terça-feira, 11 de maio de 2010

O Mal-estar na Civilização - Sigmund Freud - para SOCIOLOGIA NA ESCOLA

I

É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação - isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida. No entanto, ao formular qualquer juízo geral desse tipo, corremos o risco de esquecer quão variados são o mundo humano e sua vida mental. Existem certos homens que não contam com a admiração de seus contemporâneos, embora a grandeza deles repouse em atributos e realizações completamente estranhos aos objetivos e aos ideais da multidão. Facilmente, poder-se-ia ficar inclinado a supor que, no final das contas, apenas uma minoria aprecia esses grandes homens, ao passo que a maioria pouco se importa com eles. Contudo, devido não só às discrepâncias existentes entre os pensamentos das pessoas e as suas ações, como também à diversidade de seus impulsos plenos de desejo, as coisas provavelmente não são tão simples assim.

Um desses seres excepcionais refere-se a si mesmo como meu amigo nas cartas que me remete. Enviei-lhe o meu pequeno livro que trata a religião como sendo uma ilusão, e ele me respondeu que concordava inteiramente com esse meu juízo, lamentando, porém, que eu não tivesse apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade. Esta, diz ele, consiste num sentimento peculiar, que ele mesmo jamais deixou de ter presente em si, que encontra confirmado por muitos outros e que pode imaginar atuante em milhões de pessoas. Trata-se de um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de eternidade',um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras oceânico',por assim dizer. Esse sentimento, acrescenta, configura um fato puramente subjetivo, e não um artigo de fé; não traz consigo qualquer garantia de imortalidade pessoal, mas constitui a fonte da energia religiosa de que se apoderam as diversas Igrejas e sistemas religiosos, é por eles veiculado para canais específicos e, indubitavelmente, também por eles exaurido. Acredita ele que uma pessoa, embora rejeite toda crença e toda ilusão, pode corretamente chamar-se a si mesma de religiosa com fundamento apenas nesse sentimento oceânico.


NOTA 1: O Mal-Estar na Civilização de 1929 ( Das Unberhagen in der Kultur, também pode ser traduzida por Descontentamento ou Insatisfação da Cultura) é uma obra de oito capítulos de lavra tardia de Sigmund Freud (1856-1939)que junto com O Futuro de uma Ilusão, também traduzido por alguns por O Destino de uma Ilusão (1927)e O Homem Moisés e a Religião Monoteísta, já comentado de forma superficial aqui, pertence a um conjunto de obras que se destinam a tratar de um lado da Religião ou daquilo que os homens chamam de sua religião e de sua importância para os homens e também da gênese cultural das civilizações e das sociedades, com o preço que se paga pelo que chamamos de progresso. Importante dizer aqui que Freud não trata a Religião como uma coisa-em-si, mas sim como algo próprio do ser humano, algo que ele faz de si e para si.

Ora, para Freud o Mal-Estar é sempre presente na civilização tendo em vista que não ocorre civilização sem algum tipo de sacrifício do desejo individual. Desejo individual que pode ser traduzido como desejo sexual ou como desejo inato ao homem e que tem origem em sua estrutura psiquica, sendo a fonte de gozo e de satisfação. Esta é sacrificada em prol da civilização. Sacrifício este imposto pelo princípio de realidade. Do ponto de vista social nos interessa compreender que por traz deste mito de que a sociedade é um resultado do incrível progresso do homem sobre a terra há um desconforto que não se cala. Porque sempre pensamos ao sermos o que somos no que deixamos de ser. Assim como um adulto tem uma certa nostalgia de suas liberdades juvenis, também o homem civilizado sente-se prisioneiro de cadeias que um dia não existiram. Estas cadeias são representadas pela Cultura, Moral, Religião, Direito e Estado, mas alguns as chamam de convenções sociais. Fica deste modo marcada no homem e na mulher a repressão imposta pela sociedade sobre o seu desejo. E neste meio social eles vivem sendo policiados, vigiados e alienados do seu pleno desenvolvimento através do princípio de prazer. É este o preço que se paga e tal é a origem do Mal-Estar, desta inadequação corrente em sociedade.

Nestes dois primeiros parágrafos ele escreve naquele estilo conhecido e destacado por quase todos os seus leitores, de um lado expõe a questão que o ocupa e, de outro lado, promove aquele balanço pendular entre as suas opiniões e as do leitor para levá-lo adiante, ao seu ponto específico. Eu tenho verdadeira admiração pelo estilo sincero e dialogado de Freud. Promove um raciocínio cauteloso e que vai tateando os problemas até deixá-los cercados e bem claros para a tomada de posição definitiva ou quase definitiva. Destaca-se aí também a sua coragem e audácia usual em contraditar o senso comum e os pseudo-sábios. Note-se os seus porém, todavia, contudo, entretanto e o emprego de todas as adversativas insinuando e expressando sempre que "as coisas não são tão simples assim". Todas as vezes que eu o leio eu percebo um raciocínio estratégico extremamente cerzido na construção do argumento.

O emprego de falsos padrões de avaliação destacado por Freud, na primeira linha, deve ser combinado com o fato de que é corrente avaliarmos como bom, excelente ou ótimo o resultado de PODER, SUCESSO E RIQUEZA em nossa vida, em detrimento de outros resultados que poderiam ser, por exemplo, SABEDORIA, AMOR, GLÓRIA, PRAZER ou FELICIDADE. Mas não é tão simples assim. Não se trata simplesmente de construir a via da ambição e a via da abnegação, nem de construir a diferença entre a vida ambiciosa e a vida feliz. Freud está a se ocupar aí, pelo menos assim me parece, com o que é que significa uma vida plena também. Nesse sentido a procura de um Padrão de Aavaliação verdadeiro seja sobre valores ou necessidades e prioridades nos desafia a sermos capazes de erguer um critério universal que nos permita reconhecer o que seria bom em absoluto para a nossa vida, ou seja, o que verdadeiramente teria valor na nossa vida.

Freu não tende a ser muito piedoso com a nossa vida não. No mesmo primeiro parágrafo ele contradita, de certa forma, esta perspectiva de encontrarmos um verdadeiro padrão de avaliação com dois problemas: de um lado, no argumento, "corremos o risco de esquecer quão variados são o mundo humano e sua vida mental", ou seja, esquecer a tamanha diversidade de opções são colocadas em nosso mundo humano e também o sem número de ocupações e estímulos que povoam nossa vida mental; de outro lado, também num argumento aparentemente diversionista, Freud apõe à nossa capacidade de determinar e superar as discrepâncias entre os nossos pensamentos e ações, a "diversidade dos impulsos plenos de desejo" que devem, então ele conclui, dificultar e aumentar o grau de dificuldade nesse nosso modo de ver as coisas. Assim, apesar de ser impossível fugir a impressão de quão tolos e falseados são os nossos juízos e padrões de avaliação que consideram, admiram e estimam a busca pelo PODER, pelo SUCESSO e pela RIQUEZA, não temos como desconsiderar estas coisas como também presentes em nossas vidas, em nossos juízos e, note-se bem, mesmo os notáveis e grandes homens pouco compreendidos pela multidão podem também ser estimados admirados e tomados como exemplo também de membros da multidão, haja vista a diversidade de nossos impulsos, ambivalências e discrepâncias que, assim me parece também, juntas não resolvem a questão.

De um ponto de vista sociológico, creio que a importância deste tema - que no fundo é uma pedra de toque para o tratamento da religiosidade e de sua perspectiva humana, é impor a nós o desafio de considerar duas coisas como mui desafiadoras para o conhecimento social: 1. a dificuldade de julgar a intencionalidade dos agentes sociais, e 2. a dificuldade de promovermos uma abordagem mais ampliada sobre os objetivos e motivações dos sujeitos sociais. Na condição em que estamos, entretanto, pelo menos já sabemos que ao obscuro objeto do desejo de cada um de nós coloca-se também o desafio do difícil reconhecimento do padrão de juízo para julgar se este desejo é compatível ou coerente com algo que verdadeiramente tenha valor nesta vida.

No grande vale de lágrimas que é o mundo, podemos, pelo sim e pelo não, lamentar menos e e tentar compreender mais o que realmente acontece quando se elegem objetivos na nossa vida. Questionar o nosso padrão de avaliação sobre nós mesmos e sobre os demais já é um passinho a mais neste processo social.

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