quarta-feira, 11 de maio de 2016

CHEGA DE SACRIFÍCIOS NA EDUCAÇÃO!

Não me sinto um corpo estendido no chão, mas sinto que se depender do desprezo pela educação e pelos educadores de alguns ignorantes - o que infelizmente inclui alguns colegas meus - e certos canalhas serei um dia apenas isto...um corpo estendido no chão, e nem serei mais visto como um professor nesta situação. Aqui entre nós, sinto que há inclusive hoje a disposição de alguns em me considerar um bandido ou um marginal porque ouso militar por alguma causa, protestar ou me manifestar politicamente contra uma lógica de manada na qual nossa sociedade sucumbiu.



Não me sinto um herói também, mas sei que pela expectativa de milhares de alunos e alunas, amigos e amigas, e alguns colegas, nos olham como heróis, heróis potenciais, criaturas prontas para todos os sacrifícios pela educação e pelas nossas causas. Não me vejo assim. Não me vejo como um herói, nem como um kamikaze e muito menos como um lutador suicida que enfrenta um adversário com mais forças do que possui e se coloca em holocausto perante o inimigo. Me vejo apenas como um professor que precisa lidar com estas dimensões negativas e positivas da luta pela educação.

O atual Governo do Estado tenta sim nos derrubar, nos faz tanto mal e consegue também nos humilhar e nos submeter a sua agenda e isto é um problema que parece bloquear a reação de muitos educadores, mas eu sei que podemos reagir.

Em São Leopoldo, o atual governo de minha cidade também faz a mesma coisa. No ano passado tentou humilhar, violentar e agrediu moralmente muitas educadoras e educadores. Meus colegas reagiram e fizeram a maior greve da história do magistério municipal. E nem nisso vimos neles algo herói, não foram ao chão, pois todos se sentiam apenas como educadores que escolheram um lado na história e optaram por lutar em defesa de sua dignidade reivindicando respeito e o pagamento de um reajuste que lhes era devido tendo em vista a existência de recursos nos cofres públicos para tal. Vejam os vereadores municipais provaram depois em CPI que haviam recursos e que a greve foi provocada apenas pela intransigência e irresponsabilidade, inépcia e incompetência da gestão municipal que tinha as famosas "outras prioridades" para 2015.

E hoje é o dia que se consolida este poder perverso e covarde contra nós educadores e cidadãos, quando o golpista do Michel Temer vai ganhar no Senado um mandato de forma espúria e safada, de forma indireta vai ascender a presidência da república, através de um processo que frauda nossa constituição e que comete uma iniquidade absurda resultado de uma conspiração que envolveu interesses de poderosos empresários, corporações, políticos e partidos que representam interesses de estamentos tradicionais e conservadores, com um bom empurrâozinho da mídia e com a conivência e omissão do STF.

Este golpe tem uma agenda que tenho chamado de agenda golpista e que irá agravar em muito minha situação de trabalho e a situação da educação brasileira. Verei em poucos meses conquistas pelas quais lutei por mais de trinta anos serem dissolvidas, verei em poucos meses direitos de trabalhadores e cidadãos serem minimizados e diminuídos, inclusive direitos de alguns que apoiam o golpe, mas eu lutei com alguns colegas e conclamo a todos que se engajem nesta luta e nesta jornada que se inicia hoje.
E é preciso reagir sim, porque senão acabaremos todos como este corpo estendido no chão, sob uma ótima consideração de alguns, mas porém derrubado e atropelado pela covardia e falta de caráter de muitos, derrubados pela canalhice e a ignorância que andam de mãos dadas a serviço daqueles que querem o poder apenas para preservar seu status, ampliar seu status e manter o povo brasileiro bem submisso e bem explorado.

Não quero mesmo ser um herói, quero apenas ser um professor e dar minhas aulas em paz, tocar minha vida, cuidar dos meus filhos, ler meus livros, amar e fazer música...mas não tem sido possível e eu agradeço aos envolvidos nisto, pois não serei eu que irei contar esta história no futuro, aqui sou apenas um professor e militante social. A nossa luta vai continuar, vamos perder alguma coisa sim, mas vamos nos organizar, debater, lutar pela democracia e a educação para construir a superação disto e colocar no chão não pessoas, mas as velhas ideias que orientam este golpe, a agenda golpista e as personagens golpistas que hoje triunfam com arrogância e soberba sobre o que é certo, o que é justo e o que é correto, na maior desfaçatez.

Não devemos morrer no altar da pátria a serviço daqueles que não lutam, mas devemos sim defender a nossa pátria contra aqueles que a aviltam e a vilipendiam e quanto mais colegas, jovens e cidadãos entenderem isto, menos sacrifícios sofreremos.


(Obs.: A imagem abaixo é uma releitura de obra de Hélio Oiticica: Seja Marginal, Seja Herói, baseada em uma foto do corpo de um velho bandido chamado cabeça de cavalo que foi encurralado e executado em um tiroteio com a polícia em 1968. "Hélio Oiticica frequentava a Mangueira e conhecia o mundo da marginalidade. Dentro de uma lógica de transgressão de valores burgueses, tinha certo fascínio pelos tipos marginais e malandros. Cara de Cavalo, acusado de matar um policial, foi uma das primeiras vítimas do esquadrão da morte carioca, em outubro de 1964. Esta obra é marcante no movimento chamado de marginália ou cultura marginal, que passou a fazer parte do debate cultural brasileiro, a partir do final de 1968, durando até meados da década de setenta. O artista foi acusado de fazer apologia ao crime. A marginalidade é considerada uma forma de transgressão dos valores conservadores e burgueses, identificados com o regime militar, aliado à idealização do mundo do crime, como mundo produzido pelas contradições da sociedade." op. cit. in http://memoriasdaditadura.org.br/)

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