quarta-feira, 20 de julho de 2016

A ESCOLA SEM PARTIDO E A TUTELA DOS CIDADÃOS


Hoje iniciei o dia decidido a tratar deste tema. Uma grande amiga criticou o cabotinismo do texto do Marcelo Rubens Paiva, não sem pedir desculpas e isto me motivou de vez a terçar aqui algumas idéias que eu creio que estão na tradição mais democrata e anti dogmática do nosso mundo ocidental. Apesar de minha formação ideológica ser de esquerda tenho forte inclinação como muitos brasileiros, aliás, eu e muitos companheiros e companheiras de meu partido, nos colocamos sempre a defender mais democracia, a defender a radicalização da democracia e a expressar isto com muita convicção tanto em discurso quanto na prática, ainda que alguns tenham muita dificuldade para entender a importância disto é o papel conciliador de quem defende isto.

Aliás, tive este debate com muitos companheiros no último sábado e se confirma esta posição. Nós não disputamos o poder para possuir o poder, mas sim para compartilhar o poder com a sociedade de forma mais radical. O orçamento participativo é uma das formas disto como os conselhos e as conferências e existem outras formas de democracia direta e participativa também na sociedade e nas comunidades que precisam ser mais valorizadas e não desprezadas.

Minha amiga e, aliás, grande intelectual e tradutora brasileira Denise Bottmann merece todo meu apreço. Não precisa se desculpar. Eu adorei o teu comentário por várias razões. A primeira delas é que quando compartilhei o texto do Marcelo fiquei pensando em quem iria criticar o caráter estereotipado dos professores que ele caracteriza. Em Relação a isto eu achei engraçado, mas também fiquei pensando na história dele e de como deve ter sido a infância dele sem ter uma boa explicação ou uma explicação correta para o desaparecimento do pai. E assim mudei de plano no debate para entender o quanto devia ter sido importante na biografia dele que em parte é narrada acima este tipo de professor. O texto é um excerto de um texto maior publicado no jornal e que vem junto de um ataque de certa forma ao projeto escola sem partido.

Eu tenho pensado muito sobre isto. Lido muita coisa. Desde defesas solenes até ataques rebaixados e, também, ontem apareceu o primeiro texto derrotista dando às favas contadas. Penso que o problema é que algumas pessoas não conseguem sair do fla flu,do revanchismo eterno que se coloca hoje no Brasil e que vem sendo cevado desde a primeira vitória do Lula. Tudo na lógica de que a democracia só serve se eu vencer. E é um sinal claro do grande conservadorismo da elite ou pseudo elite brasileira, o que inclui um montão de gente que tem fantasias de classe e ilusões de consciência.

Sou professor a mais de 20 anos e nunca fiz proselitismo político. Faço a crítica econômica, a crítica política, a crítica cultural, a crítica também religiosa e, também, a crítica esportiva e não creio mesmo que tenha mudado a cabeça de algum aluno, salvo ter atenuado suas crenças e convicções, do mesmo modo que muitos alunos e alunas também tem feito isto comigo.
Creio que a nossa sociedade, a escola e os professores precisam mesmo é serem democráticos, liberar à crítica e sem culpa para todo e qualquer tema. E isto é o contrário da censura. Já tive colegas professores de direita que faziam proselitismo em sala de aula e os alunos vinham me denunciar que eles faziam ataques pessoais e eu só respondia que eles são livres para pensar o que quiserem e que eu gostaria de ver este debate aberto na escola com cada professor defendendo suas posições perante todos e suportando o contraditório. É isto que eu acho que o pessoal da escola sem partido não aceita. Eles não aceitam que o contraditório às suas crenças e convicções seja posto na escola. Eles tem aversão ao debate e tentam apenas ser a voz oficial da verdade.

Do meu ponto de vista podemos transformar este debate num belo pretexto para questionar os meios de comunicação, não para impedir eles de terem partido, mas para garantir que todos os partidos e todas as formas de pensamento tenham espaço também. O que o escola sem partido acaba trazendo à baila é também a intolerância atávica e a paranóia de controle típica daqueles que querem dominar a sociedade e os cidadãos de forma absoluta.  É o velho impulso autoritário do senhor feudal sobre as crenças e convicções dos seus servos e vassalos, o velho impulso autoritário do colonizador sobre o colonizado, como o impulso autoritário do rei sobre seus súditos, o impulso autoritário do senhor sobre o escravo e, também, por último o velho impulso autoritário e sobejo de militares sobre civis, dos poderosos sobre os oprimidos.  E todos sabem da intensa aversão que isto provoca em qualquer cidadão livre.

Eles, só para variar, não se contentam em ter o poder político, eles querem ter também o poder intelectual, moral, cultural sobre os pensamentos e as vidas das pessoas e é isto que nos não podemos aceitar. Porque está autoridade é excessiva e um abuso para o qual eles não somente não tem nossa autorização quanto sequer tem a competência intelectual, moral e cultural para reivindicar isto. Até porque tal competência não está na cachola de ninguém, de nenhum partido e de nenhum indivíduo.


Ora, eles precisam aceitar a democracia, a disputa de hegemonia e deixar em aberto para cada cidadão que adote, critique, mude ou conceba com sua própria reflexão a sua autonomia moral, cultural e intelectual. Para mim a coisa mais absurda do escola sem partido é pretender atacar uma suposta tentativa de tutela moral, cultural, intelectual, política e espiritual através da instauração de uma grande tutela sobre todos aqueles que são preparados para evitar justamente isto. É o big brother do Orwell em ação. E por isto mesmo é um projeto que se for aprovado estará fadado no Brasil ao descrédito e à superação. Já tentaram censurar tudo que é tipo de coisa no Brasil e nunca deu certo. O escola sem partido não terá vez simplesmente porque os cidadãos não vão aceitar serem tutelados!

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