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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

EXPECTATIVAS E NEGAÇÃO DE EXPECTATIVAS: PRIMEIRA REFLEXÃO E NOTA – IN PROGRESS


EXPECTATIVAS E NEGAÇÃO DE EXPECTATIVAS: PRIMEIRA REFLEXÃO E NOTA – IN PROGRESS

Nas nuvens refletidas pelo Sol.



Nos tempos líquidos em que vivemos, essa expressão cunhada por Bauman, que se tornou uma caracterização de época, é muito comum e corrente o uso de expressões que tentam minimizar as expectativas e impor uma certa forma de realismo e uma abordagem finita e não duradoura das relações que passaram a ser vistas como fugazes e temporárias, passageiras e não duradouras.

Assim, no que toca, de uma lado, as ações, relações e expressões políticas e, de outro lado, no que toca também as ações, relações e expressões afetivas dizer que não devemos ter expectativas se transformou num lugar comum aceito como correto. O problema objetivo aqui é que a negação das expectativas pode apenas reproduzir a frustração das expectativas anteriores e impedir que algo melhor aconteça. Vou tentar analisar isso preliminarmente. Não estou satisfeito com meu estágio atual nessa arte, mas creio que compartilhar isso pode ajudar em algum sentido. Que seja para corrigir ou que seja para aperfeiçoar.

Para ficar em dois exemplos de aplicação da negação das expectativas que parecem se misturar no nosso jogo perante as incertezas dos tempos líquidos.  Parte da justificativa contemporânea para essa negação de expectativas se encontra ancorada numa espécie de mandamento prudencial que orienta as pessoas a não jogar todas as fichas em uma única aposta ou alternativa. A prudência aqui aponta direto para o exagero ou excesso.

Tem uma nuance que me parece importante sobre essa negação prudencial das expectativas excessivas ou demasiadas que fica razoavelmente exposta quando confrontamos nossas expectativas à respeito de certas coisas e as possíveis formas de negação dessas expectativas.

É interessante, nesse aspecto, que a gente tem que pensar também na grandeza, na medida e na qualidade dessas expectativas que são afirmadas ou negadas. Não parece razoável negar todas as expectativas no curso da vida. Mas também não parece razoável se negar expectativas de um modo absoluto, como se a vida fosse orientada somente pelo tempo presente ou sobre um balanço negativo do passado.  

Então, creio que devemos modular aqui e identificar diferenças de expectativas e me parece estar associado a isso também que temos que abordar as perspectivas diferenciadas nesse tema. Ou seja, as perspectivas daqueles que projetam expectativas e as daqueles que negam expectativas, além da grandeza ou desmedida de ambas expectativas tanto as positivas como as negativas. Aqui o ditame prudencial indica que não há porque afirmar excessivamente e nem negativamente, pois ambos contém em si um excesso.

Temos que pensar assim também nas boas expectativas, nas expectativas ruins, pois na verdade, é possível relativizar ou graduar qualquer expectativa, desde que se tenha uma interpretação de cada caso. E a questão de fixar ou estabelecer uma interpretação em comum aqui parece se impor. Pois tanto a abordagem positiva quanto a negativa precisam ser graduadas e negociadas, dialogadas e reflexionadas. Na ordem da subjetividade para a objetividade e intersubjetividade o caminho é inverso do ponto de vista da reflexão do sujeito.  

Porém, é importante pensar e lembrar porque a negação da expectativa é, na verdade, uma estratégia que constitui ou impõe também uma expectativa, com o senão desta ser de natureza negativa. Então, temos aqui uma certa contradição em termos. Se aceitamos que temos que evitar as expectativas, então, temos que evitar tanto expectativas positivas quanto as expectativas negativas.

O contra argumento mais razoável aqui é que cada um dos dois falantes que afirmam ou negam expectativas tem uma perspectiva própria. Essa perspectiva pode ser constituída por um conhecimento de si, ou uma experiência acumulada, ou também por uma certa disposição.  

Ou seja, muitas vezes a negação da expectativa é um fenômeno que nos leva para uma abordagem cuja explicação final é a disposição ou indisposição a ter certa expectativa ou tolerar certa expectativa. Assim, mesmo a negação de uma expectativa é a afirmação de uma forma se expectativa de natureza negativa. Desse modo, em relação. a expectativa temos, portanto, a afirmação de uma expectativa negativa.

Não se trata, porém, apenas de uma questão lógica que tem solução por uma análise da gramática ou do jogo de linguagem especifico em que as expectativas figuram. A questão fundamental, ao meu ver, aqui é da natureza da intencionalidade ou disposição ou, na linguagem dos afetos, de uma vontade, um querer ou um desejo.

Na lógica da nossa linguagem ter uma expectativa é esperar que algo ocorra. Ora, a disposição para esperar isso é simetricamente oposta a disposição ou negação de esperar isso, ou deixar acontecer isso. Quando há intenção contrária, nenhuma expectativa é possível ou poderá ser satisfeita, pois lidamos aqui não com um fato, mas sim com uma intenção deliberada de que tal expectativa não seja satisfeita e quando há deliberação dessa natureza não há força que faça tal coisa acontecer.

O velho adágio: quando um não quer, dois não brigam; tem aqui uma tradução simbólica que exibe essa simetria de responsabilidades que entra em desequilíbrio pela disposição de um entre dois. Quando um não quer esperar ou ter expectativas, dois não conseguem realizar elas.

Então, em conclusão, temos que reconhecer que sim, quando há negação absoluta de expectativas fica de fato impossível ter expectativas, mas a causa disso não é uma interpretação especial, mas sim uma disposição a negar seja qual for a contra argumentação que lhe for oposta.

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