivações emocionais ou pessoais para o crime são também, examinadas e de certa forma definidas. Mas é notável também que Bobby Goren também usa quase todos os recursos de Columbo em seus interrogatórios e que inclusive ONE MORE THING, também.

Por fim, queria fazer outra referência aqui sobre isto. Sou um apaixonado por Woddy Allen, ou melhor pelos filmes do Woddy Allen e tenho também lembranças do uso deste recurso por ele. Assim, one more thing, só uma coisinha se transforma em um elemento técnico e cultural, de um lado, para apresentações de produtos ou idéias por Steve Jobs e, de outro lado, em diálogos de séries policiais e no cinema. É um recurso que permite - digamos assim - dar uma reaquecida na atenção dos expectadores e das personagens e, ao mesmo tempo, me parece um bom recurso também para uma espécie de anticlímax.

Além disso, só mais uma coisinha, talvez nos permita olhar para as coisas se dando conta que sempre pode haver mais algo sendo apresentado ou chamado a ser apresentado com elas......            

domingo, 29 de setembro de 2013

E POR FALAR EM SOL E CICLO SOLAR: UMA CURIOSIDADE

E POR FALAR EM SOL E CICLO SOLAR: UMA CURIOSIDADE

Acabo de descobrir pelo noticiário algo muito importante para os meus amigos e amigas ocupados com Ciclos Solares, e para mim que sou um curioso confesso de assuntos transcendentais: o ciclo Solar de número 24 está atrasado e não ocorreram picos de manchas solares ainda em 2013, o que significa que talvez a máxima solar seja transferida para 2014, conforme, aliás, uma previsão negligenciada lá de 2009, assim a expectativa do início do ano de que haveriam grandes tempestades solares foi alterada e de certa forma retardada. 

Não podemos considerar isto ainda uma anomalia, posto que o ciclo mínimo é de 9,0 (1766-1775) anos e máximo de 13,7 anos (1784-1798). A notícia que me levou a dar uma pesquisada e a este raciocínio afirmava que "o Sol surpreende cientistas por sua inatividade". 

A parte boa da notícia é de que o sol aparece muito tranquilo o que só traz alento ao nosso coração.  Assim, aquela máxima afetuosa de acalmar o teu coraçãozinho continua valendo e as agitações maiores ficaram para depois. 

Então, ainda não chegou a hora de se dizer que "eu vi o sol brilhar em toda a sua glória", como bem disse Jorge Luis Borges quando defrontado com o espetáculo da natureza e o eclipse da sua visão que lhe deixou somente com lembranças da luz e de quanto era maravilhoso e magnifico olhar para este explendor da natureza.

Por fim, no vigésimo nono livro, capítulo quinto, parágrafo segundo da Introdução aos Ciclos Solares de Heliodoro Pantel, de 1848, aquele famoso astrólogo, cujo conhecimento tem sido preservado somente aos iniciados,   já havia sido apontado que "se o sol retarda sua máxima solar, então podem se esperar mudanças no ânimo e maiores expectativas àqueles a quem este ciclo deve afetar decisivamente, segundo a regra de afinação dos ciclos de Júpiter aos ciclos solares". Regra esta, off course, que tem sido mantida em segredo mas que é prenúncio de um encontro entre as previsões de Nostradamus e Xul Solar para o novo milênio.

Bom domingo.....

sábado, 28 de setembro de 2013

VIVEMOS UM TEMPO DE TRANSIÇÃO DOS JOVENS E DA EDUCAÇÃO

Hoje pela manhã no conselho de classe da minha escola surgiu de novo um debate recorrente sobre o desinteresse e a indiferença dos alunos. Em certo ponto das avaliações das turmas de alunos, seus desempenhos, envolvimentos e, a partir de um debate sobre o desinteresse e a indiferença dos alunos e alunas, em relação à escola e às propostas de ensino e atividades dos professores, ousei afirmar que pensava que a gente estava vivendo em uma espécie de momento de transição. Queria dizer com isso que isso explicava a nossa expectativa frustrada em relação aos alunos e também o nosso espanto e um caráter de insuficiência e incapacidade nossa em corresponder, trocar e afetar os alunos.  

De que os jovens estavam mudando, que eles não eram mais os mesmos e que vinham sinais diferentes destas gerações nos últimos três a quatro anos era já uma suspeita compartilhada por nós professores. Notávamos que os jovens tinham aparentemente outros projetos de vida, do que aqueles que nós estávamos acostumados e ver. Percebemos através de entrevistas e levantamentos, sondagens e diagnósticos e, também, a partir de uma pesquisa realizada na escola pela professora Wanda que a visão que os jovens tinham da escola havia mudado. Descobriu-se que o motivo para a evasão não era muitas vezes a escola, mas sim o mundo do trabalho, uma espécie de energia de atração do mundo do trabalho fazia os jovens saírem da escola. Energia esta que era de certa forma reforçada pela expectativa deles de ganharem autonomia econômica em alguns casos e também de apoiarem a renda familiar e aproveitarem este surto de emprego  renda que o Brasil vivia.  

E também afirmei que a própria educação e a pedagogia estava mudando e que isto ia para muito além de novos projetos ou dispositivos pedagógicos. Queria dizer com isto que a mudança é muito profunda e que talvez a mudança seja mesmo no papel da escola na sociedade. Ou seja, uma mudança no espaço e na forma como a escola aparece para a sociedade. E também que esta mudança estava ocorrendo em virtude das mudanças demográficas (de perfil etário,  e de aspectos econômicos, políticos  e culturais), que o Brasil estava vivendo e, também, não consigo mesmo deixar de fora este aspecto ou de destacá-lo separadamente das mudanças tecnológicas que são incidentes sobre o mundo do trabalho, o mundo do lazer, a vida em família e as relações sociais, sobre o acesso a informação, formação de opinião, o acesso ao conhecimento e á aquisição de conhecimento, bem como, todas as novas formas e dinâmicas de comunicação hoje existentes e que intensificam seu impacto em nossas vidas, e mais ainda na vida dos jovens que parecem ser hoje os primeiros receptores destas mudanças. (Depois ao longo do dia fiquei pensando muito sobre isto e me surgiu a suspeita de que talvez a escola se transforme em um espaço mais parecido com um espaço de lazer e recreação do que propriamente pedagógico, mas que também o papel da escola no cuidado à saúde dos alunos – em especial à saúde mental e às relações sociais saudáveis parecia aumentar também.)  

A minha expressão tinha um caráter de certa forma apaziguador e, ao mesmo tempo, desafiador para pensarmos mais sobre isto. Disse que isso era algo sobre o que tenho pensado, em decorrência do meu enfoque no conhecimento dos alunos e na percepção do que me parece que anda acontecendo à nossa volta nos últimos anos.

Afirmei que talvez a gente devesse começar a pensar mais nas mudanças que andam acontecendo nos últimos tempos. Não cheguei a falar muito mais sobre isto, mas depois conversando com um colega disse que eu sentia já um impacto muito forte de novas tecnologias e novas relações sociais no ambiente escolar. Para mim isto envolve pelo menos o meu ciclo atual de 16 anos em escola pública estadual e ouso somar a isto minha memória da escola de ensino médio dos anos 80, como aluno, da minha formação universitária no inicio dos anos 90 e depois minha curta passagem de dois anos e meio pela Escola Técnica do Comércio da UFRGS.

Estamos em um momento de transição em que a educação e a pedagogia sofrem mudanças que são, inclusive, independentes das propostas de gestão ou dos dispositivos de gestão atuais e também os jovens estão sofrendo uma mudança significativa em suas formas de ser, valores, hábitos, interesses e na visão que eles tem da escola. Não penso que isto se deva tanto a um atraso da escola, me parece que é toda uma dinâmica que está se alterando, que envolve noções de tempo, movimento, conceitos e também eixos e áreas de interesse. Assim, penso que talvez devêssemos pensar de forma mais compreensiva e menos resistente em relação a isto fazendo mais uso da nossa sensibilidade e também de um senso maior de equilíbrio na relaçõa com os alunos e a escola, é um momento que nos exige mais calma, menos automatismo e mais reflexão sobre o que anda ocorrendo. 

Estão mudanças envolvem as novas interfaces, conexões, envolve uma espécie de priorização do mundo do trabalho e da renda em relação aos aspectos formativos, mas também envolvem ao meu ver uma mudança de sensibilidade e uma  mudança de linguagem. Estes dias cheguei a dizer por aqui que eu julgava que os jovens hoje tinham uma espécie de dilatação da noção de tempo, que as urgências deles estavam se alterando. E, depois, fiquei pensando em que isto tinha relação com aquela velha hipótese que me tocava lá nos anos 90 de que estávamos vivendo um mundo de cultura das imagens. Pois tendo a desconfiar que já era. Que ao contrário do que parece ocorrer e do que se assiste na mídia a banalização da violência e a sexualização precoce – com aquelas programações e com uma tonelada de provocações agressivas, apelativas em música, dança e etc.  – estávamos a  viver uma espécie de renascimento das ciências humanas, que toda esta tecnologia acabaria por levar para a dimensão oposta ao tecnicismo.

Cheguei a dizer, como exemplo, para um colega que a facilidade de acesso acabaria por levar os jovens dos poemas singelos de Mário Quintana – o que não é tirar qualidade dele - aos Sonetos de Shakespeare. Valeria dizer aqui, que toda esta tecnologia terá o efeito de ampliar a visão humana e a sensibilidade das novas gerações, inclusive com uma abertura maior para a história e a artes, sem falar em sociologia ou filosofia.

Por fim, admito que sou otimista e que penso, portanto, que cabe a nós dar conteúdo e contribuir na elevação da qualidade dos conteúdos oferecidos aos alunos e alunas nas escolas e aos jovens em geral.         


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

DOCUMENTO DE CULTURA E DE BARBÁRIE, WALTER BENJAMIN E MINHA DISTÂNCIA DE SIRACUSA

Penso sempre em Walter Benjamin e nas tragédias e mazelas do século XX. Hoje fazem 73 anos da data do seu desaparecimento na Fronteira entre a França e a Espanha, em Port Bou.

Ele é um símbolo para mim também do que seja uma situação aparentemente sem saída e por mais otimista que eu seja tenho tomado certas precauções ultimamente.

Tenho tentado tomar certas providências para me afastar pelo menos por uns tempos de Siracusa...não meter o bedelho, nem jogar minhas expectativas naquela cidadela tão promissora e tão perigosa para mim mesmo...três vezes é um bom limite para cada um de nós.....

TESE VII SOBRE A FILOSOFIA DA HISTÓRIA:

"Não há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie. E, assim como ele não está livre da barbárie, assim também não o está o processo de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um vencedor a outro. Por isso, o materialista histórico, na medida do possível, se afasta dessa transmissão. Ele considera como sua tarefa escovar a história a contrapelo." Walter Benjamin...

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O DISCURSO DE DILMA: O FUTURO DA HUMANIDADE

AO DISCURSO DA DILMA: O FUTURO DA HUMANIDADE  

"Desejar o desejo de um outro é, então, em
última análise, desejar que o valor que eu sou
ou que eu 'represento' seja o valor desejado
por esse outro: eu quero que ele 'reconheça'
meu valor como seu valor, eu quero que ele
me reconheça como um valor autônomo. Dito
de outra forma, todo desejo humano,
antropogênico, gerador da Consciência de si,
da realidade humana, é, em última instância,
função do Desejo de reconhecimento."

(Kojève, 1947, p. 14)

Dilma fez um discurso na ONU ontem que é digno de ser mais compreendido, reconhecido e colocado com seu valor exato e peso exato no registro histórico e político devido.

É por absoluta ignorância ou pequenez que ninguém ainda observou que, ao discursar ontem Dilma, se colocou à frente do seu tempo, não porque trouxe algo novo, mas simplesmente porque renovou um discurso e uma promessa que muitos abandonam quando chega a sua vez de cumprir sua parte neste acordo universal. E nós não podemos assistir a isto e nos omitir perante isto. A promessa que ela reapresentou ontem é aquela que dá sentido a qualquer projeto de humanidade, com racionalidade e respeito à diferença e à possibilidade de uma comunidade pacífica entre as nações. E é muito triste que esta promessa tenha que ser lembrada não como afirmação de um ideal comum, mas sim como uma cobrança de mudança de atitude e necessidade de repactuação perante a nação militarmente e economicamente mais poderosa do mundo.

Ela falou de uma proposta de humanidade inatacável na ONU, de uma proposta de humanidade que subjaz e justifica a criação da ONU, ela envolve o respeito à soberania nas relações entre os povos, a defesa de igualdade social, a garantia de direitos civis e individuais. Ela falou daquilo que alimenta um ideário muito nobre, mas também legitimador, contra todas as formas de dominação, submissão e exploração vigentes neste mundo desde o início da modernidade e que são objeto da nossa rejeição.

Estas dificuldades que são aqui e ali enfrentadas por muitas nações, povos, tribos e culturas frente à outras culturas. Este apelos por um mundo de relações diferentes entre os desiguais, tem sido feitos de formas muito marcantes inicialmente nos países de língua inglesa, Inglaterra e as colônias da Nova Inglaterra nos séculos XVI e XVII.  Estes apelos estão nas origens e são ideários que constam nos primeiros panfletos burgueses da Inglaterra quando os súditos reivindicavam cidadania, respeito á vida e limitação dos poderes da nobreza e da coroa.

A Declaração da Independência Americana de 1776 é uma documento depositário destes ideais e sonhos de nações livres e iguais entre os povos.

Estes ideários forma reforçados na Revolução Francesa com as palavras de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Mais tarde estes ideais guiaram e deram razão e geraram lutas muito intensas por independência dos povos coloniais contra o imperialismo europeu e americano pelo mundo. E nós aqui, os gaúchos, só nestes ideais podemos fundar qualquer elogio à Revolução Farroupilha, pois afora isto muitas críticas são possíveis e necessárias. Por isto pontuei o Massacre dos Porongos, no dia 20 de setembro, porque ele representa de forma dolorosa, covarde e mesquinha, justamente a traição destes ideais.  

E a defesa da liberdade individual que tem sua origem e que foi multiplicada no grito de liberdade dos escravos, no grito dos negros contra a discriminação racial, nos gritos e lutas de muitos movimentos civis e sociais por direitos e por respeito a sua autonomia, opções, escolhas de vida; e, também, importa muito falar aqui no respeito não somente conceitual ou acadêmico entre vida privada e vida pública, no respeito à intimidade e a esfera privada de cada ser humano e no respeito e solidariedade aos outros, estão sim registrados num ideário do futuro da humanidade que não pode ser negado sensatamente.

É bom que Dilma tenha expresso isto com suas palavras de presidenta da nossa nação soberana.

O problema – que muitos néscios, ignorantes, desinformados e irresponsáveis e toda uma turma do VALE TUDO e dos que topam QUALQUER NEGÓCIO, não conseguem ver é: Como é que o OBAMA se omite em relação a estes valores e ideais e uma parte do mundo ainda consegue ficar do lado dele e dizer: TUDO BEM!!!???

Isso é um atraso, é o avanço da barbárie e do chumbo sobre as letras da nossa humanidade!!!

Acordem, antes de virarem escravos e completamente submissos esta ordem mundial destrutiva e nociva a humanidade.

É uma vergonha pensar diferente disto.


  

RECONHECIMENTO, AUTONOMIA E DESEJO

UMA NOTA PRELIMINAR AO DISCURSO DA DILMA

"Desejar o desejo de um outro é, então, em
última análise, desejar que o valor que eu sou
ou que eu 'represento' seja o valor desejado
por esse outro: eu quero que ele 'reconheça'
meu valor como seu valor, eu quero que ele
me reconheça como um valor autônomo. Dito
de outra forma, todo desejo humano,
antropogênico, gerador da Consciência de si,
da realidade humana, é, em última instância,
função do Desejo de reconhecimento."

(Kojève, 1947, p. 14)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

MÚSICA E FILOSOFIA: SAFRANSKI

Rüdiger Safranski, este grande biógrafo de Heidegger, ET. Hoffmann, Schopenhauer e Nietzsche, que também é filósofo em outra obra pegou este tema da música e da filosofia de forma bem límpida, entre outras coisas que grifei, em relação ao nosso tempo e às nossas sociabilidades atuais. Veja:

“…a música pode ser vista como uma força que triunfa sobre a confusão babilônica das línguas. A ideia ligada a isso – de que a música estaria mais próxima do ser do que qualquer outro produto da nossa consciência – é muito antiga. Ela está na base dos ensinamentos órficos e pitagóricos. Guiou Kepler quando ele calculou a órbita dos planetas. A música era considerada a linguagem do cosmo… e em Schopenhauer ela aparece como expressão imediata do desejo do mundo.

Quem se senta no metrô ou faz cooper num parque usando fones de ouvido vive em dois mundos. Ele viaja ou corre apolineamente, enquanto ouve dionisiacamente. A música sociabilizou a transcendência e a tornou um esporte de massas. As discotecas e salas de concerto são as catedrais atuais. Uma parte significativa da humanidade entre 13 e 30 anos vive hoje nos espaços dionisíacos do rock e da música pop que são fora da linguagem e anteriores à lógica. As correntes musicais não conhecem fronteiras… A música forma novas comunidades e transporta para um outro estado. Ela abre as portas para uma nova existência. O espaço audível consegue isolar o indivíduo e fazer com que o mundo exterior desapareça, e mesmo assim a música, num outro nível, faz com que aqueles que escutam se agrupem. Eles podem ser mônadas sem janelas, mas não mais estão sozinhos quando ouvem a mesma coisa. A música, numa camada da consciência que antigamente era chamada de ‘mística’, torna possível uma consciência social profunda.

Percebe-se em Nietzsche toda a indignação de uma pessoa que deseja ver a arte, especialmente a música, no coração do mundo; de alguém que encontra seu verdadeiro ser ‘sob o encanto da arte’ e que por isso luta contra a postura segundo a qual a arte é uma coisa secundária…Essa indignação em relação aos burgueses violadores do templo da arte – Nietzsche os chama de ‘filisteus’ – é também um tema constante dos autores românticos. (…) O sentimento dionisíaco é visto por Nietzsche como um poder vital mítico… uma espécie de união ébria com a substância do mundo… Na concepção de autores como Schlegel e Nietzsche, energias dionisíacas atuam na arte; elas não estão direcionadas para um além brilhante, e sim para o claro-escuro do processo vital, grandioso e dinâmico…”


In: RÜDIGER SAFRANSKI. Romantismo: Uma Questão Alemã. Trad. Rita Rios. São Paulo: Ed. Estação Liberdade, 2010. pp.260-161 e 257-258.

A LISTA RUBRICADA DOS QUE DEVERIAM SER CASSADOS EM 1964 NO RIO GRANDE DO SUL

A lista dos políticos que deveriam ser cassados em 1964, foi divulgado um fac-simile dela pelo Juremir no Correio do Povo de Hoje. 


Os nomes, entre deputados, prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e líderes, são:

José Lamaison Porto
João Caruso Scuderi
Wilson Vargas da Silveira
Justino da Costa Quintana
Antônio Simão Visintainer
Beno Orlando Burmann
Rubens Dário Porciúncula
Clay Hartmann de Araújo
Sereno Chaise
Dr, Ajadil de Lemos
Faryde Salomão
Paulo Denavier Lauda
Adelmo Simas Genro
Dr. Luiz Maria Ferraz
Prof. Frederico Pedro Irineu Petrucci
Hilson Scherer Dias
Hélio Carlomagno
Edson Medeiros
Jair de Moura Calixto
Floriano Maia D’Ávila
Guilherme do Vale Tonniges
Bruno Segalla
Fúlvio Celso Petracco
Vicente Martins Real
Carlos de Lima Aveline
Alberto Schoroeter
 Jorge Alberto Campezatto
Ottomar Ataliba Dillenburg
Antonio de Pádua Ferreira da Silva
Hamilton Chaves
Cybillis Otto Vianna
Álvaro Ayala
Dr. Walter Tschiedel

Texto do Jornalista Juremir Machado da Silva:

"50 anos do golpe midiático-civil-militar de 1964
A lista com nomes de parlamentares e prefeitos gaúchos a serem cassados não se fez esperar. A descoberta de Álvaro Larangeira, nos arquivos de Brasília, destaca como novidade, mais do que nomes,  a forma epistolar do processo, os seus bastidores e o papel voluntário e entusiasmado de cada ator na caça às bruxas depois do golpe midiático-civil-militar."

Foi confeccionada, portanto, com alegria e jubilo pelos adversários deles e enviada para Brasilia para que fosse promovida a dita faxina nas hostes trabalhistas (comunistas) brasileiras do Rio Grande do Sul. 

É uma lista composta de homens políticos gaúchos tão perigosos e subversivos que aqueles que fizeram esta lista, aqueles que os cassaram e aqueles que julgaram eles perigosos para o Brasil e o Rio Grande do Sul deveriam se envergonhar profundamente deste gesto. Não me admira que o que se criou no lugar destes homens - ou seja aqueles que permaneceram no poder e que "resistiram ou ficaram de fora"  desta lista tenham levado em parte o Rio Grande do Sul ao ponto em que hoje estamos. 

A parte aparentemente pior disto é que não há como pensar como seria se tivesse sido diferente eles dirão, mas nos deveríamos de dizer que agente sabe exatamente como foi, como é como tem sido porque foi desta forma. 

Tenho lido um pouco sobre situações de exílios, sobre ser estrangeiro em outro país, sobre a noção de pátria e sua parceira relevante cidadania, sobre punições a nazistas, facistas, racistas, machistas e etc, e mesmo assim eu olho para os carrascos e fico olhando também para as testemunhas para aqueles que dizem em situações como estas que não poderiam ter feito nada, porque não estava ao seu alcance, porque não tinham poder - alguns dizem - outros até confessam que estavam salvando o próprio couro...a história tem esta faceta da covardia e é preciso mesmo muita coragem para ir na contramão da manada entusiasmada ou da boiada silenciosa...que VERGONHA ISSO!!! 

Nossa...se os deuses gregos presidissem nosso destino aqui eu amaldiçoaria a todos os maldltos, seus herdeiros até a quinta geração, para que fique gravado por gerações o erro, a culpa e a covardia da traição contra seus iguais....

Não como na Inglaterra, em que a traição havia sido ao rei, no nosso caso a traição foi com a humanidade inteira e contra homens e mulheres que desejam ser livres e ter algum arbítrio sobre o seus destino e dos seus...

TENHAM VERGONHA NA CARA!!! 

Contra quem eu falo? 

Ora, talvez você não saiba mas podes ter certeza que eles sabem muito bem!!! 

Me julgas radical? 

Aceito pagar este preço por ser sério e por levar a sério a história.   

domingo, 22 de setembro de 2013

STF E A COMÉDIA DOS ERROS

Estive pensando sobre as pautas do STF...não demora muito tudo -  a teoria do domínio do fato, a condenação sem provas, o argumento da prevalência da opinião pública sobre a lei e a constituição, a arrogância, soberba e vaidades, o destrato entre juízes, a afronta via jornais na tentativa de constranger, o exibicionismo e os abusos em diversas situações, serão tudo isso muito criticados, e ainda vai ser considerado este capítulo da história deste tribunal a grande COMÉDIA DOS ERROS DO STF, o que se soma aos habeas corpus concedidos a flagrantes meliantes pelos senhores que pomposamente e vaidosamente julgam presidir o TRIBUNAL DA RAZÃO BRASILEIRA... 

sábado, 21 de setembro de 2013

FILOSOFIA E AMOR À FILOSOFIA

A palavra filosofia é sempre e geralmente cunhada e analisada etimologicamente pelas expressões amor (em grego filia) e sabedoria (em grego sofia), o filósofo seria um amigo ou amante da sabedoria. Sempre preferi dizer que o filósofo é o amante da sabedoria ou aquele que tem amor pela sabedoria e sei já que para alguns isso tem um significado ultrapassado ou não corresponde às suas preferências ou predileções conceituais e lógicas. Pois eu continuo neste caminho de procurar dar sentido afetivo a esta atividade e não tenho me afastado de um encontro com ela em que além do estranhamento e admiração, o espanto – me foi dado gosto pela atividade, o qual a medida que fui desenvolvendo e praticando se pode chamar também de um certo amor.

Aristóteles abre curiosamente uma de suas diversas lições sobre o conhecimento afirmando que “todos os homens tem desejo de conhecimento” e que “uma prova disto é o prazer das sensações”. Já gastei e vou ocupar ainda algumas aulas abordando esta pequena passagem e procurando mostrar o quanto é preciso que esta expressão de Aristóteles seja entendida não como uma esperteza de professor que procura cativar ou capturar a curiosidade de seus alunos e a atenção deles. Mas sim porque devemos atentar como uma gigantesca e muito severa solução para o problema de demonstrar como nossa alma intelectiva se ocupa com os objetos dos sentidos, com as coisas, e tem algum prazer ao conhecê-las. E como, em uma pequena anotação agora, de uma pequena curiosidade ou admiração nós ascendemos ao conhecimento das causas últimas e primeiras e contemplamos a verdade conquistando a sabedoria. No caso aqui conquistar sabedoria só é possível com gosto, com atenção, com perseverança e se realiza sim como uma forma de amor. Com um único senão de que precisamos diferenciar o gosto pelo conhecimento do amor à sabedoria no sentido de que este último é um fim em si mesmo e que o primeiro se realiza também tendo em vista outras coisas, ainda que para aqueles que o produzem seja também um fim em si mesmo. É assim que posso diferenciar o desejo de conhecimento tendo em vista sua aplicação do desejo de conhecimento que se realiza em si mesmo, per si.    

Assim, digo a filosofia, não é somente um processo de obtenção de conhecimento per si, mas que é um processo recíproco de conquista da sabedoria em que ocorre uma certa sedução mútua entre o sujeito e seu próprio objeto de conhecimento, ainda que este objeto não tenha vontade própria, ressalvada a hipótese de que o pensamento possa ser um grande coletivo de idéias que ao longo da história se materializam ou se instanciam neste mundo.

QUE É METAFÍSICA? - PRELEÇÃO 1929 - MARTIN HEIDEGGER - TRADUÇÃO ERNILDO STEIN - COLEÇÃO OS PENSADORES

[Na angústia] “Todas as coisas e nós mesmos afundamo-nos numa indiferença. Isto, entretanto, não no sentido de um simples desaparecer, mas em se afastando elas se voltam para nós. Este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na angústia, nos oprime. Não resta nenhum apoio. Só resta e nos sobrevém – na fuga do ente – este “nenhum”. A angústia manifesta o nada.” (HEIDEGGER, 1979, p. 39).

“O nada não é nem um objeto, nem um ente. O nada não acontece nem para si mesmo, nem ao lado do ente ao qual, por assim dizer, aderiria. O nada é a possibilitação da revelação do ente enquanto tal para o ser-aí humano. O nada não é um conceito oposto ao ente, mas pertence originariamente à essência mesma (do ser). No ser do ente acontece o nadificar do nada.” (HEIDEGGER, 1979, p. 41).

“E, contudo, é este constante, ainda que ambíguo desvio do nada, em certos limites, seu mais próprio sentido. Ele, o nada em seu nadificar, nos remete justamente ao ente. O nada nadifica ininterruptamente sem que nós propriamente saibamos algo desta nadificação pelo conhecimento no qual nos movemos cotidianamente.” (HEIDEGGER, 1979, p. 41).

“Suspendendo-se dentro do nada o ser aí já sempre está além do ente em sua totalidade. Este estar além do ente designamos a transcendência. Se o ser-aí, nas raízes de sua essência, não exercesse o ato de transcender, e isto expressamos agora dizendo: se o ser-aí não estivesse suspenso previamente dentro do nada, ele jamais poderia entrar em relação com o ente e, portanto, também não consigo mesmo. Sem a originária revelação do nada não há ser-si-mesmo, nem liberdade.” (HEIDEGGER, 1979, p. 41).

“Somente porque o nada está manifesto nas raízes do ser-aí pode sobrevir-nos a absoluta estranheza do ente. Somente quando a estranheza do ente nos acossa, desperta e atrai ele a admiração. Somente baseado na admiração – quer dizer, fundado na revelação do nada – surge o “porquê”. Somente porque é possível o “porquê” enquanto tal, podemos nós perguntar, de maneira determinada, pelas razões e fundamentar. Somente porque podemos perguntar e fundamentar foi entregue à nossa existência o destino do pesquisador.” (HEIDEGGER, 1979, p. 44).


“A questão do nada põe a nós mesmos – que perguntamos - em questão. Ela é uma questão metafísica.” (HEIDEGGER, 1979. p.44)

SARTRE - A IDADE DA RAZÃO

"Daniel era um homem de má vontade. No limiar da entrada de um edifício, um porteiro gordo e pálido, de ombros caídos, aquecia-se ao sol. Daniel viu-o de longe; pensou: «Eis o Bem.» O porteiro estava sentado numa cadeira, com as mãos sobre o ventre como um Buda, via as pessoas passarem e de quando em quando aprovava uma qualquer pessoa com um meneio de cabeça. «Ser aquele tipo», pensou Daniel, com inveja. Devia ter um coração reverencioso. Além disso, sensível às grandes forças naturais, ao frio, ao calor, à luz, à humidade. Daniel parou, fascinado pelas longas pestanas estúpidas, pela malícia sentenciosa das bochechas cheias. Embrutecer-se até chegar àquele ponto, até ter na cabeça apenas uma massa branca com um perfumezinho de sabão de barba. «Isto dorme todas as noites», pensou. Já não sabia se tinha vontade de o matar ou de deslizar confortavelmente dentro daquela alma bem regrada. O homem levantou a cabeça, e Daniel esticou o passo. «Com a vida que levo, resta-me a esperança de me tornar indulgente o mais depressa possível.»" 

(Sartre - A Idade da Razão)

HANNAH ARENDT: MARCAS


“Há uns que nos falam e não ouvimos; 

há uns que nos tocam e não sentimos; 
há aqueles que nos ferem 
e nem cicatrizes deixam, 
mas... há aqueles 
que simplesmente vivem 
e nos marcam por toda vida"

Hannah Arendt

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

SEBASTIÃO SALGADO NO RODA VIVA

Assisti esta semana a entrevista no RODA VIVA com o Sebastião Salgado RODA VIVA - 16 DE SETEMBRO DE 2013 e é algo admirável este homem, sua sensibilidade, humanidade e visão das coisas...recomendo para todos os humanistas, fotógrafos, artistas e pessoas que pensam ousadamente na humanidade e no mundo em que vivemos...é notável e se aprende, se confirmam e se ampliam muitas coisas com as ideias e relatos dele....

SE TEM PROFESSOR, TEM ALUNO

Estes dias usei o seguinte argumento decisivo em uma questão básica: Se tem professor, tem aluno; e os alunos provam isso todos os dias - admiro muito o uso da inteligência combinado com o conhecimento, porque a questão não é ser experto ou vencer o debate a qualquer preço, é ter razão, ter juízo...

LEMBRANÇAS DA CHUVA

Chove...e em dias como hoje eu lembro muito dias marcantes da minha vida...dias de uma solidão e de um roteiro de andarilho...e eu lembro dos meus pés molhados...dos últimos sapatos...daquelas calças de brim (de mendigo) customizadas, das meias e das minhas velhas camisetas....daquela jaqueta marrom encharcada e eu caminhando em direção ao futuro...balançando uma mochila verde nas costas...algumas poucas moedas nos bolsos, duas ou três notas de papel...um isqueiro, um maço de cigarros bem forte e os olhos lançados na paisagem...mesmo a neblina e a redução de luminosidade da chuva mostra o mundo, um mundo em que só está na rua quem precisa estar...para onde você vai? Não sei aonde o vento vai me levar, mas eu vou, tenha fé que eu vou...depois disso aquele adolescente nunca mais foi o mesmo...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

NIETZSCHE POR FOUCAULT

Quanto a mim, os autores de que gosto, eu os utilizo. 
O único sinal de reconhecimento que se pode ter 
para com um pensamento como o de Nietzsche é 
precisamente utilizá-lo, deformá-lo, fazê-lo ranger. 
Que os comentadores digam se se é ou não fiel, isto
não tem nenhum interesse. (Michel Foucault)

NIETZSCHE E SUA OBRA VONTADE DE PODER: NOTA PRELIMINAR



Comprei aquele livro amaldiçoado por alguns e querido por outros chamado  VONTADE DE PODER. A curiosidade e a coleção de perguntas era imensa em relação ao seu conteúdo crítico. Aliás, leio Nietzsche antes mesmo de ter sido alfabetizado em filosofia e aprendi a ler ele com um quê de suspeita e de distanciamento porque percebi muito cedo que ele era pesado, denso e que possuía ideias tão extremas que poderiam estar me levando a me perder de mim mesmo. 

Quer dizer nunca li Nietzsche me deixando guiar por seu pensamento, sempre tentei pensar de forma autônoma em relação ao que lia. É muito engraçado dizer isto, mas confesso que ao ler aquele volume dos pensadores aos 17 anos pensei tantas coisas e me coloquei tão intensamente em questão que aprendi a dizer para mim mesmo: PÁRA! NÃO PIRA CARA! E assim, a partir daquela experiência que me colocava em tentações e extremos que hoje observo com graça e muito humor, me dei ao trabalho de nunca mais ler, ouvir ou debater nada sem desconfiança e sem me perguntar sempre em meu íntimo: mas afinal onde é que esse cara ou esta criatura quer chegar ou nos levar? Até discursos escuto com este espírito desconfiado.  

E, bem, sobre o Vontade de Poder estava comentando com meus alunos, em mais uma etapa do debate interminável sobre Nietzsche e sua periculosidade e suas maravilhas também,  que é uma obra que não tem nenhuma obrigação de ter uma coerência, consistência ou organicidade interna porque foi montada pela irmã de Nietzsche e pelo amigo Peter Gast. E que, portanto, não é uma obra concluída e acabada por seu autor. Mas além disto eu entendia que como todas as outras obras de Nietzsche parecem possuir uma tensão interna, uma tensão essencial entre suas expressões e posições e uma tensão entre o que ele pensava e o que a tradição pensava, então não haveria de ser necessária uma busca de coerência interna na obra, pois deveríamos considerar, inclusive para efeitos de interpretação, que também ali dentro daquela obra como de outras obras de Nietzsche havia um choque interno de ideias, disposições e confrontos titânicos entre impulsos de poder, força e de destruição. 

Sim, porque na primeira vez que li a expressão Filosofia de Martelo ou que se deve fazer filosofia às marteladas fiquei pensando mesmo no que corresponde aos dedos em uma filosofia de tal natureza e conclui que os dedos somos nós mesmos e que mais uma vez encontrava em Nietzsche um certo risco. Hoje não atribuo mais exclusivamente à Nietzsche estes riscos não e inclusive vejo em pensadores mais suaves e macios - para usar certa analogia graciosa - situações tão enganadoras, perdições tão bem disfarçadas quanto num Nietzsche em que é muito e as vezes exagerado e evidente os intensos riscos que corremos ao pensar criticamente e efetivamente contra a maré do senso comum, este espírito covarde de manada, e esta última moda em que negar compromissos parece a solução para quem nãos e arrisca em tentar fazer aquilo que parece tão difícil de ser feito.       

Mas, bem recomendo uma olhadinha e uma passadinha em VONTADE DE PODER que como todas as obras de Nietzsche sacode a cabeça da gente de montão....e que isso talvez nos ajude a colocar fora ideias e concepções que não sobrevivem ao fogo do cadinho ou às marteladas e choques críticos de Nietzsche impõe ao pensamento da tradição e ao seu próprio pensamento.

SOBRE CRISES DE ADOLESCÊNCIA E O TEMPO DE CADA UM: PARA OS MEUS ALUNOS E A ALUNAS

Bom Dia...

Tenho notado aqui muitos alunos e alunas em crises de relação, de amizade, de confiança e por diversos motivos que os deixam bem aborrecidos e chateados...sem querer ser o vovô sabe tudo, mas isso é bem coisa de adolescente mesmo. Já passei muito por isto e vejo inclusive alguns adultos que ainda passam por situações assim deste tipo de por em crise as relações, as confianças e gerar insegurança e infelicidade...vocês estão numa fase que é marcada por diversas escolhas, indecisões, impulsos, uma fase cheia de rolos para desenrolar na cabeça de vocês que passa também pela relação com pais, com a escola, com figuras de autoridade de diversos tipos.

Tudo isso gera uma inseguranças e também gera sentimentos, situações e coisas que são aparentemente meio estranhas também...eu vejo situações do tipo querem mas não querem, vejo situações do tipo sou adulto, mas quero continuar sendo criança, vejo situações em que vocês gostariam de pode fugir para um lugar melhor, mas não tem para onde - dai sobre somente para a BALADA a ALTERNATIVA...Olha só, se é que eu posso falar algo sem ser chamado, se é que posso me meter neste assunto de vocês isso é uma coisa bem típica...tenham calma, aproveitem a juventude de vocês e não fiquem levando tão a sério esses lances de amigas e amigos, porque as vezes alguns de nós são mais centrados e exigentes afetivamente e socialmente, culturalmente e moralmente e os outros mal sabem para que lado sopra o vento - estão meio que perdidos mesmo...uma sensação de estar no mundo sem uma bússola para se orientar, sem um líder ou uma luz para seguir e ficam assim mesmo batendo cabeça, correndo para lá e para cá...a consequência disso é que dai fica esse lance meio atravessado entre vocês...

Vale aqui a analogia que usei sobre a alfabetização e o aprender a filosofar. Eu disse que o estalo do aprender a ler é um momento tão especial que deveríamos pagar os maiores salários para as alfabetizadoras  e alfabetizadores porque na minha cabeça este momento muito particular de cada um de nós vai determinar nossa relação com a linguagem, nossa relação com o conhecimento e a aquisição do conhecimento e a nossa  forma também de lidar com desafios e nosso modo de passar por etapas, vencer obstáculos e superar limitações, receber pressão, compreender a expectativa dos outros sobre a gente e também sobre nossas próprias expectativas  e a forma como lidamos com elas. A gente descobre ao observar este momento uma verdade quase absoluta e que se aplica a muitas situações nossas que ocorrem ao longo da vida e que nos diferenciam dos demais: CADA UM TEM UM TEMPO PRÓPRIO PARA CRESCER.

E não adianta a gente ficar equivalendo as pessoas por idade ou fazendo perfil do jovem de 16, 17 ou 18 anos achando que todos estão iguais. Na verdade, cada um deles e cada um de vocês dadas as suas condições próprias, conformações genéticas, redes de estímulos e relações sociais, interesses e curiosidades tem um tempo para determinadas coisas, um tempo próprio para dar certos passos e conseguir crescer nestas ou em outras questões. 

É claro que a sociedade por uma razão econômica e também por uma razão bem produtiva trata todos vocês como se vocês fossem carrinhos numa linha de montagem que vão sair da fábrica prontinhos após o segundo grau ou coisa que o valha, mas nem o baile de debutantes transforma uma menina em mulher, nem a formatura de ensino médio faz vocês virarem adultos e nem a carteira de motorista transforma vocês em motoristas responsáveis, ou seja, não existe esta coisa que a partir de tal data - completei 18 anos por exemplo - se vira adulto, maduro e se tem uma personalidade e um caráter desenvolvido. 

Vocês todos estão em formação, em um processo que dura para alguns até os 18 anos, para outros até os 24 e para outros até os 30 anos - podem escolher a data viu se quiserem - e se a gente não der umas cobradas em vocês, vocês vão ficar desse jeito batendo cabeça até os 50 anos de idade. 

Mas mesmo assim é preciso ter calma. Vocês não crescem todos juntos na real e nem aprendem tudo ao mesmo tempo. Alguns são muito rápidos e ligados digamos assim e outros se enrolam em emoções, desejos e substituem coisas que não tem em relações que nem são tão maduras assim, mas todos fazem isso tentando ser felizes. Mas então qual o problema professor? Ora, ora, o problema é que no meio de tudo isso  vocês erram, acertam, as vezes acertam de forma maravilhosa inclusive, mas tudo isso acontece com um montão de desentendimentos, mal-entendidos, confusões, controvérsias, negações, recuos, vacilações, choques, confrontos e indiferenças e insensibilidades também. 

Sim alguns de vocês andam como um trator passando por cima de tudo que para na frente de vocês e não dando à mínima para o sentimento dos outros e dai acontece estes desgastes, atritos  e este sentimento de frustração de uns em relação aos outros. Eu recomendo irem com mais calma nisso tudo, porque todos nós erramos e podemos ser melhores, muito melhores se nos dispusermos a ser mais compreensivos. E eu tenho certeza que os pais, mães, irmãos, amigos, vizinhos, professores e professoras e todo mundo que está em volta de vocês também pode entender isso e se vocês ficarem mais suaves ou mais macios as coisas serão bem mais fáceis de resolver. Faz parte de um preceito básico na nossa vida buscar o prazer e evitar o desprazer e eu creio que se vocês começarem a entender isso melhor, inclusive aceitando que o prazer não pode ser permanente, nem que o prazer imediato é melhor terão mais paciência e farão o esforço necessário para crescerem e aprender e se educarem e melhorarem as relações entre vocês e com os demais seres humanos.  

Cada um tem um tempo próprio de amadurecimento e suas próprias etapas e entender isso nos leva a ir com mais calma nas nossas relações e nas nossas expectativas.

Bem, por fim, A GREVE ACABOU E AGORA É AULAS...um abração amigo... 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

ANOTAÇÕES SOBRE A FELICIDADE EM ARISTÓTELES

ANOTAÇÕES SOBRE A FELICIDADE EM ARISTÓTELES

Bom Dia....tomei meu café...li os jornais e fiquei pensando e repensando na felicidade e no cipoal de traduções, discussões, interpretações e jóias raras em que me meto ao tomar a iniciativa de estudar um pouco mais este tema em Aristóteles. 

Só para não parecer ocioso ou delirante em minha ocupação informo que faço isto por razões pedagógicas e existenciais. Fazer isto me dá certo prazer, apesar das dificuldades. Tenho um sentimento de que ao fazer isso cortejo de forma deliberada e incontornável a sabedoria mesma. Em uma aula cheguei a dizer que o amor pela sabedoria também é uma forma de amor de si, um amor próprio, não por vaidade, nem por orgulho ou para jactar-se entre os leigos, mas porque tem importância em si mesmo para a nossa vida e a nossa busca da felicidade. Somente ai me dou conta do porque em certa medida gostar da filosofia ou o desejo do conhecimento fazem tanto sentido em nossa existência. Em parte porque tem valor em si mesmos, de outra parte porque com as mudanças dos tempos e com om decorrer da vida, eles proporcionam sim, outras coisas. Eles alteram – estes conhecimentos e mesmo alguns fragmentos de sabedoria - nossas relações qualitativas e quantitativas com o mundo, com as pessoas e com as coisas. Eu diria aqui que eles dão MODOS ou FORMAS melhores de nos relacionarmos com todo o mais que há. 

A felicidade é um dos temas centrais da teoria ética de Aristóteles que fica no coração – por assim dizer – da obra Ética à Nicômaco.

Do relatório diário de pesquisa informo que ainda não encontrei a fonte daquele texto e que, portanto, o mesmo prossegue como sendo atribuído a Aristóteles, seja ele apócrifo, anotação de um discípulo, versão romana ou latina, interpretação ou tradução patrística, uma súmula medieval, ou seja lá o que for na modernidade e na pós-modernidade (século XXI).

Em todo caso, vou continuar usando ele como leitmotiv e pedra de toque da nossa investigação aqui:

“Felicidade é ter algo que fazer, ter algo que amar e ter algo que esperar.”

Uma primeira questão fundamental sobre a felicidade parece mesmo ser a relação entre prazer, desejo e felicidade. E ela começa de forma básica pelo fato de que para Aristóteles existe um princípio elementar entre os seres que possuem ou são providos de órgãos dos sentidos: todos procuram o prazer e evitam o desprazer. E este texto no fala disto aqui também pois ter o que fazer, com determinado modo de fazer, nos dá prazer, ter algo que amar ou amar pode ser a felicidade no tempo atual em ato e ter algo que esperar pode ser tomado ai como um desejo a realizar ou a expectativa positiva de realização deste desejo.

Quanto ao ter “algo que fazer” este pode ser interpretado com algumas anotações lembranças básicas. Podemos lembrar de uma colega professora que dizia, usualmente, que cabeça desocupada é oficina do diabo. E ela dizia isso pensando no fato de que pessoas que não se ocupam com algo, pessoas que não tem o que fazer ou que não gostam do que fazem acabam por ocupar suas mentes e inteligências com bobagens ou coisas ruins. Saindo daí atitudes ruins e más. Mas podemos lembrar também que toda vez que ficamos doente não podemos fazer nada e que isto nos deixa muito infeliz e nos dá muito desprazer. Por fim podemos lembrar e divulgar uma especialidade de saúde que respeitamos muito que é a Terapia Ocupacional que trata justamente de viabilizar ao enfermo, seja a sua reabilitação funcional seja uma forma de ocupação coadjuvante em seu tratamento de saúde. 

O fazer em Aristóteles tem um caráter prático, e é destacável e distinguível nele uma ideia de que o homem ocupa-se com a produção de algo, tem sua existência tendo em vista um fim que lhe é objeto de sua ação. Mas ontologicamente pode ser lido como uma ocupação do ser e Heidegger gostava justamente de enfatizar isto: o ser se ocupa com o mundo, com as coisas com tudo aquilo que lhe é dado. A mundaneidade do mundo e os modos de ocupação do ser do Dasein em Heidegger nos ajudam  a pensar  com as palavras dele aqui num aspecto que considero importante aqui o homem  tem um horizonte a partir do qual ele se relaciona com todo o resto e seu modo de ver, seu modo de pensar determina parte desta relação com todo o resto num tempo determinado.

Aristóteles tem sim uma doutrina da felicidade que contempla esta dimensão temporal, ao meu ver  – para ele felicidade é em grego eudaimonia  e isto trata implicitamente e significativamente tanto de ter um bom espírito, quanto de se estar em bom estado de espírito, quer dizer o homem feliz tem o espírito bom ( o que é uma potência) e este espírito está bem em ato. Aristóteles tem também uma doutrina específica que trata da ocupação, dos nossos afazeres e ações e, também, tem uma concepção que versa sobre as virtudes em que o esperar desejante ai se relaciona a virtude da temperança o que, ao meu ver, inclui a boa esperança.  

Aristóteles insistiu no caráter contemplativo de felicidade, mas não – como Platão – para descartar as demais dimensões, mas sim para atribuir a ela uma amplidão e quem sabe – me sirvo aqui de uma análise de Nicola Abbagnano em seu dicionário de filosofia que cito a seguir – incluir também a “satisfação das necessidades e das aspirações mundanas ou carnais”.

Para ele a felicidade é “uma certa atividade da alma, realizada em conformidade com a virtude” (Et. Nic. I, 13, 1102). Pequena nota de tradução aqui: é muito freqüente o uso da expressão “excelência perfeita” no lugar de virtude aqui.      

Ma sé importante saltar fora deste problema e enfrentar o problema concreto da virtude que é saber de que modo deve se fazer, se agir e s e pensar para ser feliz. Na visão de Aristóteles tal conhecimento precisa ser adquirido porque nos envolve em juízos e na compreensão das circunstancias. E é nelas que a forma de agir se torna virtuosa ou não.  Com uma determinada graduação entre os prazeres, físicos ou teoréticos - carnais ou contemplativos, digamos assim - e o desejo deles, a procura por eles a busca deles por si mesmos, creio que é possível se compreender aqui tanto o agir virtuoso quanto a sua forma. 

O agir virtuoso – fazendo uso das virtudes, equivale em Aristóteles a uma forma de agir que procura sempre evitar tanto os excessos, quanto as faltas. A visão mais bela que tenho desta situação é a de um equilíbrio na balança. E podemos todos pensar em todas as nossas relações sociais e avaliar se elas encontram um equilíbrio ou desequilíbrio com o próximo. Um juízo sobre isto, sem pretender ser tão sábio quanto esta nobre questão me impõe aqui, poderia nos ajudar a realizar aquele propósito tão belo para a política e para a nossa vida pessoal manifestado por Luciano Marques um grande amigo  meu: melhorar as relações humanas.  


Aristóteles aborda esta dimensão política e pessoal na ação humana e subordina de certa forma a felicidade pessoal à felicidade coletiva. Alguns consideram isto uma grande ingenuidade pré-moderna e de fato é. Porém eu penso que nos ajuda muito pensar nisto pensando também que se agirmos com equilíbrio conseguimos sim melhorar de fato as relações humanas e as condições de vida. Tem muito liberal que quando percebe para onde caminha esta prosa, chama-nos de conservadores e ultrapassados. Isto é, porque ele sabe que se a justa medida nos levar também a aplicar este princípio nas relações econômicas e nas relações de produção, certos excedentes terão que deixar de ser acumulados por poucos e serem justamente redistribuídos aos demais indivíduos que participam deste grande jogo social de divisão social do trabalho, produção e consumo de bens. 

Não é por outro motivo que talvez um dos maiores economistas do final do século XX Amartia Sen quando vai tratar de questões econômicas começa dizendo literalmente que seu propósito é uma questão de ética. Bem como, um dos maiores juristas e filósofos políticos do século XX, John Raws pensa no mesmo tema em seu clássico uma teoria da justiça. E para ambos o tema do equilíbrio entre os indivíduos é sim uma questão de justiça. Aqui do meu modesto ponto de vista acrescentaria que o tema do equilíbrio é também qualitativo e quantitativo, para ir além das questões materiais. E que a moderação ou a dimensão do auto-controle nos leva a pensar mais ainda no tema do bom trato ao outro, ou na alteridade.

Aliás, em boa hora, o poeta e agora – na minha opinião – este poeta passa a migrar efetivamente para a categoria dos filósofos Fabrício Carpinejar publicou uma crônica muito bela em que ele faz justamente as distinções bem devidas e adequadas entre as pessoas duras e as pessoas macias.  E penso sim que é uma questão ética a determinação do modo como nos relacionamos com, os demais indivíduos. 

Em Aristóteles isto se chama justo meio. As traduções mais recentes deste conceito trazem para o português o termo MEDIATIDADE, que substituiria o justo meio ou a justa medida

Uma outra questão é quando cessa o desejo por eles. Bem vistas as coisas, ou seja, vistas dentro de uma dinâmica real, não abstrata ou meramente lógica, penso que o que é um fim em si, um sumo bem, ou a felicidade finalística não pode ser visto como um troféu conquistado e garantido, mas sim deve ter sua conquista renovada todo o tempo por nossa perseverança, por nossa vontade dirigida e deliberada e ser realizada como desejo constantemente. 

Aplicando-se isso a busca da sabedoria eu diria que nunca a conquistamos completamente que ela é desejada por ela mesma e não tendo em vista outra coisa, mas que nossa satisfação não se extingue ao conquistar fatias, parcelas ou termos uma impressão subjetiva ou mesmo objetiva - testemunhada e reconhecida por outros - de possuí-la. 

Assim, lembro do Budismo que trata do deseja mais ou menos assim: "Segundo o Budismo original a fonte do sofrimento do homem é o desejo. O homem sofre porque deseja algo que não possui. Quando finalmente consegue o que quer,quando enfim realiza seu desejo,ele sacia aquela sede específica. Quer dizer:ele não sente mais Aquele desejo. Sente um novo. O desejo é substituído imediatamente por outro desejo. Sendo assim,o homem está destinado a sofrer,porque sempre desejará e sempre ficará insatisfeito.Só deixará de sofrer quando cessar de desejar. Livre da roda de desejos,o homem alcançará A Paz, o Nirvana." e estou citando aqui uma postagem da amiga Ivana Scheffer

Uso este comentário e síntese num texto sobre a Felicidade em Aristóteles porque, logo, logo – quando avançamos na investigação do que é felicidade temos sim que nos ver sobre como atingi-la por inteiro ou completamente.

E as vezes quando leio isso do Budismo eu penso que é melhor sentir a falta e o sofrimento do desejo e buscar satisfazê-lo - inclusive o desejo por sabedoria - do que extinguir este impulso e atingir o Nirvana.

Eu só diria também, se por um acaso alguém vier recorrer aqui a alguma forma de misoginia ou individualismo, pessimismo ou fatalismo, ou optar por um discurso trágico neste tema, que tanto Schopenhauer como Nietzsche - por mais geniais que sejam - ao meu ver encontram-se em desvantagem quanto ao quesito ser feliz em uma vida ou nesta vida...considerando-se as relações deles  com os demais seres humanos. Porque o conceito de felicidade, ou seus aspectos que nos interessam não são somente vinculados à uma espécie de satisfação pessoal exclusivamente....ou ao prazer...

Bem...este texto está em progresso e é um exercício reflexivo meu que mistura desta forma minhas referências e minhas anotações atuais sobre o tema. Está em estado bruto, inacabado e aberto à sugestões. Vou lá para meus demais afazeres do dia.