domingo, 30 de maio de 2010

DENNIS HOPPER - UM ATOR ADMIRÁVEL - APESAR DO BAD BOY

MANOHLA DARGIS

Ator, cineasta, fotógrafo, colecionador de arte, homem de grandes quedas e de uma capacidade de sobrevivência ainda maior - Hopper jamais explodiu. Ao contrário dos vilões e malucos que interpretou ao longo das décadas - o psicopata com problemas maternos em Veludo Azul, o terrorista ressentido de Velocidade Máxima - sobreviveu aos bons tempos, aos maus tempos e a alguns momentos terríveis. Cavalgou em sua moto pelos anos finais da era de ouro de Hollywood, e ao mesmo tempo introduziu um novo cinema, em Sem Destino. Foi amigo de James Dean, interpretou o filho de Elizabeth Taylor, trabalhou com Quentin Tarantino. Foi rico e infame, achado e perdido, foi a revelação do cinema e seu último sobrevivente.

Recentemente, Hopper, que completou 74 anos no dia 17 de maio e andava recluso, voltava às notícias. Em março, seu advogado, em um processo contencioso de divórcio, envolvendo Victoria, sua quinta mulher, anunciou que o ator estava com câncer de próstata terminal e sua saúde o impedia de comparecer ao tribunal.

Na mesma semana, o emaciado, mas sorridente, Hopper surgiu em companhia de Jack Nicholson para assistir à cerimônia de inauguração de sua estrela na calçada da fama em Hollywood. Nicholson, o tempo todo ao lado do amigo, estava com uma camisa espetacularmente feia, decorada com o padrão da bandeira norte-americana e as silhuetas dos dois motociclistas malfadados de Sem Destino, o filme que fez de Hopper diretor e permitiu a Nicholson abandonar os filmes irrelevantes e de baixo orçamento. Foi um momento sublime e ridículo de Hollywood, a um só tempo real e completamente forjado.

Também foi o gesto perfeito para Hopper, que se alternou entre realidades aparentemente contraditórias por boa parte de sua carreira, vestindo uma tanga para Tarzan and Jane, Regained Sort of..., de Andy Warhol, em 1963, e trabalhando no papel de um informante em Os Filhos de Katie Elder, com John Wayne.

Inspirado por Vincent Price (sim, aquele Vincent Price), ele se tornou colecionador de arte e comprou um par de quadros juvenis de Warhol por US$ 75 - adquiriu outras obras-rimas de artistas como Roy Lichtenstein, Jasper Johns e Jean-Michel Basquiat em circunstâncias semelhantes. Mais tarde, quando Sem Destino foi lançado, Warhol imortalizou Hopper em silk screen e refletiu sobre a influência que exercia sobre o ator "com aqueles olhos loucos". Warhol declarou que "você nunca sabe de onde as pessoas aprenderão alguma coisa".

Sem Destino, um marco do cinema

No caso de Hopper, as linhas de influência talvez fossem mais claras do que pareciam inicialmente, variando da bandeira dos Estados Unidos em um dos quadros de Johns, por exemplo, à que o personagem de Peter Fonda usa como alvo nas costas de seu casaco de couro em Sem Destino. Hopper, que começou a pintar e a fotografar, largou a pintura e posteriormente a retomou em diferentes momentos de sua vida. Ele não tinha apenas olho excelente para comprar arte, também levou sua estética ao limite e, ocasionalmente, além dele.

Entre as mais notáveis das estratégias formais em Sem Destino está a edição propulsiva, dissonante, que caracterizava o trabalho de um dos grandes amigos de Hopper, o cineasta de vanguarda e artista plástico Bruce Conner.

Sem Destino reteve uma posição privilegiada na história do cinema norte-americano, ainda que menos por sua experimentação formal do que pelo impacto percebido do filme sobre a indústria cinematográfica, ilustrado em livros que ressaltam o papel desse trabalho na salvação de Hollywood. Em termos grosseiros, o filme sobre motociclistas da era da contracultura foi produzido com um orçamento de US$ 400 mil e faturou US$ 20 milhões na época do lançamento, provando que, com a estratégia correta de venda, a cultura alternativa era capaz de atrair os consumidores ("um homem saiu à procura da América. E não conseguiu encontrar...") E, no final de 1969, quando o filme foi lançado, essa estratégia de vendas se provou perfeita, especialmente junto às audiências jovens que viam personagens com os quais eram capazes de se identificar na história de dois motociclistas - Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Hopper)-, que depois de uma grande venda de cocaína viajam sem rumo pelo sudoeste do país e terminam mortos por um caipira agressivo.

Sem Destino foi grande sucesso no festival de Cannes de 1969, onde ganhou o prêmio de melhor primeiro filme. Ao estrear nos Estados Unidos, meses mais tarde, Andrew Sarris explicou seu triunfo na França em parte recorrendo a comparações com o Vietnã, escrevendo que "motocicletas, materialismo, misantropia e homicídio há muito servem como corretivos adequados sobre a vida norte-americana, para os europeus, e nunca mais do que neste ano de lei & e ordem e dos sangrentos combates em Hamburger Hill". Sarris se impressionou acima de tudo com a interpretação brilhante de Nicholson no pequeno papel de George Hanson, um advogado sulista alcoólatra a quem Wyatt e Billy conhecem na cadeia. Outros observadores, como um fã apaixonado chamado Richard Goldstein, que defendeu o filme no New York Times, viam algo mais: "Quero acreditar que Sem Destino represente o pôster de viagem para um novo país".

O filme certamente se tornou um modelo para o novo cinema norte-americano, mais jovem e emancipado do controle intelectual dos estúdios, em uma declaração de independência criativa que teoricamente durou até o momento em que o grande tubarão branco de Steven Spielberg devorou as bilheterias seis verões mais tarde, dando início à era moderna do cinema. De sua parte, Hopper, definido pelo crítico de cinema Peter Biskind como "o chapado guru da contracultura", continuou a ser o personagem principal na lenda de Sem Destino, tanto porque Hopper dirigiu, editou e protagonizou o filme quanto devido ao seu temperamento, aos seus abusos com as drogas, à sua arrogância lendária e à completa desorientação que ele exibiu ao longo das filmagens. (Hopper e Fonda dividem o crédito pelo roteiro com o escritor Terry Southern.)

Entre altos e baixos

Há um lado negativo em estar vinculado a uma lenda, e Biskind termina por vincular Sem Destino aos homicídios da família Manson, uma conexão que se deve ao menos em parte à reputação cada vez mais amalucada que Hopper criou em Hollywood. Hopper, que se descreveu como "maníaco" para Biskind, alimentava essa imagem com abuso de LSD, fetiche por armas, tendência por falar demais a jornalistas e surtos de violência física que culminaram em uma agressão à sua primeira mulher, Brooke Hayward, na qual ela saiu de nariz quebrado. Biskind termina sua avaliação sobre o novo cinema dos Estados Unidos nos anos 60 e 70 citando uma fala de Wyatt em Sem Destino: "Nós fizemos tudo errado".

Muita gente que acompanhou Hopper em sua encarnação seguinte deve ter pensado o mesmo. Em 1970, ele começou a rodar The Last Movie o último filme, o mais profético dos títulos. Financiado pelo estúdio Universal - os grandes estúdios estavam obcecados pela cultura jovem àquela altura -, ele viajou aos Andes peruanos para rodar um filme sobre um dublê que, depois do final da produção de um violento western, decide ficar para trás. Interpretado por Hopper, o dublê se apaixona por uma prostituta local, dirige um show sexual para turistas depravados e toma parte de outra filmagem, encenada pelos indígenas locais com equipamentos feitos de galhos de árvore - e tudo isso não necessariamente na ordem acima relatada.

Lisérgico e lírico, repulsivo e fascinante, The Last Movie é um instrumento bruto - uma cena mostra uma mulher norte-americana vestida em casaco de peles posicionada ao lado da foto de uma criança africana faminta - e nem de longe tão incompreensível quanto sua fama dispõe. Hopper disse que era uma história sobre os Estados Unidos e comparou o filme a uma "pintura expressionista abstrata, na qual o pintor revela as linhas do rascunho, mostra as pinceladas, permite que a tinta escorra". A crítica Pauline Kael aproveitou essa metáfora e comparou a edição de Hopper, consideravelmente mais frenética do que em Sem Sentido, com a de um pintor que rasga suas telas.

O consenso era o de que ele havia destruído sua carreira, ainda que seu maior erro, desconsiderados o excesso de bebida e drogas, talvez tenha sido permitir a presença de jornalistas nas locações. Os repórteres compareceram, viram o pior e seus editores propuseram manchetes como Dennis Hopper: Bem Alto nos Andes. A reportagem mais negativa pode ter sido uma matéria de capa da revista Life, que mostrava Hopper de chapéu preto e com uma flor em uma mão e uma bola de futebol americano no outro braço. "Seria de admirar que estejamos na situação em que estamos", escreveu um leitor indignado da revista, "quando nossos filhos consideram que detritos como esse são seus heróis?"

Primeiro Sem Destino e agora isso! Havia pouca dúvida de que os exageros pessoais de Hopper prejudicaram o trabalho, mas se The Last Movie tivesse dado lucro provavelmente a história relatada seria diferente. O filme não teve chances, no entanto - mal lançado, alvo de zombarias e logo descartado, mais ou menos como Hopper. O ator se manteve afastado do público até que voasse às Filipinas, em 1976, para interpretar o repórter fotográfico chapado em Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Tagarelando como um macaco alucinado, com câmeras penduradas do pescoço, recitando versos de T. S. Eliot, sujo, descabelado e completamente maluco, o personagem é uma maravilha, mas doloroso. A linha entre a presença de Hopper na tela e sua reputação do outro lado das câmeras parece indistinta, e isso causa incômodo - o que também se aplica a diversos dos papéis posteriores que ele desempenhou.

Se o prazer de seu desempenho vem acompanhado de desconforto é porque Hopper aparentemente nunca teve medo do ridículo - uma qualidade importante em um ator. Poucos de seus colegas conseguem alternar humor e comédia da maneira enervante que ele demonstrou em Veludo Azul, de David Lynch.
Onde começa o personagem e acaba o ator? Não se sabe, e esse desconhecimento era o espaço em que Hopper operava. Antes que ele começasse a falar demais, tanto nas telas quanto fora delas, essa abertura pessoal podia parecer encantadora, como quando ele foi fotografado lendo Stanislavsky no estúdio de Rebelde Sem Causa. Hopper tinha 17 anos, interpretava um malfeitor chamado Goon e escutava atentamente os pronunciamentos de James Dean, que o aconselhou a começar a tirar fotos e a ver o mundo emoldurado. Anos depois, essa mesma sinceridade causava engulhos, como em The American Dreamer, um documentário sobre a produção de The Last Movie no qual Hopper tira a roupa e demole a barreira entre público e privado (a cena está disponível no YouTube).

Havia algo de repelente naquele excesso de exposição, mesmo que fosse essa a qualidade que atraía as pessoas a continuar assistindo. Há momentos em que tamanha franqueza parece uma espécie de autoexploração, como em Hoosiers, um drama sobre basquete no qual ele interpreta um alcoólatra tentando deixar a bebida. Mas foram momentos como esses que fizeram de Dennis Hopper o homem que ele foi: a disposição de remover a pele de maneira dolorosa, como em alguns de seus trabalhos como ator e filmes que ele dirigiu, entre os quais Out of the Blue, uma história brutal sobre o amadurecimento de um jovem.

Em fevereiro, Peter Bart, colunista da Variety e ex-executivo de cinema, refletiu sobre a carreira de Hopper, escrevendo que ele "se saiu muito bem como ator, cineasta, colecionador de arte e fotógrafo, e fez todo o possível para se autodestruir em todas essas arenas". Barta acrescentava que "parece impossível que alguém tenha estrelado um filme como Assim Caminha a Humanidade e ainda assim perdido o estrelato, ou dirigido uma obra essencial como Sem Destino mas desaparecido como cineasta". É uma das formas de contemplar uma carreira, ainda que diversas mostras de arte, retrospectivas de filmes e livros como Dennis Hopper & the New Hollywood e Dennis Hopper: Photographs 1961-1967 revelem uma vida diferente, que Bart provavelmente não compreenderia.

Se essa vida não se ajusta às ideias de estrelato que temos é porque Hopper mapeou seu caminho sem ajuda praticamente desde o começo. Já que quando ele assinou com a Warner Brothers, em 1955, o velho sistema dos estúdios estava entrando em colapso, o ator não teve muita escolha a não ser determinar sozinho o seu rumo. Ele abandonou os estúdios, foi a Nova York estudar com Lee Strasberg, começou a colecionar arte, estrelou o filme experimental Night Tide e colaborou em um projeto de arte com Marcel Duchamp. Fotografou seus amigos famosos nos estúdios e fora deles, e o reverendo Martin Luther King Jr. no Alabama. Ajudou a fazer de Nicholson um astro e a salvar o cinema dos Estados Unidos. Nada mal para alguém que "fez tudo errado".

Nos arquivos da Margaret Herrick Library sobre Hopper, em Beverly Hills, há um resumo biográfico datilografado, um texto de seis páginas típico dos esforços dos estúdios de cinema em 1959. O texto menciona seus créditos como ator e medidas (1,78 metro de altura, 72 quilos de peso), e conta uma história charmosa. Hopper estava completando 23 anos naquele ano, havia retornado de Nova York a Los Angeles e não estava trabalhando muito. Mas o texto aponta que ele se mantinha ocupado. "Quando não está trabalhando, Dennis acorda por volta das 10h, lê Nietzsche (e teatro moderno) à beira da piscina em seu apartamento em Hollywood, visita galerias de arte e livrarias e assiste a filmes estrangeiros. Ele é intenso em tudo que faz". E estava apenas começando.

(Tradução: Paulo Migliacci)

nota: ELE MERECIA UM TEXTO DESTE TAMANHOA AQUI. Jamais me esquecerei do impacto de Sem destino em mim. Derrubou de uma vez por todas o mito da América boazinha. E a trilha sonora é recomendável para qualquer um.

Obs. Quero agradecer o comentário do Goliardos, mas informar que o texto acima não é meu. Pois copiei de um texto apresentado no terra por MANOHLA DARGIS (e traduzido por Paulo Migliacci,) a qual é a editora chefe da crítica de cinema do New York Times cuja assinatura é facultativa a todos que quiserem exercitar o seu ingês e aumentar o seu conhecimento e nivel de informação recebendo por e-mail as deadlines da capa do NYT. Cito aqui no bom espírito de apontar, inclusive aos meus alunos e amigos, um exemplar de qualidade de um necrologio.

Destaco a qualidade do texto e a abordagem compreensiva da personagem que foi Dennis Hopper. Creio que se todos tivessem uma vida como a dele não haveria graça nenhuma a vida dele, mas por outro lado a vida de todos nós bem compreendida é extremamente interessante: basta olhar melhor e de mais de perto.

Mas este é um outro papo sobre vida comum e biografia de homens e mulheres notáveis que me leva a afirmar que toda vida vivida com um sentido autêntico é notável, com seus altos e baixos e a luta pela sobrevivência, crescimento e recuperação dos danos e prejuízos que todos temos na vida. Somente uma pessoa muito pusilânime ou cínica olharia para a vida dos demais mortais julgando que a sua é superior. Pois bem, Dennis Hopper foi um outsider, um artista que arriscou tudo e apostou tudo na vida - como diz a autora acima - foi capaz de comprar coisas que não valiam nada e que hoje valem milhões e foi capaz de gastar milhões com coisas que não valem nada, pelo menos à primeira vista. Mas esta parte do riscado foi parte da forma através da qual ele deu um sentido à sua vida, um sentido superior - é preciso admitir, mas não superior a sua vida, superior aquilo que você ousaria admitir como sentido da vida.

O sentido da vida não está fora dela. Como diria Wittgenstein.

Um comentário:

  1. Olá Daniel, muito bom seu texto sobre DENNIS HOPPER. Teve grande participação desse ator que embora tenha deixado sua tragetória no cinema ficará, neste, eternamente. Infelizmente morreu.

    Abraços e ótimo post.

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