A verdade mais radical e
incontestável da nossa carne e da nossa alma é a sua finitude. Ambas vão deixar
de existir. Com a carne isto é mais evidente. Já a alma resiste a reconhecer
isto porque possui o privilégio de ter suas operações marcadas por certa imaterialidade.
De qualquer modo ambas vão ao longo da vida sendo resumidas, vão se diminuindo
e dando sinais de que a finitude acaba por se alcançar e as atingir em algum
momento. A carne e os ossos - nosso corpo, nosso veículo - vai perecendo e
vamos com muita facilidade nos dando conta, por nossa alma ou em nossa sede
reflexiva, que o fim dá seus sinais. Não se consegue mais fazer certas coisas,
resolver certos problemas, nossas ações e movimentos vão sendo limitados e
restritos e não se consegue mais fazer grandes escolhas e vamos ficando com uma
percepção clara de que somos aos poucos e às vezes violentamente sendo
limitados e resumidos.
A liberdade que elogiamos e da
qual nos vangloriamos por haver um dia conquistado ou tido a impressão de
possuir, nos contempla e ri de nossas vãs ilusões. Quando entendemos isso
passamos a compreender e ter piedade do próximo porque vemos nele nosso futuro
ou nele o seu passado que já foi nosso presente. Vem vindo a morte - o assador
e suas facas afiadas - e o infinito começa a nos assombrar não porque é escuro,
porque é um pesadelo, porque é o inferno ou promete mais dor, mas porque
sentimos que deve haver um paralelo entre o corpo e a alma.
Que se o corpo vai desaparecendo
e perdendo funções e habilidades, vai sendo limitado e de certa forma extinto,
também nossa alma pode ir perdendo aspectos que só a nos pertencem. A extinção
da memória ou a extinção da mobilidade que aparecem nestes dois males da
velhice e que em alguns caos aparecem precocemente parecem anunciar isto.
Assim, quase nada de cada um de
nós vai restar no tempo e no espaço e isso é algo impressionante em sua
realidade, autenticidade e, ao mesmo tempo, em sua ausência de sentido ou na
presença de um sentido mínimo. Quando se começa efetivamente a pensar nisto,
entendemos o significado do essencial da vida que talvez seja como você está se
sentindo agora. E lembramos do que realmente importa em nossas vidas.
A trajetória da existência vai
nos resumindo, mas só mesmo no tempo a presença temo tão forte significado,
justamente pelo desaparecimento de nossos poderes, pelas nossas limitações,
estar aí ainda no mundo é um grandioso trunfo e um sinal de que devemos
aproveitar para viver e usufruir disto com mais prazer ou com o maior prazer
possível. E a alma olha para o corpo e vê que ele está assim e pode, enfim,
pensar em si mesma como estando melhor ou ficando para o ultimo capítulo de
tudo isso.
Sim, ver isso, visualizar isso de
si mesmo é muito impressionante. E é um exercício que devemos provocar em nós
mesmos, pois pode ser bem educativo para nós saber que precisamos decidir e ser
principalmente e quase indelegavelmente responsáveis pelo modo como tratamos
disto.
( Jean Claude Bernardet no filme
"Fome", de Cristiano Burlan, do qual é protagonista. interpretou uma
personagem que vive isto e esta postagem é uma reedição do meu comentário desta
experiência e de sua entrevista do ano passado complementado por algumas ideias
que sempre tem me tocado ultimamente e que neste ano ficaram sob a chave geral
do que chamei de nossa quilometragem limitada. Precisamos saber que temos uma
caminhada e que há de haver um ponto do qual não vamos passar. Queremos avançar
sobre os limites e este é nosso impulso mais juvenil e maravilhoso, mas com a
maturidade passamos a um processo de aceitação e compreensão maior do qual
depende nossa saúde física e mental, nossos cuidados e os cuidados com os
demais seres humanos.)
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