quarta-feira, 22 de junho de 2016

SHORT CUTS – A GENEROSIDADE MISERÁVEL DOS ADULTOS COM OS JOVENS - 27/02/2016


A tomada de posição das meninas no Colégio Anchieta de Porto Alegre despertou e gerou – como que numa avalanche – uma diversidade de opiniões favoráveis e desfavoráveis, críticas, deboches, cobranças e até mesmo censuras que mostra para mim e exibe com uma nitidez arrazadora o quão baixa anda a nossa capacidade de compreender os jovens, quão pequena anda na economia de nossas opiniões a tolerância a respeito de opiniões estéticas e, além disso, para piorar as coisas ao meu ver, quão reduzido se tornou o nosso conceito de liberdade. De certa forma para mim a reação mostrou também quão espontânea e irrefletida, pobre e automática andam os nossos impulsos de formulação, interpretação e compreensão dos fenômenos. Creio que é importante se abandonar as formulações instantâneas sobre as coisas, e me desculpem aqueles que pensam diferente de mim, que é importante sair do varejo das opiniões e se passar para o atacado das idéias nestes temas e nestes processos. E ultrapassar a nudez sexualizada ou a batina reprimida que a reação ao shortinho encobre me parece ser bem recomendável a todos que deveriam pensar mais seriamente sobre a importância dos jovens no nosso futuro comum. Aqui como na maioria dos casos, polêmicas e debates atuais – debates midiatizados e virtualizados – o buraco é bem mais embaixo.

Confesso que demorei praticamente uma semana para responder ao tema por diversas razões que me pareceram coercitivas ao meu juízo. Primeiro de tudo que nem tudo é exatamente como parece. Que o modo como as coisas se apresentam pode encobrir um fenômeno mais profundo e muito mais importante do que a irrisória e parca generosidade da discussão acredita que concedeu Segundo, que eu tenho notado uma espécie de cultura de liquidação de iniciativas de sentido do outro generalizada nas redes sociais. Todo mundo patrulha, fiscaliza, moraliza, crítica todo mundo por impulso. Em terceiro lugar, porque me lembrei do que chamei de uma “lógica do queima ele” que anda marcando as respostas e avaliações de muitos por aqui. E, ao mesmo tempo, percebi de saída que mesmo a discussão sobre tema colocou em lados iguais pessoas que tem posições diferentes em outros temas. Por exemplo, para meu assombro, encontrei pessoas que se dizem progressistas, libertárias, emancipacionistas, democratas e modernas juntinho e ao lado de conservadores, repressores, reacionários, autoritários e arcaicos.

E o mais impressionante de tudo, poucos leram o manifesto das meninas situando ele num processo de tomada de consciência geracional bem mais amplo que ocorre - nitidamente para mim no Brasil hoje – com a tomada de posição e o avanço político das meninas, jovens, de periferia ou classe média, de diferentes classes sociais. Eu teria que listar aqui num encordoamento só este fenômenos e suas séries relacionadas para justificar isto.

Vou começar apontando para as duas pontas mais visíveis para mim que são gaúchas, a Deputada Estadual Manuela D´Avila, para a Professora de Filosofia Márcia Tiburi, e também para a Luciana Genro, a deputada federal Maria do Rosário, a presidenta Dilma e etc – e sei que em muitos estados e cidades deste país um geração de mulheres – que não é exatamente da mesma faixa etária – avança e toma posições marcantes, considerando-se o papel e o espaço limitado que as mulheres ocupam nos espaços políticos e de gestão. Aponto também  para diversas atrizes, cantoras, artistas, professoras, lideranças estudantis que andam agitando o cenário nacional a bem quase 12 anos. Curiosamente este fenômeno para mim aparece claramente também a partir de certo imaginário cinematográfico que a partir do início do século XXI passou a colocar a mulher como outra personagem nos enredos, tramas, histórias.

O problema geracional me chama muita atenção também por outro aspecto. Muitos que criticaram as meninas, seu manifesto e aqueles que se ocuparam e apoiaram isto dizem que elas e eles deveriam estar se ocupando de problemas mais importantes e reais da nossa sociedade. E alguns perfis aqui no facebook fizeram exatamente isto. Daí você vai lá ver os perfis que realizaram estas críticas e não vê eles engajados em soluções, apresentando propostas ou se comprometendo em ações que possam efetivamente mudar uma lista de problemas e coisas na cidade de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, na América latina e no Mundo. Não, o que você vê no perfil de um certo tipo deles é, na maior parte dos casos, a queixa, a chorumela, a busca de soluções absolutas e mágicas aos problemas ou uma espécie de idílio passadista e saudosista de uma certa moralidade que ficou para trás, num antigamente remoto que – em muitos destes casos eles sequer conhecem ou tem entendimento crítico ou profundo - como se no passado as coisas fossem melhores, que a ditadura militar foi boa ou precisa voltar. Um outro tipo de  crítica cobra dos jovens também ações mais conseqüentes, críticas mais pertinentes e causas melhores, como se os jovens tivessem a obrigação de lutar apenas por questões essenciais ou decisivas para a vida dos adultos. Ora nos dois casos encontramos boas e grandes contradições de fundo.


Se olharmos para a história do Brasil destes últimos 60 anos temos basicamente alguns poucos movimentos coletivos fortes. A defesa da criação da Petrobras nos anos 50, as mobilizações contra a ditadura nos 60 e 70, o ano de 1968 é um marco em todo mundo disto, a grande mobilização de redemocratização que foi das diretas já nos 80 até a eleição de 1989 (para o pessoal mais libertário isto inclui movimentos culturais, sindicais, populares muito fortes e intensos, alternativos, ecológicos que hoje tem seus efeitos ainda – CUT, MST, UNE, UBES  e diversas entidades se criaram e ou voltaram a ter papel protagonista na sociedade brasileira neste período), o fora Collor nos anos 90 e somente em 2001 um movimento como o Fórum Social Mundial chega ao Brasil por conta de um espírito de mudança mais ampla e englobando no nosso pais e no planeta que teve inicio em manifestações juvenis em Seattle em 1999, e, por fim, mais recentemente as manifestações do movimento passe livre que levaram a uma gigantesca manifestação no pais por mudanças e soluções para diversos temas urbanos e sociais brasileiros que incluíam transporte público, saúde, educação, corrupção, segurança em 2013. Pois bem, estamos ainda neste quadro de 2013, combinado com movimentos golpistas, conservadores, repressivos e autoritários que pululam aqui e a ali. Uma derrota eleitoral do campo conservador em 2014 somada aos escândalos de corrupção e também ao processo jurídico e partidarizado de revela e encobre no entorno disto. Um congresso nacional de perfil ampla e majoritariamente conservador, autoritário e regressivo. E é com e neste quadro que o manifesto das meninas do Colégio Anchieta de Porto Alegre dialoga. Não estão mesmo por fora disto ou viajando na batatinha. 

E não se trata mesmo de uma questão simplória de direito de ostentação ou exibição de suas nádegas ou coxas. Aqui, como nos caso dos R$ 0,20 centavos do movimento passe livre contra o aumento de passagens não se trata só e nem é SÓ POR CAUSA DE 20 CENTAVOS – veja que é na mesma  Porto Alegre onde este e outros movimentos praticamente nasceram.                                            

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