sexta-feira, 31 de maio de 2013

COMO EDUCAR OS JOVENS PARA SEREM HONESTOS E NÃO PARA SEREM ESPERTOS?

Como educar os jovens para serem honestos e não para serem espertos? 

(afinal, nenhum professor ou professora deveria se sentir feliz de estar educando espertinhos e não bons cidadãos e pessoas honestas - sem levar em conta que a educação não teria justificativa social e pública se a proposta fosse esta) 

Pensando sobre o tema do vestibular e minhas aulas de filosofia. 

Lembrando que "...uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida..." Sócrates. 

Boa noite!

O PENSAMENTO ESTRANHO DE WITTGENSTEIN: PARA A MINHA INSÔNIA FILOSÓFICA CONTINUAR COM ISSO

“Este ser estranho o pensamento - mas ele não nos parece estranho quando estamos pensando. O pensamento não nos parece misterioso enquanto pensamos, mas somente quando, por assim dizer, falamos. retrospectivamente: Como isso foi possível? Como foi possível que o pensamento tratasse ele mesmo do próprio objeto? Sentimos como se tivéssemos, por meio dele, captado a realidade em nossa rede. “


LUDWIG WITTGENSTEIN - INVESTIGAÇÕES FILOSÓFICAS §428

NA DIVISÃO DA FRONTEIRA DO MUNDO DA FILOSOFIA - ENTRE O REALISMO E O IDEALISMO - ENTRE O CETICISMO E O RACIONALISMO - UM PENSAMENTO PESCADOR 

CONCURSO PÚBLICO DO MAGISTÉRIO ESTADUAL 2013: AVALIAÇÃO PRELIMINAR

Prestei concurso no ano passado e fui nomeado em uma segunda matrícula, mas não considero a  forma de seleção justa ou ideal. 

Eu tenho tantas divergências com estas formas de seleção, e são divergências  que são correntes e que não são deste governo, mas de quase todos os governos que se prestam a fazer concursos. 

Considero importante que o façam e fui nomeado até hoje por somente pelos dois governos do PT. Primeiro pelo concurso e nomeação do Governo Olívio em 2001 e agora com Tarso em 2012. O que exclui alguns outros governos - é claro - que não fizeram concursos ou preferiram contratar emergencialmente ou que sequer nomearam aqueles que estavam classificados e já selecionados e certames de seleção pública. 

São divergências sobre concurso que quase nem cabem num texto curto. E que não se aplicam somente ao concurso estadual. É uma divergência com este paradigma dominante nas seleções. Não gosto de pegadinhas, pega ratão ou qualquer forma de avaliação que privilegia a confusão e o embaralhamento de uma questão para triunfar - derrotando ou selecionando quem sobrevive a ela. Gostaria muito e  considero importante para a educação que a seleção deveria ter redações para avaliar a capacidade expressiva e discursiva dos futuros professores estaduais. Acho que deveria haver uma aula prática também para selecionar os professores.

Me chama muita atenção que muitos professores que estão contratados a cinco, dez, quinze e mais anos e atuando em sala de aula já estejam num segundo concurso na perspectiva de não serem aprovados. E fico pensando o que significa isto? Não creio que é falta de qualificação deles. Deve haver algo de errado na seleção.

Por outro lado, para deixar claro contra alguns que são reprovados e alegam desconhecimento das teorias pedagógicas, não creio ser admissível que alguém que quer ser professor desconheça os aspectos elementares dos teóricos da educação principalmente considerando que a sua habilitação básica é licenciatura o que exige na grade curricular do seu curso a presença de disciplinas pedagógicas. Quando isto acontece tem algo mais de errado ai.

As teorias pedagógicas exigidas podem ser estudadas e compreendidas medianamente por todos sem exceção. Estas teorias podem ser compreendidas até mesmo e na maior parte dos casos são ministradas fazendo uso de manuais, compilações ou produzindo apostilas  derivadas de resumos ou bons comentários das obras dos teóricos ad educação e a bibliografia apresentada é amplamente conhecida e esta presente nas bibliotecas das escolas em sua maior parte.

Mas como aponta um autor de comentário ao concurso veja aqui- o professor Omar Martins é preciso fazer sim as devidas menções e referências bibliográficas nas questões do concurso o que não se verifica em todas as questões. 

Penso que qualquer prova, avaliação ou teste é também um processo educativo e que deve construir conhecimento, não aumentar a ignorância ou confundir as ideias, ampliando as frustrações daqueles que prestam concursos como eu e vocês que aqui estão lendo esta pequena consideração.

Odeio e tenho ojeriza, urticária e me aborreço  com qualquer esboço de uma teoria das espertezas em educação. Não quero alunos expertos nem professores expertos, prefiro professores com honestidade intelectual e  capacidade de reconhecer limites e deficiências.

Por fim concordo com a necessidade de contextualizar os professores e verificar isto também e aquilo que Omar Martins aponta como novo paradigma a ser construído na educação de professores e professoras mediadoras.

Assim gostei do comentário dele, mas acrescento estas breves considerações.

TEXTO DE FRANÇOIS RECANATI PELA FILOSOFIA ANALÍTICA: MINHA OPINIÃO PRELIMINAR E HISTÓRIA DE FORMAÇÃO NO TEMA GERAL DE DEBATE ENTRE A FILOSOFIA ANALÍTICA VERSUS FILOSOFIA CONTINENTAL

Vou compartilhar este texto de François Recanati - Pela Filosofia Analítica, FRANÇOIS RECANATI - PELA FILOSOFIA ANALÍTICA, apesar de não ter concluído a leitura porque é um debate que independe da minha posição e que toca na posição, formação e desenvolvimento de muitos estudantes de filosofia. 

Desde os auto-didatas aos acadêmicos creio que é um debate possível e necessário, não tanto para uma tomada de posição ou a precipitação de uma adesão, mas sim pela necessidade de compreensão das diferenças e das qualidades dos dois lados.

Minha opinião preliminar é de que a filosofia analítica cresce em virtude de uma espécie de persistência e diversidade.

Cresce assim para além do método e do espírito....e muito também pro conta de um processo interessante que lhe é interno, a saber, um espírito de razoabilidade e clareza que sacrifica conceitos em favor de um entendimento comum e exemplar, concreto de suas idéias.

Eu mesmo transito entre uma TRADIÇÃO ANALÍTICA & uma TRADIÇÃO CONTINENTAL, por formação e também porque minha matriz fundamental filosófica - pré-acadêmica - é uma espécie de Platonismo e Marxismo, sucedido por nuances de Nietzsche, Sartre e Foucalt, dos quais nenhum deles foi tratado devidamente na academia ou obtiveram qualquer atenção direta na acadêmica - isto não vale como queixa, é somente um fato.

E que estas nuances e influências pré-acadêmicas foram complementadas por forte influência analítica, e também da tradição "clássica" de Platão, Aristóteles, Descartes, Hobbes, Kant, Frege, Wittgenstein e, ainda assim, por um Heidegger como que resistentemente bem posicionado por força da Hermeneútica e também um Marx resistente por força da Escola de Frankfurt a partir de mestres que tinham como objetos de estudo e como componentes fundamentais de suas trajetórias estes autores. É a formação de um aluno da UFRGS entre os anos 80 e 90.

Hoje examinando as teses e dissertações de minha escola vejo a predominância de uma escola analítica que divide espaço com um Hegel e uma espécie de zona de permissão de 30% das obras dedicadas a assuntos diversos desta tradição. Mas mesmo assim não poderia se afirmar que a escola é puramente analítica porque ela é no fundo atravessada por temáticas continentais e também leituras continentais que parecem sempre se apresentar a partir de suas origens. 

Mesmo o afastamento, aposentadoria ou mudança mantém uma espécie de zona livre da filosofia continental. Apesar de saber que não tenho plenas condições de fazer uma sociologia das tradições filosóficas na UFRGS agora e no Brasil como um todo, me parece que este fenômeno é equilibrado. Sendo a escola analítica mais visível, mas vejo que a tradição continental resiste bravamente. A pergunta fundamental para nós deveria ser: como se faz este diálogo? e até que ponto estamos investindo nele? 

Eu considero este debate importante para que este processo não seja apenas reprodução de método ou manutenção de linhagem, mas que sua síntese seja resultado de um debate racional e respeitoso entre aqueles que defendem ou se esmeram em cada uma destas posições. Porque vejo muito esmero em ambos os lados. Assim, a única razão que me validaria a rejeitar uma ou outra tradição ou uma ou outra produção seria a percepção de uma fraude intelectual ou filosófica. O que não vejo em nenhum dos casos. Ainda que eu me mantenha na fronteira e também cultivando leituras de ambos os lados por prazer gosto, mas também pro engajamento político e histórico permanente.

Por conta disto fiquei muito feliz quando fiquei sabendo que havia um Marxismo Analítico. Não porque o entendia ou assinava em baixo de suas teses, métodos e perspectivas, mas porque compatibilizava nominalmente aquilo que eu entendi como possível e rigorosamente necessário para que o pensamento não fique confinado aos muros da universidade ou ao gabinete do filósofo e agora no gabinete da filósofa também. 

Mas esta é a minha opção de ter uma formação filosófica e de me manter militante tal qual um intelectual engajado e cheio de opiniões e posições para o espaço público. Sujeito à correções, divergências e contradições, mas empenhado sinceramente em fazer avançar a democracia, a ciência e a humanidade e incidindo politicamente e argumentativamente nas condições de vida neste planeta. E aceitando o risco de estar errado o que é pré-condição para topar esta parada.

Boa leitura de Recanati... 


quarta-feira, 29 de maio de 2013

A NATUREZA E A NOSSA CRIATIVIDADE: HARMONIZANDO O ESPÍRITO

Estou precisando muito de algo parecido com isto. Acho que vou pedir licença aos avatares e orixás, elfos e ninfas e ingressar em uma floresta por alguns dias. 

Com isso me lembro do grande gosto que o meu pai tinha pro entrar na mata para trabalhar ou passar o tempo. Seja esta uma mata na Sede Campestre do Orpheu, na Sede do Caça e Tiro, no Morro Reuter ou em qualquer lugar que tenha alguma mata. Deve ser algo muito espiritual. 

E lembro também do que alguns chamam de elementares ou elementais. A natureza tem sua beleza em estado bruto e creio sim que todo homem que percebe istro é capaz de ser muito mais criativo e harmonizado. Então vamos lá, Walden e a vida no Bosque...

E devo confessar que a estatística é o fator menos importante aqui. Qualquer ganho nesta matéria é um grande ganho.

OSCAR QUIROGA SOBRE O AMOR: PARA ESTA QUARTA-FEIRA

E o astrólogo Oscar Quiroga escreveu isto sobre a quarta-feira que se inicia agora:

Amor.

Há o amor puramente instintivo, dos hormônios e orientado fisicamente.

Há o amor humano, mais abstrato e complexo, que além das atrações e repulsões físicas abrange princípios morais e éticos, a necessidade de oferecer proteção a alguém e também de recebê-la, o amor humano que se pauta pela construção de vínculos que contribuam a preservar a sociedade humana no seu melhor estado possível.

Há, acima desses, o amor Divino, a irradiação das conexões cósmicas que são independentes de atrações e repulsões, manifestam a Vida Una que permeia e sustenta tudo em Ordem Constante e de forma indestrutível.

De tempos em tempos caminha entre nós um exemplo desse Amor Divino e sua influência perdura ao longo dos milênios, ficando para nós, humanos, a dura tarefa de fazer o melhor possível para nos elevarmos nessa direção. 

(uma expressão idealista que eleva-se do amor até o amor divino...serve  para comparar com a doutrina de Platão sobre a vida que vale a pena e, também, sobre nossa luta por suavidades para além dos Filisteus.)

AVIDA QUE VALE A PENA SER VIVIDA SEGUNDO PLATÃO

“Ninguém falou do bem e do belo com um entusiasmo tão comunicativo. A vida que vale a pena ser vivida, diz ele no Banquete, é a do homem que se elevou do amor pelos corpos belos, ao amor pelas almas belas, e deste, ao amor pelas belas ações, depois, ao amor pelas belas ciências, até à beleza absoluta que atravessa os corações com um arrebatamento inexprimível.”



BARBOSA, Jorge Nunes. O Teeteto e a Apologia. p.11. ( Na abertura do capítulo 2 sobre A Filosofia de Platão.) 

o texto é ótimo e merece nossa leitura e esta disponível em: TEETETO E A APOLOGIA. JORGE NUNES BARBOSA.

A VIDA É DURA E LUTAMOS POR SUAVIDADES: CONTRA OS FILISTEUS

Bom Dia....num ciclo intenso...a vida é assim mesmo...há um tempo para tudo...e as vezes é tudo ao mesmo tempo, agora. 

Nada a reclamar. Corrigir o que deve ser corrigido. Melhorar o que deve e pode ser melhorado e ser feliz. Como dizia Seu Carlos na Cooperativa Coolméia: "Usa a cabeça magro".  Não é Gerson Buss? Meu amigo que ouvia a mesma expressão com a gente. 

E assim se vai levando esta luta e enfrentando os aspectos duros e suaves da vida. A vida é dura - como nós sindicalistas aprendemos a dizer, ouvindo com toda a franqueza esta expressão da boca de um Secretário da Fazenda, em plena mesa de negociações em meio à greve de 2000  -, mas tem lá suas suavidades e todos nós também lutamos por elas. 

E lutamos por elas para todos, não somente para alguns ou nossas corporações, facções, partidos ou organizações. Ao contrário de alguns filisteus que prometem "as pessoas em primeiro lugar", mas esquecem de honestamente confessar que são primeiro as pessoas deles que estarão em primeiro lugar, como na prática persistente acontece e é feito. 

Uso a palavra filisteu aqui no tom depreciativo, contra aqueles que são moralistas e perversos, insensíveis e extremamente egoístas e acomodados. 

Na Wikipedia encontrei esta definição: 

"a palavra "filisteu" passou a designar pessoas de comportamento acovardado, que têm ojeriza por questões políticas maiores, não valorizam a arte, a beleza ou o conteúdo intelectual e satisfazem-se com o cotidiano da vida privada pacata e confortável. O filisteu não seria adepto de ideais, mas apenas de propostas práticas passíveis de serem contabilizadas em melhorias para sua vida privada imediata."

    

A VIDA É DURA COM QUEM É DURO COM ELA: DIALÉTICAS E FORÇAS

O texto que compartilhei de um amigo chamado Wilson Amaral sobre ser duro na vida e a vida ser dura com a gente é muito bom para a reflexão.

E gerou um bom debate no meu Facebook também.

Muito digno de reflexão porque me lembrou - na analogia - a dialética do senhor e do escravo de Hegel e também a relação entre as classes sociais em Marx.

O que, aliás, poderia parecer uma bobagem aqui, mas que revela o fato de que um lado depende do outro e que para malhar o ferro é preciso uma força e que o ferro deve ter uma resistência também para ser malhado.

Assim, a dureza com que tratamos aquilo que deve ser tratado com dureza...é uma forma correta de agir por conta de que é de acordo com aquilo que a matéria a ser tratada exige....valeu Wilson....mesmo....

Talvez a vida não exija tanta dureza em todos os momentos assim e saber os momentos que dela exigem dureza - discernir os momentos de endurecer sem perder a ternura, como disse o Che - é a própria sabedoria.

Meu pai ia adorar pensar sobre isto e conversar sobre isto comigo.

Na eletricidade a força deve ser na exata medida da necessidade...nem mais, nem menos...e em todos os sistemas inteligentes economizar energia é um princípio e condição para progredir e obter avanços técnicos e tecnológicos... 

terça-feira, 28 de maio de 2013

AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO BRASIL, PADRONIZAÇÃO E GESTÃO: E EM SÃO LEOPOLDO UM LEIGO NA GESTÃO

Tenho a mesma opinião que os pesquisadores que aponta a inadequação da Prova Brasil e do IDEB para melhorar a educação. Veja aqui: luisnassif/educadores-criticam-avaliacoes-padronizadas

Penso que é um absurdo usar estes sistemas de avaliação como AUDITORIAS cujas aplicações de testes e provas não tem nenhuma motivação ou preparação de adequação e esclarecimento e que desta forma se comete um erro com a educação, os educadores e os educandos.

Não se avalia coisa alguma sem preparar a avaliação e não é necessário ter TESE DE DOUTORADO, DISSERTAÇÃO DE MESTRADO ou 50 anos de carreira no magistério para saber disto..

Penso inclusive que o Brasil erra feio ao propor diversas políticas a partir destas avaliações que são em sua maior parte superficiais e pouco contextualizadas. Pois deveríamos lidar com os índices de evasão e reprovação a prtir das suas causas e não a partir dos seus efeitos.

Creio que se examinar melhor o perfil dos educadores, identificar as diferentes formações e tratar de valorizá-las e levar a efeito suas caraterísticas de formação e que devemos nos colocar de forma mais correta o desafio de integrar e articular na escola a implementação de diversos programas e investimentos que são positivos, mas que caem num vazio de gestão e se desarticulam com um processo de "AMASSAMENTO" ideológico dos educadores e dos alunos.

A valorização salarial e a reconstituição da auto-estima dos educadores pode produzir resultados muito melhores.

E, por outro lado, aquilo que Dilma disse no seu discurso de 1o de maio de 2013 também pode ajudar muito sobre a relação da sociedade e do cidadão com a educação. Já comentei e postei isto aqui no meu blog.

O Brasil PRECISA FAZER MESMO UM MUTIRÃO PELA EDUCAÇÃO e isto não é mais uma questão setorial ou  de gestão....fecho com a frase do Freitas: “A medida que você trata resultados de maneira igual, você tende a intensificar ainda mais as desigualdades sociais em nome de aparente legitimidade técnica.”.

A questão é cada um tratar do que lhe cabe na sua esfera de atuação mais próxima.

Para finalizar, também é preciso desenvolver leis que impeçam a gestão da educação e das políticas educacionais por leigos como aqui em São Leopoldo hoje.

Penso que tanto a educação quanto a saúde deve ser colocada fora dos arranjos da baixa política.

E de uma vez por todas. Muito me surpreendeu que aqui em São Leopoldo o prefeito que foi eleito em 2012 dando ênfase justamente aos resultados ruins do PROVA BRASIL e do IDEB da rede municipal - o que ao meu ver foi uma distorção dos resultados - tenha colocado seu vice como Secretário da Educação.

Um rapaz de muito boa vontade, mas que não possui nenhuma qualificação que o gabarite a fazer gestão em educação.

Vamos ver agora quantos educadores municipais vão curtir isto que estou dizendo e tomar vergonha na cara e denunciar isto de uma vez por todas.

E não tem uma gota de ataque pessoal nisto, tenho até respeito e estima pelo meu xará Daniel...mas vamos combinar.... 

domingo, 26 de maio de 2013

TESE DOMINICAL: LÓGICA DE PORT ROYAL

Tese dominical. Dei uma olhada na Tese de Doutorado da Katarina Peixoto, defendida na Pós-Graduação em Filosofia da UFRGS em 2012, e gostei muito do que encontrei lá. É uma tese de doutorado em que ela produz a tradução e apresenta um Estudo Crítico da Lógica de Port Royal. A parte que sempre me fascinou nesta Logique é que há uma conexão muito interessante entre seu autor Arnauld e René Descartes e que ela é uma bela obra que nos ajuda muito na compreensão das relações entre pensamento e  linguagem no início da modernidade. Já havia feito um estudo sobre este tema na época da graduação e  fiquei fascinado com o texto na minha fase mais cartesiana e agora temos uma tradução bilíngue de sua primeira parte. Para ler ela recomendo o endereço que segue: Subjetividade, ideias e coisas : estudo crítico e tradução da primenra parte da Lógica de Port-Royal, I-VIII. Katarina Peixoto.

sábado, 25 de maio de 2013

TRANSIÇÃO DE PARADIGMAS: THOMAS KUHN

A transição de um paradigma em crise para outro novo do qual pode surgir uma nova tradição de ciência normal, está longe de ser um processo de acumulação, ao qual se chega por meio de uma articulação ou uma ampliação do antigo paradigma. É melhor visto como uma reconstrução do campo, a partir de novos fundamentos, reconstrução que muda algumas das generalizações teóricas mais elementares do campo, assim como também muitos dos métodos e aplicações do paradigma. Durante este período de transição haverá uma grande coincidência, ainda que nunca completa, entre os problemas que se podem resolver com a ajuda dos dois paradigmas, o antigo e o novo; porém, haverá também uma diferença decisiva nos modos de resolução. Quando a transição é completa, a profissão acabará alterado a sua visão do campo, seus métodos e suas metas. Um historiador perspicaz, ao observar um caso clássico de reorientação da ciência mediante uma mudança de paradigma, o descreveu recentemente como “tomar o outro extremo do bastão”, um processo que envolve “manejar o mesmo conjunto de dados anteriores, porém situando-os em um novo sistema de relações concomitantes ao determiná-los em um ponto diferente deste conjunto.” Outros que tem notado este aspecto do avanço científico tem sublinhado sua semelhança com uma mudança em uma forma de visão: as marcas sobre o papel que se viam antes como um pássaro, se vê agora como um antílope ou vice-versa.”

Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas. NO CAPÍTULO VIII: A RESPOSTA A CRISE.

Para uma Pequena e Modesta anotação sobre Educação, Avaliação e Conhecimento em um Registro Crítico, Democrático e Emancipatório.

Ou seja, os dois lados observam coisas diferentes a partir do mesmo objeto comum a ambos.

Sempre aprendendo na fronteira deste debate, porque é exatamente onde estamos hoje. Talvez esta seja a única forma de aprender mesmo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

E JEAN PAUL SARTRE INVADIU MINHA AULA

e Jean Paul Sartre invadiu minha sala de aula hoje...e me perguntou ao pé do ouvido se eu tava de brincadeira com este negócio de aceitar o sistema....e eu disse que não...que nós podíamos juntos questioná-lo, que nós podíamos exercer plenamente e refletidamente nossa liberdade de pensamento sem temer..sendo corajosamente o que somos e fazendo nossas próprias escolhas sem tutela de ninguém mais neste mundo...que podíamos provocar os jovens a pensarem por si mesmos sobre qual papel mesmo eles terão neste sistema produtivo...um intelectual engajado ou o filhinho da mamãe submisso e que esta preso ao play que o sistema quer que ele jogue o resto de sua vida...e dai Simone me aparece e me pergunta se as meninas não tem mais nada para fazer?...tem muito mais coisas para fazer do que serem as reprodutoras e aquelas criaturas relegadas ao segundo sexo....

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A HORA DE SAIR DO PLAY E JOGAR O JOGO REAL DA VIDA

Hoje descrevi minuciosamente como as coisas funcionam. Como o sistema de processamento entre formação e produção se impõe através da escola por uma exigência social. Como um jovem é transformado em um ser útil para a sociedade em que vive, em que vivem seus pais e na qual ele vai encontrar um papel produtivo mais ou menos remunerado conforme desenvolveu suas aptidões, adquiriu conhecimentos e empreendeu iniciativas a partir de suas escolhas. Expliquei como este jovem recebe investimento social para tentar escapar da lateral da história ou de uma marginalidade ou mendicância. Apontei para as outras alternativas de inadaptação ao sistema. Sim, aquelas três alternativas perversas: o asilo, prisão, o hospício ou a paz dos cemitérios.

Inverti o espelho das questões tradicionais de porque devo estudar sociologia ou porque me é útil estudar sociologia. E isto provocou as perguntas opostas: Por que precisamos estudar? O que a sociedade quer que a gente faça com isso? Como ser útil socialmente? Aparentemente estava impingindo a eles a máxima submissão ao sistema, por outro lado, a consciência deste processo parece mesmo a única forma possível de liberdade e é somente a partir disso que eles poderão fazer suas escolhas e equilibrar seu desejo de "a long play in the life" às exigências de uma inserção no sistema produtivo. Somente um destes jovens me perguntou ao final: É possível compatibilizar a diversão com o trabalho? Eu lhe disse: não é mais ou menos isso que eu tento fazer aqui? 

Escolhi uma profissão cuja maior diversão é revelar e permitir  a descoberta tanto dos mecanismos de submissão como de libertação. Tudo isto através do conhecimento. Mas, imagine você que a impressão geral de utilidade, ao meu ver, é completamente dissolvida ai. Pois, caberá a eles conseguir fazer as escolhas que vão compatibilizar suas porções de sacrifício e prazer, esforço e volição, na sociedade em que eles darão forma a este jogo social. A máquina social, o mecanismo de jogo que eles vão viver será formado pelas escolhas deles. As relações sociais da sociedade em que eles viverão serão ditadas pelas escolhas deles. A educação e o estudo representam mesmo uma grande esperança e aposta lançada sobre o futuro deles. Sim, que eles façam algo melhor do que nós, do que nossos antepassados e que eles assumam o bastão de fazer deste mundo algo melhor. 

Parte da teoria da reprodução pode ser quebrada ai na construção do conhecimento, na construção da consciência de um jovem sobre a natureza do sistema e das expectativas em que ele é educado em que o futuro nele é construído. Cabe a ele assumir sua responsabilidade nisso, sair do play e entrar no jogo real do mundo.

EPIGRAFAR

Um dia em que oscilações de humor, mal humor e reflexões me impelem a epigrafar....2 km é uma boa distância regulamentar de quem não se quer encontrar...mas é quase nada quando se procura algo....dois anos é uma péssima distância de quem se tem saudades...e dois milênios é muito tempo para pensar, mesmo assim não se encontra fácil a verdade e aquilo que se quer....mesmo que você tenha muita sorte com estas coisas..estes assuntos..isso não significa que toda a saudade será saciada ou que todo o pensamento será realizado num lampejo repentino como um relâmpago ou um reflexo ao espelho...você não vai entender a metade da mensagem se ficar pensando somente naquilo que você lê...terás que descobrir nas lacunas deste discurso o que com todo rigor de uma expressão linear poderia ser dito mas não é...nonsense? sim....puro nonsense....justamente ai está este enigma, este mistério....recompensas? não....não haverão recompensas ao final do turno, ao final desta jornada....

COMO SE SENTE UMA MULHER? COMO ESTAMOS NÓS HOMENS EM RELAÇÃO A ISTO?

Uma postagem no face me fez pensar de novo na questão feminina. Esta: Como se sente uma mulher? 

Estive ontem vendo o filme sobre Simone de Beauvoir e Sartre (aqui: OS AMANTES DO CAFÉ FLORE ) e fiquei pensando também nesta questão do segundo sexo e desta vida. 

Já tinha pensado nisto tudo várias vezes nesta vida...e é uma coisa que me deixa muito impressionado...principalmente quando começo a dar aula de história ou filosofia ou sociologia e elas - ou as vezes eles - me perguntam se não tem nenhuma mulher nesta história, ou nesta filosofia e ao que eu tenho que ser sincero e admitir que estas coisas o machismo da nossa civilização demorou muito para permitir, possibilitar ou viabilizar.

Minha filha Isabella já me perguntou sobre isto também.

Isso vem desde a primeira divisão social do trabalho e segue até meados e o final do século XX, como uma questão social e conceitual não resolvida, mas mesmo com a solução conceitual já dada não há igualdade nenhum nos dia de hoje. - mas e hoje? 

Precisamos mudar muito ainda e muito mesmo.

Os links dão uma ideia e eu recomendo que todo jovem ou adulto que realmente encara esta vida com algum tipo de obrigação de refletir realmente sobre ela, que dê uma investigada maior sobre este tema.

Como estamos?

quarta-feira, 22 de maio de 2013

JOHN LENNON - JEAULOUS GUY

Hoje eu acordei com esta canção...lembranças, sentimentos e muitas memórias...a gente não tem o controle sempre, mas as vezes a gente consegue driblar a dor, o sofrimento e continuar....você deve seguir andando, dando olá para os amigos e amigas, sendo simpático e numa boa...continuar andando...a vida é assim mesmo..nem tudo é possível, mas aquilo que foi possível fez sentido um dia...amanhã você vai se lembrar e vai também sorrir, brincar e agradecer...continue andando....tudo passa e passe bem.... Grande John Lennon!!! Muito Obrigado por esta canção!!!

JEAULOUS GUY - JOHN LENNON

terça-feira, 21 de maio de 2013

COMPLEXO DE VIRA-LATAS: NELSON RODRIGUES - 31 DE MAIO DE 1958


Complexo de vira-latas
Nelson Rodrigues



Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?



Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício. 


Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade:


— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto joga dores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho. 

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: 
— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “com plexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico. 

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos. 

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.


O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.

Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.



Texto extraído do livro “As cem melhores crônicas brasileiras”, editora Objetiva, Rio de Janeiro (RJ), p 118/119, e ao  livro “À sombra das chuteiras imortais: crônicas de chutava”, seleção de notas de Ruy Castro – Companhia das Letras – 1993.

(Texto editado na revista Manchete esportiva, a 31 de maio de 1958, e republicado em À sombra das chuteiras imortais - crônicas de futebol (organização de Ruy Castro para a Cia. das Letras, São Paulo, 1993). Trata-se da última crônica antes da estréia do Brasil na Copa de 1958, que, como se sabe, foi a primeira vencida pela Seleção brasileira. Nelson mantinha, nesta publicação, uma coluna chamada "Personagem da semana", o que explica o começo do texto. Nota de Luis Augusto Fischer)

FELIZ ANIVERSÁRIO MAMÃE: VERÔNICA ADAMS BOEIRA AOS 79 ANOS NA INTERNET

Minha mãe Verônica Adams Boeira completa ** anos hoje e está maravilhada com a  quantidade de bolos e tortas que está recebendo no Google+. Demorou uns 7 anos para aceitar a minha dica de entrar na internet. Agora adora isso. Eu sabia. As vezes os paisinhos e mãezinhas precisam aceitar mais rapidamente as dicas dos filhos e filhas. Incentive seu pai e e mãe a tentarem. Feliz aniversário mamãe!!!!

** a pessoa viu que eu postei a idade aqui e resolveu complicar. Então, quem viu viu quem não viu não viu.KKKKK. 

SOBRE AS INTERPRETAÇÕES FILOSÓFICAS: PIERRE AUBENQUE


“Não há aqui critério decisivo de eleição, mas sim uma sanção retrospectiva da história. Na sucessão histórica das interpretações – consequência dos seus conflitos por direito Inacabáveis –, distinguimos espontaneamente (e justificadamente) entre interpretações profundas ou superficiais, produtivas ou estéreis, interessantes ou entediantes, importantes ou fúteis, entre as que fazem história e as que são esquecidas logo em seguida [...]. Estas distinções, evidentemente, não superam a distinção entre o verdadeiro e o falso. Elas substituem tal distinção – na falta de algo melhor, se se preferir, mas com a liberdade e a responsabilidade que isto implica. E a substituem no domínio da filosofia. Domínio este em que nunca se tem afirmações inteiramente verificáveis, mas sim interpretações, sejam de primeiro grau, como as do filósofo (o qual interpreta o mundo, a ciência, a arte etc.), ou de segundo grau, como as do historiador da filosofia. Minha conclusão é que entre as interpretações de primeiro grau do filósofo e as meta-interpretações do historiador da filosofia há homogeneidade e continuidade...” 

Pierre Aubenque. 1992

(in: AUBENQUE, Pierre, “Sí y no (La historia de la filosofía, ¿es o no filosófica?)”, in CASSIN, Barbara (ed.). Nuestros griegos y sus modernos: estrategias contemporáneas de apropiación de la antiguedad. Madrid:Alianza Editorial, 1994, pp. 19-31

Citação encontrada na notável Tese de Sergio Hugo Menna.

In: MENNA, Sergio Hugo. Máquinas, gênios e homens na construção do conhecimento: uma interpretação heurística do método indutivo de Francis Bacon. Tese de Doutorado. Campinas: Universidade de Campinas, 2011, página 12

MUDAR NOSSO ESTILO DE PENSAR: LUDWIG WITTGENSTEIN - 1938


"Tudo que estamos fazendo aqui é mudar o nosso estilo de pensar, e tudo que eu estou fazendo é tentar mudar o meu estilo de pensar e tudo que eu estou fazendo é persuadindo as pessoas a mudarem seu estilo de pensar."

Ludwig Wittgenstein - circa 1938 

In: Lectures and Conversations on Aesthetics, Psychology and Religious Belief.

Esta é uma das expressões mais irresistíveis de Wittgenstein para mim. E ela acabou me provocando a rever alguns detalhes das minhas velhas leituras (1991-1997) sobre ele mais uma vez.

E me é uma boa surpresa encontrá-la onde encontrei de novo e uma muito bela mensagem que sempre me lembra que de Wittgenstein podemos esperar tudo, menos uma gota de conformismo filosófico.

Encontrei ela de novo – porque já li ela muitas vezes antes - quando entrei na sala número 7 da Escola Olindo Flores, na quinta-feira passada, na sala de artes que estava toda bem decorada. Estava ali dando uma atividade em substituição a um colega e olho para o teto e vejo os jornais colados e eis que me viro para o quadro da sala e leio anotado em tinta preta um pouco acima sobre a lousa esta expressão de Wittgenstein.

É a sala de artes da escola e eu fiquei muito feliz ao constatar que esta marcante expressão de Wittgentein, que aparece justamente num texto sobre estética, chegou até a cabeça de um aluno de ensino médio que a postou ali com a anuência da professora Luciana Giacomelli.

É uma expressão aparentemente banal ou trivial de uma grande e talvez demasiada intenção, mas que marca uma grande perspectiva de mudança do pensamento filosófico no século XX. Creio que esta perspectiva corre o risco de ser minimizada e simplificada e ela que ainda não foi bem compreendida.

Penso que ela vai nos trazendo belos efeitos como este  de pensarmos que a liberdade de pensamento também envolve a possibilidade de mudarmos nosso modo tradicional de pensar. Isto é, que para mudar nosso modo de pensar temos que enfrentar a tradição mesmo e o seu velho estilo de pensamento.

Ainda que para isto tenhamos que malhar muito na academia do velho modo de pensar. Ou seja, para mudar o velho modo de pensar – e esta é a minha anotação aqui – precisamos derrotar com muito entendimento os velhos dragões do velho modo de pensar.

Me vale de muita ajuda esta lembrança aqui. Porque isto me aparece justamente agora em que tento reconstruir uma leitura histórica do conhecimento para efeitos didáticos e críticos, como já disse no sábado passado. E a questão fundamental é justamente esta: como mudar nosso velho modo de pensar?   

Esta obra póstuma de Wittgenstein é uma coletânea de anotações transcritas dos cadernos do seu pequeno grupo de alunos, Yorick Smythies, Rush Rees e James Taylor que em 1938, em Cambridge com outros assistiram a este pequeno curso privado sobre estética. Elas foram revisadas e publicadas em 1967 pela Basil Blackwell, de Oxford e após também publicada em edição da University of California Press. O editor é Cyrill Barrett e a primeira advertência dele no Prefácio é de que nada do que esta escrito ali foi escrito pelo próprio Wittgenstein e que são notas que ele não revisou ou leu. Mass isto não nos impede de dar uma atenção considerável a este pequeno volume de anotações de alunos, posi que muitas coisas que estão ali digamos assim tornam plausíveis certas direções interpretativas sobre as transformações do pensamento de Wittgenstein do Tractatus Lógico-Philosphicus (1918) para as Investigações Filosóficas (1953).

Em 1938 Wittgentein decidiu realizar um pequeno curso de leituras sobre estética para um seleto grupo de estudantes de Cambridge. Estas notas de curso são suplementadas por notas e conversações sobre Freud (ao que ele fez referências durante os cursos de estética) de conversas entre Wittgenstein e Rush Rees e, também, por notas de algumas outras leituras sobre crenças religiosas.

Na edição inglesa, de 1967, as notas sobre estética seguem da página 1 a 40, as conversações sobre Freud de página 41 a 52 e as leituras sobre crença religiosa da página 53 a página 73.

domingo, 19 de maio de 2013

ALICE VERSUS HUMPTY DUMPTY: SOBRE O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS

“- Não sei bem o que o o senhor entende por ‘glória’ – disse Alice.
- Humpty Dumpty sorriu com desdém. – Claro que você não sabe, até eu lhe dizer. O que quero dizer é: “eis aí um argumento arrasador para você.”
- Mas “glória” não significa “um argumento arrasador” objetou Alice.
- Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty em tom escarninho – ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique… nem mais, nem menos.
- A questão – ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.
- A questão, replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.
Alice ficou desconcertada demais para poder dizer qualquer coisa, e assim, depois de um minuto, Humpty Dumpty recomeçou: – Algumas palavras tem mau gênio, especialmente os verbos, que são os mais orgulhosos. Os adjetivos, você pode fazer o que quiser com eles, mas não com os verbos… Contudo, posso dominar todos! Impenetrabilidade! É o que eu digo.
- O senhor poderia me dizer, por favor – perguntou Alice – o que isso significa?
- Ah, agora você fala como uma criança sensata – disse Humpty Dumpty, parecendo muito satisfeito. Por “impenetrabilidade” eu quis dizer que já falamos demais desse assunto e não seria mau se você dissesse o que tem a intenção de fazer logo depois, supondo-se que não pretende ficar aqui o resto da vida.
- É muita coisa para uma palavra só dizer – disse Alice com uma inflexão pensativa.
- Quando faço uma palavra trabalhar tanto assim – explicou Humpty Dumpty – pago sempre extra.
- Oh – exclamou Alice. Estava desorientada demais para fazer qualquer outro comentário.”


Lewis Carroll - Alice Através do Espelho

sábado, 18 de maio de 2013

EDUCAÇÃO, INTERDISCIPLINARIEDADE E HISTÓRIA

Boa noite...

passei o dia pensando em um problema pedagógico que tem se apresentado sistemática e persistentemente: como reorganizar o conhecimento de tal modo a promover uma aprendizagem significativa e, além disso, uma formação cultural com os máximos ideais da humanidade? 

Após se abandonar uma perspectiva histórica e genética, e ocorrer uma grande adaptação ao livre pensamento e ao ensaio temático, passar se muitos anos ensinando ciência sem história da ciência, filosofia sem história da filosofia o que aconteceu mesmo com o nosso logos ocidental?  

Estávamos bem habituados a cada um na sua fazer seu itinerário e seu projeto - sem sequer constituir um acordo sobre o projeto coletivo, o que acabou acontecendo? Geramos uma demanda de interdisciplinariedade, sem constituir pontes  sólidas entre as ciências e o que vemos são contatos tênues, colaborações passageiras e esquecíveis. 

Bem, os sujeitos também mudaram ao longo disto. E o que nós fazemos então? Reconhecemos os sujeitos? Compreendemos suas bagagens? Não vejo como acertar sem uma reconstrução histórica da civilização - desde uma revolução neolítica até os nossos dias na agenda da educação.

E penso que seria recomendável começarmos a nos habituar ao fato de que não existem mais os proprietários das disciplinas, nem aqueles portadores de uma palavra final. Teremos que reconstruir tudo entendendo o caráter de uma provisoriedade desta construção. A educação não pode mais ser uma aventura individual, mas deverá preservar o sujeito nisto. 

Ora....talvez tenhamos que discutir mais contradições do que imaginamos nisto....ou seja....a ruptura cartesiana com a história, a aversão lógica e formal perante os fatos - estes estranhos depósitos de contradições, falhas e erros, deverá ser dobrada...para avançar no conhecimento e na educação...   

quinta-feira, 16 de maio de 2013

DA PURA INFELICIDADE - JACK KEROUAC - ON THE ROAD

Sal Paradise e Dean Moriarty estão de carona, no banco de trás, indo de S. Francisco para Denver, quando Dean comenta com Sal: 



"Oh cara! cara! cara!" balbuciou Dean. "E isso não é nem o começo – e agora finalmente estamos juntos indo para o Leste, nunca tínhamos ido pro Leste juntos, Sal, pensa nisso, vamos curtir Denver juntos e ver o que todos estão fazendo, mesmo que isso não nos interesse muito, a questão é que nós sabemos o que aquilo significa e sacamos a vida e sabemos que tudo está ótimo." Depois, me puxando pela manga, e suando horrores, ele me segredou: "Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem – e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão a paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim."

terça-feira, 14 de maio de 2013

A ESTÉTICA, A INTRODUÇÃO DA LÓGICA E A DEDUÇÃO METAFÍSICA COMO PREÂMBULOS DA DEDUÇÃO TRANSCENDENTAL B: UMA ANÁLISE DA CRÍTICA DA RAZÃO PURA DE IMMANUEL KANT: TRABALHO DE GRADUAÇÃO DE DEZEMBRO DE 1993


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA












A ESTÉTICA, A INTRODUÇÃO DA LÓGICA
E A DEDUÇÃO METAFÍSICA COMO PREÂMBULOS
DA DEDUÇÃO TRANSCENDENTAL B:
UMA ANÁLISE DA CRÍTICA DA RAZÃO PURA
DE IMMANUEL KANT











DANIEL ADAMS FOEIRA
0651/89-3
HUM 199 - TRABALHO DE GRADUAÇÃO
PROF. GABRIEL DE BRITTO VELHO














PORTO ALEGRE                                                                         DEZEMBRO DE 1993











































Veritas Temporis filia
Aulio Gélio










SUMÁRIO



INTRODUÇÃO (p.04);


1 O TRANSCENDENTAL - a tarefa (p.07);


1.1. ESTÉTICA (p.15);


1.2. LÓGICA - INTRODUÇÃO E DEDUÇÂO METAFÍSICA (p.18);


CONCLUSÃO (p.27);


NOTAS 


BIBLIOGRAFIA PRINCIPAL 


BIBLIOGRAFIA ADICIONAL 



















INTRODUÇÃO







            Em filosofia, como em qualquer atividade intelectual, um trabalho inconcluso é uma eterna preocupação. Por isso, este trabalho tem a sua existência marcada por um signo desagradável e insatisfatório para o seu autor, pois, na verdade, este trabalho representa uma ínfima parte daquilo que esta investigação - sobre a Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant (Kritik der reinen Vernunft, 1781-1787, doravante também designada de KrV), procurava apresentar como resultado.


            No entanto, este trabalho cumpre uma finalidade específica de caráter acadêmico inadiável, isto é, facultar ao seu autor a obtenção dos seus últimos créditos e do seu último conceito - literal e temporalmente - dentro do curso de filosofia da UFRGS. Isto, por si só, obriga o seu autor a abandonar a ladainha propedêutica e passar à exposição direta das origens, do método e dos objetivos do mesmo.


            Este trabalho apresenta de modo resumido e abreviado, ainda que discutido, alguns pontos relativos ao papel da Estética Transcendental e da Lógica Transcendental (Introdução e Dedução Metafísica como preâmbulos preparatórios aquilo que  relativamente será realizado na Dedução Transcendental da Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant.


            Nasceu ele da necessidade de uma análise preparatória do conceito de Sujeito em Kant e, também, de que para isso se realizasse uma leitura mais panorâmica das passagens precedentes à Dedução Transcendental; esta análise deveria, inicialmente, desembocar em um tratamento da Dedução Transcendental, mais especificamente da relação aí estabelecida ou apresentada entre “autoconsciência” e “autoconhecimento” (respectivamente nos parágrafos §16-17 e §25 da Crítica da Razão Pura). Esta foi durante um bom tempo uma fixação temática do seu autor.


            Como os resultados relevantes e suficientes para tal tratamento não foram atingidos e alcançados de modo satisfatório, restou-nos apresentar o que foi feito a contento para tal fim. Ainda que falte nisso um amparo detalhado de toda a bibliografia já trabalhada, julgamos possível e razoável que este trabalho seja julgado como um trabalho de graduação, dado o caráter e a natureza do assunto e, também, dada a extensão e o estilo do tratamento aqui realizado já.


            O método aqui utilizado é o de discussão e comentário de texto, com maior ênfase na exposição, apresentação e reconstrução - dentro do jargão técnico - daquilo que é apresentado como “transcendental” por Kant e de alguns pontos relativos a isto na Estética e na Analítica. O método, portanto, não tem originalidade alguma, sobrando, assim, espaço para a interpretação propriamente dita e a verificação de alguma capacidade explicativa. Esta, por sua vez, procurou concentrar-se sobre as tarefas próprias da filosofia transcendental, bem como, sobre o modo como se pode interpretá-las.


            Isso justifica, portanto, o titulo do trabalho e, ainda, a própria divisão deste. Ainda que esta divisão tenha um caráter excessivamente geral, é possível acompanhar os passos nela contidos, pois passam sobre o texto da KrV de um modo que respeita ao máximo a própria ordem da exposição na mesma.


            O primeiro - e único - capítulo, tem o título de “o transcendental” e os seus dois sub-capítulos são designados por “estética” e “lógica”. Esta simplificação procura mostrar que há uma subordinação das mesmas, na obra de Kant, ao conceito kantiano de “transcendental” que as acompanha e qualifica.


            “Transcendental” em Kant é a caracterização de sua filosofia na hora da chegada, pois na hora da partida ela é “crítica”.


            Quando denominamos ou caracterizamos - a Lógica (Introdução e Dedução Metafísica) e a Estética - com o nome “preâmbulos”, entendemos que ambas podem ser consideradas e, de fato, o são aqui como uma espécie de “umbral” da dedução transcendental, o que não significa que estas sejam premissas da dedução. A tarefa aqui é simplesmente apresentar o que nelas torna “inteligível” ou compreensível o que se apresenta sob a Dedução Transcendental dos Conceitos Puros do Entendimento.


            Para a Dedução Transcendental ser compreendida alguns “conceitos” e, principalmente, a natureza transcendental da investigação kantiana, devem ser de domínio do intérprete. Talvez isso possa ser dito em poucas palavras, mas preferimos aqui uma alternativa que explicitasse ao máximo isso.


            Assim, o objetivo aqui pode ser resumido ao título do capítulo. O “transcendental” será exposto dentro do registro da estética e da analítica, para oferecer uma compreensão da natureza da investigação kantiana e da sua tarefa específica dentro da história da filosofia.


            Quanto as fontes utilizadas optamos, para esta análise, por fazer referência e uso da Segunda Edição da Crítica da Razão Pura (doravante KrV B), na tradução de nosso mestre Valério Rohden e de Udo Baldur Moosburguer (vide bibliografia ao final), pois é desta edição que retiramos como objeto de estudo a Dedução Transcendental.


            Quanto às referências bibliográficas informamos que as passagens da KrV citadas as tem de dois tipos, quando inseridas no texto entre parênteses e quando referentes à citações extensas separadas do texto são apresentadas sem parênteses. As notas, por sua vez, são apresentadas entre parênteses, em números arábicos. Encontram-se as mesmas e suas observações e as suas referências bibliográficas ante a bibliografia.


            Os comentadores selecionados e consultados para esta análise e reconstrução são, basicamente, Lebrun, Torretti, Hoffe e Allison; mas constam da bibliografia outras obras que foram auxiliares e, ainda, esta bibliografia é complementada por uma bibliografia específica para a análise da Dedução Transcendental que aqui não foi utilizada, mas que é apresentada com o intuito de obter também complementação bibliográfica do professor quanto ao tema que, ainda, será objeto de investigação ulterior.


            Finalizando, queremos agradecer a algumas pessoas que contribuíram para que esta investigação na qual está inserido este Trabalho de Graduação fosse iniciada, desenvolvida, ampliada e suplementada, ainda que não concluída até o momento.


            Aos nossos professores Paulo Francisco Estrella Faria, Balthazar Barbosa Filho, João Carlos Brum Torres, Valério Rohden e Ernildo Stein que, de modo direto e indireto e muitas vezes intenso, influenciaram este trabalho. Aos colegas Jânio Alves, Sílvio César Camargo, Gustavo Doninelli Mendes, Alfredo Carlos Storck, Eduardo Vizentini de Medeiros, Peter Riang dalla Riva de Oliveira e Élfio Ricardo Doninelli Mendes que fizeram parte do Grupo de Estudos Kant e que, em diferentes momentos e de diferentes maneiras, contribuíram também para que este trabalho fosse possibilitado e realizado.


            Um último agradecimento é aqui dirigido ao CNPq, que possibilitou as condições materiais para que este trabalho fosse realizado, na medida em que o seu autor é Bolsista de Iniciação Científica desta importante instituição brasileira.



















1. O TRANSCENDENTAL (A TAREFA)







            A obra de Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura (Kritik der reinen Vernunft, KrV), teve duas edições. A primeira (1781) é o resultado de longos anos de investigação sobre os problemas da Metafísica ocidental, que é segundo Kant o teatro de disputas infindáveis da razão humana. (vide prefácio de KrV A VIII)


            Já a segunda edição da KrV (de 1787 - assinalada comumente pela letra “B” nas citações) é o resultado de seis anos de revisão e uma nova elaboração de partes do texto – em especial da Dedução Transcendental - inicialmente publicado e que teve, à época, uma recepção outra daquela esperada pelo seu autor.


            Porém, ambas conservam os mesmos objetivos, quais sejam, basicamente, determinar a possibilidade, os princípios e a extensão de todo o conhecimento a priori (A 2/B 6). (1)


            Para realizar isso, Kant produz uma distinção entre juízos analíticos e sintéticos (A 6, 10) e busca estabelecer como princípios juízos sintéticos a priori para todas as ciências teóricas da razão. (2)


            O estabelecimento destes juízos envolve, entretanto, uma exposição e uma prova dos mesmos, as quais são realizadas num registro diferenciado tanto do domínio metafísico (teatro de disputas tradicional), quanto do domínio empírico (das ciências em geral),


            Para construir este território neutro, em relação às disputas metafísicas, e, em relação às ciências já consolidadas, em pleno e fértil exercício de suas atividades, Kant utiliza um conceito que, por si só, devidamente analisado, apresenta outro domínio do pensamento puro e, portanto, dos conhecimentos humanos.


            A filosofia para Kant, já dez anos antes da publicação da KrV, é a “filosofia transcendental” (Carta a Marcus Herz, de 21 fevereiro de 1772). E é este acrescendum à “filosofia” que vai dar o caráter e a natureza deste novo domínio e, por conseqüência, de um novo procedimento na investigação filosófica ocidental. (3)


            O termo “transcendental” traz consigo toda a filosofia de Kant. Tanto na primeira edição A quanto na segunda edição B da KrV, temos uma definição de boa parte dos termos utilizados por Kant, para o transcendental não é diferente.


            Em A, Kant define “transcendental” assim:


            “Chamo transcendental a todo o conhecimento que não se ocupa só de objetos, senão de nossos conceitos a priori sobre objetos em geral...’ A 11


            Já na edição B, a definição é deste modo apresentada:


            “Denomino transcendental todo o conhecimento que em geral se ocupa não tanto com objetos, mas com o nosso modo de conhecimento de objetos na medida em que este deve ser possível a priori.” B 25


            Uma rápida comparação entre estas definições aponta para algumas alterações que, por um lado, são superficiais e completamente inteligíveis dentro do espírito da KrV, e que, por outro lado, nos ajudam a compreender parte do que deveria ser apresentado ou exibido pela KrV, bem como, parte do que deveria ser provado ou demonstrado na mesma. (4)


            Em ambas, Transcendental refere a uma totalidade de conhecimentos. Na segunda, esta totalidade “em geral se ocupa não tanto com objetos”, enquanto na primeira “não se ocupa só de objetos”. Sendo, portanto, implicado aí que em A o Transcendental 1. se ocupa de objetos, mas 2. não se ocupa somente destes, enquanto em B, o Transcendental, em geral não se ocupa só de objetos, mas que - interpretando - especificamente pode se ocupar deles.


            De qualquer modo o Transcendental, segundo estas definições, não estaria voltado “tanto” ou ocupado “somente” com os objetos, mas sim também ocupado com outra coisa. Nesta análise deve se destacar, ainda, que o Transcendental é uma totalidade de conhecimentos abstraída de outra totalidade mais abrangente de conhecimentos, sendo as notas “se ocupar ou não de objetos” uma das maneiras de diferenciar a totalidade do Transcendental da outra totalidade.


            De certo modo, podemos interpretar esta “totalidade” de conhecimentos da qual é abstraída a totalidade a totalidade que se ocupa só de objetos (conforme as definições) como um compósito tanto de conhecimentos das ciências em geral, quanto da metafísica, em particular.


            O caso é que, segundo Kant, a parte metafísica não pode ainda ser designada propriamente de um conhecimento ou de uma ciência digna desse nome, pois, essencialmente, e do modo como é apresentada é um dogmatismo injustificado. (5)


            Isso, esta ligado direta e indubitavelmente à possibilidade de se tornar, após um exame e uma tematização distinta da tradicional, a metafísica urna ciência legítima. Como para isso o recurso ao que é dado no domínio empírico absolutamente insuficiente, pois a metafísica é uma “ciência” teórica, cabe, então, um recurso ao que viria a caracterizar todas as ciências teóricas.


            Por isso, Kant ao abstrair do modo de conhecer os objetos, os próprios objetos, fala de uma ciência teórica em geral que, na definição, representada por “conceitos a priori”, na medida em que estes, por serem a priori, são aplicáveis a todos os objetos de conhecimento.


            Nesse sentido, ao determinar uma “totalidade” restrita, Kant procura, também, encontrar aquilo que ofereceria as condições sob as quais todo o restante — que, sem dúvida, maior em extensão - tem a sua possibilidade dada. (6)


            Assim, já aí temos uma espécie de subordinação, no que, diz respeito a certas condições, dos conhecimentos de objetos ao conhecimento (metafísico ou transcendental) das condições sob as quais os objetos são cognoscíveis. O que explica, também, o sentido de “não se ocupa só de objetos” e também o sentido em que este conhecimento se ocuparia de objetos. (7)


            Posto isto, as definições apontam para um objetivo, até aqui, dividido em duas partes: 1. para as condições sob as quais os objetos são cognoscíveis; e 2. para o conhecimento indireto ou mediado dos objetos.


            Quanto ao que segue, na definição, em A “senão de nossos conceitos a priori” e, em B, “mas com o nosso modo de conhecimentos de objetos”, temos também algumas diferenças elucidativas. Pois, com conceitos a priori já é indicado naquilo que aparecerá em seguida em B, a saber, “na medida em que este deve ser possível a priori”, no sentido em que, para Kant, ter ai em mãos conceitos a priori é o mesmo que ser capaz de demonstrar um conhecimento a priori ou a sua possibilidade.


            Quanto ao que aparece em B, o nosso “modo de conhecimento de objetos” reporta-nos não ao conhecimento de objetos de uma ciência particular, mas sim ao “modo de conhecer” inerente e constante em todas as ciências.


            Isso aponta, ainda, para a possibilidade de se estabelecer um dado conhecimento a priori para todas as ciências, através do estabelecimento de conceitos a priori aplicáveis a todos os objetos destas ciências entendidos sob um nome, introduzido ao final da definição de A, de “objeto em geral”.


            Sendo assim, as definições de “transcendental” das duas edições nos mostram que a investigação transcendental é:


1. todo um conhecimento abstraído de outro;
2. não se ocupa só de objetos;
3. investiga o nosso modo de conhecer;
4. tem um caráter a priori;
5. trata da possibilidade de conhecer objetos a priori;
6. trata de conceitos a priori;
7. considera os objetos como objeto em geral.


            O que significa que de qualquer modo que a entendamos a definição de transcendental devemos entendê-la como uma referência a um conhecimento a priori. Se á assim, então o domínio do transcendental, a natureza da investigação transcendental a sua exibição e a sua prova deve ser, também, de caráter a priori.


            Assim ingressa no debate e passamos a nossa análise ao termo “a priori” que antes já havia sido apresentado como predicado dos juízos sintéticos a serem estabelecidos. (8)


            O conceito de “a priori” está ligado, na tradição filosófica, ao seu oposto de “a posteriori”. Ambos designam certa diferença relativamente aos nossos conhecimentos. Um conhecimento é considerado a priori quando é independente do que nos é dado através dos sentidos, enquanto ele é tomado como a posteriori quando deles depende.


            Esta distinção básica está ligada também a outra distinção ainda. Um conhecimento é puro ou empírico, relativamente a sua origem, pois ou bem ela é dada pelos sentidos em uma experiência, ou bem não.


            Isto é um dos primeiros pontos apresentados na introdução da KrV (B 1-2). Lá Kant nos afirma assim:


            “...embora todo o nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso todo ele se origina justamente da experiência. Pois poderia bem acontecer que mesmo o nosso conhecimento de experiência seja um composto daquilo que recebemos por impressões e daquilo que a nossa própria faculdade de conhecimento...fornece de si mesma...” B 1


            O que, em seguida, nos leva até a distinção própria de a priori e a posteriori, pois:


            “é uma questão que requer uma investigação mais pormenorizada (...) se há um tal conhecimento independente da experiência e mesmo de todas as impressões dos sentidos. Tais conhecimentos denominam-se a priori e distinguem-se dos empíricos, que possuem suas fontes a posteriori, ou seja, na experiência.” B 2



            Mas para caracterizar rigorosamente um conhecimento “a priori” Kant nos dá mais duas notas deste. Para distinguir definitivamente um conhecimento puro a priori de um conhecimento empírico temos que considerar que:


            “a experiência nos ensina que algo á constituído deste ou daquele modo, mas não que não possa ser diferente. Em primeiro lugar, portanto, se esta se encontra em uma proposição pensada ao mesmo tempo com sua necessidade, então ela é um juízo a priori; se, além disso, não á derivada senão de uma válida por sua vez como uma proposição necessária, então ela é absolutamente a priori. Em segundo lugar, a experiência jamais dá aos seus juízos universalidade verdadeira e rigorosa...” B 3



            O “a priori” significa para Kant, então, um índice de que um dado conhecimento é pensado com necessidade e universalidade, ao mesmo tempo, prescindindo de qualquer exceção ao que ele afirma.


            A sua importância está em diferenciar os conhecimentos puros, dos conhecimentos empíricos, bem como, em constituir um conhecimento distinto e salvo do caráter acidental e contingente de boa parte da experiência no domínio empírico. Isso, portanto, também vai caracterizar a investigação transcendental como distinta das investigações teóricas das ciências em geral. (9)


            Outro ponto, ainda, relativo à relação entre conhecimento transcendental e juízos sintéticos a priori. Na medida em que alcançamos o domínio transcendental, deveríamos encontrar tanta os conceitos a priori, quanto os juízos a priori que os contém. Mas, esses juízos não podem ser somente a priori eles devem ser ainda sintéticos, isto é, eles devem conter algo que os tornem férteis para o uso das ciências. (10)


            Kant diferencia juízos analíticos de sintéticos, afirmando o seguinte:


            “Em todos os juízos em que for pensada a relação de um sujeito com o predicado (...) essa relação é possível de dois modos. Ou o predicado B pertence ao sujeito A como algo contido (ocultamente) nesse conceito A, ou B jaz completamente fora do conceito A, embora esteja em conexão com o mesmo. No primeiro caso denomino o juízo analítico, no outro sintético.” B 10


            Portanto, a diferença está no predicado estar ou não contido no conceito do sujeito que ele qualifica. Isso fica mais fácil de se entender se recorrermos, agora, à diferença entre examinar um conceito (exame “transcendental”) e examinar um objeto (exame “empírico”); pois, assim, será analítico o juízo que para ser verdadeiro (ou, com outra terminologia mais rigorosa, válido) exige apenas um exame do seu conceito, enquanto será sintético, o juízo que para o estabelecimento da sua verdade, exige de nós um exame do seu objeto, o qual ele afirma ter esta ou aquela outra propriedade.


            Assim, entendemos o final da citação acima em que “B jaz completamente fora do conceito A, embora esteja em conexão com o mesmo” (idem). Assim a diferença destes juízos consiste na existência de uma conexão, no juízo, entre A e B, em que ou bem B está contido em A, ou bem B não está contido em A. Mas resta ainda elucidar um pouco mais esta propriedade a priori. (11)


            Se, entendemos que um juízo sintético requer para o estabelecimento da sua verdade um exame empírico, como pode haver um juízo que seja tanto sintético de caráter empírico, quanto a priori de caráter transcendental?


            Segundo Kant, entretanto, “nos juízos sintéticos a priori falta completamente esse recurso” por nós antes apresentado de ir até o objeto ou à experiência a que ele se refere (veja-se B 12).


            “Se devo sair do conceito A para conhecer outro conceito B como ligado a ele, o que é isso sobre o que apóio e que torna a síntese possível, visto que aqui não possuo a vantagem de procurá-la no campo da experiência?” B 12-13


            Esta propriedade de ser a priori deveria ser encontrada, então, num domínio distinto da experiência; por isso, Kant distingue também conhecimentos a priori de conhecimentos a posteriori. Sendo os primeiros conhecimentos referentes às condições de inteligibilidade da experiência e os segundos, sem a necessidade e a universalidade antes referidas, os conhecimentos que em geral nós temos das coisas como estando ora assim, ora de outro modo.

            Isso, assim nos parece, faz Kant buscar e examinar mais os juízos sintéticos a priori, na exata medida em que os mesmos fariam uma ponte entre o necessário e universal e aquilo que contingente, mas somente cognoscíve1 na medida em que possa vir a ter alguma inteligibilidade. (12)

            O procedimento de busca destes juízos divide a racionalidade humana em duas faculdades em que uma daria conta do conteúdo sensível dos nossos conhecimentos dos objetos e a outra, por sua vez, vai dar conta do conteúdo inteligível dos nossos conhecimentos de objetos. Kant denomina a primeira faculdade de “sensibilidade” e o lugar de sua exposição e prova na KrV será a “Estética Transcendental”, enquanto a segunda faculdade e denominada de “entendimento” e o seu lugar na KrV A a “Lógica Transcendental”, Ambas deverão conter princípios sintéticos a priori, e ambas serão necessárias para o conhecimento das ciências. (13)


            Desse modo, o conceito de “transcendental” em Kart apresenta uma tarefa específica para a filosofia em relação aos “problemas da metafísica” Que se traduzem por duas posições: o ceticismo e o dogmatismo; isto é, a filosofia transcendental, deveria suplantar estas duas posições: exibindo e provando o caráter a priori de certos juízos sintéticos. Com isso, este exame estabelece e determina a possibilidade, os princípios e a extensão de todo o conhecimento a priori, o que significa, também, determinar rigorosamente o domínio ou a extensão do domínio de aplicação legítima destes juízos, o que é o mesmo que estabelecer os seus limites.


            Num primeiro momento esta tarefa tem um caráter “crítico”, mas após o seu término esta se estabelece como uma doutrina que Kant vai designar de Idealismo Transcendental. Por isso, a KrV é denominada de “crítica” e não de “Filosofia Transcendental”, pois é apresentada ao “tribunal da razão” uma proposta de doutrina.


            Relativamente ao ceticismo LOPARIC afirma que Kant vai procurar “domesticá-lo”, ou seja, colocá-lo à serviço da razão, transformá-lo em método (não como Descartes) para atingir a partir de um exame rigoroso os limites internos da razão, assim afirma LOPARIC:


            “A teoria kantiana dos limites da razão concerne, portanto, apenas aos limites internos das teorias metafísicas. Kant desconhecia por completo a existência de limites internos de outros tipos de teoria, como, por exemplo, os das teorias formais, demonstradas somente no nosso século por Gödel. Apesar disso, é a Kant que se deve atribuir o mérito de ter elaborado uma primeira teoria dos limites necessários do conhecimento, iniciando assim urna linha de investigação que visa internalizar o ceticismo na teoria do conhecimento e dessa forma domesticá-lo definitivamente.” LOPARIC. p.74.


            Portanto o estabelecimento dos limites da razão tem um caráter inédito que deve ser bem observado, pois o mesmo feito de modo a resolver dois problemas, basicamente. Sendo o primeiro, não tanto o do ceticismo, mas o dogmatismo com suas pretensões ilimitadas e irrefletidas de avançar na especulação metafísica em terreno pouco seguro e impertinente aos instrumentos de que a razão humana dispõe, e, por outro lado, o segundo relativo ao próprio ceticismo que recusa a possibilidade de um conhecimento seguro em qualquer domínio,


            Deste modo, o mote transcendental dá o caminho para a resolução dos problemas metafísicos, na medida em que ao determinar de um modo a priori o conhecimento apresente, também, as condições sob as quais este é possível e as condições sob as quais o seu uso é legítimo e seguro, portanto, as regras e o domínio de aplicação legítimo destas regras.


            Quanto à isso ainda, vale anotar, Brunschvicg na sua obra Le Progrès de La Conscience é da mesma opinião:


            “L’originalité de la critique kantienne consiste à justifier l’objectivité de la connassaince physique, en rompant l’alternative sculaire d’un phenomenisme à tendance sceptique et d’un rationalisme à pretention dogmatique.” Brunschvicg, p.290


“A originalidade da crítica kantiana consiste em justificar a objetividade do conhecimento físico, rompendo com a alternativa secular de um fenomenismo de tendência cética e de um racionalismo com pretensões dogmáticas.”



            Acrescentando, aliás, que a justificação original do conhecimento físico - empírico – é um rompimento frente às tendências céticas que ele designa ali como fenomenismo e de um racionalismo com pretensões dogmáticas, consideramos importante que o nosso próximo passo seja ver mais de perto um capítulo disto na Estética Transcendental.




















1.1. ESTÉTICA







            A Estética Transcendental (B 33-73) apresenta os princípios sensíveis do conhecimento humano, mas insere-se, assim como a Lógica Transcendental, num grande capítulo da KrV: A Doutrina Transcendental dos Elementos. esta indica-nos com o seu título que o “transcendental” se transforma em “doutrina”, mas que, além disto, ele possui também seus “elementos”.


            Os elementos tratados, na Estética, são as intuições, mas antes de entrarmos em um tratamento do que sejam elas, temos que dar conta de um aspecto que as exibem e as aproximam dos elementos da lógica, os conceitos. Ambos, conceitos e intuições são considerados por Kant como representações, isto é, como algo que representa algo sob algum aspecto. Ao mesmo tempo, que os juízos contém suas representações e são, também, ao seu modo, representações, pois se estão a conectar termos que representam algo, devem representar de algum modo este algo também.


            Isto é uma das partes importantes da doutrina dos elementos que será desenvolvida mais no capítulo 3 do Idealismo Transcendental. (14)


            A estética trata da sensibilidade e de um tipo de representação que lhe pertence. Kant define assim a sensibilidade “a receptividade da nossa mente para receber representações” (B 75). Portanto, a sensibilidade estaria ligada à recepção de representações, mas isso, ainda, pode ser mais qualificado, pois, se entendemos bem a definição de transcendental antes, então, podemos dizer que a Estética Transcendental trata tanto da recepção de representações quanto do modo como se dá a recepção de representações e dos seus conceitos ou princípios a priori.


            Assim, em seguida veremos que a estética divide as intuições em dois tipos. Temos como “instrumentos” de recepção da sensibilidade, as intuições empíricas e as intuições puras. As intuições empíricas seriam dadas através de uma experiência particular, mediante a sensação (B 34) como que “um efeito sobre a capacidade de representação” (idem) o seu objeto seria “indeterminado” e receberá o nome de fenômeno (ibidem). Kant trata, então, deste fenômeno e discrimina nele duas coisas.


            A primeira é a sua matéria “aquilo que corresponde nele à sensação”, e a segunda é a sua forma “aquilo que faz com que o múltiplo do fenômeno possa ser ordenado em certas relações” (B 34). Aí, então, surge a intuição pura que seria responsável pela forma pura da sensibilidade em geral e que deve apresentar-se como princípio a priori.


            Esta “intuição pura” ou a “forma pura da sensibilidade” deve ser entendida como a priori, no sentido transcendental. Kant afirma adiante um pouco que as intuições puras são duas e somente duas, a saber, o espaço e o tempo que devem por conseqüência ser exibidos e provados com sendo justificadamente transcendentais, isto é, sem nenhum amparo na experiência empírica. E é uma prova disso que Kant procura fazer no decorrer da estética. (15)


Na conclusão da estética Kant recapitula o que procurou fazer e dizer ali:
           

            “que toda nossa intuição não é senão a representação de um fenômeno; que as coisas que intuímos não são em si mesmas tais quais a intuímos, e que nem as suas relações são em si mesmas constituídas do modo como nos aparecem e que, se suprimíssemos o nosso sujeito ou, também, apenas a constituição subjetiva dos sentidos em geral, em tal caso, desapareceriam toda a constituição, todas as relações dos objetos no espaço e no tempo, e mesmo espaço e tempo.” B 59


            Isso aponta para algo que vamos explorar mais adiante, tanto na Lógica Transcendental (o capítulo cuja análise virá a seguir). quanto no tratamento da autoconsciência, a dependência das representações e mesmo de todo conhecimento relativamente ao sujeito é central no pensamento de Kant. Uma passagem da Lógica de Jäsche (feita de anotações de um curso de lógica de Kant) exemplifica isso de forma lapidar. Vejamos:


            “Todo o nosso conhecimento envolve uma dupla relação: primeiro, uma relação com o objeto; segundo, uma relação com o sujeito. Sob o primeiro aspecto, ele relaciona-se com a representação; sob o segundo, com a consciência como condição universal de todo o conhecimento em geral. (A rigor, a consciência é uma representação de que uma outra representação está em mim.)” Lógica, A 40


            Adicionando-se a isso o caráter a priori, dado pela acepção de transcendental, temos que a condição universal da consciência é na investigação uma condição estabelecida a priori. (16)


            O próximo passo é, então, compreender em que lugar esta condição é estabelecida e exibida por Kant o que nos envia para a Lógica Transcendental.


            Mas para concluir este último passo, vamos ver o fecho que Kant dá a este que corrobora o tratamento dado até aqui e que é indicativo para as passagens posteriores.


            Ao final da estética, Kant conclui assim:


            “Aqui temos uma das partes requeridas para a solução do problema geral da filosofia transcendental: como são possíveis proposições sintéticas a priori?
- a saber, intuições puras a priori, espaço e tempo, nos quais, se no juízo a priori quisermos sair do conceito dado, encontramos aquilo que pode ser descoberto a priori não no conceito, mas na intuição que lhe corresponde, e ser ligado sinteticamente àquele. Por esta razão estes juízos jamais alcançam além dos objetos dos sentidos e só podem valer para objetos de uma experiência possível.” B 73



            A outra parte da solução do problema será apresentada na Lógica, mas daqui se tira alguma coisa mais. Está já posto assim que, se os juízos jamais alcançam além dos objetos dos sentidos com os juízos sintéticos a priori; então, parte importante da tarefa de determinar a extensão de todo o conhecimento a priori, já está realizada, a saber, a representação dos objetos dos sentidos e da experiência possível, que, por sua vez, será constituída a priori pelos princípios já apresentados de sua possibilidade.



























1 .2. A LÓGICA TRANSCENDENTAL - Introdução e Dedução Metafísica







            A Lógica Transcendental é a segunda parte, como já vimos antes, da Doutrina Transcendental dos Elementos e vai apresentar tanto os elementos quanto os seus princípios correspondentes. É dividida a Lógica Transcendental em duas partes. A primeira divisão - que será nosso objeto de trabalho aqui - é denominada de Analítica Transcendental e a segunda divisão - que para efeito de economia e circunscrição será excluída deste trabalho - é designada por Dialética Transcendental.


            A Dialética transcendental (B 349-732) trata basicamente de duas coisas dos conceitos da razão pura e das inferências dialéticas da razão pura que apesar de estarem calcados em uma “lógica da ilusão” tem um papel regulador e limitador, também, quanto à extensão de nossos conhecimentos, principalmente no que diz respeito às querelas comuns da metafísica. (17)


            A Analítica Transcendental, por sua vez, é dividida em dois livros: a Analítica dos Conceitos (B 90-169) e a Analítica dos Princípios (B 169-349). A primeira é propriamente o objeto de nosso trabalho, pelo menos no que diz respeito aos dois próximos capítulos, aqui ela será mais ou menos sumariada, por outro lado a analítica dos princípios não será abordada aqui como objeto de exame, mas somente como recurso para uma interpretação do nosso problema. (18)


            Já no inicio da Lógica Transcendental, Kant nos apresenta do que estamos a tratar nesta:


            “Nosso conhecimento surge de duas fontes principais da mente, cuja primeira é receber as representações (a receptividade das impressões) e a segunda a faculdade de conhecer um objeto por estas representações (espontaneidade dos conceitos); pela primeira um objeto nos é dado, pela segunda é pensado em relação com essa representação (como simples determinação da mente). Intuição e conceito constituem, pois, os elementos de todo o nosso conhecimento, de tal modo que nem os conceitos sem uma intuição de certa maneira correspondente a eles nem intuições sem conceitos podem fornecer um conhecimento,” B 74


            E, como estamos na lógica, o lugar dos conceitos, Kant acrescenta que estes devem ser compreendidos de modo especifico, trazendo de novo à tona o caráter transcendental:


            “o conceito puro - contém - unicamente a forma de um pensamento de um objeto em geral. Somente intuições ou conceitos puros são possíveis a priori...” B 75


            A Lógica é o lugar dos conceitos e a sua faculdade vem a ser o entendimento, para isso também há uma definição, assim:


            “denominamos entendimento ou espontaneidade do conhecimento a faculdade do próprio entendimento produzir representações.” Idem.


            Portanto, na lógica, deveria ser mostrado como o entendimento produz as representações o que, por sua vez, nos leva até a fonte das mesmas. Antes disso, ainda, Kant distingue a lógica geral da lógica transcendental, sendo a lógica geral aquela que:


             “trata somente da forma do entendimento que pode ser fornecida às representações, seja qual for a origem destas,” B 80


            A lógica transcendental, o que realmente “interessa” no estabelecimento de uma filosofia transcendental, seria uma lógica:


            “na qual não se abstrairia de todo o conteúdo do conhecimento, pois a que contivesse simplesmente as regras do pensamento puro de um objeto excluiria todos os conhecimentos que fossem de conteúdo empírico.” B 80


            Como para a filosofia transcendental é preciso uma referência ao conteúdo empírico, mas de modo a priori, a sua lógica terá tanto as regras do pensamento puro quanto do pensamento empírico, bem como as fontes e as suas origens.


            Mais adiante Kant explicita o que havíamos apontado antes no que diz respeito a relação entre transcendental e a priori, vejamos:


            “transcendental tem que ser denominado não todo o conhecimento a priori, mas somente aquele pelo qual conhecemos que e como certas representações (intuições ou conceitos) são aplicadas ou possíveis unicamente a priori (isto é , - transcendental tem que se chamar - a possibilidade do conhecimento ou o uso do mesmo a priori).” B 80


            O que traz, portanto, uma distinção ou subdivisão dos conhecimentos a priori em dois tipos: 1. conhecimentos a priori, mas não transcendentais; e 2. conhecimentos a priori e também transcendentais. Isto restringe os conhecimentos transcendentais a uma subclasse dos conhecimentos a priori que será, por sua vez, restrita e subdividida em mais dois tipos: 1. conhecimentos que versam sobre a possibilidade do conhecimento; e 2. conhecimentos que versam sobre o uso do mesmo a priori.


            Isto, no entanto, faz com que mantenhamos, ainda, as sete características da investigação transcendental extraídas das definições da primeira e da segunda edição de KrV (A 11 e B 25, respectivamente).


            Mais adiante isso fica mais claro, pois:


            “transcendental pode chamar-se apenas o conhecimento de que estas representações de modo algum são de origem empírica, e a possibilidade pela qual podem não obstante se referir a priori a objetos da experiência.” B 81



            O que não afasta o transcendental do empírico, mas apenas o coloca como condição de possibilidade de um conhecimento empírico. Com isso, o transcendental, ganha a sua especificidade própria, na medida em que se faz necessário para o empírico por conter a possibilidade deste, pois “refere-se a priori a objetos da experiência”, mas não ao seu conhecimento. Em seguida Kant dá de forma pontual e textualmente isso, porquanto:


            “A distinção entre o transcendental e o empírico pertence, portanto, apenas a crítica dos conhecimentos e não concerne à referência dos mesmos ao seu objeto.” B 81


            Assim, quando procedemos a um exame a crítica dos conhecimentos, separamos o transcendental do empírico, mas quando referimos um conhecimento ao seu objeto esta distinção inexiste, pois - interpretando - se assim for vai separar o que está ligado no conhecimento.


            Assim, estamos preparados para compreender o que vem a ser uma lógica transcendental e qual a sua respectiva tarefa na filosofia transcendental. Curiosamente, Kant introduz isso utilizando o termo de que poucos filósofos fazem uso. É com uma certa “expectativa” que introduz Kant a sua distinção definitiva entre lógica geral e lógica transcendental apontando nesta passagem o peso do que será um núcleo da lógica transcendental incumbido ao mesmo tempo não de definições, mas sim de estabelecer a sua validade objetiva, isto, a sua legitimidade para todo e qualquer conhecimento de objetos.


            “Na expectativa de que, talvez, existam conceitos que possam se referir a priori a objetos - não como intuições puras ou sensíveis, mas apenas como ações do pensamento puro, que são, por conseguinte, conceitos, mas tampouco de origem tanto empírica quanto estética formamo-nos antecipadamente a idéia de uma ciência relativa ao conhecimento puro do entendimento e da razão mediante a qual pensamos objetos de modo inteiramente à priori. Uma ciência que determinasse a origem, o âmbito e a validade objetiva de tais conhecimentos, teria que se denominar lógica transcendental porque só se ocupa com as leis do entendimento e da razão, mas unicamente na medida em que é referida a priori a objetos/ e não, como a lógica geral, indistintamente tanto aos conhecimentos empíricos quanto aos conhecimentos puros da razão.” B 81-82



            Deve-se destacar daí os seguintes termos obtidos nesta análise:


1. “ações do pensamento puro.,.conceitos”;
2. “determinar a origem”;
3. “determinar o âmbito”;
4. “determinar a validade objetiva”.



            Estas servirão para assinalar, no que segue, o que é executado pela “Analítica dos Conceitos” dentro da Analítica Transcendental onde se encontram os parágrafos em que o nosso tema é tratado por Kant. A analítica dos princípios tem parte nestas tarefas e passamos agora a tratar ambas sob a rubrica que as reúne, a saber, a Analítica Transcendental.


            A Analítica Transcendental, inserida na Lógica Transcendental, tem uma tarefa específica, no que respeita a determinação da origem, do âmbito e da validade objetiva do conhecimento puro a priori. Para Kant:


            “Esta analítica é a decomposição do nosso inteiro conhecimento a priori nos elementos do conhecimento puro do entendimento,” B 89


            Estes elementos, como já dissemos, são os conceitos, e Kant acrescenta agora as condições que esta analítica terá que cumprir:


            “... l) que os conceitos sejam puros e não empíricos; 2) que pertencem não à intuição e à sensibilidade, mas ao pensamento e ao entendimento; 3) que sejam conceitos elementares e bem distinguidos dos conceitos derivados ou compostos de conceitos; 4) que a sua tábua seja completa e que preencham inteiramente o campo do entendimento puro.” B 89


            Estamos, na analítica, a ponto de ter todo o entendimento puro sob os olhos. Mas, nessa passagem, temos ainda algumas características do “entendimento puro” a serem destacadas:
           

            “...distingue-se inteiramente não apenas de toda e empírico, mas até mesmo de toda a sensibilidade, É, portanto, uma unidade subsistente por si, auto-suficiente/ e que não pode ser aumentada por nenhum acréscimo provindo do exterior.” B 89-90


            Agora, passando-se para a Analítica dos conceitos, temos que esta vai realizar “a ainda pouco tentada decomposição da própria faculdade do entendimento” com o objetivo de “investigar a possibilidade dos conceitos a priori” (veja-se as duas passagens em B 90-91),


            Mas, do mesmo modo que, as intuições podem ser distinguidas em puras e empíricas, os conceitos também podem ter e cabe esta distinção; e, pelo que já foi exposto até aqui, esta distinção vai requerer a separação dos conceitos do conteúdo empírico ao qual eles estão, por assim dizer, colados. Isto é afirmado por Kant de modo a sugerir, também, uma distinção, já pressuposta, nas passagens anteriores, entre a experiência e as condições empíricas.


            Temos que dar atenção a isso devido a sua importância para um tratamento das questões relativas ao âmbito e a validade objetiva dos conceitos, Kant afirma o seguinte:


            “Seguiremos, portanto, os conceitos puros até seus primeiros germes e disposições no entendimento humano em que se encontram prontos, até que sejam enfim desenvolvidas por ocasião da experiência e que, liberados das condições empíricas inerentes a eles, sejam apresentados em sua pureza pelo mesmo entendimento.” B 91



            Isto significa que a validade objetiva dos conceitos, para ser exibida, dependerá de certa “liberação” das condições empíricas, ou seja, de que a sua exposição seja feita de tal modo que para a mesma não seja necessário recurso a estas condições empíricas. Isso, segundo entendemos, é aquilo que faz o caráter a priori de tais conceitos, pois se condicionados empiricamente no podem ser aqueles que estabelecem as condições de inteligibilidade da experiência.


            O primeiro capítulo da Analítica dos Conceitos é denominado assim: “Do fio condutor para a descoberta de todos os conceitos puros do entendimento”; nele Kant apresenta algo, relativamente aos conceitos, que vai distinguir o seu empreendimento daquele realizado por Aristóteles na sua obra “Categorias” e, também, na “Metafísica”.


            Isto já estava escrito na sua carta Marcus Herz (já citada), lá, quinze anos antes da segunda edição da KrV, Kant já expressava que com base em um “pequeno número de leis do entendimento” poderia classificar as categorias que Aristóteles “justapôs  inteiramente ao acaso” de modo a “determinar os limites, da metafísica”. Afirmava, também, que para isso conduzia a “filosofia transcendental” a um certo “número de categorias” (pp, 235-236).


            Portanto, caberia não simplesmente apresentar conceitos, más também ordená-los sob um princípio comum ou, melhor, sob um princípio não ocasionalmente encontrado, mas, antes disso, presente no entendimento puro. Os conceitos devem, então, “se interconectar segundo um conceito ou idéia.” (B 92)


            Esta idéia ou conceito, porém não é ainda claramente expressa. Teríamos, então, que ver isso mais de perto para sermos capazes de compreender qual vem a ser, afinal, esse fio condutor, capaz de nos exibir para uma prova os conceitos a priori do entendimento puro. Pelo menos, antes de entrarmos na relação entre a autoconsciência e o autoconhecimento, haja vista que tal fio condutor apresenta, simultaneamente, as condições de organização das representações tanto da primeira quanto da segunda dentro da analítica dos conceitos na segunda edição da KrV. (19)


            Pois bem, no texto Kant no nos ajuda muito, mas tomando-se a exposição subseqüente e o que ela expõe, podemos passar ou, ultrapassar, esse problema. No texto, seguem-se três seções do “fio condutor” antes do capítulo segundo da Analítica dos Conceitos que será tratado no nosso próximo capítulo (o 2º deste) da “Dedução”. Estas três seções nos mostram a aplicação do fio condutor para a descoberta de todos os conceitos puros do entendimento. (20)


            No preâmbulo, ainda, destas seções Kant afirma que aquela:


            “interconexão, porém, fornece uma regra pela qual se poderá determinar a priori o lugar da cada conceito puro do entendimento e a completude de todos em conjunto...” B 92


            Mas não apresenta aqui a regra somente a sua necessidade. Já, na primeira seção, faz notar que o entendimento, até então, tem sido definido de modo negativo, como “uma faculdade não sensível. de conhecimento.” (B 92)


            Em seguida afirma que “o conhecimento de cada entendimento... é um conhecimento mediante conceitos, não intuitivo, mas discursivo” (B 93) o que vai caracterizar e apontar para o modo como o entendimento é apresentado comumente.


            O entendimento é, em geral, compreendido como certa capacidade de conhecer os objetos e expressar esse conhecimento por meio de sentenças, proposições ou juízos (aqui ainda não faz muita diferença isto). Neste sentido, Kant vai expressar o seguinte:



            “Todas as intuições enquanto sensíveis repousam sobre afecções e os conceitos, por sua vez, sobre funções. Por função entendo a unidade da ação de ordenar diversas representações sob uma representação comum. Conceitos, portanto, funda-se sobre a espontaneidade do pensamento, tal como intuições sensíveis sobre a receptividade das impressões.” B 93


            Isto nos dá uma idéia relativamente ao entendimento que já estava presente antes, pois a espontaneidade é aí entendida como relativa a uma atividade do sujeito sobre as suas representações, sendo a função a unidade desta atividade ordenadora que vai submeter esta diversidade a uma representação comum. Mas, mesmo assim, a regra para encontrar os conceitos ainda não está plenamente manifesta ou exibida.


            Para isso, Kant introduz a idéia de que esta função é apresentada através de um juízo, como já havíamos dito, que tem ou contém em si as representações relativas a um objeto, sejam estas conceitos e intuições, assim, nos diz Kant:


            “Visto que nenhuma representação se refere imediatamente ao objeto, a não ser a intuição, então um conceito jamais é referido imediatamente a um objeto, mas a alguma outra representação qualquer deste (seja ela intuição ou mesmo já conceito). Logo, o juízo é o conhecimento mediato de um objeto, por conseguinte a representação de uma representação do mesmo.” B 93

           
            O que nos indica que a regra para encontrar os conceitos consiste em tomar os nossos juízos e examinar o que neles pode ser um conceito, na medida em que este jamais é referido de modo imediato ao objeto, como vimos acima. Portanto, como procuramos conceitos puros, temos que nos ocupar daqueles conceitos em que a referência ao objeto, de um ponto de vista transcendental, é feita de modo absolutamente indireto, ou seja, esta deveria ser mediada, assim cremos, por uma referencia a um conceito empírico.


            Vejamos agora como Kant chega a estas mesmas conclusões, sem, entretanto, esquecermos que os conceitos são encontrados em juízos; ou seja, para examinar um conceito precisamos de um juízo no qual ele esteja presente, Antes disso, Kant considera os juízos de um modo específico, retomando a “unidade da ação de ordenar diversas representações sob uma representação comum”, isto é, aquilo que ele designou de “função” (ver B 93, passim), considera que:


            “todos os juízo são funções da unidade sob nossas representações, pois para o conhecimento de objetos é utilizada, ao invés de uma representação imediata, outra mais elevada que compreende sob si esta e diversas outras, e deste modo muitos conhecimentos possíveis são reunidos sob um só.” B 94


            O que indicaria a possibilidade de “reduzir todas as ações do entendimento à juízos” (idéia) nos aproximando, então, da possibilidade de encontrarmos a regra mediante a qual “se poderá determinar a priori o lugar de cada conceito puro do entendimento” (B 92), na medida em que através desta “redução” teríamos a formulação de uma espécie de matriz de todos os conceitos puros, agora entendidos como “predicados de juízos possíveis” de algo como “um objeto ainda indeterminado” (veja-se isto em B 94).


            Adaptando-se a isso, temos que o conceito como “predicado de um juízo possível” possibilita que:


            “As funções do entendimento podem, portanto, ser todas encontradas desde que se possa apresentar completamente as funções da unidade nos juízos.” B 94


            Portanto, o “fio condutor” está condicionado pela possibilidade de uma apresentação completa das funções da unidade do entendimento. Para isto, Kant apresenta, nas segunda e terceira seções do “fio condutor”, o que ele designa por, respectivamente, “tábua dos juízos” e “tábua das categorias”; as quais são alcançadas através de uma abstração “de todo o conteúdo de um juízo em geral” (para os “juízos”) e de urna espécie de “síntese” pura que “representada de modo universal, d o conceito puro do entendimento” (para as categorias).


            Isso, porém, como o próprio termo indica, é somente uma “apresentação”. No nosso vocabulário aqui falamos em exibição, o que indica simplesmente a possibilidade de ser apresentado, em seu caráter a priori e transcendental, tanto os juízos como as categorias de um modo organizado e/ou ordenado, mas não ainda a sua prova ou demonstração transcendental que dá a justificação e o caráter legítimo do seu uso. Antes da “prova” dos mesmos, Kant detém-se pormenorizadamente a explicar os títulos e os momentos destas tábuas, para, então, passar a sua dedução,


            A dedução é dividida em duas deduções. A primeira recebe o qualificativo de “metafísica” e, na verdade, consiste nesta exibição feita a partir da segunda seção do “fio condutor” (B 95—116), enquanto a segunda dedução é qualificada propriamente de “transcendental” e vai se encarregar de provar duas coisas relativamente aos conceitos exibidos na “dedução metafísica”, a primeira consiste em demonstrar que a autoconsciência transcendental é a origem de toda a síntese, já a segunda é que as categorias tem sua aplicação limitada a determinado domínio, a saber, aquele da experiência possível. (21)


            Como chegamos até os “umbrais” da Dedução Transcendental, dentro da Analítica Transcendental, concluímos aqui esta etapa da investigação, pois tudo que poderia ser apresentado em seqüência diz respeito a própria dedução transcendental. (22)































CONCLUSÃO








            Ao longo do desenvolvimento deste trabalho, foi possível apresentar a tarefa e as sub-tarefas de uma filosofia transcendental. Para isso, foi utilizada, inicialmente, uma analise do conceito de “transcendental” e, posteriormente, uma exposição da Estética Transcendental à luz das suas tarefas frente aos objetivos da filosofia transcendental. Isso tudo, deveria desembocar no estabelecimento de algumas tarefas de justificação e prova para uma “dedução transcendental”.


            A tarefa de uma filosofia transcendental consiste em dissolver alguns problemas metafísicos e dar à metafísica uma aparência mais respeitável. Para isso é construída  uma nova perspectiva perante as relações entre a metafísica e as ciências em geral. Perspectiva essa que pode ser caracterizada por “transcendental”, a saber um “conhecimento que em geral se ocupa não tanto com objetos, mas com o nosso modo do conhecimento de objetos na medida em que este deve ser possível a priori...” (B 25).


            Vimos aqui que o fato dela ser uma consideração a priori está vinculado ao fato dela constituir-se como uma “condição de inteligibilidade da experiência”. Condição esta que está representada e concentrada no “juízo sintético a priori” que seria um instrumento de conhecimento, caracterizado pelo seu fértil e ampliativo papel perante as ciências. Visto deste modo, a filosofia transcendental, ainda, é considerada como um conjunto de conhecimentos independente da experiência, mas que, ao mesmo tempo, dá as condições através da quais esta experiência é possível.


            Vimos também que para estabelecer tudo isso Kant divide a nossa faculdade de conhecimento em duas faculdades e que esta divisão foi acompanhada por outra das representações utilizadas para conhecer. Assim, temos o entendimento e a sensibilidade, os conceitos e as intuições que, para serem transcendentais, devem ser considerados também no seu caráter a priori e exibidos a provados enquanto tais.


            Antes de ingressar na exibição e na prova, observamos que isso é feito relativamente a duas posições metafísicas correntes. O ceticismo e o dogmatismo, segundo Kant, tem um desconhecimento do âmbito e dos limites da metafísica, agora, em última forma, entendida como uma investigação transcendental. E, desse modo, apontamos a originalidade da posição kantiana.


            Seguindo, no desenvolvimento deste trabalho, abordamos a Estética, para mostrar o papel desta no estabelecimento da filosofia transcendental, Nesta as intuições foram apresentadas como princípios sensíveis do conhecimento. Foi posto, então, o conceito de “fenômeno” que discriminado nos dá como elementos de sua possibilidade as intuições puras e, também, a pura forma da sensibilidade que, bem entendidas, limitam os nossos juízos aos objetos dos sentidos. Neste momento é geralmente apontada a dependência de todo o nosso conhecimento ao sujeito destas representações, pelo menos de modo a se compreender o caráter transcendental como vinculado a esta dependência. Assim, fica estabelecida uma das partes da determinação da possibilidade dos juízos sintéticos a priori.


            Na abordagem da Lógica, abstraímos desta a Dialética Transcendental, a Analítica dos Princípios e uma parte da Analítica dos Conceitos e a Dedução Transcendental, para compreender o que é, na Lógica, relativo à uma exibição ou apresentação dos conceitos e o que é relativo a uma prova dos mesmos.


            Vimos que para apresentar os conceitos Kant usa um “fio condutor” sobre o conceito de “juízo possível”. Antes disso, ainda, tratamos da diferença entre uma Lógica Geral e uma Lógica Transcendental em que, a tarefa desta última, é formulada por Kant, bem como, a distinção entre transcendental e empírico, é adequada a uma abordagem dos conceitos na sua referência a priori aos objetos.


            Assim, algo que estava presente na estética reaparece ali com o mesmo nome, O conceito de “objeto em geral” que possibilita a referência a priori a todos os objetos de conhecimento. Foi apresentada, então, a importância do entendimento e da sua espontaneidade para o pensamento em geral to foi caracterizado como uma atividade discursiva por Kant, aproximando, então, da nossa caracterização das “condições de inteligibilidade da experiência”.


            Entendendo-se, deste modo, a tarefa da 1ógica como vinculada a determinação da origem, do âmbito e da validade objetiva dos conceitos puros, na medida em que, do mesmo modo que, na estética as intuições puras devem ser mostradas como que possibilitando a experiência sensível, os conceitos puros devem ser mostrados como que possibilitando o pensamento sobre esta experiência sensível.


            O “fio condutor” de Kant nos leva para uma exibição dos conceitos puros em duas tábuas, a dos juízos e a das categorias. Mas, tudo isso, vai desembocar na Dedução Transcendental, em que a prova da a prioridade destes conceitos, da intuitividade (limitação & experiência) e da idealidade dos mesmos (como representações dos fenômenos e não da coisa em si), tem o seu lugar.


            Desse modo este trabalho tornou inteligível o conceito de transcendental a tarefa da filosofia transcendental e, deve ser destacado, deixou para um outro desenvolvimento e tratamento a Dedução Transcendental e, por conseqüência, o estabelecimento para fins de conhecimento da doutrina kantiana do Idealismo Transcendental e, para fins de resolução dos problemas da metafísica, a Dialética Transcendental.


            Concluindo, foi possível mostrar em que sentido a estética e a analítica podem ser entendidas como preâmbulos da Dedução Transcendental, ou como “umbrais” da mesma.


            Ambas, a estética e a analítica, devem ser entendidas aqui como uma exposição prévia daquilo que, ao final, deveria ser provado pela Dedução Transcendental. Pois é nesta Dedução que fica como que assentado o vínculo, a conexão de todas estas representações à uma consciência originariamente sintética que, por isso, é responsável pela produção espontânea das mesmas e, noutro sentido, é responsável pela determinação do âmbito e da validade objetiva destas, na medida em que pode determinar aquilo que lhe acessível a priori e conhecer aquilo que é compatível com este conhecimento a priori.



































NOTAS







(1) Sobre isso, consultar LEBRUN, pp. 1-169, principalmente quanto aos problemas da metafísica que Kant procura resolver; TORRETTI, pp. 19-60, também realiza uma boa introdução a esse tema em Kant; outra referência importante é HEIDEGGER, pp. 13-24; já HÕFFE, por sua vez, enfatiza mais o “duplo” abandono do empirismo e do racionalismo por parte de Kant (p, 49), mas intitula a sua introdução do “0 campo de batalha da metafísica”, com o que concordamos em parte, mas mais adiante apontamos para a criação de um domínio neutro, Apesar disso, há concordância de um modo geral com o que expressamos aqui, ver pp. 45-51.


(2) Entenda-se a distinção entre juízos analíticos e sintéticos como um ponto de partida para a determinação de todo o conhecimento a priori; um pouco mais adiante tratamos do caráter a priori que complementa isso.


(3) Consideramos importante perceber que a originalidade e a distinção do projeto kantiano para a metafísica é que de um modo geral consiste na criação de uma “nova filosofia” o que traduzimos pelo estabelecimento de um domínio neutro entre a metafísica mesma e as ciências em geral. Pois, mesmo que o seu objetivo fosse tornar a metafísica urna ciência - o que o levou a trabalhar no território ou “campo de batalha” da mesma. Podemos considerá-lo como criador de um novo domínio, pois a filosofia transcendental é absolutamente distinta, nos procedimentos e resultados, de toda e qualquer outra filosofia anterior, na resolução dos problemas da metafísica, Dos autores consultados, tanto LEBRUN quanto ALLISON parecem apontar nesta direção. O primeiro na medida em que aponta para a resolução da própria metafísica, já o segundo por reconstituir a própria doutrina de Kant - o Idealismo Transcendental - faz desta, de certo modo, uma orientação defensável, portanto, justificada. Mas isto não será tratado aqui.


(4) Existem, sem dúvida, outras definições em Kant, de transcendental. Algumas, inclusive, pré-críticas na KrV (ver  TORRETTI, pp. 51-52), mas para a nossa finalidade estas duas são suficientes. ALLISON, também, aborda isso, mas fica só como indicação aqui (ver toda a primeira parte de sua obra, pp. 29-113).


(5) ver Lebrun, p.50.


(6) Julgamos importante sublinhar que um tratamento mais rigoroso, deveria qualificar e elucidar mais “as condições de possibilidade da experiência” como expressando, na verdade, as “condições de inteligibilidade da experiência”; pois a dúvida não reside na existência ou não de objetos ou da experiência (como no caso cético), mas sim sobre a inteligibilidade e a justificação desta inteligibilidade de uma experiência de cognição humana, seja isso feito discursivamente ou no pensamento puro. Allison nos parece bem próximo disto com seu conceito de “condição epistêmica”. De qualquer modo, renova-se aqui a discussão “epistemologia versus ontologia” em Kant.


(7) mais adiante temos o conceito de “objeto em geral” que substituir isso. Veja-se p. 10 e p, 20, o que nos aponta para um futuro tratamento de “objeto em geral” e “juízo em geral” que, possivelmente, está conectado com o estabelecimento da validade objetiva e da limitação das categorias a experiência possível,


(8) o “a priori” está indissoluvelmente ligado à filosofia transcendental de Kant. Veja-se B 26. Deleuze (pp.19-2l) apresenta a priori e transcendental juntos. De certo modo, ambos estão ligados intrinsecamente.


(9) pois não examina objetos, mas as condições dos “objetos” serem interpretados como tendo tais ou tais propriedades, sendo assim pensáveis ou cognoscíveis.


(10) o nome disso em Kant é “ampliação”, pois os juízos analíticos não acrescentam nada, enquanto os juízos sintéticos possuem a propriedade de serem aplicados produtivamente em outras circunstâncias.


(11) aqui uma pequena correção, a propriedade a priori de um juízo, não é mais de um conhecimento. Veja-se p. 11,


(12) talvez essa seja a nossa única tese aqui presente, por outro lado ela também não é só nossa. Ver nota 6.


(13) não demos muita atenção a este ponto, pois alguns consideram que Kant quer fundamentar filosoficamente as ciências e outros que a sua única ocupação é tornar a metafísica uma ciência respeitável. Porém, em Kant a última pretensão envolve a primeira. Mas não vamos nos deter nisso.


(14) outra desatenção aqui é relativa a presença de uma “teoria da representação” em Kant, isto tem um lugar excelente para ser tratado ou, melhor, dois lugares. O primeiro é numa introdução à teoria crítica de Kant. Já o segundo - para nós mais interessante - é numa exposição do conceito de “autoconsciência transcendental”. Nesta última seria assaz fértil tratar do vinculo, em geral, entre uma “filosofia da consciência” e uma “teoria da representação” em Kant para, talvez, aplicar na interpretação de outros filósofos, A leitura de BRUNSCHWICG pareceu nos sugerir esta possibilidade para toda a história da filosofia, com exceção de alguns poucos filósofos. Devotadamente observamos também a exclusão aqui neste ponto do texto do capitulo 3 deste trabalho.

(15) no tratamos aqui do estabelecimento das duas intuições puras ou, em outro sentido, das formas puras da sensibilidade, pois ambas apesar de apresentarem também uma modalidade de prova transcendental que seria importante numa comparação, talvez, com a prova da dedução transcendental, são sumariadas na recapitulação e na conclusão através de suas notas básicas e resultados. Porém, faltou aí a distinção entre as duas intuiç5es puras ou (n.b,) formas puras da sensibilidade como que vinculadas ao sentido interno (tempo) e ao sentido externo (espaço), mas agora isso está sublinhado.


(16) Isto é “uma condição estabelecida a priori” comparar com B 36 “que nada mais  reste senão a intuição pura e a mera forma dos fenômenos, a única coisa que a sensibilidade pode fornecer a priori.” Isso nos coloca no domínio da investigação transcendental em que, de um lado, temos a mera forma dos fenômenos e, de outro lado, a condição universal da consciência, mas isso nos remete já para o núcleo da Dedução Transcendental.


(17) A Dialética Transcendental conclui a determinação dos limites e, por conseguinte, a determinação da extensão dos nossos conhecimentos a priori.


(18) A Analítica dos Princípios é “somente um cânone para a capacidade de julgar” (B 171) não exibindo os conceitos mas apenas mostrando as regras de sua aplicação (não é um organom – lógico como o de Aristóteles). O Esquematismo, entretanto, é distinto nesta analítica dos princípios.

(19) São as “condições de organização”, na medida em que fornecem os princípios para classificar os juízos e as categorias,


(20) o termo “descoberta” consta no texto, mas trata-se de descobrir a fonte dos conceitos através do uso de uma regra.


(21) ver Hoffe, p.93, o tratamento divide a dedução transcendental em dois passos 1. §15-20 e 2, §22-27 (ver tb. pp.90—l02)


(22) o que se seguiria, portanto, é outro trabalho, conforme nossa introdução.









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