sexta-feira, 3 de junho de 2016

UMA BELA TEMÁTICA EXISTENCIAL: ESCOLHAS, CRENÇAS E VALORES



Uma abordagem do problema das escolhas e das mudanças na vida da gente nos leva sempre para o tema existencial. Mas também nos leva para temas que hoje se descolam da abordagem existencial ou individual e que também são cognitivos e epistêmicos. No sentido de tratarem sobre condições de aquisição de crenças, formação de opinião, conhecimento e certeza. E, também, no sentido de tratarem sobre temas morais, práticos e de valores, sobre qual a condição do agir moral, o que devemos fazer por necessidade ou por liberdade, qual nossa capacidade de agir voluntariamente e livremente. Vemos também que trata-se do que realmente levamos em consideração ou realmente importa para nos orientar nesta vida como um valor intrínseco – por si mesmo – extrínseco ou relativo ou relacional. Nossas escolhas existenciais para resumir a modalidade aqui estão relacionadas, então, às crenças que nós escolhemos, aos valores que defendemos e às formas como vivemos e como nos relacionamos com as coisas, as pessoas e este mundo.

Sempre que nos ocorre um contra tempo ou que o curso da vida orientado por nossas decisões, pelas escolhas que fizemos – livres, voluntárias, subordinadas ou forçadas -  nos trazem frustrações, mais obstáculos e problemas do que soluções e passagens ou travessias, sempre que um plano nosso de vida sofre um bloqueio ou um revés, isso nos leva a refletir sobre como seria se acaso, acidental ou refletidamente decidíssemos ou tivéssemos decidido lá atrás um curso ou uma aposta diferente?

Isso também nos leva a questionar em que medida fomos e somos conseqüentes em nossas escolhas e decisões. E, ao longo da vida, mesmo que nada ocorra de errado ou que estejamos bem sentados em nossos sofás ou caminhando na direção da realização dos nossos sonhos, nos questionamos sobre qual continua sendo nosso entendimento sobre estas escolhas. Se você se der ao trabalho de procurar as razões que te fizeram seguir por este caminho ou não seguir por um outro talvez você passe a ter uma sensação estranha de uma dúvida sutil do tipo que na real estas razões nem são mais tão importantes hoje. Esta reflexão envolve muito as mudanças culturais, materiais, físicas e sociais que vivemos ao longo da vida, o que aprendemos na vida e o que conseguimos cuidar, carregar, suportar e o que ainda faz sentido ou tem algum papel real em nossa vida.

Eu trataria o mesmo tema em duas vias ou mais e sugiro se pensar, então, em uma via negativa, em desapego, abandono, afastamento e também sobre a perda de significado de coisas que um dia nos foram tão caras e, na via positiva, em apego, cuidado, aproximação e busca do que mais nos apraz e também sobre a ressignificação ou construção de significado – novo, renovado ou mais fundamentado - como algo possível sempre, mesmo ao fim dos nossos dias.

Quando falo disto, sei que estou tocando na forma como tratamos nosso regime de crenças. Que crenças estão fixas em nossa estrutura de personalidade, quais acreditamos que fazem parte de nossa identidade de forma inextrincável, seja porque comportam valores, princípios, conceitos, afetos e interpretações do mundo, da vida, das coisas e das pessoas das quais não queremos abrir mão e, no meio do caminho, das coisas que vão caindo em desuso, com as quais passamos a dar mínima importância ou que descobrimos que não valem mais a pena.

Quando era jovem, para exemplificar,  decidi um dia nunca me tatuar e pensei muito exatamente nisto: no que era passageiro ou um impulso temporário de época, de geração e paixão adolescente  em minha vida e no que poderia durar para sempre em mim e comigo. Usei estes tempos a idéia de tatuagem como exemplo de crenças que nós tatuamos em nosso espírito com certa fixidez quase inextrincável. Dizia que eram como marcas e cicatrizes da existência que nos organizavam a pele, a sensibilidade e a forma de pensar, viver e se relacionar. Falei em regime de crenças, em crenças fixas e crenças móveis ou mais flexíveis porque toleram em nossa forma de pensar modificações, mudanças, evoluções e desenvolvimentos.

A distinção in fine aqui é entre crenças rígidas e crenças adaptáveis ou flexíveis. Assim, como quando escolhi o curso da universidade e, portanto, a profissão na qual me encontro hoje, fiquei mesmo pensando muito nisso: no que eu gostaria de fazer o resto da minha vida, mesmo depois da aposentadoria e enquanto eu durar sobre este planeta. Neste caso, fazendo uma certa rememoração disto, já pensava mesmo em uma possibilidade de mudar de opinião sobre o melhor caminho a seguir, mas minha escolha foi também orientada por uma idéia que recebi na infância o melhor caminho a seguir é sempre aquele em que as perdas são menores ou os ganhos são maiores e em que a possibilidade de seguir por mais difícil que pareça ao enfrentar os primeiros obstáculos, acaba ao final por garantir algo mais perene.

Minhas crenças rígidas de então eram relativas ao valor intrínseco da filosofia seja lá o que eu fosse fazer disto e as flexíveis eram relativas ao fato de que este valor intrínseco poderia ser tão relevante extrinsecamente que poderia significar um ganho de capital cultural inestimável e mais estável do que pareceria à primeira vista. Já quanto a profissão de professor sempre me abalo com seu valor extrínseco que anda cada dia sendo mais pauperizado, por conta de que pessoas cujo valor intrínseco é absolutamente raso e superficial. E vejam – neste raciocínio – não preciso sequer flexibilizar algum ponto de vista para saber que é o caso na atual conjuntura e contexto de vida, mas mesmo assim não é isto que torna a escolha equívoca, muito antes pelo contrário. Minhas crenças parecem receber aqui um valor cognitivamente contrafatual e mesmo assim continuarem verdadeiras. 

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