terça-feira, 16 de maio de 2017

Uma Nota Histórica sobre São Leopoldo dos anos 20 - de 2012: sobre Ciclos econômcos - para rever

Estive debruçado em abril de 2012, sobre um certo panorama da história de São Leopoldo. Na época interessava olhar de perto a formação e conformação da cidade para o primeiro centenário da imigração alemã. O que levou a construção da Praça do Imigrante e do Monumento. Mas apareciam aqui e ali sinais do nível de desenvolvimento econômico da cidade nos anos 20 e de sua importância, não somente regional, mas em relação à economia do estado e  à capital. Poderia ser, imaginei à época, um bom viés explorar os períodos econômicos de expansão, estabilização e contração da cidade relacionando isso ao desenvolvimento agrícola, comercial e industrial da cidade sustentado ou não pelo empreendedorismo local e insumos estatais de alguma natureza. Atentar, no detalhe e com precisão, para investimentos públicos e privados. Incrementos imobiliários e também atividades culturais. O que me chamou a atenção em 2012 foi, em especial, os ciclos de desenvolvimento e mediocridade na cidade, ou seja, o caso e o ocaso  dos pactos com governo federal e estadual na história da cidade e seus vetores internos...e externos. Me pareceu muito interessante a tese superficialmente entrevista de uma espécie de pacto político externo que acaba beneficiando a cidade e também a superveniência de sua ruptura ou fragilidade que mesmo com relação à política agremiada (PRR-PL-PTB-PSD), mas não estável ou/e fluida que pode prejudicar a cidade. A hipótese foi gerada, primeiro, a partir de uma intuição sobre o ciclo de expansão econômica dos anos 20 e 30. Isso junto e após a emancipação de Novo Hamburgo (?). A interrogação aqui leva em conta os argumentos de que o bolo cresceu e se dividiu ou que ele se minguou e foi um salve-se quem puder. Que precisam ser todos relativizados é claro. O que pode parecer muito duvidoso, inclusive, mas que foi entrevisto superficialmente. Porem deve se ver isso tudo ainda muito mais de perto...

ENTREVISTA PARA UM EX-ALUNO: GUILHERME CABRAL, ABRIL DE 2017

1) Conta-me como te tornastes professor(a)! Por que escolhestes essa profissão? Como te sentes, hoje, no exercício do magistério? O que te dá mais satisfação na profissão? Quais são tuas dificuldades e frustrações?

Me tornei professor muito pelo exemplo de meus professores. Tive professoras e professores maravilhosos. Quando optei pela licenciatura pensava também no fato de manter parte de meu espírito juvenil se renovando e na questão de manter a vida conectada com a juventude e construindo conhecimento e compartilhando o prazer de aprender. Sempre fui muito investigativo e minha curiosidade é quase infinita e inesgotável. Esta curiosidade se realiza e muito na preparação das aulas e também em descobrir a forma como os jovens refletem e reagem sobre aquilo que a gente leciona. A verdade é que eu amo ser professor. Esta é a profissão que eu escolhi. Mas eu também sei que poderia ter dado errado, que eu poderia não conseguir ser um professor. Tinha este elemento de incerteza no começo, mas assim que comecei a lecionar, mesmo nos estágios já sentia o acerto da escolha. Os professores vivem muitas dificuldades hoje, em especial as materiais. Talvez isso sempre tenha ocorrido, mas eu sobrevivo a elas e não me frustro tanto. Consigo ter prazer, portanto, com esta atividade e creio que sei lidar com seus cavacos, dificuldades e com eventuais situações que fogem a minha formação para tal. Não tenho grandes dificuldades e frustrações, salvo a questão salarial que aborrece, mas contra a qual luto e milito no sindicato e nos espaços públicos em que atuo. 

2) Se pudesses escolher, deixarias de ser professor/a? Por quê?

Não deixaria de ser professor, por que tenho convicção na escolha, satisfação no exercício e muito prazer nas relações cognitivas, afetivas e pessoais com os alunos e alunas do ensino médio. E eu adoro ser professor, mesmo que sinta a desvalorização salarial, o desrespeito e desprestígio da nossa profissão com meus colegas. Apesar de tudo não consigo desistir de ser professor, persisto lecionando e lutando pela educação pública e pela nossa dignidade profissional.

3) Como construíste/constróis a tua forma de ser professor/a? Que influências mais marcaram a tua formação? O que ou quem inspira a tua docência? 

Construo a minha forma de ser professor a partir da experiência e da reflexão sobre ela. Tento articular sempre a prática docente com teorias e idéias pedagógicas, psicológicas, sociológicas e filosóficas. Baseio muito minha docência sobre o contexto histórico que vivemos e sobre o qual devemos refletir, interpretar e nos posicionar. Além da aquisição de teorias, creio que é preciso incorporar a sabedoria prática ou técnica de outras pessoas. Também é importante defender e construir uma compreensão sobre certos valores humanos e culturais. Seguir exemplos de paciência, boa vontade, boa fé e respeito a dignidade das pessoas. As influências de meus pais, irmãos e parentes foram muito importantes nesse sentido, de meus professores e professoras são decisivas, e sou permeável também às influências de muitos amigos e amigas, alunos e alunas, colegas e, também, de pessoas comuns de outras profissões e atividades. Meus professores de história, geografia, letras e artes foram fundamentais durante a educação básica. No ensino superior, muitos professores e professoras e, também, colegas me influenciaram em aulas e em diversos tipos de discussões, painéis, defesas de teses e dissertações e apresentações de trabalhos. Recebo muitas influências de diversos teóricos da educação e a participação em seminários, debates, projetos, programas e também minha participação sindical me influenciaram muito. Mas também recebo no meu ofício de professor uma forte influência do teatro, do cinema, da música e de muitas outras artes. Minha forma de ser professor é baseada nesta apreensão de exemplos e no exercício de construir a experiência em sala de aula e na preparação das aulas, das atividades e das avaliações e feed backs dos alunos e alunas.

4) Que professor/a gostarias de ser hoje? Crês que, na prática, te aproximas desse perfil? O que precisaria ocorrer para realizares essa perspectiva?

Eu me sinto muito feliz com minha forma de exercer o ofício hoje. Misturo muita arte e música nas aulas, abro os temas e conteúdos para o tempo atual e as vivências dos alunos e alunas e, também, sempre procuro conectar as temáticas com as experiências, fatos e acontecimentos do presente. Tenho investido mais energia no conhecimento e no relacionamento humano e compreensivo dos alunos. Minha realização está baseada no objetivo de conhecer e compreender os alunos, construir conhecimento com eles e trabalhar com as opiniões deles, somando a isso a oferta de informação precisa sobre os fatos e reflexão conceitual rigorosa. Creio que me aproximo sim na prática deste ideal.  
Escola e seu projeto

5) Na tua opinião, qual o papel da escola na sociedade? O que, para ti, seria uma escola ideal? Na prática, a tua escola se aproxima dessa perspectiva? Em que dimensões? Em que deveria avançar para alcançá-la?

A escola deve contribuir na construção e na aquisição de conhecimento. Deve ser democrática e realizar-se com diálogo, busca de entendimento e respeito às diferenças. Deve formar os jovens para serem boas e excelentes pessoas, profissionais e cidadãos. Vejo na minha escola um grande esforço e trabalho neste sentido. Diria que me sinto nela um professor realizado. Em colaboração com os colegas, professores e funcionários de escola, com os alunos e alunas e com os pais e demais membros da comunidade temos desenvolvido um trabalho que dignifica a escola e as pessoas que passam e atuam nela. Sou muito orgulhoso da escola que construímos juntos. Vamos avançar muito no sentido de humanizar ela cada vez mais, introduzir mais atividades culturais e desenvolver projetos alternativos e progressistas com a participação intensa dos alunos como já temos feito.

6) O Projeto Político-Pedagógico da tua escola é do conhecimento de todos os que com ela interagem? Como se deu o seu processo de construção? Foi construído de forma coletiva? Indica crenças e valores da comunidade escolar? Qual é sua linha pedagógica (princípios pedagógicos que segue)?  Interfere nas decisões cotidianas da escola?

O Projeto Político-Pedagógico da escola incorpora as idéias que apresentei acima. Queremos aumentar a divulgação dele e já propomos avaliação anual pela comunidade escolar do mesmo ao final do ano letivo de modo a conferir os resultados e a aplicação dos seus princípios e valores.

Docência e políticas educacionais

7) Crês que o/a professor/a pode interferir nas políticas educacionais? Na escola em que trabalhas costuma haver espaço para discuti-las? Como as políticas educacionais repercutem no trabalho cotidiano de tua escola? E de tua sala de aula?

O professor deve interferir em todas as políticas educacionais. Não faz sentido algum impor política educacional sobre os educadores e os educandos. Quando isso ocorre a educação perde sua capacidade transformadora e as resistências a toda imposição dessa ordem são legitimas. A educação e os projetos de educação não fazem sentido sem a participação dos educadores, alunos e cidadãos. Mas, na minha opinião, é preciso resgatar em muito isso, porque existem muitos gestores que tem predileção por implementação de projetos sem discussão, sem questionamentos e sem contestação ou sequer aceitando o aperfeiçoamento das propostas. Isso é um desrespeito com os trabalhadores em educação.

8) Quais são as propostas de políticas educacionais para teu município? Podes relatar alguma que te é simpática? Acreditas que podes, como cidadão(ã), interferir nessas políticas? De que forma?

Vou priorizar aqui na minha resposta a este ponto sobre a participação dos cidadãos e cidadãs na construção de uma escola democrática e plural, com respeito às diferenças, na defesa dos direitos dos cidadãos e trabalhadores e na promoção de uma cidadania responsável e comprometida com os destinos da sociedade. A melhor interferência é participar de todos os fóruns de discussão sobre a escola, a gestão escolar e seus projetos.

9) Como a escola participou: da elaboração do Plano Municipal de Educação de sua cidade; do estudo e contribuição na Base Nacional Comum de Currículo da Educação Básica?

Nossa escola pertence a rede estadual de educação. Participamos, apesar disto, do processo de construção do plano via representação sindical em conferências municipais. Eu mesmo participei e dialoguei muito sobre este tema.


Foi um prazer participar desta entrevista e contribuir para a formação docente de um ex-aluno meu.

sábado, 13 de maio de 2017

MAIS GENTILEZA E ELEGÂNCIA POR FAVOR

Enquanto a Rede Globo - através de todos os seus veículos - e outras revistas e empresas de comunicação, mais as lojas Marisa, tripudiam de Lula. E outros covardes seguem na mesma direção se gabolizando e se jactando de sua própria grosseria e leviandade. Nós vamos contrariar esta lógica rebaixada e vil.

Eles fazem isto apelando da forma mais covarde e perversa possível. Ao estar dizendo que Lula culpa sua esposa, já falecida, justamente por conta do desgosto da intensa e impiedosa perseguição que Lula, sua família, filhos e partido sofrem, pelos seus problemas, nós seres humanos comuns que possuímos empatia e respeito ao próximo, que consideramos a dignidade do outro inviolável sob qualquer pretexto, que somos orientados por uma boa educação que dá limite ao ímpeto e às ofensas, vamos contra isto.

Nós vamos prosseguir, por mais duras que sejam nossas posições, sendo guiados pela gentileza e cordialidade, vamos lutar com elegância e altivez para vencer esta baixa política do vale tudo que assola o pais desde que a oposição e o PMDB (e a elite nacional abrigada nestas agremiações e entidades) resolveram perder todos os escrúpulos para se manter no poder e preservar seus interesses, privilégios e se proteger do fim de um tempo que resiste em não acabar. Sabe porquê?

Porque gentileza é uma coisa que a gente nunca esquece. A pessoa pode te criticar, acusar, trair e etc, mas deixar ela sem palavras por um gesto de gentileza é ótimo. É a melhor resposta às ofensas de toda ordem e reconduz pelo exemplo as pessoas ao leito natural da nossa vida cotidiana e civilizada.

Nosso papel humano e civilizatório nunca pode ser esquecido em nossa conduta, decisões e ideias. A importância do aspecto humano é crucial para nós todos, sem isso nosso capital econômico ou político se reduz à pó. Isso é um capital cultural. Nenhum poder econômico ou político terá algum valor sem isto. Nenhuma forma de poder ou de exercício do poder que prescinde disso, deve durar muito tempo.

E cabe a nós não tolerar isto de forma exemplar. Repudiar aqueles que cruzam este limite e fazer frente a estes absurdos impostos pelo desespero de causa deles. E este limite atravessado pelo golpismo e pela agenda golpista há de ser destroçado pela vontade do povo brasileiro nas urnas e fora delas também.  

BOAS PROPOSTAS PRECISAM TER BONS MÉTODOS – REPLAY REVISADO DE 2014

Veja meu caro que não é indício de sabedoria nem de racionalidade fazer a coisa certa da forma errada. Por isso, se tua proposta é realmente boa decline de toda alternativa ou metodologia que envolva impor ela ao demais, seja por necessidade e urgência seja por necessidade de mostrar força ou exibir ou aumentar tua autoridade. Se você quer de fato obter êxito em teu intento cuida mais disto. Pois você  nunca conseguirá ser compreendido se proceder assim de maneira torta ou aos vacilos com algo que deve ser reto e seguro. Se você está respondendo a uma necessidade muito importante, mas criando uma desmedida para satisfazer sua ambição e urgência ao mesmo tempo, vais te dar muito mal e não vai obter a metade do resultado almejado. E perceba meu amigo ou amiga que quando isso depende dos demais, quando isso depende do juízo e da recepção dos demais, se estais enfiando goela abaixo aquilo que tem valor e que mereceria mais mediação para ter sua dignidade preservada, então você está cometendo um erro grave que põe  a perder toda a qualidade de teu nobre objetivo. É preciso convir que o método não é somente uma questão epistêmica – que garante reconhecimento e entendimento – mas é também uma questão essencialmente política – que pode garantir aceitação, adesão e não resistência e rejeição. Então, se a medida, proposta ou projeto é realmente bom e importante, razoável e adequada, não destrua ela adotando a imposição como quem exibe seu poder – por insegurança – ou exige pressa, por um sentido de urgência que é direcionado somente por ansiedade, angustia e não sabedoria ou juízo.


Obs.: Não vou referir aqui o contexto crítico e original desta fala. Meus colegas educadores, sindicalistas e militantes de esquerda sabem exatamente disto, ainda que alguns esqueçam isso, em determinados contextos e situações. Porém, creio que é fundamental a adoção do método correto e creio que quanto mais importante a medida ou proposta, mais se exige dela o bom método. Quando isso envolve compreensão, colaboração e engajamento das pessoas, então é bom dialogar, tergiversar e conceder não só voz, mas incidência das pessoas na formatação do projeto e no processo de concepção, elaboração e finalização. Quando a gente sabe que a democracia é o melhor método de tomada de decisão mesmo, não existe razão para jogar no segredo, no sigilo e no fundo de uma sala a esfera de decisão. O poder não é um atributo pessoal, mas relacional. E todo aquele que sabe disso evita ao máximo atribuir a si mesmo tal atributo. Isso pode lhe ser conferido, pode lhe ser entregue, mas está todo dia sendo renovado e autorizado pelo método e pelas medidas que se toma.       

domingo, 7 de maio de 2017

PENSAR E VIVER ANTECIPADO

"Pensar anticipado: hoi para mañana, y aun para muchos días. La mayor providencia es tener horas della; para prevenidos no ai acasos, ni para apercibidos aprietos. No se ha de aguardar el discurrir para el ahogo, y á de ir de antemano; prevenga con la madurez del reconsejo el punto más crudo. Es la almohada Sibila muda, y el dormir sobre los puntos vale más que el desvelarse debaxo dellos. Algunos obran, y después piensan: aquello más es buscar escusas que conseqüencias. Otros, ni antes ni después. Toda la vida ha de ser pensar para acertar el rumbo: el reconsejo y providencia dan arbitrio de vivir anticipado."


Baltasar Gracián, in 'Oráculo manual y arte de prudencia' (1647)

GH E O PENSAMENTO DESORGANIZADO

Estava seguindo a pista interessante na palestra do meu amigo e ex-colega de graduação Eduardo ("Lispector e Nussbaum: ensaio para um monólogo", com Eduardo Vicentini de Medeiros  ) sobre a Paixão Segundo GH de Clarice Lispector, no que toca ao pensamento desorganizado e achei esta reflexão cheia de anotações inconclusas e com reticências ainda de 2012, sobre o mesmo assunto e outras coisas ligadas ao desentendimento:

A característica mais interessante do pensamento desorganizado é que ele desorganiza o dono e faz um tremendo esforço para tentar desorganizar os ouvintes também...

Isso, quando vem expresso em frases ambíguas, lacunares, com confusões incríveis entre sujeito/objeto e com conexões lógicas de difícil compreensão...

E nas vezes que você conversa com alguém assim e se dá conta de quanto esforço uma pessoa destas requer para se expressar - e muitas vezes sorte - para obter os resultados que ambiciona ou a que se propõe...me parece muito assim quando a linguagem se constitui numa gaiola, numa falsa prisão, simplesmente construída através de algumas incompreensões gramaticais e de algumas operações lógicas não bem compreendidas....

Exclama o ouvinte: ó senhor, dai-me a santa e bendita paciência....

E também porque nestas vezes acabamos por suspeitar também do caráter do sujeito que se comunica desta forma...Mas não devemos chegar a tanto.

E para aqueles que gostam de se comunicar muito e claramente e que zelam não por uma moral da linguagem, mas talvez muito mais por uma comunicação satisfatória é um grande desafio isso....

É porque você precisa de novo apreender e ensinar coisas elementares...Aprender a ser generoso com seu interlocutor e ajudar ele.

Com algumas partículas elementares da nossa linguagem que também significam uma atitude de respeito para com o outro....

E mesmo que ele não te entenda tanto, mesmo que ele nem saiba ou tenha consciência de que está errado ou habitando como um estrangeiro numa linguagem e num ambiente estranho, desconhecido e não dominado...

E não é, no meu ponto de vista aqui, muito correto afirmar que é de dar dó ou que não dá para conversar - numa situação destas....porque estas pessoas também tem direitos e também merecem respeito...

Veja que não podemos culpá-las ou excluí-las de um diálogo por tais dificuldades...

E esta não é um indireta - é somente uma reflexão inicial sobre algumas dificuldades e desafios sociais provocadas por uma certa incompreensão da linguagem e de suas regras...E também pela desorganização do pensamento em que estas pessoas habitam com sérias dificuldades.

E isso aqui também não é um diário - nem muito menos uma provocação...


Creio que temos que pensar nisto - seja como professores e professoras, seja como cidadãos e cidadãs...Em nossas comunidades de diálogo e em nossas diversas formas de interações sociais.

AS POSSIBILIDADES DE UM ESTÓICO - NÃO SEI




Não se trata, como poderia parecer, de uma crise de meia idade, mas sim da minha completa insatisfação em ver a abundância e a fartura de juízos sobre isso e aquilo cuja única base é sempre parcial, subjetiva e precipitada. E estes juízos orientam ações, relações, omissões e comissões. Tipo; ando enjoado de tanta meia verdade ou verdade e meia. Então dá uma vontade de escrever cadernos secretos, críticas reservadas, cadernos do cárcere para que um dia talvez sejam bem queimados no gigantesco incinerador da história que é o tempo. Porém devo confessar que entre as surpresas e decepções, também tem as boas e as ótimas surpresas. Como tem gente boa escrevendo bem e pensando melhor que a média e o tal senso comum, que vem dos mesmos preguiçosos e acomodados em suas sabedorias e experiências. Talvez eu comece somente a agir e deixe de lado a necessidade de dar razões, avisos, alertas e pare de ficar aguardando alguma coisa dali de onde num vai sair nada mesmo. Talvez assim, me sinta mais reconfortado e pleno e acabe de vez com essa aparente crise existencial de engajamento e desengajamento, intervenção e não intervenção e aguarde apenas o andar natural das coisas, o fluxo contínuo e previsível de alguns fenômenos que na história dos homens parecem extraordinários e impressionantes, mas que da perspectiva de uma existência plena e econômica, discreta e subjetiva, não tem nenhuma relevância, importância ou singularidade a oferecer. Não é bom, nem é ruim, é normal ou natural que eu tente me entrincheirar em uma perspectiva mais distanciada, isso poderia acontecer por força da idade que, avançando, me impedisse de perceber as coisas e responder a elas, mas também pode acontecer por um exílio precoce causado pelo alijamento ou falta de qualquer correspondência com o mundo exterior e seus representantes oficiais nos assuntos humanos. Sim, a incomunicabilidade nos tempos de hoje, poderia ser a causa, diz-se tanto, mas tão pouco de fato é dito. Então, já que é assim, porque tanta prolixidade? Que causa ou efeito ela teria em meio ao espetáculo natural? E que diferença faz? Não sei...meu sentimento estóico se avoluma em meu coração e me apequena a mente, me deixa com aquela serenidade em que menos é mais, e mais é apenas u m menos amplificado e alardeado. E dá aquela vontade de tirar o time e fazer só coisas prazerosas e modestas, simples e comezinhas, já que aqueles que deveriam fazer grandes coisas, só com estas pequenas ocupações pessoais realmente se ocupam. Vendo então um mundo do faz de conta se avolumando à minha frente, fico pensando em coisas mais transcendentais do tipo: não se escolhe pai e mãe, nem o lugar onde nascemos, nem o tempo em que nascemos, mas ainda assim podemos tentar escolher - naquele pequeno quadrado que resta a cada um de nós cuidar - como vivemos, com aquelas pequenas e conhecidas limitações que conhecemos e que envolvem a disposição dos outros sobre como devemos viver e também o interesse de outros em nos fazer servir ao sistema, a uma causa ou mesmo cumprir algum papel na máquina deste grande moedor de carne que é o mundo, ocupar com sua contribuição vermelha ou quase carmin uma vírgula ou ponto de algum livro de uma história que talvez seja escrita e talvez seja apenas vivida e esquecida. Neste, e agora vou usar emprestada a grandiloquência e a precisão de alguns outros, grande vale de lágrimas que é o mundo assistimos tanto o choro dos insensatos, quanto riso cínico das Hienas, assistimos ao Leão buscar sua presa e ao Urubu que aguarda a parte que lhe cabe no banquete selvagem entre caninos e felinos da savana, mas também assistimos tanto a graça, quanto o riso e o choro também daqueles que são apenas ingênuos, inocentes, crédulos, agressivos, pacíficos, comedidos, tímidos, medrosos e covardes, vacilantes e inseguros, mas que ao dar opinião sequer se dão conta da frequência ou sintonia de humor em que se encontram e que afinam suas vozes em diapasões instáveis, de tal modo que jamais encontram um Lá ou um Sol, uma além e um lugar para brilhar ou iluminar. São só trevas, obscuridades e os horizontes que nos ofertam não nos agradam. Não posso orientar minha vida, minha opinião sobre o mundo, minha existência por profetas, videntes, cartomantes ou penitentes cuja fé é tão instável, ou o conhecimento é tão seguro quanto a capa de um jornal, matéria de uma revista, ou o editorial deslocado e distorcido de uma vontade suscetível ao livre jogo do mercado e suas marés de vontades e disposições transitórias. Sim, eu sei que não somos importantes, eu sei que pouco posso fazer, mas enquanto eu puder resistir, liderar a mínima resistência em meu ser, aqui eu ficarei sem me deixar levar por tuas vontades e juízos insanos. Não sou caça, não sou caçador, não porto armas nem canhões e não quero nenhuma forma de poder absoluto ou relativo que dependa de se ludibriar, enganar, prometer ou recontar as mesmas histórias de sempre, não acredito em milagres pessoais nem em pessoas milagrosas, não vejo nenhuma possibilidade de melhorar o mundo com votos ou crenças na infalibilidade, mas nem por isso aceito teus erros ou tuas intenções e pelos meios e entremeios que visualizo sei bem para onde vais e de onde bem vens. Mas tudo que digo aqui é só uma ficção, um espelho quebrado, que não significa nada, não representa nada e não conclui coisa alguma. Por assim dizer, dizer e não dizer, fazer e não fazer e escolher como pensar...não é o Grau Zero, mas também não é um nem menos um, é enfim pouca coisa que resta dos escombros doa achatamento em que me parece que vivemos hoje...e me parece mesmo que é melhor não falar e é melhor não dizer, ainda que eu ouse esboçar em palavras sorteadas um porque e um como...Não sei...Velho texto de minha vida.