domingo, 31 de julho de 2016

SOBRE A TRISTEZA E A ESPERANÇA

É triste, mas é de verdade. Me dói pensar que meu único consolo hoje é estar do lado certo de mais esta história...porém, talvez venceremos, talvez demore, talvez seja muito mais difícil, mas venceremos...espero ver isto e mesmo que não veja vou manter esta esperança em mim, não como um conforto, mas como uma lanterna ou fagulha de que é possível...de que a esperança e a felicidade podem se realizar, não por todo tempo, mas por alguns momentos na história, porque vale à pena...

sábado, 30 de julho de 2016

APRENDER A SOFRER

A vida é bem difícil mesmo, alguns momentos felizes e na maior parte da vida sofrendo e aprendendo a sofrer. É preciso ter força, mas é a tranquilidade e a sabedoria que realmente nos confortam. Se resolve o que dá é o que num dá a gente aguenta e tenta evitar. Só posso agradecer toda a solidariedade e responsabilidade, fraternidade e generosidade que ainda habitam os corações e as almas de muitas pessoas deste mundo.

ps. Hoje pela manhã minha aula tratou disto, já na tarde vivi isto mais uma vez....daí escrevi assim..se na manhã e na tarde uma unica pessoa tiver me entendido já me darei por satisfeito...

segunda-feira, 25 de julho de 2016

SE O SER HUMANO RACIONAL PODE DESAPARECER?

Boa pergunta e provocação. A fórmula talvez ajude a vermos e a sairmos dos termos absolutos: H ( An. + Rn. + Pn.). Nosso humano sofre graduações diferentes dos três componentes tradicionais: ser animal, ser racional e ser político. (Sempre penso em Aristóteles aqui.) E, já temos casos de situações em que os graus vão para escalas negativas e quase insuportáveis. O humano é um indivíduo e uma espécie, mas o individuo pode zerar, se esgotar e a espécie também, tanto em suas qualidades e predicações quanto em seus acidentes. Sobre ser um animal racional dando sinais de se encaminhar à extinção, pelo menos enquanto racional, acho difícil. Sempre haverá pelo menos um exemplar racional na espécie que saberá passar adiante esta ideia ou habilidade e sempre haverá pelo menos um que queira prosseguir neste hábito de dar razões, dialogar, ter dúvidas, questionar, refletir, expressar ou tagarelar sobre isto. Vejo que talvez o suporte mais básico disto desapareça: o animal. Passei o dia pensando no teu ponto. Sinceramente desde que li. Me pareceu que foi cedo. A extinção é sim algo possível. Não na mesma proporção ou grandeza da possibilidade de o sol não nascer amanhã ou deste mundo não existir mais daqui a instantes, seja porque a gente desapareceu ou partiu, seja porque tudo se esgotou e sumiu do registro de algo tipo BIG UNIVERSO TRANSFINITO. Mas não creio então, por pior que as coisas pareçam, que o ser humano racional vá desaparecer e se extinguir e restar só o animal que um dia foi em algum sentido racional, salvo se toda espécie desaparecer. O problema do racional é que ele também se adapta às contingências e, então, talvez seja justamente por isto que passe a impressão de estar se extinguindo. O silêncio pode ser só um ocultamento temporário ou transitório do animal racional. Logo ele volta ao ataque e tentando dar direção a algum tipo de vida melhor ou mais razoável que esta que temos hoje. Valeu pela provocação, meu amigo Daniel Cunha....

OS PECADOS DOS USURPADORES E TODO MAL QUE DAI SE DERIVA

Nada pode dar indício maior de perversão, corrupção e manipulação do que tornar, por palavras, propaganda ou repetição, ruim o que é bom ou bom o que é ruim. E assim o caráter moral e a integridade pública de muitos segue pelo ralo abaixo ao promoverem uma injustiça, ao partilharem de um poder oriundo de gesto usurpador e ao pugnarem em defesa disto, seja de forma explícita, seja aqueles que em silêncio se guardam por omissão, como se não tivessem nada que ver com a coisa feita, a coisa a fazer e todo mal que dela se deriva. Tudo, absolutamente tudo, que assistimos e que vemos ser feito por este governo de usurpadores é moralmente vil, ilegítimo e pernicioso. E vai levar um bom tempo para reparar todos estes danos, mal feitos e prejuízos que disto se seguirão. Me aborrece por demais ver o faz de conta e a galhofa sendo produzida sobre isto e me envergonha muito ser testemunha de tamanha barbaridade sustentada de forma jocosa e com ares de sabedoria ou seriedade.

domingo, 24 de julho de 2016

SOBRE A IMPORTÂNCIA DE UM SER HUMANO

Tratando da vida que vale a pena ser vivida, das reflexões sobre isto e do que afinal de contas os outros tem que ver com isto. ( Estou encarando esta semana numa série de reflexões a partir de Sócrates, Montaigne, Rousseau, Nietzsche, Sweig, Rancière  e agora com este jovem David Foster Wallace. Haja piedade neste mundo amigos e amigas.)

Deve ser bem difícil mesmo, para muitos que adoram ficar ensimesmados em si mesmos e em suas reflexões subjetivas, entender e reconhecerem esta verdade elementar: a única forma de qualquer um de nós ter realmente alguma importância neste mundo deve ser medida ou pode ser compreendida ou começar a ser compreendida pelos efeitos ou pelas consequências de nossas ações sobre os demais seres humanos. De resto, somos completamente desimportantes para nós mesmos e tanto é assim que muitos simplesmente desistem de pensar nisto por completo desinteresse ou por certa constatação de desimportância e irrelevância.

Neste sentido, talvez a única forma correta de realmente levar a sua própria vida à sério seja justamente levar muito à sério o papel da nossa vida para com os outros, sejam eles os próximos, os distantes, os iguais ou os diversos.

Daí entendo porque se aborrecia tanto com Sócrates e com Cristo, o senhor Nietzsche. Ele simplesmente não conseguia admitir tal coisa e tinha boas razões para isto, porque muitas vezes esta preocupação, cuidado, zelo, carinho e consideração com o próximo é simplesmente desperdiçada e inútil, pois o outro tende a se julgar importante independente de você, de suas razões, sentimentos, de sua boa vontade e mesmo máxima honestidade e sinceridade. Nietzsche deve ter visto claramente que muitas vezes não adianta nada, pois o tal ciclo da vida e da morte – do eterno retorno - volta e recai na dor, no sofrimento e na decepção.

Assim, por pior que sejam nossos juízos e juízes, nossa importância por máxima que seja nossa boa vontade e boa fé, vai continuar relativa e só em nosso coração e no amor encontraremos algum conforto mesmo. Não será o entendimento que irá vencer a incompreensão. Isso explica porque a arte, a literatura, a poesia, a música, a pintura e mesmo outras linguagens são as únicas formas de chegar a se afirmar esta importância. Porque esta importância precisa ser afirmada indiretamente, pois é muito embaraçosa e silenciar sobre ela e somente supor é mais fácil do que invocar seu nome...


Aqui se explica também porque a suplica é a última palavra e a piedade é o último pedido dos mais fortes...

sábado, 23 de julho de 2016

PROFESSOR IMPARCIAL? PREFIRO SER BEM HONESTO E VERDADEIRO

Esta semana quase que respondi para uma pessoa que comentou de uma forma superficial e bem provocativa minha extensa e argumentada postagem sobre o projeto escola sem partido. Ela, a certa altura do diálogo em que suas opiniões possuíam um laconismo quase estudado, acabou me perguntando se eu era um professor imparcial? Bem a única resposta que eu visualizei na hora, era acabar perguntado se ela achava mesmo que eu era desonesto? Depois conclui que a pessoa não ia entender minha contra pergunta, ou presumi que ela iria corcovear e acabar apelando para um discurso de vitimização, típico de quem tem crenças fixadas em grandes totens culturais e acabei não respondendo à pergunta delicada. Conclui por mim mesmo, em um certo solilóquio, que assim como não havia entendido nem encarado meus argumentos e minha extensa argumentação contra a tutela das consciências morais, culturais, intelectuais e políticas das pessoas, não haveria de entender a minha escolha em ser honesto ou simular alguma forma de imparcialidade, apolítica ou apartidária. E, assim, por isto entendi também porque ela tangenciava o conteúdo da minha postagem com aquela velha estratégia diversionista de fugir do ponto abordado. Ela reproduzia a lógica de evitar o contraditório e sempre levar o debate para algum tipo de disputa moral de sinceridade ou honestidade intelectual, se esquecendo que se é mais honesto assumindo posições do que escondendo elas em um pseudo véu de imparcialidade. Me lembrei do Sartori cujo partido é o Rio Grande, de alguns de seus cargos de comissão que só tem empregos e cargos políticos por uma vida inteira e que ficam argüindo que são técnicos e, também, me lembrei de um  grande mestre meu que me disse em momento importante de minha formação e numa espécie de crise de auto avaliação que todo conceito depende de quem confere. E fiquei pensando neste profundo abismo que nos separa, só isto...fiquei pensando na incapacidade de pensar de minha cara interlocutora para além do raso, para além do senso comum e da obviedade que transita no comércio das idéias chavão e do bate rebate ideológico que tanto rebaixa as discussões políticas, culturais e intelectuais no Brasil. Ela deve ter uma extensa bibliografia dos notórios bons moços ou deve assistir e decorar as platitudes de um Mannhtann Desconnection.


P.S.: E para ser bem honesto e verdadeiro devo dizer que não tenho certeza absoluta sobre as  minhas posições acima expostas, mas que porém tenho convicção de que estou sendo bem honesto e sincero nas posições que defendo e nem estou pensando em vencer algum debate, mas apenas em preservar o meu direito de possuir estas posições, expor estas posições e construir novas posições diferentes de outros que gostariam de me privar deste direito para impor alguma neutralidade ou forma insípida de pensamento. 

(obs. texto especial só para meus seguidores e frequentadores deste blog.) 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

UMA PALAVRINHA SOBRE EDUCAÇÃO - QUATRO ANOS JÁ




Pequena nota sobre a educação: a gente estuda para ser professor. Ao fazer isto aprende um monte de coisas, mas tem algo mais simples que qualquer conteúdo, que qualquer método, algo mais trivial, mas não menos importante - ajudar a estabelecer os vínculos dos alunos e alunas com a escola, papel de todos os trabalhadores em educação & promover nos processos educacionais sempre o conhecimento dos alunos e alunas, por parte dos educadores, isto é, saber quem eles são, o que eles pensam, como vão as coisas, o que anda acontecendo....isso é talvez o melhor caminho para obter melhores resultados de aprendizagem, disciplinares e combater tanto a evasão, quanto a reprovação. Aqui, como lá em cima no andar superior em que uma certa teoria filosófica do reconhecimento recíproco - que tanto me estimulou a pensar a ação política - temos a questão do reconhecimento e da reciprocidade com o outro. É aquilo que ultrapassa a subjetividade e que constitui a tal intersubjetividade, é aquilo que ultrapassa o indivíduo que pensa sozinho na solidão de seu eu e de seu raciocínio próprio e que o faz compartilhar a argumentação, os sentimentos, conferir posições e opiniões e construir coletivamente as mensagens e os conceitos, conhecimentos. São assim que se traçam os laços a partir dos quais a aprendizagem produz melhores resultados, mais cuidado e mais prazer na aquisição, construção e transmissão de conhecimento - e isto só precisa começar por um gesto, o olhar e a empatia do olhar. Humanizar a educação é sim uma grande tarefa.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A ESCOLA SEM PARTIDO E A TUTELA DOS CIDADÃOS


Hoje iniciei o dia decidido a tratar deste tema. Uma grande amiga criticou o cabotinismo do texto do Marcelo Rubens Paiva, não sem pedir desculpas e isto me motivou de vez a terçar aqui algumas idéias que eu creio que estão na tradição mais democrata e anti dogmática do nosso mundo ocidental. Apesar de minha formação ideológica ser de esquerda tenho forte inclinação como muitos brasileiros, aliás, eu e muitos companheiros e companheiras de meu partido, nos colocamos sempre a defender mais democracia, a defender a radicalização da democracia e a expressar isto com muita convicção tanto em discurso quanto na prática, ainda que alguns tenham muita dificuldade para entender a importância disto é o papel conciliador de quem defende isto.

Aliás, tive este debate com muitos companheiros no último sábado e se confirma esta posição. Nós não disputamos o poder para possuir o poder, mas sim para compartilhar o poder com a sociedade de forma mais radical. O orçamento participativo é uma das formas disto como os conselhos e as conferências e existem outras formas de democracia direta e participativa também na sociedade e nas comunidades que precisam ser mais valorizadas e não desprezadas.

Minha amiga e, aliás, grande intelectual e tradutora brasileira Denise Bottmann merece todo meu apreço. Não precisa se desculpar. Eu adorei o teu comentário por várias razões. A primeira delas é que quando compartilhei o texto do Marcelo fiquei pensando em quem iria criticar o caráter estereotipado dos professores que ele caracteriza. Em Relação a isto eu achei engraçado, mas também fiquei pensando na história dele e de como deve ter sido a infância dele sem ter uma boa explicação ou uma explicação correta para o desaparecimento do pai. E assim mudei de plano no debate para entender o quanto devia ter sido importante na biografia dele que em parte é narrada acima este tipo de professor. O texto é um excerto de um texto maior publicado no jornal e que vem junto de um ataque de certa forma ao projeto escola sem partido.

Eu tenho pensado muito sobre isto. Lido muita coisa. Desde defesas solenes até ataques rebaixados e, também, ontem apareceu o primeiro texto derrotista dando às favas contadas. Penso que o problema é que algumas pessoas não conseguem sair do fla flu,do revanchismo eterno que se coloca hoje no Brasil e que vem sendo cevado desde a primeira vitória do Lula. Tudo na lógica de que a democracia só serve se eu vencer. E é um sinal claro do grande conservadorismo da elite ou pseudo elite brasileira, o que inclui um montão de gente que tem fantasias de classe e ilusões de consciência.

Sou professor a mais de 20 anos e nunca fiz proselitismo político. Faço a crítica econômica, a crítica política, a crítica cultural, a crítica também religiosa e, também, a crítica esportiva e não creio mesmo que tenha mudado a cabeça de algum aluno, salvo ter atenuado suas crenças e convicções, do mesmo modo que muitos alunos e alunas também tem feito isto comigo.
Creio que a nossa sociedade, a escola e os professores precisam mesmo é serem democráticos, liberar à crítica e sem culpa para todo e qualquer tema. E isto é o contrário da censura. Já tive colegas professores de direita que faziam proselitismo em sala de aula e os alunos vinham me denunciar que eles faziam ataques pessoais e eu só respondia que eles são livres para pensar o que quiserem e que eu gostaria de ver este debate aberto na escola com cada professor defendendo suas posições perante todos e suportando o contraditório. É isto que eu acho que o pessoal da escola sem partido não aceita. Eles não aceitam que o contraditório às suas crenças e convicções seja posto na escola. Eles tem aversão ao debate e tentam apenas ser a voz oficial da verdade.

Do meu ponto de vista podemos transformar este debate num belo pretexto para questionar os meios de comunicação, não para impedir eles de terem partido, mas para garantir que todos os partidos e todas as formas de pensamento tenham espaço também. O que o escola sem partido acaba trazendo à baila é também a intolerância atávica e a paranóia de controle típica daqueles que querem dominar a sociedade e os cidadãos de forma absoluta.  É o velho impulso autoritário do senhor feudal sobre as crenças e convicções dos seus servos e vassalos, o velho impulso autoritário do colonizador sobre o colonizado, como o impulso autoritário do rei sobre seus súditos, o impulso autoritário do senhor sobre o escravo e, também, por último o velho impulso autoritário e sobejo de militares sobre civis, dos poderosos sobre os oprimidos.  E todos sabem da intensa aversão que isto provoca em qualquer cidadão livre.

Eles, só para variar, não se contentam em ter o poder político, eles querem ter também o poder intelectual, moral, cultural sobre os pensamentos e as vidas das pessoas e é isto que nos não podemos aceitar. Porque está autoridade é excessiva e um abuso para o qual eles não somente não tem nossa autorização quanto sequer tem a competência intelectual, moral e cultural para reivindicar isto. Até porque tal competência não está na cachola de ninguém, de nenhum partido e de nenhum indivíduo.


Ora, eles precisam aceitar a democracia, a disputa de hegemonia e deixar em aberto para cada cidadão que adote, critique, mude ou conceba com sua própria reflexão a sua autonomia moral, cultural e intelectual. Para mim a coisa mais absurda do escola sem partido é pretender atacar uma suposta tentativa de tutela moral, cultural, intelectual, política e espiritual através da instauração de uma grande tutela sobre todos aqueles que são preparados para evitar justamente isto. É o big brother do Orwell em ação. E por isto mesmo é um projeto que se for aprovado estará fadado no Brasil ao descrédito e à superação. Já tentaram censurar tudo que é tipo de coisa no Brasil e nunca deu certo. O escola sem partido não terá vez simplesmente porque os cidadãos não vão aceitar serem tutelados!

terça-feira, 19 de julho de 2016

MONTAIGNE POR SWEIG

"Há alguns raros escritores que se abrem para qualquer pessoa de qualquer idade e em qualquer momento de vida - Homero, Shakespeare, Goethe, Balzac, Tolstói. E há outros que somente em um determinado momento se revelam em todo o seu significado. Montaigne é um deles. Não se pode ser muito jovem, virgem de experiências e decepções, para reconhecer adequadamente seus méritos, e o seu pensamento livre e imperturbável será de especial valia para uma geração que, como a nossa, foi lançada pelo destino em um alvoroço turbilhonante do mundo. Somente quem precisa viver na própria alma abalada uma época que, com a guerra, violência e ideologias tirânicas, ameaça a vida do indivíduo é, dentro de sua vida, a substância mais valiosa, a liberdade individual , pode saber quanta coragem, quanta retidão e determinação são necessárias para continuar fiel ao eu mais profundo nesses tempos de manadas ensandecidos. Só ele pode saber que nada no mundo é mais difícil é problemático do que conservar imaculada a própria independência espiritual e moral em meio à uma catástrofe de massa. É preciso haver duvidado e desesperado até da razão, da dignidade do homem, para poder tecer loas a quem se mantém exemplarmente ereto em meio ao caos do mundo."

Stefan Zweig, Montaigne e a liberdade espiritual. Tradução Kristina Michahelles. In: O Mundo Insone e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar, 2013, p. 16. (Lembra muito o "somente quem apesar de tudo" de Max Weber em Política como vocação.)


Para a crítica da Desorganização do Mundo.

FILÓSOFOS E SACRIFÍCIOS

Pensando em muitos filósofos e filósofas e refletindo por acidente a respeito de seus sacrifícios, de seus bônus e ônus e me dando conta muito espantado e surpreso de que só se será um filósofo digno da lembrança por algum segundo neste mundo, se de forma deliberada e decidida toparmos com algum grande sacrifício no altar da verdade. É quando dizer a verdade ou dar um testemunho da verdade custar um alto preço em teu prestígio e em tua condição que serás digno de talvez tal nome. Até isto acontecer será uma  vida muito fácil de dificuldades, mas com mais consolos e até bom público e a partir disto tudo pode mudar e poderás de fato encontrar aquela forma de solidão que só é possível aos realmente grandes não em aparência ou sucesso, mas em essência e eternidade. Sei, porém, que posso estar enganado e impressionado por detalhes biográficos ou excessos em minhas impressões, mas é assim que me parece.

domingo, 17 de julho de 2016

SOBRE MEU IDEALISMO POLÍTICO

Tenho tido experiências políticas muito interessantes desde que o golpismo avançou e escancarou a face mais podre da política brasileira em todos os espectros da esquerda à direita. O vale tudo pelo poder sempre é visto de forma naturalizada e defendido como a dimensão realista da ação política. Todos conhecem o argumento pragmático que orienta discursos, ações, alianças e programas políticos. E a expressão de que num dá para fazer omeletes sem quebrar os ovos e sua parceira de viagem de que não há almoço grátis tem sido aplicadas com razoável disciplina e dissimulação por muitos, senão quase todos. Os resultados estão aí. Uma parte da esquerda se sente traída e outra parte derrotada, o eleitorado segue em grave desesperança e os jovens ficam com aquela ousadia que lhes é tão peculiar esgrimindo corajosamente contra isto é estão refletindo. A verdade bem redonda para mim nesta matéria é que está dada a necessidade de mudanças de concepção, de métodos e de práticas e que mesmo os objetivos da busca do poder precisam mudar. Eu redefiniria mais ou menos assim: o poder e a busca do poder pode testar, separar e dividir muito as pessoas, mas também pode unir numa mesma compreensão da política aqueles que querem realmente mudanças com aqueles que só querem o poder. Fiz uma fala ontem num contexto de debates políticos que eu creio que pode dividir o mundo para nós militantes e para o outro grupo ou categoria a qual pertenço dos educadores. A diferença mais fundamental para m hoje está entre aqueles que querem o poder para possuir poder e aqueles que querem o poder para compartilhar com a coletividade o poder de forma Democrática. Os primeiros são guiados pela ambição pessoal, vaidade e em geral agem e se comportam com muito ódio, raiva, revanchismo e disputando qualquer espaço de poder como se fosse a coisa mais importante da vida. Nós de esquerda não fomos buscar conhecimento nos bancos da universidade para possuir conhecimento, mas sim para compartilhar com os demais. E com o poder temos que ter a mesma lógica. Buscar o poder para compartilhar com aqueles que sempre foram dominados, oprimidos e explorados. E fazer isto de modo que eles entendam e defendam isto também. Porém, não sou pessimista, pois vejo que tal aspecto tem ficado claro não somente para mim. Mas apesar de tudo já vejo mudanças. Muita gente muito boa próxima da gente tem lutado contra o golpismo, militado no sindicato e nos partidos de esquerda com a firme decisão de superar estas ambições pessoais, superar a intolerância sectária e superar qualquer pretensão à serem os únicos que pensam e que são sérios no debate político. Tenho mais esperança então numa certa revolução cultural, espiritual e conceitual cuja essência mais fundamental é sim a democracia, cujo método do diálogo, da escuta e da formulação com respeito deve nos guiar. Vamos, então, andando nessa linha até a eleição e provavelmente vamos ter um belo logo depois a confirmação de um novo coletivo que vem vindo bem mais amplo de afinidades e que vem adiante se estruturando. O poder pode sim nos testar, nos dividir, levar o caráter de muitos à extremos, mas também pode nos provar, nos unir e equilibrar nossas relações num novo conceito de poder para compartilhar e para libertar e não mais para oprimir ou impor esta ou aquela forma ideal de política, proposta ou projeto. É isto um idealismo excessivo? Ou temos sinais desta mudança já e da sua necessidade sendo já satisfeita entre nós?

DA CRITICA E DA POSITIVIDADE CRITICA - REPLAY

Meu caro amigo, não precisa julgar a crítica como algo sempre ruim ou destrutiva. Este tipo de visão é apenas um conformismo que expressa uma abordagem individualista e anti intelectual apenas. Muitas vezes a crítica pode ser libertadora, isto é, pode com seus efeitos e conseqüências libertar as pessoas de crenças ou dogmas desnecessários e dispensáveis em nosso tempo ou para o tempo em que queremos chegar. Não sei para quem estais dizendo isto, que a crítica é por demais destrutiva ou excessiva, mas vejo que é um equivoco apenas contra aqueles que se colocam a criticar aos outros e contra criticas, mas se cabe a mim e com certeza cabe, pois eu sou crítico sim. Mas não olho para o que é criticado ou para os criticados como vítimas de injustiças ou excessos, e ainda que não me veja como hiper crítico ou como alguém que de jacta ao criticar, te digo com carinho: não peça à um filósofo, ou professor, cientista, estudioso, cidadão ou homem livre (e podemos botar todo o feminino que houver neste mundo aqui) para não criticar ao outro. Estamos num mundo livre ainda e é esperado que neste mundo a crítica seja livre e que quando este ou outro percebe o erro ou qualquer imperfeição que irá trazer algum dano a todos, pois o fundamento da sabedoria, da aprendizagem, da ciência, dos estudos e de nossa liberdade está na possibilidade de fazer isto. Mas criticar tem por objeto apenas as crenças e ações que sejam públicas e que mereçam juízo. Entendo que nós seres humanos não deveríamos ser resumidos a suportes de crenças, ou que devêssemos considerar todas as crenças como sustentação único de nosso ser, porque também temos sentimentos, vínculos e uma vida sobre a qual constituímos crenças. E não é tão difícil é nem tão danoso ser capaz de duvidar de si mesmo ou se auto questionar e mesmo a reflexão mais simples sobre si, sobre nossas crenças, preferências ou vivências pode nos ajudar a ser mais felizes e melhores em nossas relações e vida. Então deixa estar amigo, deixa criticar, critique como fazes, pois algo de bom pode sair daí nem que seja a mera libertação de uma crença que te aprisiona e que não resume tua identidade, nem te expressa por inteiro e nem muito menos expressa o melhor de você. Como me parece ser o caso agora.

terça-feira, 12 de julho de 2016

O SENHOR DO TEMPO

O senhor do tempo que encerra ciclos e abre novas semeaduras, que faz tremer aos tolos e dá conforto aos sensatos, que surpreende a todos ao chegar sem aviso e que nos lembra o quanto esta passagem precisa ser comemorada, aproveitada, refletida e produtiva. O tempo cuja verdade é a primeira filha vem te lembrar o teu valor. O resto é o silêncio...pela eternidade....

O NOSSO MUNDO TAL COMO O CONHECEMOS ESTÁ SENDO DESORGANIZADO DE NOVO: O CAPITALISMO COMO UM QUETZALCOATL, SHIVA OU SATURNO?



Não se trata só de um Golpe, mas sim de vários Golpes, retrocessos, crises, recuos históricos e que ocorrem em todo o mundo. Se você começar pela tal primavera árabe, passar pela recessão européia e americana, pela crise se agravando no oriente médio, os retrocessos na Comunidade Econômica Européia, saída do Reino Unido, o ressurgimento da ultra direita em diversos países da Europa, crise na Grécia, Espanha e até mesmo na Irlanda e somando-se a crises institucionais em diversos outros países na América Latina e não dá para falar só em corrupção ou usar a corrupção como argumento neste quadro, mais as crises provocadas pelo terrorismo, os conflitos no entorno da Turquia, Síria, Curdistão, Chechênia e outros países vemos uma desorganização quase integral da ordem mundial.

Comecei a pensar na grandiosa dimensão e impacto disto na nossa vida e na nossa leitura do mundo quando estive repensando com meus colegas de área de humanas em reunião que nosso mundo está sendo desorganizado. E a questão aqui não é tanto provar isto, mas sim pensar como isso ocorre e como vamos responder a isto? Pergunta esta que foi respondida no inicio do século XX por alguns líderes políticos e que hoje pode se colocar para os cidadãos e cidadãs comuns. Não tem como não lembrar aqui de um Stefan Zweig que olha para o mundo se dissolvendo entre as duas guerras mundiais.

Talvez – e esta é a pior hipótese que me ocorre - acabaremos nós todos entrando em uma guerra para sobreviver. Quase como uma ficção cinematográfica. Quando você assiste algumas ficções americanas de guerra total, invasões alienígenas, guerras zumbis e todas as outras formas criadas de apocalipse, pense como se sentem os povos invadidos e espoliados da Ásia, da África, Oriente Médio, América do Sul e outros?

A menor sensação, mas que para nós é também perturbadora, é a de que “novos governos” querem destruir todos os nossos direitos e que nosso mundo está se dissolvendo, nossos empregos desaparecendo, nossos bens perdendo valor e sendo descartáveis com nós juntos. A pior sensação é ver nossas casas sendo demolidas, destruídas e derrubadas, bombas caindo ali aonde vivíamos até pouco tempo atrás. É quase um apocalipse global. Nosso mundo está sendo desorganizado em diversos sentidos.

Quando você olha para o que ocorre em todos os continentes observa sinais de dissolução do sistema de divisão social, distribuição de bens e direitos e um reordenamento de tudo que pode amparar os seres humanos que não possuem capital ou que não estão na camada superior de dominação, exploração. Aqueles que não possuem salvaguardas da elite, investiduras e autoridades patriarcais serão dizimados.

Este sistema de exploração promove, então, uma crise de ajustamento para reorganizarem tudo de novo. Tal como uma divindade criadora e destruidora. Vivemos um tempo semelhante ao anterior à primeira guerra. Tudo que existe parece estar realmente em jogo hoje.

E nós somos apenas elementos na camada mais inferior do sistema. Ideologicamente vejo que a retomada do fascismo na Europa, América, Ásia e aqui no Brasil, marca e repete justamente o processo pré conflito. A nova ordem é apenas uma nova desordem mundial que arrasa os pilares e edificações anteriores para substituir por novas edificações e estruturas.

Veja bem, meu caro e minha cara leitora o que você pensa sobre isto. A tua leitura disto pode significar algo para a nossa sobrevivência. Este é apenas um resumo da abordagem que fiz num debate da minha área de ciências humanas preparando uma tarefa. Lembro que na ocasião os colegas concordaram e partimos para a sequência  das tarefas colocadas, mas resolvi escrever porque me dei conta da importância disto.

O exemplo da análise de Piketty sobre o novo ciclo de acumulação do Capital lembrada por Domingos Alexandre que “num mundo o de as 62 maiores fortunas se equivalem ao que possui a metade mais pobre da população da Terra...o que podemos esperar...eles têm o poder e não vão abrir mão de suas fortunas...”

Aliás, me parece necessário pensar contra as abordagens tradicionais que dizem que a desorganização é uma crise do capitalismo, na minha abordagem de fundo falo que a crise não é do capital, mas sim que a desorganização é um processo de reajustamento do capital com propósito de reforçar o seu regime de acumulação e a sua supremacia política à qualquer preço. Nesta conta democracia, direitos humanos, ideais liberais ou social democratas são apenas bagatelas na mesa de poker real.

A crise é vista, assim, como uma crise de encomenda – ainda que não se possa satisfazer a paranóia completa com um fórum de deliberação ou de conspiração do capitalismo global autoconsciente – uma crise que toca seus canhões  na direção dos trabalhadores, seus direitos, nações periféricas e suas instituições e algumas nações centrais também onde os rentistas de segunda linha sucumbem para promover mais concentração.

O capitalismo, já se notou antes, faz um cálculo de rentabilidade sobre tudo e convive muito bem com contradições, mas ao contrário é a vida humana, a vida das pessoas que sofre. Para o sistema derrubar milhares de casas, destruir cidades inteiras, desabrigar milhões ou gerar milhões de imigrantes se encaixa bem no jogo de construção e reconstrução do sistema de ganhos e perdas. Catástrofes, massacres, genocídios e toda e qualquer forma de acontecimento natural ou humano abre espaços para as agências de reconstrução. O que ocorreu no Iraque e provavelmente o que vai ocorrer em muitos outros lugares é um exemplo disto.

Exatamente como um Deus demolidor o capitalismo põe a prova seus filhos e abala todas as estruturas arduamente conquistadas ou construídas! A maioria das análises da esquerda fica esgrimindo uma crise no capitalismo como se sua hora estivesse chegando e é bem o contrário disto.

A crise inviabiliza a mudança estrutural e social, agrava pela excepcionalidade e anormalidade o sistema de exploração e torna ele aos olhos da elite mais necessário.

Eu penso, então, ao contrário dos que se glorificam julgando que o capitalismo irá ruir com a crise e perder seus fundamentos, porque percebo que quanto mais piora e se agrava a crise mais inviável fica a ruptura com o sistema. Tudo se passa como se a necessidade de migalhas aumentasse a opressão e a dependência. Veja os países em crise. A esquerda toma o poder democraticamente e sucumbe por insuficiência econômica.

É a crise, portanto, que sustenta e alimenta o sistema...A necessidade de reconstruir a terra arrasada valoriza e ressignifica o empreendedor, o investidor e o capitalista.

Mas eu não vejo assim. Olhando para o século XX e XXI, vejo as guerras e as destruições como válvulas de acumulação e concentração de poder do capital. E o fato delas se darem na periferia dos grandes centros do capital mostra isto também. Daí sobrevém um novo ciclo de abundância e estabilidade.

Porém, como agora toco também no clássico tema dos ciclos econômicos e, além disto, no tema do jogo de expansão entre periferia e centro e nas mudanças dos centros econômicos e políticos vou encerrando minha digressão fatalista aqui e deixo apenas a pergunta no ar: Como interpretar isto de modo a induzir um resultado diferente do tradicional que envolve levar a crise até seu limite máximo e depois passar ao esforço de reconstrução de uma PAX de novo temporária?       


domingo, 10 de julho de 2016

A KILOMETRAGEM LIMITADA DE UM HOMEM

Sentindo pela primeira vez em minhas pernas o peso de longas jornadas e caminhadas e comentando o grande esforço de uma amiga com a organização - grande Gisele Secco - de um evento no qual foi debatido o ensino de filosofia e também as ocupações (compartilho em seguida). No meu caso valem a jornada desde março do Fórum Social Temático, as agendas e atividades do Comitê Municipal em Defesa da Democracia e da Legalidade, as paralisações do CPERS e as ocupações do Alunos, as caminhadas, as viagens, as visitas, os encontros, as reuniões e diversas atividades ligadas à greve nas nossas escolas estaduais, assembléias, plenárias, visitas em câmaras de vereadores e outras cidades e todas as outras ocupações de estudantes e professores. A batelada de textos que escrevi e que auxiliaram na luta e na reflexão sobre ela e também toda a minha vida que neste período ganhou incrementos e outras ocupações intensas todos os dias. Também andei fazendo um esforço por muitas coisas assim, que me levou a pensar que  foi muitas vezes excessivo até para o padrão de dedicação tradicional que já é alto, mas também creio que valeu à pena. Nesta experiência descobri com uma certa ironia e utilizei em diversas ocasiões como auto ironia que todos nós devemos ser concebidos com certa kilometragem limitada e que devemos cuidar e zelar para não gastar toda ela tão rapidamente ou desperdiçar com o que ou quem não merece mesmo. E falo aqui de caminhar o dia inteiro por alguma coisa semelhante e sentir as pernas por dias. Mas também dizer que vale a pena caminhar e juntar as gentes sim e que eu sei que muitas outras caminhadas importantes virão destas pelas quais trilhei nestes intensos meses de luta, trabalho e afazeres pessoais...

FILOSOFIA E O CURSO DA VIDA

Não sei mais falar de filosofia fora do curso da vida. Não sei mais pensar em filosofia de forma profissional e despida da paixão, do acidente, do erro, da falha, do acerto, da sorte, da boa vontade e da razão que só se apresenta no curso dos acontecimentos da vida. O afastamento acabou e com ele foi junto a possibilidade de distância ou separação de uma reflexão lógica, ética ou metafísica do curso da minha vida, dos meus negócios mundanos e reais. Não subimos mais a montanha, não há uma torre a partir da qual olhar o mundo, nada acontece de importante para o pensamento fora do mundo em que vivo, fora das relações reais. E estando nas relações reais, aquelas relações que não estão sob nosso governo, as relações indeterminadas e que não controlamos ou planejamos, as relações das crenças, das certezas, das dúvidas, dos enganos, do deixar-se enganar, dos riscos que corremos ou evitamos, do que aprendemos ou do que queremos aprender de novo e  melhor. sempre queremos algo melhor. E enquanto formos assim vamos ousar. por isso não fugimos mesmo do que fazemos de novo, mesmo sabendo que pode dar errado, mas que fazemos de forma diferente por acreditar em sua intuição, em seus próprios insights, em conceitos já vistos ou revistos e - mais que isso - por querer ver de perto, por querer mais, por querer ser surpreendido. No curso da vida muitos gostariam de ter tudo planejado e controlado e fazer com que tudo acontecesse na mesma lógica ou rotina de aplicação categorial de conceitos sobre objetos bem determinados e dominados, pensam que isto é poder, pensam que isto é sabedoria, mas abandonam a liberdade e acabam somente sendo oprimidos, dominados e explorados pela lógica já pronta, já disponível para todos que faz com que o novo e o diverso nunca seja possível, que tudo seja previsível e pré-determinado porque assim pé mais seguro. E quando está tábua de previsões falha, quando teus sentimentos brecam, quando as expectativas frustram e quando o signo não corresponde ao símbolo, ficamos a nos ver, em nossos rostos transfigurados pelo espanto e muitas vezes por um ódio do espanto, mergulhados em nossas velhas crenças, curtidos e desaparecidos em nossa consciência. A filosofia no curso "normal" da vida deveria poder nos ajudar a ser mais livres e abandonar a perspectiva do prisioneiro engaiolado em seus feitiços de linguagem, sentimentos e fixações. Fixações da carne no tempo, fixações como tatuagens da alma. De um corpo que sofre a uma memória que não te abandona, mas sim - desta forma sim - ficarás transfigurado vendo de si outra imagem e do outro outra imagem conhecida ou reconhecida, ainda que não seja a mesma e nem mesmo seja semelhante. E então, para tua alma volta a mesma velha pergunta: porque mesmo fazes isto? Porque prossegues pensando assim se tudo já  mudou a tua volta? E ele não sabe, pois o curso da vida também tende a trocar o pensamento pela crença fixada na dor e na imagem da dor, e nada que aparecer a tua frente irá ultrapassar esta imagem enquanto perceberes que ela não é sua e nem do outro, mas de um passado que já passou, de um passado que não volta mais, de uma filosofia que não tem mais voz, discurso ou alma a lhe guiar e a lhe dar intencionalidade.     

sábado, 9 de julho de 2016

ESTRANHAS E PROFUNDAS CONTRARIEDADES DE WITTGENSTEIN E SEUS AMIGOS

Quando eu li pela primeira vez sobre aquelas brigas estúpidas com Moore e Russell que permeiam a elaboração dos Notebooks e On Logic – isto é, de 1911 a 1914, já saquei que o bicho era tinhoso. Mas convenhamos que todos nós temos amigos assim, muitos que se enchem de manias para chegar em lugar algum e apenas diminuir ou até encobrir o valor do que conseguem pensar e elaborar.

Mesmo assim continuei lendo ele e tenho mais prazer ao ler ele hoje do que tinha na época da graduação – de 1989 a 1993. Um aluno em sala de aula sobre filosofia analítica, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein, quando perguntado porque Russell criticava a segunda filosofia de Wittgenstein  comentou ontem (Daniel Freitas) com precisão. Ora, sobre a segunda filosofia de Wittgentein, no vácuo de Russell e provocado pela questão do livro didático, que na real Wittgentein abandonou os "verdadeiros problemas da filosofia" porque não conseguia resolver eles e criou problemas novos que acreditava poder resolver.

E eu ri comigo pensando que talvez ele tenha criado bem problemas piores do que os já existentes e que suas elucidações aumentavam o grau dos problemas seja por simplificação seja por excesso em direções antes não divisadas e que, enfim, pelo menos agora tínhamos problemas maiores para continuar filosofando.

Na vida, algumas pessoas não tem casa, outras tem, algumas constroem casas, outras reformam casas e outras destroem casas para construírem casas novas. Se todo destruidor da filosofia tivesse que destruir a si mesmo, como parece evidente com alguns, então parece que teríamos uma ideia do que Wittgentein fazia consigo mesmo sistemática e repetidamente o que no círculo interno parecia exigir uma certa paranóia de controle e domínio absoluto sobre os seus próximos.

Em todos os relatos que li da vida dele a tal profunda contrariedade e desconforto aparece repetidamente. E a auto punição também. O flagelo e a culpa pelo pensar e pelo viver que ele impingia a si mesmo era algo. Eu só lamento...não foi uma vida desperdiçada, mas que em muitos momentos ele vivia em frangalhos me parece que sim.

Dá para compreender todas as aflições neste quadro e pensar o tipo de piedade ou curiosidade que movia seus discípulos nisto tudo. Parece até que todos testemunhavam a possibilidade iminente de que um pintassilgo explodir. Sempre à beira de um ataque de nervos e com suas manias...E os amigos?

Aqui abre-se um capítulo muito singelo de quem ele queria ter sido...(Ray Monk é alguém que deve saber bem mais disto do que publicou em sua biografia de Wittgenstein.)

Mas continuo lendo ele e pensando nele, em especial em Da Certeza, Uber Gewissheit ou On Certainty!


Valeu Renato Duarte Fonseca pela citação do artigo lastimável e terrível!