domingo, 11 de dezembro de 2016

NOTA SOBRE HEIDEGGER, FILOSOFIA E DESCAMINHOS - TERCEIRA VERSÃO DANIEL ADAMS BOEIRA•DOMINGO, 4 DE DEZEMBRO DE 2016

“Mais uma vez um caminho da filosofia perde-se no desconhecido.”

Heidegger pronuncia esta frase quando da morte de Max Scheler (1874-1928). E esta é a frase final da biografia Heidegger: Um mestre da Alemanha: entre o bem e o mal,  escrita por Rudiger Safranski,  página 500. 

Filosofar é sempre um jogo ruim. Pelo menos do ponto de vista de quem acredita que irá ganhar alguma coisa com a filosofia. Porque você joga mais do que vence. E jogar mais aqui não significa apenas mais movimentação, mas sim altas apostas e expectativas que devem ser acompanhadas de muito esforço e que trarão, ao fim e ao cabo, poucos resultados. Quando digo isto lembro apenas que você não terá vitória e nem vitória fácil em filosofia. Você terá prazer, emoções, ideias, encontros e desencontros, aproximações e afastamentos, problemas e questões a resolver e a rever e isso nunca pára, nunca acaba.  

Ou você se desgraça na entrada, ou no meio da estrada ou no final. Já chamei muitos filósofos de desgraçados, mas creio que o mais correto seria desencaminhados, porque muitos deles ainda tem graça e ainda nos deixam sorrir ao ler e descobrir suas idéias. Mas o que mais ocorre é que nós nos perdemos com eles e eles também se perdem. Você sempre perde alguma coisa e muda em alguma coisa e o balanço e a avaliação é sempre provisória. A conta não fecha. E no final tudo se perde no desconhecido. Isto é, no final, tudo se desencaminha de novo.

E tal como bem compreendeu Albert Camus (1913-1960), a pedra arduamente empurrada ladeira acima volta a descer ladeira a baixo e terá que ser levada de novo arduamente até o cume para voltar a rolar mais uma vez e sucessivamente até o infinito ou algum tipo de fim dos tempos que encerre esta aventura do mundo. Um detalhe é que deverá haver substituição e que muito poucos elevam a pedra até o cume da montanha duas vezes na vida. Então uma outra pessoa terá que se encarregar e se ocupar dela, porque o da última elevada se perdeu ou no caminho, ou no topo da montanha ou foi esmagado pela pedra e restou despedaçado e desgraçado ao sopé de uma imagem que o mito de Sísifo nos apresenta claramente. Assim, a filosofia nos leva a um tipo de desencaminhamento.  

Ler Martin Heidegger (1889-1976), nos dá uma mostra disto, pois quando crê que compreendeu o texto logo em seguida surge uma certa obscuridade que parece colocar tudo a perder. E isso ocorre com ele em diversas dimensões. Na interpretação da sua biografia, da sua obra e no alcance e influência de suas ideias. A obscuridade de Heidegger me parece até perdoada, mas o resto não.

Heidegger como interprete de outros é muitas vezes assustador. O seu trabalho de 1924 sobre O Sofista de Platão, por exemplo, me atrai muito por seu detalhamento de plano e também por anteceder Ser e Tempo, mas me dá medo, confesso. Já o texto dele Kant e o problema da Metafísica,  me pareceu sempre um dos textos mais interessantes que já li de interpretação de um autor e de Kant. Aliás, Heidegger sempre consegue ler os outros filósofos e lavrar pedras novas em seus terrenos próprios e avistar aquilo que poucos avistam em suas obras.

Porém, seguindo adiante, ele é deverás surpreendente e é impressionante para mim quando chego a compreender algumas de suas idéias presentes em suas próprias obras mais acessíveis e traduzidas para o português. Cito aqui e recomendo o volume da coleção Os Pensadores com as traduções de Ernildo Stein de diversos textos, as edições e traduções de Ser e Tempo, as diversas edições das Editoras Vozes, Martins Fontes e outras.

Quando chego em suas leituras dos clássicos - além de Kant, Descartes e Platão com os quais parece dialogar e debater em total e absoluta igualdade - e onde parte de seu pensamento se resolve por assim dizer na relação com o pensamento de outros ( Nietzsche, Hölderlin (se eu não botar trema aqui minha mãe me bate) e Heráclito, por exemplo, são assombrosos) e, também, algo do seu estilo e tratamento persistente de seus textos que aprece naquela prosa miudinha dele que vai cerzindo e costurando o texto quase milimetricamente e muito minuciosamente e algo que muitas vezes nos tira a paciência, porque cansa ver e ler alguém ruminando e atacando por horas, páginas e até mesmo meses e mais de uma obra uma espécie de cápsula de idéias.

Mas ele, é preciso reconhecer, não dá pulos, é muito persistente e focado, apesar da tal obscuridade eventual - que pode significar apenas que você não consegue pensar na terminologia dele ou no seu jargão como diria Adorno - não é mesmo um filósofo saltitante, porém de vez em quando vai nos levando naquele ruminar e de repente nos chuta para dentro de um abismo. De onde, no mais das vezes, não sabemos como sair ou simplesmente abandonamos a obra e o seu pensar sobre aquilo e tiramos umas férias da metafísica. Aliás, creio que ele deve ser o teste por excelência de quem pretende pensar a metafísica sem cordões, redes de salvamento e orientação espiritual. A fase poética dele eu não leio não. Confesso me sentir bem inferior a ele em sua leitura de poesia.

Tenho até pensado que se a sorte me der mais tempo de vida vou me dedicar cada vez mais a leitura de clássicos da literatura e da poesia com alguns filósofos e filósofas. Mas devo confessar que tenho preferido filósofos e obras mais obscuras, nebulosas e intrigantes, ainda que mantenha minha intuição fixa na obra de Wittgenstein desde a graduação e, em especial, na Da Certeza como tarefa de leitura e investigação de alguns dez anos para cá.

Até a crítica da técnica em Heidegger, eu acompanho numa boa, aquelas obras introdutórias sobre o que é a metafisica e a filosofia são ótimas para treinar nossa concentração e também para testar nosso raciocínio de leitor, mas confesso que tenho muita curiosidade sobre seus textos mais misteriosos e tudo que ele consegue fazer quando mergulha nos pré-socráticos. (Os textos dele, Nietzsche e Hegel e outros como Jean Beauferet em comentários sobre os pré-socráticos naquele volume da coleção Os Pensadores são muito recomendáveis aos estudantes que queiram entender a intrincada trama entre um autor e as sucessivas abordagens dos pósteros.)

Em biblioteca de um mestre nosso - a quem devo bem mais do que posso pagar em uma citação - olhei algumas poucas imagens de fac-similes dos manuscritos dele - hoje você pode ler isto por aqui, só que texto é em alemão é claro - e aquilo me deixava espantado também. Imagina o cara dar um passeio na floresta negra pela manhã, voltar para casa sentar e escrever ou reescrever 100 páginas em um dia. É no dia seguinte refazer tudo e revisar tudo e concluir alguma etapa do seu manuscrito até a madrugada. Imagine que ele fazia isto todos os dias... 

A gente pode imaginar a intrincada trama de um autor como Heidegger em sua obra completa e aprender a respeitar ele muito mais pelo seu caminhar e desencaminhar próprio. E eu creio que todo bom Dr. ou Dra., Mestre ou Mestra, Especialista, Bacharel ou Formando, ou seja, qualquer acadêmico mais dedicado o faz ou pode fazer. Olhar para obra inteira de um cara destes a medida que vai lendo o que pode, compreendendo mais ou menos e seus textos e a medida que vai avançando, parece bem começar a desenhar um quadro ou esquema em uma certa panorâmica e se põe a perceber, com a ajuda de outros interpretes e introduções, as ligações entre todos os textos, as chegadas de idéias novas, as idas e vindas de velhos problemas e também as tais influências e as revisões de questões que eles perseguem. Nós mesmos, passados alguns anos voltamos e devemos voltar sobre muitas coisas, como se houvéssemos esquecido algo, lido muito rapidamente ou passado por cima. Para mim, o chamado segundo Heidegger parece tentar romper com tudo isto.

Eu mesmo confesso estar mais interessado em literatura ultimamente, por um impulso que me parece semelhante. A busca de um pensamento que se conecte com os mistérios, escolhas, acidentes, gostos, compromissos e necessidades da vida. Não consigo mais pensar filosoficamente de forma a separar reflexões filosóficas de questões objetivas de minha existência e sua dimensão passageira e incerta. E que não é bem uma fuga, mas talvez uma contra fuga. Estar mais ocupado com os problemas da vida e suas diversas versões, suas ficções e narrativas e não tanto em busca de uma teoria de totalidade que responda às velhas questões de forma basilar ou conceitualmente explêndida. Me parece que buscamos conceitos de forma diferente quando damos estes passos. Hoje disse que quando não possuímos conceitos, não podemos ensinar nada e que então precisamos construir conceitos ou buscar conceitos prontos em alguém, mas eu creio que as vezes um conceito inacabado e incompleto é muitas vezes mais interessante. ( Sei e lembro do probleminha dos juízos sintéticos a priori aqui.)

Minha tergiversação aqui, por exemplo, está ligada a questão mais fundamental de porque lemos estes caras ou estas abordagens deles? Porque é um jogo de soma zero mesmo e é por isto mesmo, assim me parece, que nós apostamos alto e o valor da aposta é justamente o nosso problema. Todo mundo sabe que jogadores perdem muito dinheiro, assim como filósofos perdem muito tempo até encontrarem um prêmio que poderá adiante ser impugnado, refutado ou superado. Assim, a nossa força é muito dispendida na abertura de uma grande dificuldade pedreira acima e adentro. Mas nós parecemos escolher sempre a pedra mais dura para cortar, cavar e carregar. Eu diria, para lembrar minha tia que me fez pensar por meses nesta questão: nós não procuramos o caminho mais curto entre um ponto e outro não. E até mesmo os mais disciplinados escondem grandes e tortuosas perdas de tempo.

A clareza aparece nas exibições, mas a fabricação ou construção de conceitos deve ser muito pior do que fabricar linguiças. Bismarck, por exemplo, é um inocente neste ramo de atuação. O fardo mais pesado é o nosso escolhido, mas é justamente isto que acaba por nos definir na filosofia e não em outras especialidades tão pesadas também, mas cujo tereno e lavras parecem estar em boa ordem, ainda que não existam só certezas nestas outras ocupações.

Eu reeditei o texto duas vezes até chegar nesta nota que o ampliou e tentei corrigir algo de suas imperfeições porque quando escrevi a primeira versão estava muito sonolento, por exemplo, e deixei fora certos detalhes do meu pensamento sobre Heidegger, a filosofia e nossos desencaminhamentos que me parece importante também.

Se alguém ler isto aqui - este arrazoado posto assim nesta desordem toda - e gostar, recomendo que fuja da filosofia e não perca tempo com ela e vá ler algum livro de poesia ou decorar as obras completas dos Beatles em versões inglesas, francesas e portuguesas, que perderá menos tempo do que tentando colocar as suas ideias em ordem, ou entender a ordem das minhas. Se alguém se aborrecer com esta recomendação provocadora, recomendo que não faça nada o que garante nenhuma perda de nenhum ganho também. E quem não gostar que faça filosofia, ou curse tal coisa para provar para si mesmo que é capaz de se organizar melhor e pensar melhor.

Um abraço...


Em um comentário inoportuno talvez, ao meu colega querido Renato Duarte Fonseca que comenta a dificuldade e obscuridade nas leituras das escrituras de Heidegger.  

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