segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O QUE NÃO RETORNA - SOBRE DIFERENÇA E REPETIÇÃO

...Por que, na primeira vez, Zaratustra fica zangado e tem um pesadelo tão terrível, quando o anão diz que "toda verdade é curva, o próprio tempo é um círculo"? Ele explicará isto mais tarde, interpretando seu pesadelo ele teme que o eterno retorno signifique o retorno do Todo, do Mesmo e do Semelhante, nele compreendido o anão, nele compreendido o menor dos homens....DIFERENÇA E REPETIÇÃO DE DELLEUZE



DA PEQUENA DIFERENÇA - Um dos livros que mais me atraiam nos tempos de formação. Minha primeira visão dele foi tão nebulosa que eu julgava que ia me perder em suas páginas. Passados 27 anos daquele volume em Francês da PUF que me assustava também já na capa e no índice, tomo ele nas mãos feliz com sua síntese. Hoje não tenho mais nenhum medo do desconhecido, não creio mais que sei se a síntese será negativa ou positiva a priori, não me vejo mais como precisando ser detentor de todos os conceitos para poder pensar, julgar, interpretar e decidir a minha vida. Já aposto bem mais na diferença e me distancio cada vez mais da repetição neurótica ou paranóica do mesmo conceito ou da mesma lógica. Os fantasmas não voltam mais comigo perto e nem as sombras ficam sem a luz que as supera. O que é vazio de um sentido superior e o que é por sua própria natureza não interpretada, sem significado não me preocupam mais. Não tenho mais medo do escuro, não tenho mais medo dos riscos do pensar corajoso. Não escrevo e nem penso mais com raiva, ódio, aflição ou angústia. Ainda que vejo o outro como existente, ainda desconfio de que nele só há representação. Fico olhando sem acreditar em sua existência, nem em suas razões que anulam seu ser. Olho para o rosto em pânico e com medo e percebo que a insegurança quase atávica faz tudo se repetir e o anão retornar porque lhe dá abrigo uma consciência insegura, temerária e que só resolve pela via negativa seus dilemas., Toda vez que se v~e confuso foge de si e do seu desejo. Quebra a cara mais por medo e por uma fantasia dolorosa e perniciosa do que por alguma fatalidade. E vai assim para continuar seguindo no resto da vida sem nenhuma síntese positiva possível. Toda dialética sucumbe justamente nisto: na representação, na diferença entre o representado e a representação. Você não tem acesso ao outro, não compreende o outro e sua singularidade te desafia. E você não consegue aceitar a tal coisa em si determinada completamente por outra vontade. Sim já senti tudo isto. E interpretar o mundo não poderá ser jamais projetar a mesma imagem que já se viu antes num novo quadro. As cópias, as máscaras, as dissimulações e semelhanças nos afastam da verdade, operam com o fugas e totens da perda e o que é singular deixa de ser compreendido com justiça porque o tomamos como mais um exemplo de um conceito ultrapassado e que não tem mais uso. Se não se pode ser feliz sozinho, também não se pode ser feliz junto, porque ser feliz é uma decisão singular com a qual só podemos nos encontrar se já a aceitamos em nós mesmos. A diferença não aparece na repetição, porque se repete não será diferente. O amor não é um espelho no qual olhamos para nós mesmos mais uma vez de novo. O amor é a afirmação incontestável de um outro por isto ele se aproxima tanto de uma negação. O reflexo que contraria a expectativa apresenta a indomável diferença. A primeira vista ela parece menor, mas vista mais de perto ela começa a nos assombrar, espantar e surpreender. Sim, é bem difícil suportar isto...pois o que é complexo não aceita redução ou uma análise definitiva. E gostamos muito de poder manter sobre controle, interpretar e delimitar tudo aquilo que temos à nossa frente. Mas nos escapa...e isso traz a pequena diferença, ao detalhe sua extrema grandiosidade.

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