sábado, 28 de fevereiro de 2015

PARA MINHA REPETIDA LIÇÃO EM QUE CONHECER É PERCEBER DIFERENÇAS

"Hegel parece-me estar sempre querendo dizer que as coisas que parecem diferentes são a mesma coisa. Considerando que o meu interesse é mostrar que as coisas que têm a mesma aparência são realmente diferentes. Eu estava pensando em usar como lema para o meu livro uma citação de Rei Lear: "Eu vou te ensinar diferenças '...' Você ficaria surpreso" não seria um lema ruim ".


Ludwig Wittgenstein

ATIVIDADE: AVALIAÇÃO DO PACTO PELA EDUCAÇÃO 2014 - PROFESSOR: DANIEL ADAMS BOEIRA

 AVALIAÇÃO PACTO

Considero que devo avaliar genericamente o Pacto pela Educação e em detalhe os aspectos relacionados ao planejamento, à preparação, aos cadernos, às atividades propostas, às reuniões realizadas na escola, as discussões em grupo e o modo como isto tem ocorrido na escola e suas conseqüências. Não vou tratar pormenorizadamente de todos os objetivos listados no nosso planejamento, mas afirmo já meu pleno acordo com as propostas e todos os conteúdos apresentados.

Genericamente, considero que o Pacto responde a uma necessidade já muito discutida de haver alguma forma de investimento e promoção da ampliação da formação dos educadores brasileiros que dê conta de duas questões que me parecem fundamentais: 1. A atualização e a formação permanente técnica e teórica dos educadores e 2. a qualificação, o incentivo e a promoção do envolvimento coletivo dos educadores nas questões da educação brasileira no próprio local de trabalho. Neste sentido, minha avaliação geral é muito positiva, pois o Pacto responde de forma adequada a uma velha expectativa como cidadão, pai e ex-aluno, servidor público, professor e membro da carreira de magistério estadual. 

Creio que, após algumas dificuldades iniciais e uma espécie de arranjo interno e acordo interno sobre o Pacto, que foi por si mesmo um pacto entre os educadores e a equipe da escola, o planejamento das atividades está seguindo a contento e os objetivos das atividades tem sido muito bem atingidos pelo grupo de educadores da escola.

Tem ocorrido também alguma preparação preliminar as atividades. Os cadernos são bem elaborados e de fácil leitura e bem acessíveis  Quanto às atividades propostas tem promovido bons debates entre os colegas e auxiliado na transição da escola atual para uma escola mais compreensiva e emancipatória levando em conta o grande desafio de um ensino de qualidade e democrático. Ao mesmo tempo, tem ocorrido visíveis mudanças de método e de concepção entre todos professores.

Quanto às reuniões realizadas na escola, sua metodologia e às discussões em grupo, avalio que os debates sempre acrescentam algo pitoresco ao ambiente escolar porque geram na nossa escola a exposição de muitas diferenças de formação, ressaltando-se as diferenças de práticas e de visão de mundo entre os educadores que redundam em metodologias também diferentes. Neste sentido creio que o Pacto tem auxiliado também num diálogo sobre como educar, como encarar as novas realidades tecnológicas e sociais do século XXI e também em como compreender os novos papéis da escola na educação de jovens. Na nossa escola já temos por hábito debater as diferenças e tratar das questões coletivamente, com o Pacto houve um belo incremento destas atividades de compartilhamento e formação. E o Pacto também nos trouxe muitas mudanças nestas interações que vejo que tem contribuído para fortalecer o nosso coletivo de educadores e promover uma discussão do projeto de escola. Além disso, ocorreram também novas interações e algumas muito produtivas entre os educadores e os alunos.

Assim, eu avalio que o Pacto pela Educação tem conseguido atingir a maioria e trouxe muitos efeitos importantes na escola. Na minha perspectiva profissional ocorreu uma mudança de atitude e método em minhas aulas e em relação a diversos desafios do meu cotidiano escolar. Passei a utilizar mais as novas tecnologias da informação e promovi também certa inversão de perspectiva centrando as aulas de filosofia mais nos conhecimentos dos alunos do que nos meus. Assim, passei a avançar no meu conhecimento dos alunos e a incrementar minha visão dos alunos e de suas características atuais.

O Pacto acabou por incrementar  e se somar as diversas atividades de formação que já tenho freqüentado e, além disso, tem trazido temáticas novas e a revisão de teorias educacionais que já me influenciavam antes dele. Também tenho escrito mais sobre experiências pedagógicas de uma perspectiva mais positiva ainda e tenho publicado em meu blog pessoal e meu perfil social no facebook sobre os temas que me tem provocado e as minhas experiências. 


DAS CORES DO VESTIDO, DAS DISTORÇÕES DE ASPECTO E PERCEPÇÃO E A MORAL DA HISTÓRIA -

Wittgenstein tem uma teoria bem legal para estas variações de aspecto, nas Investigações Filosóficas Capítulo XI (1953, obra póstuma). Aliás não é uma teoria é um exemplo de análise que nos leva a diferenciar entre uma visão permanente de um aspecto e a diferenciação disso de uma "revelação" de um aspecto. E eu lembrei e pensei imediatamente nisso quando me vi olhando pela primeira vez a tal matéria ontem na tevê. Mas no atual contexto seria bem mais educativo se a televisão - que já me deixou burro demais - se colocasse a tarefa de mostrar como edita as notícias, dando ênfase, distorcendo, suprimindo e sonegando informações cruciais dos seus videotas, no jornalismo dos seus leitores de tal modo que tudo que se vê na tevê e num jornal é muito menos ou muito diferente do que ocorreu de fato. E também uma aula sobre omissões deliberadas e intencionais de fatos, ocorrências, aspectos e incidentes. Por exemplo, há uma tremenda ilusão de ótica produzida sobre a corrupção no Brasil e tudo se passa como se ela tivesse só um lado e como se mesmo aqueles que a denunciam e a propagandeiam como imoral não estivessem todos enfurnados nesses afazeres, saberes e dizeres. A corrupção no Brasil é como este vestido, alguns - dada sua formação moral e ideológica - só avistam duas cores, enquanto é possível ver bem mais do isso nela. Aliás, em geral as cores de base real e  efetiva da corrupção no Brasil, não são mesmo o vermelho e o branco, tem muito amarelo, preto e azul  na composição da corrupção no Brasil. Mas a imprensa é daltônica e só enxerga duas, porque senão terá que olhar platinada e cromada para si mesma também. Nem tudo que reluz é ouro, já dizia a vovó...portanto é possível revelar mais de um aspecto neste exemplo...neste desvio tradicional e típico das redes de CURIOSITIES da questão mesma... 

a matéria abaixo com o filósofo inglês Barry Smith elucida mais ainda o ponto filosófico - da BBC What would Wittgenstein say about that dress?       

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

DEMOCRACIA, AUTONOMIA E PLURALIDADE

Como sair de uma sociedade coercitiva e autoritária e aproveitar o que há de um espírito de autonomia e emancipação semeado aqui e ali, buscando esclarecimento com coragem e determinação? Aceitar as diferenças e reconhecer a pluralidade como base da sociedade, da democracia e da humanização das relações humanas. Isso não quer dizer que quem pense o contrário desse parâmetro tenha o direito sequer de tisnar sua propaganda anti-humanista, anti democrática e contra a pluralidade. Em uma sociedade verdadeiramente democrática a negação da democracia é crime. Porque não há maior negação da pluralidade do que a negação da democracia e não há maior negação da democracia do que a negação da pluralidade. E que cada um tire as consequências disto...

SOBRE JÊNIOS DA INTERNET

O Jorge Stocker apontou que considera “Incrível a quantidade de "Jênios" conservadores, especialistas em coisa nenhuma que a internet concentra. Deveriam criar um diploma de "achologia", pois tem tanto ignorante "achando" sem se informar”.

E eu fiz um comentário breve e arrazoado que aumentei aqui....

Sim...alguns deles são historiadores, antropólogos, sociólogos, filósofos, cientistas políticos e dai tu pergunta qual que é a faculdade que eles fizeram e num sai nada que possa granjear algo como uma destas suas grandes e notórias especialidades. 

Dai tu encara eles de frente e aceita numa boa que são advogados, administradores ou engenheiros, ou qualquer outra coisa que o valha e eles não tem nenhuma solução ou inovação digna de nota para a área deles. E se tu pergunta que livros sobre isso e aquilo eles leram também num sai nada. Especialistas de dieta teórica e intelectual limitada que se põem a falar de toda e qualquer coisa como se estivessem revelando o terceiro segredo de Fátima ou inventando a  quinta roda. 

E tem algo pior do que isso, porque sequer futebol tu consegue discutir ou debater numa boa com eles. São os reis dos lugares comuns, do raciocínio em liquidação, da reprodução do senso comum mais rasteiro e conservador e em todos os temas que tu debateres verás eles aplicarem a regra de ouro deles na decisão de qualquer coisa: tudo ou nada! Parecem negociantes que propõem um acordo te apontando uma arma na cabeça para te convencer de que ele é bom acordo ou de que o raciocínio deles é válido. Acreditam que se vence debates no grito ou forçando a barra e desrespeitando o interlocutor ou adversário. 

E muitas vezes começam assim; antigamente...tem gente...eu acho que...li naquela revista...estou cansado...ou o clássico o Brasil não tem jeito....esse mundo ta perdido...

Se tu olhar bem e apertar só um pouco na entrevista descobre que eles não sabem é nada nem do Brasil e nem do mundo, muito menos de filosofia, sociologia, história, antropologia e etc. E os problemas são o mundo e o Brasil? 

Ok...pede a ficha ali na porta do inferno e vai...ou vai estudar um pouquinho antes de ficar tirando solução mágica da cartola porque ouviu dizer e de repente achou...e nem tratei aqui da retórica moral ou espiritual deles porque ela simplesmente não tem uma gota nem de auto-reflexão muito menos sequer a capacidade de alçar alguma forma mínima que seja de universalidade e validade interpessoal. 

Na relação deles com o mundo e todo o resto é tudo de mão única: venha à mim...e jamais verás eles se perguntando ou assumindo a sua parte na grande tarefa de reforma deste mundo, de mudança da nossa sociedade e na construção de uma sociedade humanizada, democrática e plural...eles acham mesmo que vão atingir a felicidade sozinhos...  

domingo, 22 de fevereiro de 2015

IRRACIONALISMO, A CRISE DA RAZÃO E A BEIRA DO ABISMO

“Fiat lux”



Hoje recebi um panfleto cuja pergunta se aduziu à minha investigação filosófica sobre a crise da razão e seus temas atuais. Dizia mais ou menos assim: Qual a solução para os problemas atuais? - A Filosofia; - A Ciência; - A Bíblia; e eu fiquei me lembrando que em qualquer um dos casos dependemos da crença e do sentido das palavras.  Assim, como tenho diferenciado em alguns debates crenças e opiniões, de informações e conhecimentos e tenho também considerado que há sim um grau de conhecimento superior a outros sobre certos fatos e certos conceitos. Mas eu sei também que preciso ter paciência com o conceito e com os fatos.

Então eu creio que a única solução continua sendo só e simplesmente apenas mais e melhor pensamento...Ao contrário do que comumente parece ser pressuposto por muitos, a crise da razão não  é somente a crise da razão, ela é também uma crise de fé. Tanto as palavras que a razão usa para ser reconhecida, quanto as palavras que os homens de fé usam para tentar tomar do limite da razão seus fiéis, estão em crise.  E quando as seitas religiosas ficam disputando uma verdade com a filosofia ou a ciência, ao meu ver, elas cometem um erro, pois estão erodindo o sentido das palavras e prejudicando a sua própria fé que também depende deste sentido para confortar, aliviar ou dar esperanças aos seus fiéis seguidores.

Quanto mais se afirma a crise da razão, portanto, mais se assombram em desespero aqueles que precisam de certificações para andar na face da terra. E pior fica a situação, no médio e no longo prazo, daqueles que oferecem alicerces frágeis para assegurá-los de que as coisas podem ser melhores ou podem ser melhor compreendidas e explicadas. E isso também, porque, podemos repetir aqui, a crise da razão não é somente a crise de uma doutrina abandonada na longa estrada da vida, mas sim a crise de uma civilização inteira que não se pode mais chamar apenas de européia ou ocidental.

E o problema da crise não é o sentimento atual de errância, mas sim o velho pesadelo da perdição, da decadência e da perda de uma espécie de organização que dá o chão de conforto, o sentido último e laicizado de andar sobre um solo seguro. A crise da razão perturba porque ela aponta não um problema de agora, mas uma dúvida sobre o que virá depois. A crise da razão não é encarada nunca como uma crise passageira. Porém, quanto mais se nega a crise permanente da razão, para evitar todo este ranger de dentes e sofrimento – do que o fim da história do Fukuyama foi a expressão mais cativante já apresentada, mais fácil fica aos detratores semear a discórdia e o desentendimento, pluralizar versões da história e, ao mesmo tempo, substituir sem avisos as plaquinhas de PARE na estrada.

E assim à beira deste abismo sou obrigado a parar para pensar na pergunta da esfinge. Antes de prosseguir andando pela estrada que mais parece um labirinto cheio de armadilhas do que uma via de passeio repleta de lugares aprazíveis. É meu amigo, você quis estudar filosofia – me lembrei do NIN KIRIA agora, expressão acidental de um aluno que virou nome de time de futebol  - pensando que ia encontrar um remedinho para dada dor e encontrou um campo de batalha que é sistematicamente pisado e repisado, sem vitórias no horizonte e sem um fim à vista dos teus olhos. Por andar pensando demais em negatividade, criticidade, refutações, relativismo, ceticismo e dogmatismo acabei encontrando alguém que não dá à mínima pelota as teses de fronteira, aos limites de escolas e muito menos ainda à nomenklatura consagrada. E eu estou ali sentadinho, assim me parece, bem onde se recoloca o nó de fundação da razão e do que chamam racionalidade. Não sei mesmo se o velho confronto e o mútuo amparo entre idealismo e realismo, baseado nas incompreensões já conhecidas entre proposições fatuais e requisitos formais se resolveu ou se resolverá. Mas isso é uma forma também de cair em certo tipo de irracionalismo.

Ficar contemplando o outro a partir de si mesmo não é mesmo a mesma coisa que se olhar ao espelho. Parece haver uma espécie de prerrogativa e necessidade auto-conferida e procurada de demonstrar, seja por palavras e argumentos, seja por formulas e cálculos, o que pode envolver a adesão a regras, certa análise conceitual e preferências doutrinárias também. Essa prerrogativa é passada como um bastãozinho de corrida certificador de que a luta continua, de que a razão se perpetua em sua diversas manifestações históricas, ainda que sofra abalos, crises e eventualmente também seja corrompida por um vírus recorrente e que se manifesta também de forma razoável ao bom senso de plantão ou ao senso comum acomodado.

Mas a crise sobrevém porque nem todos os planos dão certo, paixões incontroláveis aparecem de toda forma na vida das pessoas e das sociedades e uma parte razoável da civilização se comporta mesmo como massa, uma manada que corre para cá e para lá no que toca a idéias, ideologias, valores e também regras. Há uma tendência ao perfectismo (já chamei de absolutismo isso e aparece na paixão por pena de morte, forca, guilhotinas, guerras e soluções extremas para todas as coisas) como bandeira de racionalidade, ou seja, alguns crêem que vão determinar um resultado moral, político e  social com 100% de aproveitamento. Até o esquerdismo anda nessa vibração ambiciosa  a grande zona de conforto que é representada quase como um pedestal inabalável, mas não olham para o tempo, a circunstancia e as pessoas, então o alicerce que até então era bom, muito bom ou excelente, dá uma tremidinha.

Então, alguns correm, outros se vexam e se acovardam, se calam e não se pronunciam até que o velho bedel ou o novo ou o mais novo estagiário de plantão vai lá e reforça os preguinhos do realismo deste pedestal e ganha assento nas cadeiras mais nobres do salão de festas. Dizem alguns que até super bonder lá já colocaram nos fundamentos racionais das coisas, mas com muito cuidado, pois logo abaixo do taboão desta grande igreja da história, há um abismo para o qual o idealismo providenciou e providencia sempre uma nova esperança confortadora e libertadora bem ao lado das ilusões abandonadas do passado.

Sei muito bem que também a retórica em demasia – que aqui só serve para emocionar e não convence ninguém mais - pode prejudicar e nos afastar da verdade, mas fico aqui fazendo essa graça provocando a mim mesmo para ver se satisfaço minha vontade de encontrar uma saída ou uma entrada. Até mesmo porque ainda é e continuará sendo a velha e boa retórica que deverá acompanhar as velhas e novas, remoçadas ou aperfeiçoadas palavras para persuadir os homens e mulheres deste mundo.

Bento Prado Junior, em resposta á acusação de irracionalismo à Gilles Delleuze – e para o conforto dos que querem crer em outras coisas ou ler somente novidades nenhum deles está mais vivo afinal - em entrevista sobre Delleuze na Folha em 1996, disse o seguinte:
"on est toujours l' irrationaliste de quelq'un" –  “sempre se é o irracionalista de alguém” e eu fico após este arrazoado pensando em quem será que vai me acusar do mais intolerável e insuportável irracionalismo para ver o parâmetro que atingi e também a condição de perigo que ele expressa. Pois aquele que nega o que digo pode negar em todo, em parte e pode mesmo fazer isso sem dizer nada, pois no caso atual, até mesmo na ausência de argumentos e fatos, alguns julgam estar refutando aos outros ou aos demais e juízo moral não depende mais de moralidade alguma somente da oportunidade e da vontade superveniente da circunstância.

O texto inteiro de Bento Prado Junior, com o qual – para pensar - vou encerrar mais essa manifestação intempestiva, quase contra tudo e quase contra todos, é o que segue:

“Irracionalismo é um pseudo-conceito. Pertence mais à linguagem da injúria do que da análise. Que conteúdo poderia ter sem uma prévia definição de Razão? Como há tantos conceitos de Razão quantas filosofias há, dir-se-ia que irracionalismo é a filosofia do outro. Ou, pastichando uma frase de Émile Bréhier, que na ocasião ponderava as acusações de "libertinagem", poderíamos dizer: "On est toujours l'irrationaliste de quelq'un" (Sempre se é o irracionalista de alguém). Não, não é necessário defender Deleuze dessa acusação, à qual certamente não lhe ocorreria dar resposta. Basta sorrir. Quanto à questão do "pós-modernismo", a atribuição -até onde posso perceber- cabe mais a Lyotard (que a transformou em cavalo de batalha em sua polêmica com os alemães) do que a Deleuze.”

Segundo ele pastichando Emile Brehier "sempre se é o libertino de alguém"..
..
E na segunda versão que encontrei deste mesmo objeto de pastiche: "sempre se é o metafísico de alguém", por Gilson Inannini, em Estilo e Verdade em Jacques Lacan.

E assim a Esfinge me olha e eu olho para ela antes de responder a questão e decidir se me vou ao abismo da perdição e ao fim de toda esperança possível ou se prossigo minha viagem e, apesar de tudo, continuo confiando em meu destino, sem desolação, sem chorumela e sem lamentações pelo que não foi, pelo que ainda não é e pelo que não chegou.  Haveria alguma forma de razão suficiente que justificasse a tua passagem por este mundo?...e como já gastei todo o sentido das palavras, me calo tranquilamente esperando a próxima peregrinação...


As aulas começam esta semana dia 26 e a vida continua...

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O BRASILEIRO COMUM, AS ELITES E O ESTADO BRASILEIRO

Uma vez participei de um diálogo de café com José Arthur Gianotti, Balthazar Barbosa e Ernildo Stein. Isso antes do PSDB ter a presidência e o PT também. Naquela época Nelson Jobim era um deputado federal que participava de debates sobre ética na política assim como muitos outros deputados nossos. Um pouco depois veio o Fora Collor contra a maioria das lideranças partidárias de então. Nos idos de 1991. Eu disse claramente que via o estado brasileiro como um maquiz em que os bandidos se escondiam para assaltar o povo. Uma moita por assim dizer para pegar os transeuntes de surpresa. E naquela época a minha questão não era privatização, mas sim saber o que havia sido feito pelos militares e pelos primeiros governos civis no Brasil o que incluia Sarney e Collor. Não tenho dúvida de que eles tinham expertise e muitos deles ainda tem expertise em como fazer isso e essa expertise só tem se especializado. Assim, o teu texto é perfeito  Juliana, só adicionaria que provavelmente muitos outros falharam - alguns com culpa e outros não -  e vão falhar ainda, antes deles e em diversas outras estatais do país e de estados que foram largamente surrupiadas, corrompidas e lesadas  e que foram a base material de algumas fortunas que andam por ai posando de honestas e de grande envergadura moral. Eu aprendi isso com meu pai que era somente um eletricista, mas que sempre olhava de esgelho para certas fortunas e certos poderosos da política e de empresas, ainda que prestasse algum serviço para eles. Assim, como muita gente trabalha de doméstica, faxineira, porteiro, garçom, jardineiro e diversas outras atividades para essa gente que se enrica quando assume o poder ou quando o frequenta, quando tem um curso superior que lhe granjeia acesso a este tipo de coisas, falcatruas e outras expertises que permitem sonegar, surrupiar, descontar e colher mais do que seu trabalho remunera, só por ter status e posição na estrutura econômica de uma empresa, instituição ou do estado brasileiro. Tão comum quanto a auto concessão de benefícios e privilégios, regalias e favores que vemos no judiciário e em outros poderes. A elite brasileira adora tangir o relógio para os outros trabalharem, bater o ponto e cobrar sempre mais caro pelos seus serviços. De uma forma ou de outra, sempre penso que o Brasil precisa muito ser passado à  limpo.  E a elite que é a fração mais raivosa dessa terra, bem que poderia respeitar mais o nosso povo, os trabalhadores e aqueles que nunca tiveram vida fácil, nem benesses, heranças e brocardos nem dos seus avôs, nem pais e nem irmãos. Voltamos,  então, a ter mais motivos para ler Raimundo Faoro....

ABAIXO TEXTO DE JULIANA TIGRE:

"O brasileiro comum, que tem pouco contato com grandes organizações e pouco entende do universo dos negócios e negociações que movimentam quantias milionárias ou bilionárias, não entende que o grande rombo operado na Petrobras não é um caso de tirar doce de uma criança. A Petrobras é uma empresa estatal, de economia mista, que possui acionistas minoritários, muitos deles do Brasil e de outros países. Ainda que se tratando de uma quantia gigantesca, se o caso fosse tão simples como a mídia usualmente divulga e como a maioria das pessoas, infelizmente, acreditar ser, como os próprios acionistas, que passaram anos sendo lesados, não perceberam que algo estava muito errado? E isso, porque são os acionistas, os que ganham ou perdem com qualquer acerto ou erro cometido por aqueles que administram, bem ou mal, a Petrobras. Não perceberam porque não tinham condições para isso. Porque roubar milhões ou bilhões não é como tirar 10 centavos de um 1 real. Os esquemas de roubo feitos nas Petrobras são extremamente articulados, envolvendo toda sorte de gente (políticos de diferentes partidos e não políticos), de nomes ligados a empresas privadas (oras, não diziam que empresas privadas eram menos propensas a corrupção? Ao menos 28 réus no Lava Jato têm ligação com as principais empreiteiras do país, e dentre as quais destaco empresas privadas dos grupos Camargo Corrêa e OAS), e até mesmo de bancos (destaco aqui o caso do HSBC, que mais recentemente entrou nas investigações da Petrobras, por seu suposto envolvimento em camuflar a origem do dinheiro sujo). Por outro lado, também não creio que presidentes de República estejam aptos a entender de contas e funcionamento de uma empresa como a Petrobras. O que os presidentes podem fazer é exigir que competentes verifiquem e investiguem o que se passa na Petrobras, não somente para descobrir possíveis casos de corrupção já existentes, mas para evitar que novos casos aconteçam. A vigilância precisa ser constante. Nisso falharam FHC, Lula e Dilma."

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

UM BENTO SOBRE A FILOSOFIA NO BRASIL

- Ando, por um daqueles acasos de livraria e minha palpitante e incontrolável curiosidade, estudando a obra e os textos de Bento Prado Junior e tenho ficado a cada dia mais alegre ao fazer isto. Com toda minha admiração por outros filósofos brasileiros que tenho em altíssima conta como Bornheim, Brum Torres, Balthazar agora se soma o Bento e que alegria nisso, com a tristeza de não poder mais assistir suas aulas ou exposições, debates ou provocações ao vivo. E imagino um grande teatro se ensaiando no encontro entre estes quatro. Em cada ensaio dele que leio, datado e tematizado encontro um grande diálogo também com meus outros mestres suas lições e diabruras e sorrio por dentro contemplando como um velho jogador de botões as posições na mesa, a pelota e o quadro inteiro. E como se desenha melhor para mim a história da filosofia brasileira dos anos 50 para cá com a posição ao mesmo tempo extrema e central dele no tabuleiro seus movimentos e me parece um gerador quase inacreditável do que o Paulo Eduardo Arantes chamou de um estilo. Não me é tão distante contemplar uma imagem e um certo desenho e perceber que só nos seus ensaios já se vislumbra isso. Quero ver ao longo do ano quando tomar em mãos suas obras sobre Bergson e Rousseau. Deixo aqui então esta dica....que é somente uma pequena e profunda distração muito orientadora e clarificadora para aqueles que se formaram na geração dos anos 80 e 90.

DO RISO E DO GRACEJO: ESBOÇO OU NOTA DE UM PREFÁCIO

O riso é uma das atividades mais nobres e simplórias do homem, visto que é facultado a todos e mesmo àqueles que tem manifestamente alguma dificuldade para gracejar, o fazem silenciosamente com a boca cerrada, na certeza de ampla impunidade, mas de duvidosa e aparentemente insuspeita desconfiança dos demais, posto que sei sintoma emocional se apresenta também nos cantos da boca e no movimentar cintilante de alguns olhos graciosos. Sua superioridade ou inferioridade pode porém ser apenas ilusória. E isso, este riso, ocorre ou como sinal de satisfação ou como uma espécie de desafogo perante a tristeza. Bergson percebeu em seu famoso ensaio que ele é sempre intensional e que contrasta com a realidade que enfrentamos, nos diferenciando e destacando do mundo das coisas e dos demais seres incapazes disto. Neste último efeito, assim entendo, o vemos já como uma estratégia da consciência ou do que alguns chamam do limiar entre consciência e inconsciente cujo traçado irônico inclui e exclui certas coisas a medida que evoluímos moralmente o que passamos a encarar tudo aquilo que se passa em nosso pensamento como objeto de juízo, aprovação, reprovação, correção, negação ou afirmação com mais ou menos palavras segundo nossa inspiração e imaginação nos ajudam a refertar. Freud tratou o riso sob o nome e a forma de chistes e dizia em uma obra sua que ele é um mecanismo pelo qual liberamos impulsos socialmente reprimidos, frequentemente relacionados ao sexo e à agressividade. Isso nos leva, então, ao meu ver e poupando vocês que me lêem de detalhes e exemplos que corroborem isso a dois motivos do riso: um primeiro que é o não poder dizer e um segundo que é apenas substituir as palavras por um gesto. Numa das passagens que mais me emocionou ao ler e ao assistir no livro e no filme O Nome da Rosa, de Umberto Eco, ocorre aquela revelação decisiva e surpreendente aos leigos e inocentes de riso fácil de porque certas obras de Aristóteles e outros gregos e romanos eram proibidas: porque causavam intenso prazer e colocavam seus leitores às gargalhadas, revelando, dos homens que as lêem, facetas pouco sérias e verazmente, na opinião da moralidade elevada e altamente repressiva,  muito diabólicas e de altíssima ou baixíssima, seria melhor dizer neste caso, periculosidade. E assim o riso foi enquadrado na categoria de um  mal e de um mal maior. Devo reconhecer que me aborreço com o riso cínico e irônico, desrespeitoso e debochado á qualquer preço ou por qualquer coisa, porém, devo admitir que mesmo em mim que me pretendo sério – e que poderia dizer – tento me levar muito a sério, me ocorre todas as formas de riso do mais singelo ao canto da boca – tal qual uma Mona Lisa levemente graciosa e eternamente gracejante – às gargalhas mais histriônicas. E ainda tenho o terrível e malévolo defeito de falar rindo, que me foi e é repetidamente apontado por alguém muito próximo e que nem sempre consigo impedir ou corrigir, de tal modo que alguns sofrem para entender o significado do que digo, pois minha pronúncia e dicção prejudicada de vocábulos, silabas inteiras, palavras e frases fica ininteligível e seu sentido passa a ser impensável por meus interlocutores, ainda que eu tenha em meu sentido interno a mais ampla convicção de estar apenas a temperar com graça minhas palavras e rir de mim e das coisas que digo. Isso, porém, não significa que minha auto-ironia não seja limitada, nem que eu aceite piadinha de mau gosto todo o tempo em que decorre meu dia, meu mês, meu ano, décadas e minha vida.      

Espero poder rir também do que reúno aqui... 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SOBRE MORALIDADE, COGNIÇÃO E JUÍZO: UM EXEMPLO

Um jovem parou seu carro, aproximou-se da vítima e socorreu um motoqueiro acidentado, nos deixando embevecidos na estrada. À primeira vista tudo que ele fazia era necessário e decorria de muita humanidade. Observamos que ele era gentil com a vitima, pois segurou a cabeça do acidentado até os socorristas chegarem. Observei, depois, que ele havia movido a cabeça do acidentado para o lado de modo que o mesmo conseguisse respirar sem se sufocar com o sangue que lhe enchia a boca. Depois minha esposa me alertou que não bastava a intenção humanitária do jovem, pois ele não possuía conhecimento algum de primeiros socorros e que talvez estivesse apenas contribuindo para agravar o dano na coluna cervical do acidentado e, além disso, talvez ao movê-lo de lado acabou por perfurar-lhe ainda mais os pulmões e agravar a asfixia. E, bem assim, poderíamos seguir na análise do exemplo. Graus diferentes de conhecimento e graus diferentes de intencionalidade moral, com consequências diferentes. O caso é este e a situação exige de nós juízo.

UM REFLEXO MENOR DO SOL: DAS MINHAS NOTAS AOS DISCURSOS MUITO DELIRANTES

"mais tarde, com efeito, ao saber que o sol está distante mais de 600 vezes o diâmetro terrestre, nós não deixaremos de imaginar que ele está perto de nós; pois imaginamos o sol tão próximo porque ignoramos sua verdadeira distância, mas porque uma afecção de nosso Corpo envolve a essência do sol, enquanto o próprio corpo é afetado por este astro"


SPINOZA - ETICA

Andei pensando muito no que eu sinto, no que eu vejo e no que eu penso como sempre sendo um reflexo menor do que o provoca. Não importando quantas palavras ou quanto engenho eu dedique a descrever o que sinto, vejo ou penso.

Acabei lembrando meu querido  professor de filosofia, Paulo Faria que relatava em aula um texto de um físico – Henry Cavendish - sobre o que acontecia na sua frente naquele instante em uma mesa sob seus olhos, sobre a composição da matéria, a energia da matéria e a estrutura do átomo, sobre o fato da nossa mesa à nossa frente e sob nossos olhos ser composta de milhões de átomos e ainda mais longe, que estes  átomos estão me movimento e vivos, e que se não percebemos isso é somente porque nosso aparelho perceptual que se compõem de visão e os demais sentidos não foi cunhado e forjado na síntese natural para perceber tais coisas.




É um exemplo claro de que nem tudo que é visto e que nossos sentidos refletem para o nosso pensamento é abarcado como informação ao nosso pensamento. E também de que devemos pensar nisso que está além dos nossos sentidos não apenas como uma coisa em si inatingível, intangível e intocável, mas também como algo cujas nossas antenas, muletas e ferramentas intelectuais, sejam, estes conceitos ou equipamentos sofisticados nos ajudam a alcançar, descobrir e perceber.




Quando você olhar para a lua cheia, lembre-se, então, que esta luz é um reflexo, um reflexo diminuído do sol. E lembre-se também que mesmo o sol que vemos é diminuído ao nosso olhar perante o imensidão do sol real segundo nossa própria perspectiva pode vir a adquirir quando se avança no seu conhecimento físico.

Impression - Soleil Levant, 1872, por Claude Monet

Assim, ocorre quase como no nosso pensamento, cuja expressão é diminuída e cuja fonte é algo sempre maior do que podemos ver. Penso que esta é uma tese interessante com amplas aplicações em filosofia, estética, filosofia da ciência e também ética e metafísica. Faço associações imediatas aqui com Goethe e Rousseau, com Walter Benjamin e o segundo Wittgenstein, cuja percepção instantânea disso parece ser sentida em uma certa fenomenologia situacional do que o Heliotropismo dos Girassóis é apenas um efeito, do que as afinidades eletivas é apenas um efeito e poderia deslindar aqui por diversas cartas e coringas apresentados por estes autores para voltar ao sentido raso do que poderia chamar de limite ou senso de que há algo além.   Não vou citar mais ninguém aqui para evitar este hábito de eruditismo que creio ser desnecessário, me calando então sobre as demais idéias e influencias e sossegando a prosa ao seu objeto.

O próprio Sol é mais do que vemos e menos do que os outros sóis de outras galáxias. Não é considerado um sol gigantesco, porém, o percebemos menor do que é, muito menor é seu reflexo e sua força que para nós se mostra apenas por experimentos. Como aquele experimento de queimar uma folha de papel com a luz do sol sob uma lupa ou lente de aumento que parece restaurar a força desta luz e o calor da luz que o sol produz e que é diminuída por nossa atmosfera e pela distância cuja variável é constante e mantém  um arco médio e que nosso planeta guarda do sol.

As palavras são menores que os sentimentos que as provocam e também da mesma forma talvez pudessem, ser restauradas em seu fulgor e força e sua conexão com estes sentimentos por alguma lupa ou pela ruptura da redução ou diminuição que as aprisiona e me parece que é justamente isto que os poetas fazem tão bem. Eles possuem as lentes que fazem nossos sentimentos se encontrarem e que ajudam a expressar estes sentimentos com mais força.  

E no amor o que sentimos sempre é um pedaço menor e refletido do que realmente nos toca ao fundo da alma como dizem os poetas. E nossa admiração silenciosa de alguma coisa, nossa intrigante interrogação sem resposta sobre alguma coisa sempre nos defronta com o mesmo sentimento de que há algo maior ao fundo ou como base do que o mero reflexo nos traz aos nossos sentidos. Parte, creio eu, sinceramente, do grande mistério da natureza está em ver aquilo que outros não viram, explicar aquilo que outros não compreenderam e considerar de outra forma aquilo que é visto apenas como banal pelos reles mortais como eu.  
Quando você olhar para o seu amor, lembre-se, então, que este amor que sentes é apenas um reflexo, um reflexo diminuído do seu objeto. E lembre-se também que mesmo o objeto deste amor que vemos é diminuído ao nosso olhar perante a imensidão dele próprio, perante a sua singularidade que inclui aquilo que não percebemos segundo nossa própria perspectiva e aquilo que colocamos nela ao olhar e ao sentir.

Eu disse, em minha primeira anotação sobre isto, que o sentido disto; de que há algo maior no sol que vemos, no amor que sentimos, na visão que temos das coisas nos basta. Mas devo reconsiderar estas palavras, pois se isso nos basta ou não, é a pergunta que fazemos quando não entendemos, simplesmente, que todo nosso reflexo, pensamento ou sentido, visão ou amor é sempre muito menor que sua causa, e ainda mais mesmo quando a causa não se limita ao objeto, mas tem parte em nós e no que nós apenas intuímos por fantasia, imaginação ou paixão.

E isso, enfim, desafia nossa razão ambiciosa e nosso modesto entendimento a pensar que muito maior que a intriga, que maior que o enredo, será sempre a mente que o concebeu e que lhe deu escolhas, assim como a mente que ousa compreendê-lo e que em parte o compreende ganha ai também alguma grandeza.

{este texto parece conter somente idéias filosóficas misturadas com palavras delirantes, mas se enganam e muito, aqueles que acreditam que não há nada de pessoal, político ou histórico nele – tão grande quanto nosso engano sobre o sol, pode ser nosso engano sobre o mundo, sobre o nosso país, sobre as pessoas e sobre aquele modesto jardineiro que em seu jardim cultiva flores que desconhecemos, não entendemos ou sequer percebemos em sua singularidade.}   


TEXTO ORIGINAL QUE ME PROVOCOU: “Quando você olhar para a lua cheia, lembre-se que esta luz é um reflexo, quase como o nosso pensamento, cuja fonte é algo sempre maior do que podemos ver. O próprio Sol é mais do que vemos e menos do que outros sóis, mas nos basta.”

CULTURA NÃO É SÓ CARNAVAL, MAS CARNAVAL É UMA BAITA CULTURA!!!!

Pretendo falar - talvez em desmedida amigos - aqui em nome de muitos agentes culturais e ativistas que conheço e que respeito muito e que sabem que não se resume cultura á carnaval e SL-FEST, mas que nem por isso negam a importância destes eventos. E falo também, em defesa de muitos que conheço e que trabalham desde a infância no carnaval, amam o carnaval e vivem o carnaval o ano inteiro como meus amigos Roberto Pinheiro, Dú, Paula Lau e Tininha e muitos outros.

Eu não tenho nenhuma dúvida sobre o conceito e o fato de que cultura é muito mais do que carnaval, mas eu creio ser muito educativo e informativo que a gente perceba que com certeza uma das formas de cultura mais populares e coletivas que existem é justamente a cultura do carnaval que organiza famílias, comunidades e muitas pessoas em nossa sociedade criando laços, atividades e trabalho de diferentes formas lúdicas, criativas. estéticas e etc. No carnaval temos uma grande composição e ele chega muito próximo da arte total tão admirada por Wagner e outros. Reúne todos os tipos de linguagens estéticas. Som, música, teatro, dança, pintura, moda, indo até diversas artes práticas na montagem de adereços, carros alegóricos e etc...a desvalorização subjetiva do carnaval mostra para mim apenas um dos aspectos da grande falta de sensibilidade que grassa em nossa sociedade.

E São Leopoldo tem uma das histórias mais maravilhosas dentro do seu carnaval dos bailes de salão aos cordões, blocos e escolas de samba. Não é por menos que isso que exportamos talentos neste ramo para todas as posições de produção, criação e execução na economia e gestão do carnaval. Assim, como na política também fornecemos historicamente quadros muito bons em gestão pública e programas sociais, mas a ignorância e esta ótica de terra arrasada tentam colocar tudo isto em estaca zero, negando e vilipendiando esta história e outras e suas contribuições.


Tem uma lógica bem pequena e burguesa na negação do carnaval e na transformação de seus recursos em outras coisas como se o carnaval pudesse ser substituído ou definitivamente rechaçado pelo gestor público. Tem algo bem facista e sectário nisso e em quem cultiva este sentimento em desrespeito a diversidade cultural. E eles pensam em resumo assim: se não somos nós, se não sou eu, não é bom, nem ótimo, nem excelente. Não creio que deva se tributar isso ao atual secretário de cultura como se ele fosse a causa da situação atual da cidade. O buraco é bem mais embaixo. Tipo assim: São alguns coitados que acreditam que o mundo começou no ano em que nasceram ou no ano em que o governo deles começou a governar negando tudo e todos....deveriam estudar mais, trabalhar bem mais e respeitar mais o conhecimento e o trabalho dos outros...

SÃO LEOPOLDO TEM FUTURO SIM!!!

São Leopoldo tem sim uma capacidade de recuperação. Vi um debate sobre o carnaval de São Leopoldo que me deixou preocupado com a pequena visão e persistente miopia de alguns. Não dá para discutir conta de banheiros em relação à 2,5 bilhões de reais de investimentos em infra-estrutura que fizeram a cidade crescer e aumentar sua arrecadação e ampliar seus serviços em quase 4 vezes nos 8 anos de Vanazzi. A conta da cidade é bem maior do que os banheiros. E nem vou discutir se foram pagos ou não, se quem prestou o serviço continuamente se dispôs a ter esta conta ou não. Agora pergunto simplesmente como vai a economia da cidade nestes dois anos desses gênios de gestão e economia? Não creio que vá muito bem não. E não adianta dizer e repetir à exaustão que a conta pesada é do passado. A maior conta, a conta real de gestão pública é o futuro das pessoas batendo à sua porta. É disso que se trata quando se investe em Carnaval e em diversas iniciativas de pequena e médio porte que na economia, que no somatório geral alavancam uma cidade com grandes investimentos. Qualquer pessoa que olhar com rigor para a economia de São Leopoldo e seu desenvolvimento nos últimos 20 anos vai visualizar três grandes processos a desindustrialização e a resistência e força da área dos serviços na cidade; a formação do Polo Tecnológico e sua ampliação e a atração de novas empresas de serviços e de alta tecnologia e o alto investimento público na cidade. Não dá para fazer de conta que isto não aconteceu só porque está na gestão ou porque não viu. Vou só apontar numa lista diminuta os nomes disso: HT-MICRON, HIUNDAY, LEROY-MERLIN, TRENSURB, NOVAS ESCOLAS E POSTOS DE SAÚDE, UPA, AVENIDA JOÃO CORREIA, NÚCLEOS HABITACIONAIS, e milhares de obras, praças e benfeitorias realizadas na gestão Vanazzi e comparo com esta PARCA ADMINISTRAÇÃO DO PSDB & PMDB, não basta mesmo falar de dívida. É preciso olhar para isso sob pena de fazer um juízo desnutrido sobre fatos que desconheces e que fazes de conta que não ocorreram como alguns aqui e ali adoram fazer. A turma de Elite do PSDB e PMDB, PP e agora com o PSB junto não são mais os únicos que podem governar a cidade como eles governaram por muitos anos. E o atual governo com suas diversas provas de pequenez, incompetência, tibieza, torpeza e vilania,  está separando muito bem o joio do trigo político na história da cidade. Alguns, dá para ver isso muito bem, gostam só do poder e outros do trabalho e dos resultados  que podem ser alcançados para a cidade. Quando vejo aqui e ali o povo do Carnaval de São Leopoldo se virando e fazendo carnaval bonito em toda região, sei que há uma esperança. E quando vejo praticamente todos os ex-colaboradores do Vanazzi e do PT com saudades - mesmo muitos que são aliados do atual governo e que confessam à boca pequena a verdadeira tragédia e comédia da atual gestão, quando vejo muitos eleitores arrependidos e também os oportunistas e aventureiros, carreiristas e vaidosos se apresentando como opções e construindo alternativas de poder por diversos tipos de atalhos, desvios e com muita retórica vazia, sei que São Leopoldo tem futuro e que dias melhores virão, com mais exigências, mas também com muitas alegrias e muito desenvolvimento em nossa cidade. A decadência cultural temporária de São Leopoldo mostra na ponta aguda do lápis a incapacidade intelectual e prática do atual governo de governar com o povo e para o povo da nossa cidade. Assim, repito esta administração é somente a PIOR ADMINISTRAÇÃO DA HISTÓRIA DA NOSSA CIDADE!!!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

SOBRE SONEGADORES COM ORGULHO E AS CORRUPÇÕES BANAIS

Algumas pessoas são muito caras de pau e irresponsáveis mesmo. Querem um país sério, querem educação melhor, um SUS de qualidade, mais segurança, mais direitos e que os políticos sejam honestos e sérios, mas....quando chega a vez deles fazerem a sua parte acham que não precisa, que tudo bem e que é muito bom e inteligente, muito experto e vantajoso deixar a conta para os outros pagarem. Pois quem tem orgulho de sonegar imposto de renda, burlar todos os impostos que conseguirem, fazer negócios vantajosos às custas dos cidadãos de boa fé e aceitar emprego público para não trabalhar deveriam calar bem fechadas as suas bocas e tomarem vergonha na cara quando falam mal dos outros e falam mal do nosso país. E tem muitos assim que são apenas uns pseudo Caxias, pseudo sérios e que adoram tratar de assuntos públicos como se nunca pudessem ser desmascarados ou ter seus segredos de espertinhos revelados. Pois, estes dias vão acabar e isso aqui vai ajudar muito nisso. Assim, como estoura o escândalo do HSBC, como uma senadora sem vergonha na cara precisa admitir que ganhava um salariozinho no senado do marido sem trabalhar, assim como alguns velhacos conquistaram mais um mandato e talvez mais outro para fazer e acontecer ao seu modo e ao seu juízo moral desnutrido, ainda vai chegar a hora desta casinha deles cair...vai sim....

O FILÓSOFO E O ERRO

O FILÓSOFO E O ERRO

Deve haver algum sinal mais claro do que é boa filosofia ou do que é uma filosofia que vale a pena ainda ser lida e estudada, interpretada e compreendida, mas começo a desconfiar que todo bom filósofo e boa filósofa comete um erro providencial e libertador que é não compreender completamente o passado e a tradição, não aceitar conformadamente o presente e a última moda em Paris, ou Londres, ou NY, ou Berlim, ou São Paulo, e etceteras, e no apagamento de um gênio qualquer procurar aquele que expressa na pontinha miúda de um fresta, no dedo mínimo de um corpo, nas entrelinhas ou detalhes de um pé de página ou mesmo no núcleo duro de uma teoria, um sopro ou um pequeno espaço de liberdade para se olhar para o futuro e encontrar algo verdadeiro ou possível, e quando isso acontece nos damos conta da necessidade de enfrentar mais uma vez de um modo novo mais uma linha ou outra de um Platão, um Aristóteles ou mesmo um pré-socrático qualquer para ir de novo ao passado com a cabeça no futuro e quem sabe sair do tempo presente ou linear e encontrar cm algo antes não visto ou jamais percebido. E neste parágrafo só falei de uma impressão superficial de que a filosofia também persiste por um erro e uma repetição do mesmo erro até que se encontre um acerto digno de nota.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Me diga a verdade sobre o amor - W. H. Auden


Alguns dizem que o amor é um menino,
E alguns dizem que é um pássaro,
Alguns dizem que faz o mundo girar,
Alguns dizem que é um absurdo,
E quando eu perguntei ao homem ao lado,
Que me olhava como se soubesse,
Sua esposa ficou zangada, de fato,
E disse que não isso não servia para nada.

Parece um par de pijamas,
Ou como o presunto em um hotel de abstêmios?
O seu odor lembra o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É espinhoso para ser tocar como um torso,
Ou suave como um edredom de plumas?
É cortante ou muito polido em suas bordas?
Ha, diga-me a verdade sobre o amor.

Os nossos livros de história se referem a ele
Em pequenas notas enigmáticas,
É um tema muito comum em
Em transatlânticos;
E encontrei o assunto mencionado nos
Relatos  de suicidas,
E mesmo visto rabiscado
às costas das guias de transporte ferroviário.

Uiva como um cão alsaciano esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Alguém poderia dar uma imitação de primeira linha
Com um serrote ou um piano de cauda Steinway?
Ou o seu cantar é estrondoso para festas?
Será que ele só gosta de coisas clássicas?
Será que vai parar quando se quer ficar quieto?
O me diga a verdade sobre o amor.

Olhei dentro da casa de verão;
E não estava lá;
Eu tentei o Tamisa em Maidenhead,
E o ar  tonificante de Brighton.
Eu não sei o que o melro cantou,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava no frango ao rum.
Nem debaixo da cama.

Ele pode fazer caretas extraordinárias?
Fica doente em dia de baile?
Será que gasta todo o seu tempo nas corridas,
Ou toca violino em pedaços de cordas?
Tem idéias próprias sobre dinheiro?
Será que ela acha o Patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas engraçadas?
Me diga a verdade sobre o amor.

Quando ele chega, sem aviso
Mete o dedo no nariz?
Será que virá bater na minha porta pela manhã,
Ou pisar á em meu no ônibus?
Será que virá subitamente como uma mudança no tempo?
Será que seu cumprimento é rude ou cortês?
Será que vai mudar a minha vida completamente?
O me diga a verdade sobre o amor.

W. H. AUDEN – JANEIRO DE 1938 - adaptação minha - com recurso ao tradutor do goggle e cotejo à Tradução de Maria de Lourdes Guimarães. Relógio d´Água. 1994

O Tell Me The Truth About Love

Some say love's a little boy,
And some say it's a bird,
Some say it makes the world go around,
Some say that's absurd,
And when I asked the man next-door,
Who looked as if he knew,
His wife got very cross indeed,
And said it wouldn't do.

Does it look like a pair of pyjamas,
Or the ham in a temperance hotel?
Does its odour remind one of llamas,
Or has it a comforting smell?
Is it prickly to touch as a hedge is,
Or soft as eiderdown fluff?
Is it sharp or quite smooth at the edges?
O tell me the truth about love.

Our history books refer to it
In cryptic little notes,
It's quite a common topic on
The Transatlantic boats;
I've found the subject mentioned in
Accounts of suicides,
And even seen it scribbled on
The backs of railway guides.

Does it howl like a hungry Alsatian,
Or boom like a military band?
Could one give a first-rate imitation
On a saw or a Steinway Grand?
Is its singing at parties a riot?
Does it only like Classical stuff?
Will it stop when one wants to be quiet?
O tell me the truth about love.

I looked inside the summer-house;
It wasn't over there;
I tried the Thames at Maidenhead,
And Brighton's bracing air.
I don't know what the blackbird sang,
Or what the tulip said;
But it wasn't in the chicken-run,
Or underneath the bed.

Can it pull extraordinary faces?
Is it usually sick on a swing?
Does it spend all its time at the races,
or fiddling with pieces of string?
Has it views of its own about money?
Does it think Patriotism enough?
Are its stories vulgar but funny?
O tell me the truth about love.

When it comes, will it come without warning
Just as I'm picking my nose?
Will it knock on my door in the morning,
Or tread in the bus on my toes?
Will it come like a change in the weather?
Will its greeting be courteous or rough?
Will it alter my life altogether?
O tell me the truth about love.

WH Auden

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

SOBRE FINANCIAMENTO PÚBLICO DE CAMPANHA - PEQUENO DEBATE

Rosane Oliveira, a colunista política de Zero Hora postou no Twitter isto:

“Eu seria a favor do financiamento público de campanhas se acreditasse que não haverá doações por fora. O sistema todo está desacreditado.”

Mais um caso em que o bom debate e destacar as devidas diferenças e que tem seu valor. Eu diria justamente o contrário:

É justamente porque o sistema está desacreditado que precisamos criar o financiamento público de campanha para resgatar credibilidade ao sistema ou para ser mais rigoroso, construir uma credibilidade que ele nunca teve ou possuiu. Porque precisamos mesmo ter um sistema político crível e regulado, confiável e justo. Então é preciso sim regulamentar via reforma política isso, por que só assim poderemos começar a conduzir  as doações para dentro da regulação, do controle e do monitoramento dos cidadãos. E se houver doações por fora que sejam devidamente flagradas, denunciadas e punidas.

As questões de fundo para debate, para mim, são as seguintes:

Você quer que o sistema continue assim? Por isto, então, é que não é a favor
Ou você simplesmente acha que não vai dar certo e ponto final? (o típico raciocínio que impede a mudança e a possibilidade de mudança subjetiva e objetivamente e se baseia num pressuposto quase infantil, mas que tenta ter ares de cético ou nihilista.)

Teu pretexto é justamente o de que não vai dar certo?

Para acabar com as doações “por fora” precisamos forçar através de lei que as doações sejam “por dentro”. Deixar assim é só manter o que está ai que aliás só é vantajoso para quem arrecada e quem se beneficia da arrecadação e o que coloca nos parlamentos e governos isso que temos ai hoje. 

Se queres mesmo mudança, se sabes mesmo que ela é necessária e queres algo melhor é preciso mudar justamente isso. Se não queres mudança é melhor arranjar outro tipo de argumento favorável ao que está ai, porque o de que não vai dar certo é absolutamente dispensável. Não haverá reforma política que supere o atual sistema político sem profundas mudanças no financiamento das campanhas. 

Então, na contramão de Rosane de Oliveira eu digo:

É preciso ser a favor do financiamento público de campanha para mudar a credibilidade do sistema político brasileiro. 

Afinal, é melhor tentar do que desistir antes de dar certo ou errado. 

O futuro do Brasil e da política do Brasil não pode depender de vaticínios fatalistas, bola de cristal, advinhões ou pessimistas, que só servem para aumentar o clima de terror e de estupidez nesta matéria. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

UMA GOTA, UMA IDEIA, UM PENSAMENTO E UMA REFLEXÃO SOBRE UMA PEQUENA MAS IMPORTANTE DÚVIDA

Os melhores argumentos sempre são aqueles que não precisam ser usados nem construídos. E, curiosamente, os piores argumentos são aqueles que esquecem deles e que vez ou outra são lembrados por caridade ou generosidade de alguém. A educação de uma pessoa depende disso, mas a educação de uma civilização inteira depende de que tenha alguém em algum lugar fique lembrando á todo tempo este limite. Quando se perde isso temos problemas. Não darei exemplos aqui, porque isso não depende mesmo do meu conhecimento ou sabedoria, mas sim da lembrança de todos ou da maioria ou dos mais sábios. Mas quem são os mais sábios? Provavelmente somente aqueles que não falam do que não sabem. Medimos, então, a qualidade inteira dos discursos aqui e acolá por este parâmetro mesmo. Onde houver mais discurso vazio, mas discurso pretensioso, mais discurso intempestivo ou precipitado, ali neste lugar mais obscuro estão a ausência de argumentos e a ausência de revelações, libertações e reflexão, Num filmezinho bem tranquilo sobre Wittgenstein, Derek Jarman, optou em sua primeira cena - e pouco impota a veracidade biográfica disto, pois encaixa mesmo na personagem  - por iniciar por um paradoxo infantil do pequeno Wittgenstein que nos interroga: Que valor teria a verdade se não houvesse o falso? Que valor, em outras palavras, teria o acerto se não houvesse o erro? Não sei - o pouco que sei é que não haveria valor algum se nada de bom ou melhor fosse pensável. E a verdade quando pensável é maravilhosa e na falta dela aceitamos até algo que dela se aproxime, ainda que não completamente. Mas Merleu-Ponty fez uma pergunta [ argumentando ] sobre todos estes discursos, opiniões, posições, decisões, escolhas, conhecimentos e informações possíveis - que podem ser verdadeiras ou falsas - que para mim é mais intensa e densa em relação à isso - e espero que cada um aqui procure encontrar os argumentos que eu não estou dizendo ou apresentando por seu próprio esforço. Isto é, que à saber: "Circula mais verdade nos dias de hoje do que no passado?" Agradeço in memoriam ao Bento Prado Junior esta nota. Ou perdemos muitos argumentos bons em nossa caminhada que talvez seja bem importante resgatá-los? lendo um livro ou estudando bem mais antes de falar a coleção de bobagens e opiniões que a liberdade nops faculta, sem reflexão alguma?   

MINI-PROGRAMA PARA ENSINO RELIGIOSO - DESDE 1998

Uma amiga que é leiga vai lecionar ensino religioso na escola e pede sugestões. Minha primeira é te agarra em Kant, Nietzsche e Engels e vai com calma. Além disso, não esquece que a religião é o recurso que os homens criaram ou melhor desenvolveram, com sua ampla sabedoria, experiência, fragilidades e perspicácia frente à temores e horrores, da natureza e do próximo ou estranho e capacidade criativa. Freud que era muito generoso e compreensivo até mesmo em relação à isso, chama isso de um grande delírio apenas -  criaram para amparar suas fraquezas, finitude e dor neste grande vale de lágrimas que é e continua sendo o mundo. Nietzsche dizia que era uma muleta para homens fracos e isso é uma demasia crítica desnecessária, pois não substitui a necessidade de amparo e conforto por mais nada. Então, religião é para quem precisa mesmo e para quem é - como eu confesso - um ateu abalado pelos mistérios e maravilhas da existência, pelos milagres e acasos, sortes e azares, tragédias e comédias, dramas e melodramas desta vida. Eu começava perguntando o seguinte: qual é a origem da ideia de Deus? Só há duas possibilidades: ou é Deus mesmo e, então, somos criaturas, ou é o próprio homem. E é preciso considerar que o homem  não inventa coisas sem necessidade ou só por capricho. E caso seja uma semente depositada na nossa alminha não deveria ser algo ruim não. O problema seguinte daí é saber qual é a religião que tem de fato linha direta e compreende o divino? Daí é que a porca torce o rabo, porque não há como demonstrar ou provar isso para ninguém. Acaba-se numa escolha de crenças influenciada por nossa família, nossos cultos ancestrais e por escolhas funcionais que na sociedade buscam status ou algum tipo de lugar ao sol, proteção, amparo e uma "teoria" explicativa do mundo, em lugar da ciência e do conhecimento.  Só ai já tem um bom pacote de questões para trabalhar o ano inteiro. Escolha a sua hierarquia e ordem de reflexão e deixa a gurizada dar opinião à vontade....eu perguntaria que religião é boa para as relações humanas mais compreensivas e a humanidade como um todo? Ou como deveríamos compreender, tolerar e respeitar as religiões dos outros, num contexto como o atual de conflitos, preconceitos e também de excesso de crenças e de racionalidades, umas contra as outras....Sobre tolerância recomendo muito a leitura do ensaio de John Locke...viu Cláudia Gil​?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

SOBRE TOURADAS

A única coisa que eu guardo como lição de uma Tourada, é que você precisa fazer o Touro passar para poder cravar o ponto. De resto é um sacrifício completamente deselegante meu amigo. Além de que se o Toureiro não souber com um passo bem dado e por detalhe fazer isto, já era...

MEUS AMIGOS FILÓSOFOS E A DILMA HOJE: CARTA ABERTA

Meu caro ex-colega Renato Duarte Fonseca, nós temos em comum, além da nossa formação e mesma escola, mais coisas. Creio que todos nós que estudamos, lecionamos e dedicamos nossas vida à filosofia e que aqui postamos posições sobre a atual conjuntura política do Governo Dilma, um grande ímpeto moral que orienta nossa visão de mundo e conduta na maior parte do tempo de nossas vidas.

Este ímpeto pode ser diferenciado em cada um de nós, pode responder com critérios diferentes e ser exercido sob influência de nossa perspectiva individual. Digo que este ímpeto atua na maior parte do tempo, porque devem mesmo haver momentos em que nós damos alguma forma de relaxada nesse tema geral da moralidade. Não porque praticamos alguma imoralidade, mas simplesmente porque não estamos a fazer algo que possa ser isso ou aquilo. Nosso entendimento, reflexão e muitas vezes conceitos são comuns e muitos deles são compartilhados nessa matéria. Por isso, de certa forma, nós andamos juntos nos últimos anos em relações à muitas questões políticas nacionais.

Ocorre que, apesar das nossas afinidades, temos uma assimetria de informações e experiências e também alguma forma de timing diferente em relação às coisas. E isso nos força a ser bem cautelosos em nossas posições e opiniões. Eu também compartilho como quase todos nossos colegas aqui a perspectiva de que quando trato de assuntos políticos, práticos, históricos e morais, quando julgo ações, posso sempre estar em alguma medida errado. Essa medida pode ser grande e pode ser no detalhe. Posso desconhecer certas informações, posso ser despossuído de uma compreensão destes assuntos, e pode ser também que todas as minhas posições sejam excessivamente idealistas. Neste caso, eu creio que isso não é uma desventura, pois prefiro, provavelmente como todos aqui, ser idealista do que ser pragmático e tolerante com tudo que ocorre.

Pode, porém, haver um outro tema ainda sobre este domínio da política e da moralidade em que meus juízos podem falhar.

Em ciências humanas, aliás, sempre lembramos dessas lições, e ainda mais numa hora destas, estamos neste domínio em que é sempre arriscado prever que algo se seguirá de um determinado estado de coisas. Sabemos todos muito bem disto que, por mais estatística e por maior que seja nosso acervo de lições do passado, de lições literais e ficcionais, por mais elegante que seja nosso acervo lógico e metafórico, podemos estar errados em nossas posições e opiniões como bem disse o Horácio.

Ocorre, porém, que somos todos, por nossas convicções e paixões intelectuais e políticas, muito  tentados a fazer previsões e a tecer vaticínios no domínio político e isso é muito prestigiado na economia geral da opinião pública, mas eu sei bem que também posso ser um profeta inepto, incauto e precipitado. No curso dos acontecimentos humanos lidamos com aquilo que alguns mestres nosso chamaram de o “imponderável”, mas também com o fator surpresa, sorte e, além disso tudo, com um fator que por mais romântico ou heróico que possa parecer, é um fator que não pode ser negligenciado porque incide sistematicamente na história humana. O fator liderança, carisma e também a capacidade de alguns indivíduos de amalgamar as crenças, constituir liderança e autoridade independentemente da concessão ou da tolerância dos poderosos ou dos que detém algum tipo de monopólio do poder, da informação ou do conhecimento. Tanto a máxima supremacia como a hegemonia mais sutil não escapam ao dissenso e algumas vezes à formas de dissenso surpreendentes

Posso ter minha capacidade de tecer vaticínios a partir de fatos bem prejudicada por muitos outros fatores, por exemplo, pelos meus preconceitos ou pelos meus temores e terrores. Mas não creio mesmo que o vaticínio correto na presente quadra histórica é do pior dos mundos possíveis, ainda que este mundo nos seja intolerável, intragável e de forma inegável péssimo para o nosso gosto, nossos juízos e nossos desejos. Estou escrevendo um texto, então, sobre tudo isso.

Mas hoje conversando com minha mãe que disse aquilo que todo mundo deve saber já que querem derrubar a Dilma, eu disse para ela que é um absurdo fazerem isto, porque se o fizerem farão dela e do PT não o seu fim, mas um levante e levarão a radicalização não de uma baderna nas ruas mas das posições de todo o PT para o próximo período e pior que isso, farão a posição de Lula ficar desmedidamente elevada em relação ao povo do país. Dilma não será uma mártir, mas o PT reagirá em bloco, apesar dos discursos autocríticos internos que só servem para vazar mais a bola do PT e tentam salvar sua própria cola em detrimento dos demais companheiros. A famosa falta de solidariedade vai acabar não com o PT, mas com a solução política que o PT tem tentado dar às suas diferenças internas e brigas de posições internas.

Ricardo Kotschko e outros petistas próximos de Lula, afirmam por aí ou deixam entender que Dilma está isolada. Isso quer dizer isolada de Lula. Que houve uma ruptura e afastamento. O Ricardo é um ótimo jornalista e muito amigo do Lula. Portanto, seria razoável fiar na opinião e juízo dele. Porém penso que é Lula quem deve dizer isso claramente. Tarso Genro afirma que Dilma precisa falar e que o governo precisa falar. Pois, aqui para mim vale a mesma regra: Lula deveria falar isso. Como eu sei que ele nunca vai dizer isso então o isolamento virá uma questão de opinião e interpretação sem efeito político, salvo relativizar a crise e alargar o colchão de problemas da presidenta que inclui Política Econômica, Petrobras e base no Congresso, a também sinalizar a orfandade da presidenta em relação a eles e, quem sabe?, Lula.  Outros atribuem os problemas do governo à personalidade de Dilma.  Penso que isso é um exagero e que segue a linha do desgaste da presidenta e da rejeição da formação do ministério. O raciocínio é simples: não gostei do ministério então Dilma errou. Tá feito o quadro psicologista da Dilma: isolada, calada e sem escutas de bons conselheiros. Mas ela formou o governo sem o PT? Ora essa. Não...

Quando olho para Pepe Vargas e Miguel Rossetto, com Mercadante e Jaques Wagner no governo federal não me foge a ideia de que o racha interno ainda é um reflexo da necessidade de constituir novos protagonistas. Com tudo isso que fazem acabarão por transformar o PT definitivamente num partido da ordem, não porque perde o poder mas porque cada vez mais se adapta as suas agruras, como aliás o PMDB tem feito desde Tancredo Neves.

Me repetindo, divirjo de muitos apenas com a tentativa de atribuição do problema exclusivamente à Dilma. Ela não é mesmo o principal vetor desta borrasca. Por isso, tendo a ficar menos impetuoso ainda em relação a soluções abruptas e diagnósticos. Há no fundo deste oceano um grande monstro tentando se safar mais uma vez, como em diversas outras situações. E ele não tem mesmo o DNA do PT não.

Diria até, que ao contrário do Roberto, Dilma não está tão isolada quanto Getúlio e Jango estiveram nos seus últimos dias, porque é bom lembrar que o PT ainda tem bem mais fichas na mesa e que a conjuntura é bem diversa e, sendo assim, o governo tenderá a ser mais forte do que parece. O silêncio de Dilma - que Tarso aponta - é uma medida cautelar ainda, porque há sim algo que ainda não pode ser revelado pelo governo e que deverá mudar a situação e o estado de coisas. Todos que pedem a renúncia esquecem que o novelo de lã não foi ainda desfiado em sua inteireza. E nem a fala e nem um gesto desesperados e segue sem uma boa pergunta e uma provocação decisiva. O que, para mim e provavelmente para o governo, ainda não é o suficiente, nem tudo que desejamos e precisamos para responder de forma inconteste cada acusação e ilação. As pessoas podem falar o que quiserem e responder como quiserem aos fatos e aos desafios da vida, a presidenta só pode falar quando tiver todos os elementos finais em mãos, incluso aqueles que surpreenderão os oposicionistas que esperam derrubar o governo antes que as velas em chamas do destino recaiam sobre eles também. É sim, para usar uma figura uma guerra de fogos...e em meio a isso alguns se precipitam antes do metal estar devidamente temperado...

Só que Dilma não é de forma alguma a única operadora no cenário, nem seu governo depende exclusivamente da opinião e do juízo dela. Para mim é mais razoável ainda fiar que o governo vive uma grande crise sim e uma prova disto não é somente o isolamento da presidenta, mas sim também a falta de solidariedade – o que fica evidente quando o debate personaliza e foca em Dilma - em relação ao governo e ao projeto que - mesmo no presidencialismo - não é só ela nem só dela não. Mas para mim isso tudo passará e será superado também.

O Roberto Horácio de Sá Pereira ergueu uma tese da renuncia da Dilma. E eu creio que é melhor isso vir dele do que de outros. O debate que se seguiu em diversos lugares – repetindo as baixarias já conhecidas - foi até melhor do que muitos outros, porque expôs bem as compreensões diferentes do processo e do cenário ao meu ver. E nesse caso mostrou muita assimetria moral, cognitiva e também ideológica entre muitos que opinaram, espinafraram e debateram tua tese.

Enfim, eu entendi a tese dele como carregada do propósito e de uma hipótese honrada de preservar a esquerda brasileira. Porém seria, como disse o Ulisses Pinheiro, uma confissão de culpa, com a vergonhosa condição de ser isso feito sem sequer haver um indiciamento da presidenta ou uma prova. Ora, uma presidência não pode se abalar nem com chuvas, nem com trovoadas, nem ventanias ou borrascas, nem tempestades ou tsunamis. E é esta a presidência que eu quero neste país em que vivo.

A eleição de 2014 foi muito pior do que imaginamos, pois construiu um rearranjo de forças tanto fora como dentro do PT, ergueu e consolidou uma plataforma anti-petista e impôs um limite ao projeto do PT. Dentro do PT muitos quadros de altíssima qualidade e capacidade não foram eleitos e reeleitos. Fora do PT, foram eleitos as peças e personagens mais conservadoras da história recente do Brasil. A mídia estabeleceu à direita todas as suas prioridades éticas e morais, econômicas e políticas como nunca antes. E os conflitos que Dilma promoveu – não preciso lembrar para ninguém da lista de enfrentamentos corretos, na saúde, na memória histórica, com Cuba – e alguns deles bem mais do que necessários, deram o caldo de cultura que levou a um segundo turno duríssimo, passada a tragédia de Eduardo Campos.  Na política, eu creio como muitos, que não há espaço vazio ou vácuo de poder e é na emergência e na urgência que surgem as soluções, não antes, nem depois. E Lula tem papel certo nisto e neste processo todo...

O problema, afinal, é que efetivamente com o laço que tomamos nas urnas em 2014 – o laço que a esquerda brasileira tomou com a ajuda da imprensa da anti política e do anti petismo dos conservadores e cripto liberais foi terrível – com a hegemonia conservadora atual e a conta para pagar da sustentabilidade do emprego e renda, a única coisa que nos restou foi essa Presidenta com estes desafios e com este quadro que está ai. Vamos recuar e desistir apesar disto?

A maior parte das pessoas que se preocupam com uma plataforma política de esquerda no Brasil e que pensam sobre isso dizem: Não! E eu digo junto: Não passarão!!!


Fiz este texto pensando em muitos outros colegas que pelo Brasil se dedicam a debater a realidade política nacional com seriedade de propósitos e com este ímpeto moral.