domingo, 19 de junho de 2016

PENSAMENTO DIFERENTE, PENSAMENTO DIVERGENTE - REVISÃO DE 2011

PENSAMENTO DIFERENTE, PENSAMENTO DIVERGENTE

Nunca estou pensando uma coisa só. Nunca toco uma nota só. Nunca vejo um único personagem em uma trama.

Me percebo sempre pensando em muitas coisas ao mesmo tempo. Isso poderia parecer uma perturbação, uma desorganização mental ou o efeito de uma confusão intelectual, uma mistura desorganizada de informações, opiniões e conhecimentos. Para mim é uma das características essenciais do pensamento: a sua complexidade. A necessidade de combinar ou produzir uma certa combinação de mais de um elemento para judicar, predicar, considerar ou ponderar.

Ora, pensar é ao natural e no nosso cotidiano quase sempre um fluxo de diversos discursos. Por mais concentrado que você esteja numa única coisa ou idéia, você acaba abrindo ela a uma outra relação. Aliás, você não fica repetindo uma única idéia por páginas e páginas de tua reflexão sem modificar sua forma ou seu modo de apresentação.  E é assim que a literatura nos mostra e é assim que nos mesmos nos percebemos em vigília. Um dia após o outro e por mais que todos os dias pareçam iguais você sempre muda um aspecto do modo como avista ele.

Esta variação do dia é como a variação de uma canção, de uma percepção e de uma demonstração. E também, com isto, me sinto um músico que escuta ou executa a sua composição com todas as notas de um arranjo e que vai selecionando ou mudando suas ênfases. Na mesa de som você seleciona as notas e as passagens, os instrumentos e a forma como eles somam numa única gravação. Mas quem vai mudando aqui e ali diversas coisas tem uma sensação também de descoberta. Troca notas e percebe algo novo e que não tinha visto antes, por mais que seja o autor da mudança percebe no resultado uma descoberta.

Você sabe bem do que falo aqui. Dá uma duração diferente para um acorde, muda o ritmo e faz a mesma melodia em tom mais alto ou mais baixo, abafado ou mais rítmico, acelera e ou retarda e também muda a voz, muda o tom ou muda o instrumento e descobre algo. Quando você faz este exercício começa a entender o que poderiam ser estes diversos discursos, ou a tal polifonia do pensamento e o fato de exercitá-la para encontrar algo novo.

Você percebe então a idéia de que haveriam certas paralelas de idéias num fluxo a serem descobertas em que cada uma delas está no seu ritmo e tom próprio, mas que estão relacionadas. E daí se você já teve esta experiência musical da qual falo, você lembra de muitos compositores que repetem a mesma frase de formas diferentes até compor uma canção e organizar o tempo de cada modo e os instrumentos. E você consegue imaginar então que mesmo um Beethoven, Bach, Mozart, Vivaldi e muitos outros, mesmo populares como Beatles, Bob Dylan, Neil Young...também descobrem algo ao realizarem sua obra.

Você  percebe uma constelação ou uma estrutura interna de relações entre idéias e seus elementos próprios. Assim, não é difícil pensar no que uma figura como a da cabala mostra nas relações entre as suas esferas...na música vemos as relações entre as notas, entre as colcheias, entre as linhas e entres a harmonia e a melodia...assim parece ser o pensamento também estar todo relacionado entrelaçado em outros pensamentos...como um personagem de um enredo em que há pelo menos uma personagem que estará ao final da trama ligado a todos os personagens de forma significativa de tal modo que seu sentido e a mensagem se revela...sim... é uma imagem ideal de sentido...


E a própria arte procura e encontra formas de ocultar as relações, criar enigmas e rupturas e tornar um relevo achatado na trama em um enredo com muito níveis, escalas novas e visíveis, mas também subterrâneas, ocultas e a serem descobertas ou jamais serem descobertas. A obra aberta e a obra sem revelação... Capitu contempla a dúvida de todos e as perguntas sem respostas...o pensamento à toa...

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