domingo, 22 de janeiro de 2017

VIDA E PENSAMENTO COMO EXISTENCIAIS - TEXTO REEDITADO DE 2015

Dois anos atrás, após alguns muitos anos de certa relação de admiração à distância e pequenas incursões em pequenas obras e peças do existencialismo francês, comecei a ler OS MANDARINS, o romance de pós guerra de Simone de Beuavoir onde ela narra através alter egos a vida dos heróis da resistência - ela, Sartre, Camus e Nelson Algren, depois que a guerra acabou e surgem outros conflitos de caráter mais pessoal na vida deles. Uma das características mais interessantes colocada na obra é o conflito e a diferença entre a construída ficção e a realidade que efetivamente se deu. Simone escreve para episódios que vão ser bem conhecidos posteriormente outros desfechos, soluções alternativas, não para distorcer a realidade em perspectiva positiva, mas para mostrar que é plausível, razoável e interessante literária e biograficamente pensar e entender que possa ser ou seja diferente. E aqui creio que está um dos trunfos percebidos pelo existencialismo: de que a nossa liberdade mesmo é permitir com que as coisas sejam diferentes do que são ou que elas terminem sendo realizações que derrotem as expectativas mais negativas - como exercício de liberdade e escolha - sobre o que virá e que pensar nesta dimensão de abertura e mudança da vida é um belo desafio existencial. Vejo nele então um texto libertador e desafiador à nossa vontade e pensamento.

O existencialismo francês tem também esta maravilhosa característica para mim: inclui teatro, literatura, poesia, pintura, música, teoria filosófica e social e seus progenitores Sartre e Beauvoir, por assim dizer, transitam entre tudo isto. Mas no destino deles trabalhar é escrever. E ler eles também parece trabalhar para quem se dedicar a isto. E escrever e ler o que foi escrito por eles e escrever sobre eles acaba mesmo sendo tanto refletir sobre a vida, fazer a ficção necessária da vida encobridora e reveladora da vida, quanto construir a teoria ou a crítica que lhe explique ou corrija os caminhos e os descaminhos da vida. Uma vida em que reflexão e ação precisam ter encontros, serem cúmplices, amantes e parceiras de viagem. Com uma espécie de relação pendular entre ficção e crítica, literatura e teoria vemos em ambos textos que trazem à tona a difícil tarefa de ultrapassar ou suportar limites existenciais, subjetivos e objetivos. É uma bela história das múltiplas relações possíveis entre certas personagens dinâmicas e que em uma dimensão são livres e em outra dimensão parecem ser prisioneiras de seus limites morais e de compreensão da vida.

Confesso que Sartre é ainda para mim um ícone cada vez mais fortalecido e uma espécie de grande revelação na minha inicial disposição a estudar filosofia. Servia como um imã que me intrigava e atraia muito o interesse na pré-adolescência e adolescência. Ele morre quando eu tinha 15 anos e biograficamente isso marca meu assombro com o gigantismo dessa personagem filosófica. E, assim como Camus, com seu mito de Sísifo, a história de um desgraçado que precisa recomeçar todos os dias a jornada de levar uma pedra até o cume da montanha, condenado a repetir a rotina de um esforço que aparentemente é vão e improdutivo. Cuja analogia entre Prometeu acorrentado tendo seu figado devorado o dia inteiro e sendo reconstituído durante a noite para ad infinitum ser devorado de novo e reconstituído de novo. E esta rotina aparentemente torturante da vida industrial que manda repetir a mesma operação até se esgotar a matéria prima, ou a encomenda ou o mercado ou o desejo do consumidor por tal coisa. Tema este que sempre me vem à cabeça associado ao O Trabalho e os Dias, de uma vida aparentemente interminável dedicada a ganhar cada dia com um grande esforço de trabalho. E quem já trabalhou fazendo força, arando a terra, carregando peso, subindo e descendo escada, levando uma pasta cheia de livros para lá e para cá - a parte braçal do professor e do vendedor de livros que é comum a ambos, sabe o que significa ganhar o pão com o suor do próprio rosto ou com suas próprias mãos.

Porém, acho que eu sei algo mais sobre ambos e outros e minha intuição não me engana que esta mulher era como que uma orientadora geral de muitos e me admira que as prioridades dela eram absolutamente articular o pensamento com a vida, sem representação, sem máscara, sem aquele excesso de interpretação e floreio e sem símbolos ou retórica. Nada hoje me toca mais do que isso: o pensamento deve ser vivido, senão não significa nada. E nesta flexão entre pensamento e ação que deveria estar a liberdade ou o limite da nossa liberdade perante a tortura e a repetição torturante dos trabalhos e dos dias, da rotina na fábrica e do peso do mundo que temos a ilusão de carregar em nossas mãos ou em nossos cérebros.


E é por algo realmente existencial que os sinos dobram meu amigo, que as ideias surgem e os sonhos e desejos nos revelam. E só por existenciais que há arte e engenho, transformação e superação. E o trágico ali à sua espreita aguardando seu descuido. Tens medo? Ouse! Tens confiança? Sede prudente!

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