quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A CRISE DA CIVILIZAÇÃO EUROPÉIA NOS ANOS 20


Tenho tentado compreender aqui e ali, em uma leitura histórica, biográfica, poética ou outra, o que ocorreu com a Europa no início do século XX, o que explica o que ocorreu e quais as causas disto que ocorreu.

No começo pensava muito influenciado pela tradição alemã, e via um grande ônus alemão em tudo que ocorreu, mas não é só da Alemanha que tudo veio a se dar e que tudo veio a ocorrer. A pulsão de morte e suas conseqüências – creio que podemos chamar assim - que se abateu na Europa logo após os anos 1910 e 1912 tem em sua assinatura o ápice de uma civilização industrial, o ápice de uma cultura ocidental e a extrema pretensão imperial das nações européias que não guardavam em si mesmas suas fronteiras e suas identidades. O final disto vocês conhecem bem. Passados naquela data 100 anos do desterro napoleônico todas as pretensões imperiais européias iniciaram seu colapso, mas isso não precisou de uma guerra apenas...foram precisas duas guerras mundiais, um holocausto e o sacrifício escandaloso de gerações inteiras de homens e mulheres, civis e militares, crianças e velhos para que os sobreviventes chegassem onde estão hoje.

Muito me assustei ao descobrir e ler surpreendido os depoimentos apaixonados, as cartas idealistas e poéticas de jovens alemães dos anos anteriores à guerra e de jovens austríacos anteriores a guerra: eles acreditavam mesmo que eram superiores e que sua "vontade de poder" iria se realizar plenamente. Faziam em cartas aos seus familiares e esposas, noivas e irmãos  milhares de Odes ao Senhor da Guerra, aguardando o sacrifício do bom sangue no altar do verdadeiro espírito supremo. Vão para mim e visto desta distância  foi este caminho, com toda esta fútil vaidade destruíram a si mesmos. Ceifaram gerações inteiras de alemães, europeus e estrangeiros em duas aventuras. Me perguntaram de forma muito inocente estes dias se Hitler era um cara inteligente, para ficar num único parâmetro eu respondi simplesmente que não, que de fato quem não era inteligente era a elite européia de então que topou se aventurar num delírio de grandeza étnico e cultural que a levou à tragédia e sacrifício. Para fazer uma imagem simbólica aqui, Hitler – com seus patrocinadores associados empresariais, políticos e intelectuais - foi o flautista de Hamelin que conduziu gerações inteiras de alemães e judeus, europeus e americanos, japoneses e asiáticos ao sacrifício supremo em campos de batalha, vielas de ruas, guerrilhas em florestas e montanhas, câmaras  de gás, pelos mares, pelos ares, não por uma questão étnica, mas sim pelo desafio não resolvido do imperialismo. Digo isto porque o problema de Hitler não é só de ideologia racista e de supremacia racial, mas também de ideologia imperial e de supremacia econômica dos alemães, como o foi para os japoneses na Ásia e também aos italianos.            
Hoje cem anos depois leio Freud, Jung, Stefan Zweig, Sabina Spielrein e seus textos de 1912, entendo um pouquinho do Mal Estar desta civilização frente a sua assombrosa e ainda no ano de 1912, a apenas visada teórica da existência de uma tal pulsão de morte, com a primeira e a segunda guerra é que isso atinge o ápice de racionalidade e barbárie. Em plenos anos 20 enquanto o espírito europeu bailava, enquanto Paris era uma festa, a morte batia à sua porta. O adeus às armas demorou muito ainda...


E como estamos hoje no mundo? E no Brasil? Haveriam ainda por ai alguns candidatos a flautista de Hamelin para atropelar com uma grande pulsão de morte direitos humanos e de minorias no nosso tempo?  Haveriam hoje seguidores e adeptos para tal aventura hoje?

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