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sexta-feira, 3 de abril de 2015

AO SR. MARCELO HERMES LIMA: QUE NÃO SE REPITA


"A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita.”

Theodor Wiesegrund Adorno

Eu fiquei prestando muita atenção ao seu tom de polemista que desanca aqui o futuro Ministro, a Esquerda e a Educação Brasileira. Prestei atenção aos seus debates e discursos anteriores e em suas postagens aqui, aos argumentos que usas, aos seus golpes e arroubos contra a esquerda e tudo que vem de sua lavra posto aqui hoje neste prosaico e afetivo convite para a posse de Ministro de Renato Janine Ribeiro, criado por seus amigos e admiradores. Tentei entender de onde vinha esta verve sem querer menosprezar suas razões e a razões deste autor. É um bom caso de estudo este e creio que é também um bom exercício.

Porém, suspeito que nenhum argumento por melhor que seja vai te convencer ou te fazer pensar o contrário ou sequer te sensibilizar de alguma forma a aceitar outra perspectiva que não seja a sua própria e pelo visto de sua seita ou grés. Mas mesmo assim, creio ser bem importante encarar teu ataque e respondê-lo, senão em nome do futuro ministro nem em nome da esquerda brasileira, pelo menos em nome da razoabilidade, reflexão e respeito às diferenças e para que certas coisas não se repitam. Dei, então, uma lida aqui e ali de novo sobre os temas postos, contestados, mas observei, enfim, com razoável facilidade que nenhuma das duas mil citações que ergues aqui para sustentar tua autoridade e importância e suas posições devem ser por artigos políticos ou relacionados à educação brasileira.

Então, com certeza o Sr. é um notório cientista nos assuntos nos quais és especializado, foi orientado e orienta pesquisas sobre isso, em Bioquímica dos radicais livres e etc. E a Bioquímica é uma ciência maravilhosa mesmo e bem importante, mas não torna seus doutores em especialistas em política, pedagogia e história. Non sequitur, simpliciter.

E mesmo o maior doutor – o doutor universalis - que puderem encontrar ou que foi capaz de sistematizar todo o conhecimento num único sistema lógico e metodológico - o que realmente não é mais possível mesmo - não poderá tirar de sua cartola ou à sua vontade em uma democracia e em gestão pública, o direito da maioria ou dos mais notáveis, ou dos mais experientes ou dos mais sensatos e dos mais respeitados em determinados assuntos de determinarem em um bom debate qual o rumo a tomar. E isso é uma questão plural e coletiva e não individual. É uma questão cognitiva e política bem respeitável e uma limitação que cada um de nós deve aprender a enfrentar com tranqüilidade porque não sabemos tudo mesmo e também não podemos tudo. É, então, uma questão de respeito ao conhecimento e não de retórica toda esta discussão aqui posta.

E eu creio que o Renato tem todos os atributos acima, ao lado e abaixo apresentados e que ele é apoiado por muitos que compartilham não de suas posições nestas ou em outras questões, mas, basicamente, por aqueles que tem alguma estima sobre a democracia e que tipo de debate deveria ser mais promovido neste país, sobre a sua forma e qualidade também, seja para aumentar a cultura política do povo brasileiro, seja para promover melhores políticas públicas neste pais, o que inclui uma ciência, uma educação e uma cultura progressista e não regressiva ou agressiva.

Vou dizendo que sou um modesto professor de filosofia do ensino médio, mas que nem por isso, me considero incapaz de compreender perfeitamente o tipo de raciocínio passional, suas causas deslocadas e seu método enviezado, cujo objetivo e finalidade aqui manifesto em diversas expressões não é o melhor para a ciência, nem para a educação e sequer toca em alguma proposta que possa ser apreciada.

Pensei mesmo em não contestá-lo, mas o amor à verdade e à justiça, não me permitiu ficar calado frente à tamanha barbárie dos seus ataques e ao sentido profundo deles: quem não acredita no conteúdo e no conhecimento das disciplinas que lhe são alheias é o Sr., posto que pressupõe saber mais do que seus pares em assuntos aos quais não se dedica profissionalmente. A ciência brasileira e a educação brasileira e a própria democracia neste país depende muito de tranquilidade e de honestidade intelectual para avançar.

Nós temos sim que te ouvir, Sr. Marcelo, mas você também precisa aprender a ouvir e a dar assentimento ou não com tranqüilidade, sem ofensas e a manifestar contrariedade com mais respeito pelos outros e por seus trabalhos, vidas e poucos dias neste mundo. Agradeço muito tuas manifestações e aleivosias, porque também nos ajudam a mostrar o que realmente está em questão quando um cientista fala de democracia e quando um professor fala de democracia e de educação e o que não está mesmo em questão aqui com a posse do novo ministro.

É verdade sim que fazem já trinta anos – para mim apenas 25 com a primeira eleição direta para presidente – que a ditadura acabou no Brasil, porém também é verdade que mesmo com as investigações e o Relatório Final da Comissão da Verdade – que pelo visto não te serve – ainda que não tenha um paper sobre isso com duas mil citações - , ainda temos uma enorme herança ditatorial e autoritária na sociedade brasileira, um passivo imoral e corrupto a ser desvelado, e no delicado e muito importante tema que apontei na minha observação sobre o fato do futuro ministro ser filósofo, e acima sobre os expurgos e prejuízos à ciência brasileira no período ditatorial, nenhum colaboracionista ou canalha pagou sequer pelos danos que causou à vida de milhares de pessoas, jovens estudantes, professores, filhos e ao patrimônio cultural, artístico e científico brasileiro. 

Então, assim como alguns de nós não esquecemos o Sacrifício de Jesus Cristo, assim como outros não esquecem as perseguições da inquisição ou do Santo Ofício, assim como muitos não esquecem o que passou Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Johannes Kepler, Descartes e muitos outros, assim como muitos outros não esquecem as Câmaras de Gás de Auschwitz, assim como não esquecemos as Bombas Atômicas, nem os Massacres de Canudos, Araguaia e muitos outros, não esquecemos a escravidão e sopesamos sim seus danos, assim como não esquecemos mesmo o entulho autoritário, seus sucessores e herdeiros, beneficiários e apaniguados  e vamos continuar lembrando sim, para que não se repita e para que aqueles que simpatizam com isso não ousem nos tomar por ingênuos, nem brincar com nossas histórias e nossas vidas.    
   

Um abraço e passar bem. Hasta La vista!!!

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