terça-feira, 12 de julho de 2016

O NOSSO MUNDO TAL COMO O CONHECEMOS ESTÁ SENDO DESORGANIZADO DE NOVO: O CAPITALISMO COMO UM QUETZALCOATL, SHIVA OU SATURNO?



Não se trata só de um Golpe, mas sim de vários Golpes, retrocessos, crises, recuos históricos e que ocorrem em todo o mundo. Se você começar pela tal primavera árabe, passar pela recessão européia e americana, pela crise se agravando no oriente médio, os retrocessos na Comunidade Econômica Européia, saída do Reino Unido, o ressurgimento da ultra direita em diversos países da Europa, crise na Grécia, Espanha e até mesmo na Irlanda e somando-se a crises institucionais em diversos outros países na América Latina e não dá para falar só em corrupção ou usar a corrupção como argumento neste quadro, mais as crises provocadas pelo terrorismo, os conflitos no entorno da Turquia, Síria, Curdistão, Chechênia e outros países vemos uma desorganização quase integral da ordem mundial.

Comecei a pensar na grandiosa dimensão e impacto disto na nossa vida e na nossa leitura do mundo quando estive repensando com meus colegas de área de humanas em reunião que nosso mundo está sendo desorganizado. E a questão aqui não é tanto provar isto, mas sim pensar como isso ocorre e como vamos responder a isto? Pergunta esta que foi respondida no inicio do século XX por alguns líderes políticos e que hoje pode se colocar para os cidadãos e cidadãs comuns. Não tem como não lembrar aqui de um Stefan Zweig que olha para o mundo se dissolvendo entre as duas guerras mundiais.

Talvez – e esta é a pior hipótese que me ocorre - acabaremos nós todos entrando em uma guerra para sobreviver. Quase como uma ficção cinematográfica. Quando você assiste algumas ficções americanas de guerra total, invasões alienígenas, guerras zumbis e todas as outras formas criadas de apocalipse, pense como se sentem os povos invadidos e espoliados da Ásia, da África, Oriente Médio, América do Sul e outros?

A menor sensação, mas que para nós é também perturbadora, é a de que “novos governos” querem destruir todos os nossos direitos e que nosso mundo está se dissolvendo, nossos empregos desaparecendo, nossos bens perdendo valor e sendo descartáveis com nós juntos. A pior sensação é ver nossas casas sendo demolidas, destruídas e derrubadas, bombas caindo ali aonde vivíamos até pouco tempo atrás. É quase um apocalipse global. Nosso mundo está sendo desorganizado em diversos sentidos.

Quando você olha para o que ocorre em todos os continentes observa sinais de dissolução do sistema de divisão social, distribuição de bens e direitos e um reordenamento de tudo que pode amparar os seres humanos que não possuem capital ou que não estão na camada superior de dominação, exploração. Aqueles que não possuem salvaguardas da elite, investiduras e autoridades patriarcais serão dizimados.

Este sistema de exploração promove, então, uma crise de ajustamento para reorganizarem tudo de novo. Tal como uma divindade criadora e destruidora. Vivemos um tempo semelhante ao anterior à primeira guerra. Tudo que existe parece estar realmente em jogo hoje.

E nós somos apenas elementos na camada mais inferior do sistema. Ideologicamente vejo que a retomada do fascismo na Europa, América, Ásia e aqui no Brasil, marca e repete justamente o processo pré conflito. A nova ordem é apenas uma nova desordem mundial que arrasa os pilares e edificações anteriores para substituir por novas edificações e estruturas.

Veja bem, meu caro e minha cara leitora o que você pensa sobre isto. A tua leitura disto pode significar algo para a nossa sobrevivência. Este é apenas um resumo da abordagem que fiz num debate da minha área de ciências humanas preparando uma tarefa. Lembro que na ocasião os colegas concordaram e partimos para a sequência  das tarefas colocadas, mas resolvi escrever porque me dei conta da importância disto.

O exemplo da análise de Piketty sobre o novo ciclo de acumulação do Capital lembrada por Domingos Alexandre que “num mundo o de as 62 maiores fortunas se equivalem ao que possui a metade mais pobre da população da Terra...o que podemos esperar...eles têm o poder e não vão abrir mão de suas fortunas...”

Aliás, me parece necessário pensar contra as abordagens tradicionais que dizem que a desorganização é uma crise do capitalismo, na minha abordagem de fundo falo que a crise não é do capital, mas sim que a desorganização é um processo de reajustamento do capital com propósito de reforçar o seu regime de acumulação e a sua supremacia política à qualquer preço. Nesta conta democracia, direitos humanos, ideais liberais ou social democratas são apenas bagatelas na mesa de poker real.

A crise é vista, assim, como uma crise de encomenda – ainda que não se possa satisfazer a paranóia completa com um fórum de deliberação ou de conspiração do capitalismo global autoconsciente – uma crise que toca seus canhões  na direção dos trabalhadores, seus direitos, nações periféricas e suas instituições e algumas nações centrais também onde os rentistas de segunda linha sucumbem para promover mais concentração.

O capitalismo, já se notou antes, faz um cálculo de rentabilidade sobre tudo e convive muito bem com contradições, mas ao contrário é a vida humana, a vida das pessoas que sofre. Para o sistema derrubar milhares de casas, destruir cidades inteiras, desabrigar milhões ou gerar milhões de imigrantes se encaixa bem no jogo de construção e reconstrução do sistema de ganhos e perdas. Catástrofes, massacres, genocídios e toda e qualquer forma de acontecimento natural ou humano abre espaços para as agências de reconstrução. O que ocorreu no Iraque e provavelmente o que vai ocorrer em muitos outros lugares é um exemplo disto.

Exatamente como um Deus demolidor o capitalismo põe a prova seus filhos e abala todas as estruturas arduamente conquistadas ou construídas! A maioria das análises da esquerda fica esgrimindo uma crise no capitalismo como se sua hora estivesse chegando e é bem o contrário disto.

A crise inviabiliza a mudança estrutural e social, agrava pela excepcionalidade e anormalidade o sistema de exploração e torna ele aos olhos da elite mais necessário.

Eu penso, então, ao contrário dos que se glorificam julgando que o capitalismo irá ruir com a crise e perder seus fundamentos, porque percebo que quanto mais piora e se agrava a crise mais inviável fica a ruptura com o sistema. Tudo se passa como se a necessidade de migalhas aumentasse a opressão e a dependência. Veja os países em crise. A esquerda toma o poder democraticamente e sucumbe por insuficiência econômica.

É a crise, portanto, que sustenta e alimenta o sistema...A necessidade de reconstruir a terra arrasada valoriza e ressignifica o empreendedor, o investidor e o capitalista.

Mas eu não vejo assim. Olhando para o século XX e XXI, vejo as guerras e as destruições como válvulas de acumulação e concentração de poder do capital. E o fato delas se darem na periferia dos grandes centros do capital mostra isto também. Daí sobrevém um novo ciclo de abundância e estabilidade.

Porém, como agora toco também no clássico tema dos ciclos econômicos e, além disto, no tema do jogo de expansão entre periferia e centro e nas mudanças dos centros econômicos e políticos vou encerrando minha digressão fatalista aqui e deixo apenas a pergunta no ar: Como interpretar isto de modo a induzir um resultado diferente do tradicional que envolve levar a crise até seu limite máximo e depois passar ao esforço de reconstrução de uma PAX de novo temporária?       


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