quinta-feira, 30 de abril de 2015

Hoje os professores sangraram,

Os que não sangraram, choraram

E os que não choraram



Não eram mais professores.

terça-feira, 28 de abril de 2015

SOBRE ARGUMENTAR E A POSSIBILIDADE DE ERRAR COMO UM INTERDITO

Podemos errar em qualquer tipo de argumentação e para qualquer interlocutor. O que importa é problematizar algo que antes passava desapercebido. Confesso que adoto como principal tarefa do avanço do conhecimento perceber e identificar diferenças e que às vezes elas começam por alguma similiariedade ou semelhança mais analisada. Não tenho nenhuma necessidade a renunciar ao debate e a crítica só porque ela não agrada ou não é aceita por todos. Faço o debate, argumento e se estiver errado fatual ou formalmente só aguardo a correção, sem medo, nem precaução excessiva. Não sou obrigado a acertar sempre, nem desejo errar, mas senão tentar, se não pronunciar algo ou argumentar com sinceridade jamais saberei e, no presente caso, talvez muitos outros vão deixar de saber e observar. Não gosto mesmo de pensar só o que agrada, nem temo o sacrifício da controvérsia e fico muito lisonjeado quando encontro bons argumentos, não somente uma negação ou um veto ao dissenso....

SOBRE CONTRA A INTERPRETAÇÃO - SUSAN SONTAG: BREVE ANOTAÇÃO



Após uma espécie de caçada adquiri finalmente esta obra que foi minha primeira indicação favorável à leitura de Walter Benjamin, já nos anos 80 em uma estante da Biblioteca do Instituto Goethe, mas que tem mais do que isso dentro e que me anda provocando desde então muito sobre o tema e que me mantém como que mergulhado nela – se soma a ela para mim Sob o signo de Saturno, e suas outras obras e ensaios, mas agrega um questionamento crítico e de limite que bloqueou de certa forma meu ímpeto compreensivo, interpretativo, explicativo e racionalizante no último período. (Se não suportares esta lista de habitus em progressão e com diferenças: Uive!) Deste ímpeto restam em aberto pelo menos uns cinco ensaios sobre obras de arte diferentes.

Não porque tenha abandonado a função ou desanimado neste hábito ou nestes projetos, mas porque resolvi repensar o meu próprio pensar sobre a obra de arte (ou melhor dizer minha “interpretação” e seus targets sobre as obras), além de começar a olhar também com outros olhos tanto as obras filosóficas, quanto aos obras técnicas e científicas. Ainda que muitos resistam a isto tendo a olhar muita coisa como objeto cultural, produzido por um sujeito cultural, envolvido por uma história, métodos e teorias, paradigmas e influências, que fazem a partir de seu existir sua auto-realização ou ganha pão nessas obras.

Uma pequena citação que consta da contra capa da edição da L&PM de 1987, na tradução da Ana Maria Capovilla, e também com mais um acréscimo de parágrafo do item 4 na página 16 que vou citar aqui do Primeiro Ensaio Contra a Interpretação que dá título à obra. Para pensar, e para lembrar de Kant, Schopenhauer e Husserl numa tacada só:     

“O nosso é um tempo em que o projeto da interpretação é em grande parte reacionário, asfixiante. Como os gases expelidos pelo automóvel e pela indústria pesada que empestam a atmosfera das cidades, a efusão das interpretações da arte hoje envenena nossa sensibilidade. Numa cultura cujo dilema já clássico é a hipertrofia do intelecto em detrimento da energia e da capacidade sensorial, a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte.
Mais do que isso. É a vingança do intelecto sobre o mundo. Interpretar é empobrecer, esvaziar o mundo — para erguer, edificar um mundo fantasmagórico de "significados". É transformar o mundo nesse mundo. (Esse mundo! Corno, se houvesse algum outro.) O mundo, nosso mundo, já está suficientemente exaurido, empobrecido. Chega de imitações, até que voltemos a experimentar de maneira mais imediata aquele que temos.
(...)

O que importa agora é recuperamos nossos sentidos. Devemos aprender a ver mais, ouvir mais, sentir mais.

Nossa tarefa não é descobrir o maior conteúdo possível numa obra de arte, muito menos extrair de uma obra de arte um conteúdo maior do que já possui. Nossa tarefa é reduzir o conteúdo para que possamos vera coisa em si. (...) A função da crítica deveria ser mostrar como é que é, até mesmo que é que é, e não mostrar o que significa.”

E eu tenho mesmo pensado neste desafio de superação do intelectual ou de domínio dele a partir de certa exposição ou direção do sensível e do que ainda não é um significado, mas que bordeja e parteja o sentido e o significado da obra de arte. Sobre o limite do impensável vejo a construção e produção da obra. Mas vamos com calma...      


O LIXO QUE RESTA RECOLHER

Marcel está absolutamente correto na sua análise da confissão de culpa pelo contrato de 20 anos do atual prefeito que era vereador á época e agora confessa não ter lido as letrinhas miúdas do contrato, o que significa que ele votou favorável e não leu, porque não tem letrinha miúda em contrato público algum ! O único reparo é que trata-se mesmo do lixão que ainda resta recolher...E alguns consideram isso ofensivo e exagerado, mas não é. O que é mais ofensivo mesmo, não é o que nos dizemos, nem o que deixamos de dizer, mas o que eles fazem e dizem ao fazer. Assim, como o sujeito confessou que Batia o ponto e voava, agora ele confessa que votou, mas não leu o que votou. Isso passa bem longe de qualquer tipo de seriedade e responsabilidade com a coisa pública. E ele e eles dizem isso como se estivessem comunicando uma coisa singela e banal, simples e aceitável. Eu fico sempre assombrado com isso. E o Marcel toca nisso aqui, eles são sempre confessos. É uma terrível honestidade no crime que tanto nos ofende como é a mais completa falta de vergonha em fazer o mal. Por isso mesmo passei a chamar o governo deles de Um GOVERNO DE MALDADES...

MUITAS COISAS PARA ESTUDAR?



Compartilhei ontem isso porque tinha certeza do apelo simples e popular da postagem e porque ela amplifica com graça o aparente problema da diversidade e excesso de matérias e áreas. Agora compartilho de novo, porque nós podemos combinar que os alunos não aprendem tudo que os professores sabem nem tudo sobre cada uma das 8 disciplinas ou áreas. E o meu aluno Felipe lembrou que mesmo assim não aprendeu o máximo de algumas disciplinas dadas as condições atuais. Mas isso eu também creio que pode ser superado. Esta choradeira seria muito razoável se houvesse excesso de aprendizagem, conteúdos e atividades, avaliações, trabalhos e exercícios, o que não é mesmo o caso. Quando os alunos que passam pelas escolas de hoje passam para as universidades eles se dão conta o quanto cabularam,.choraram sem razão e enrolaram para não estudar com seriedade e dedicação aquilo que lhes era oferecido e que nem era tanto assim. Eles se dão conta do que perderam ou deixaram passar sem a devida atenção. E nós devemos dizer aos nossos filhos e filhas, amigos e amigas, alunos e alunas que nenhum sofrimento é maior ao longo da vida do que não saber aquilo que se teve a oportunidade de aprender um dia e que não se aprendeu por preguiça, comodismo e corpo mole. Só digo estudem mais, bem mais, porque mesmo as 8 matérias e seus conteúdos e habilidades ainda é pouco para o que vem pela frente. E ninguém vai morrer ou deixar de viver de fato por se dedicar mais aos estudos e encarar as suas tarefas com alegria e disposição. No sábado fiz com minha filha de 9 anos um tema que ela estava enrolando e meio casmurra para fazer, falei com ela que errar, repetir o exercício e revisar faz parte da vitória e da conquista do conhecimento e vocês não podem imaginar a alegria que ela conquistou após fazer as continhas que tinha para fazer e classificar as sílabas tônicas de todas as palavras que conseguimos colocar em uma tabela. Antônia saltitava de alegria por ter passado o seu bloqueio eventual e vencido seu tema. Eu disse para ela que a gente faz o exercício e que as vezes falta só uma coisinha de nada para aprender, mas que é preciso persistir e que o gosto da vitória e da conquista do conhecimento é muito bom. Façam mais, façam melhor e façam de novo que vocês todos, não importa a dificuldade ou limitação a vencer, serão muito felizes. Eu garanto!!! A minha filha Isabella já sabe muito bem disso e cada vez que estudamos juntos ela arregala aqueles olhos lindos e sorri ao superar uma condição prévia e avançar, nem que seja só um passo no seu próprio caminho.

SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS: ANTONIO ABUJAMRA DEFINITIVO

SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS

SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

Sou contra a redução da maioridade penal, porque, usando certos termos, alguns pais criam seus filhos sem piedade e sem responsabilidade com os inocentes, sendo permissivos e não assumindo plenamente a responsabilidade pela educação deles. Deveríamos conversar bem mais sobre a responsabilidades maternas e paternas em nossa sociedade e não avançar o sinal decretando a sua falência e punindo mais precocemente os jovens.  

Vejo em minha experiência e acompanhamento dos jovens, que 100% dos alunos e alunas com problemas, dos jovens infratores e dos delinquentes juvenis tem atrás de si uma estrutura familiar com problemas e um pai e uma mãe que não sabem muitas vezes por onde e que também não aceita sugestões sobre como educar seus filhos. 

Trabalho como educador com muitas experiências de contato com alunos problema e suas famílias a quase 20 anos e não sei mesmo o que pensam os demais colegas e se por um acaso já se ocuparam com mais vagar no atendimento a estas questões, o que considero que é bem diferente de observar o noticiário e se afetar por ocorrências, mas em minha experiência precisamos educar melhor nos aproximando mais das famílias, trazendo eles para a escola e para a educação, sendo apoiadores dos país e auxiliar os pais a mudarem a sua relação com a educação dos seus filhos, desenvolvendo neles responsabilidade e respeito às leis e  à autoridade, mas isso só será possível com governos também mais responsáveis e com respeito aos educadores. 

O que falta mesmo? É só se informar e pensar mais....antes de formar uma opinião e um juízo a partir de sentimentos. E não tenho a menor dúvida que jogar jovens infratores no sistema prisional e no convívio com os mais velhos nas  cadeias do Brasil, não vai mesmo reduzir a criminalidade. Na minha opinião a redução da maioridade penal vai aumentar a criminalidade. A solução mais punitiva que não produz discernimento entre o jovem e o adulto só piora a nossa já grave situação. 

domingo, 26 de abril de 2015

INTELECTUAIS, PROFESSORES E DEMOCRACIA

Creio que um dos temas mais interessantes hoje é este das relações dos intelectuais com o estado brasileiro e a sociedade brasileira....muitas das coisas que ocorrem e que são pensadas, suas formas de pensar e seus não pensares estão relacionados a isso. Tenho lido muita posição cuja formação acadêmica e intelectual, cuja autoridade e relação com a tradição é incontestável, tanto para o bem quanto para um mal que ronda a nossa democracia. Em minha pequena passagem de queda pelo estoicismo senti exatamente isto. Me pergunto muito: mas que diabos de inteligência e racionalidade é esta que leva a pensar assim, neste simplismo, tão rasteiro e desinformado, tão omisso e tão pouco auto-compreensivo? E ontem me perguntei até mesmo como é que alguém consegue conceber a atividade educacional como um emprego e ter uma relação com ela pensando somente na sua profissão, remuneração e agenda pessoal? Sem relação alguma com a dimensão mais ampla da cultura, da história ou da civilização. Sei que ser professor não é um sacerdócio, mas é sim algo como uma vocação e não pode prescindir de uma ética e de uma certa conexão com a sociedade, seja ela a ser definida por cada um, mas não por mera ocupação e uso do tempo.

ACIS E O GOVERNO DE MALDADES EM SÃO LEOPOLDO

Pois não é que a Acis vai abrigar a convenção do PSDB em que o sacrifício dos cordeiros e dos inocentes úteis será realizado? O primeiro passo no alijamento dos cidadãos da política e na consolidação do interesse exclusivamente econômico no estado é este mesmo: a intervenção empresarial organizada e sem escrúpulos na política e nas disputas políticas, que curiosamente é a mesma faceta que corrompe, se apropria e se assenhora da coisa pública em seu exclusivo benefício, e neste abre um processo de supressão dos direitos dos trabalhadores, cidadãos e das pessoas, vem também a redução da democracia e dos direitos civis, redução do estado, privatização e terceirização. E isso é feito para que aqueles que não possuem capital ou que não se inserem no sistema produtivo acumulando capital e nem tem esta pretensão, posto não serem nem sucessores, nem herdeiros, nem prepostos ou pretensos representantes destes interesses, sejam mais explorados e dominados. Isso já aconteceu muitas vezes antes, na Alemanha nazista os grandes empresários financiaram a ascenção nazista contra a social democracia e no Brasil os empresários que apoiaram, financiaram o golpe militar e que depois auxiliavam com suas empresas o aparato militar a torturar, silenciar e reprimir aqueles que pensam diferente. Isto é, ao fim e  ao cabo, um pseudo liberalismo de cujos resultados esperamos que São Leopoldo se afaste e se livre logo ali em 2016. Do contrário, vai se agravar a burocratização do estado e a falência da gestão pública municipal. Eu tenho dito que este é o PIOR GOVERNO DA HISTÓRIA DE SÃO LEOPOLDO, pois agora ele passa a fronteira entre isto que poderia ser só um acidente, ou como eles alegam uma consequência da tal herança maldita,mas que passa agora simplesmente a ser um GOVERNO DE MALDADES, do que a falta de recolhimento de lixo, os buracos na cidade,a falta de água e suas terríveis consequências - o que inclui aqui a perda de nossos amigos e os prejuízos em toda a cidade, a demolição do Lar São Francisco e a cessão de área nobre anexa ao hospital à iniciativa privada e ao interesse especulativo e empresarial, a soberba e a arrogância da gestão e da fração empresarial mesmo contra seus correligionários como o Aurélio da Padaria e o Claudio Giacomini, a recusa cínica do projeto de lei do Vereador Carlinhos Fleck, para não atrapalhar a captação de recursos daqueles cuja política só se sustenta de fato na abundância de fontes de arrecadação e em alto custo de campanhas eleitorais e na "compra de votos" seja pela oferta de benesses ou privilégios ou de adjutrórios bem vindos ao lumpensinato, aos lambe botas, aos mercenários da política, aos sem projeto, mas, além disso, todo o circo de gastança suspeita do que a COMPRA DE UNIFORMES, o NÃO PAGAMENTO DOS SALÁRIOS, são apenas as duas pontas visíveis do modo como o caixa funciona, de um lado, sem prioridades republicanas, sem respeito aos servidores e cidadãos, de outro lado, sem a forma e o critério legal. E assim vemos todo este espetáculo bem patrocinado e sustentado na mais importante entidade empresarial que inverte a lógica respeitosa antes vigente, e que, ao invés de auxiliar, promover e debater com a sociedade e o estado com legitimidade e grandeza o seu futuro e os seus desafios passa a cabular em moto contínuo e a abrigar em suas salas as esferas de deliberação e arranjo do esquartejamento da cidade, do seu território e dos seus cidadãos. Bem vos digo que é uma pena, apenas isso, mas não triunfarão mais, eles e seus associados, os néscios e os inocentes úteis apaniguados que são responsáveis por toda esta falta de escrúpulos e pela eleição, construção e manutenção do PIOR GOVERNO DA HISTÓRIA DE SÃO LEOPOLDO, que agora ingressa na sua fase das MALDADES, não mais dos erros, incompetências e desacertos contra a coisa pública, mas dos prejuízos deliberados e intencionais. Espero que os vereadores bloqueiem esta perversidade e que aqueles que fazem de conta que tudo está bem, sejam despertados pelos avisos que não faltam mais e que não são arrazoados nem exagerados.       

RESISTÊNCIA E AÇÃO

"A probabilidade de que seus atos de resistência não possam parar a injustiça não isenta você de agir no que você sinceramente e reflexivamente pensa serem os melhores interesses da sua comunidade."


- Susan Sontag , Ao mesmo tempo: ensaios e discursos

AS POSSIBILIDADES DE UM ESTÓICO - NÃO SEI

Não se trata, como poderia parecer, de uma crise de meia idade, mas sim da minha completa insatisfação em ver a abundância e a fartura de juízos sobre isso e aquilo cuja única base é sempre parcial, subjetiva e precipitada. E estes juízos orientam ações, relações, omissões e comissões. Tipo: ando enjoado de tanta meia verdade ou verdade e meia. Então dá uma vontade de escrever cadernos secretos, críticas reservadas, cadernos do cárcere para que um dia talvez sejam bem queimados no gigantesco incinerador da história que é o tempo. Porém devo confessar que entre as surpresas e decepções, também tem as boas e as ótimas surpresas. Como tem gente boa escrevendo bem e  pensando melhor que a média e o tal senso comum que vem dos preguiçosos e acomodados em suas sabedorias e experiências. Talvez eu comece somente a agir e deixe de lado a necessidade de dar razões, avisos, alertas e pare de ficar aguardando alguma coisa dali de onde num vai sair nada mesmo. Talvez assim, me sinta mais reconfortado e pleno e acabe de vez com essa aparente crise existencial de engajamento e desengajamento, intervenção e não intervenção e aguarde apenas o andar natural das coisas, o fluxo contínuo e previsível de alguns fenômenos que na história dos homens parecem extraordinários e impressionantes, mas que da perspectiva de uma existência plena e econômica, discreta e subjetiva, não tem nenhuma relevância, importância ou singularidade a oferecer. Não é bom, nem é ruim, é normal ou natural que eu tente me entrincheirar em uma perspectiva mais distanciada, isso poderia acontecer por força da idade que, avançando, me impedisse de perceber as coisas e responder a elas, mas também pode acontecer por um exílio precoce causado pelo alijamento ou falta de qualquer correspondência com o mundo exterior e seus representantes oficiais nos assuntos humanos. Sim, a incomunicabilidade nos tempos de hoje, poderia ser a causa, diz-se tanto, mas tão pouco de fato é dito. Então, já que é assim, porque tanta prolixidade? Que causa ou efeito ela teria em meio ao espetáculo natural? E que diferença faz? Não sei...meu sentimento estóico se avoluma em meu coração e me apequena a mente, me deixa com aquela serenidade em que menos é mais, e mais é apenas um menos amplificado e  alardeado. E dá aquela vontade de tirar o time e fazer só coisas prazerosas e modestas, simples e comezinhas, já que aqueles que deveriam fazer grandes coisas, só com estas pequenas ocupações pessoais realmente se ocupam. Vendo então um mundo do faz de conta se avolumando à minha frente, fico pensando em coisas mais transcendentais do tipo: não se escolhe pai e mãe, nem o lugar onde nascemos, nem o tempo em que nascemos, mas ainda assim podemos tentar escolher - naquele pequeno quadrado que resta a cada um de nós cuidar - como vivemos, com aquelas pequenas e conhecidas limitações que conhecemos e que envolvem a disposição dos outros sobre como devemos viver e também o interesse de outros em nos fazer servir ao sistema, a uma causa ou mesmo cumprir algum papel na máquina deste grande moedor de carne que é o mundo, ocupar com sua contribuição vermelha ou quase carmin uma vírgula ou ponto de algum livro de uma história que talvez seja escrita e talvez seja apenas vivida e esquecida. Neste, e agora vou usar emprestada a grandiloquência e a precisão de alguns outros, grande vale de lágrimas que é o mundo assistimos tanto o choro dos insensatos, quanto o riso cínico das Hienas, assistimos ao Leão buscar sua presa e ao Urubu que aguarda a parte que lhe cabe no banquete selvagem entre caninos e felinos da savana, mas também assistimos tanto a graça, quanto o riso e o choro também daqueles que são apenas ingênuos, inocentes, crédulos, agressivos, pacíficos, comedidos, tímidos, medrosos e covardes, vacilantes e inseguros, mas que ao dar opinião sequer se dão conta da frequência ou sintonia de humor em que se encontram e que afinam suas vozes em diapasões instáveis, de tal modo que jamais encontram um Lá ou um Sol, uma além e um lugar para brilhar ou iluminar. São só trevas, obscuridades e os horizontes que nos ofertam não nos agradam. Não posso orientar minha vida, minha opinião sobre o mundo, minha existência por profetas, videntes, cartomantes  ou penitentes cuja fé é tão instável, ou o conhecimento é tão seguro quanto a capa de um jornal, matéria de uma revista, ou o editorial deslocado  e distorcido de uma vontade suscetível ao livre jogo do mercado e suas marés de vontades e disposições transitórias. Sim, eu sei que não somos importantes, eu sei que pouco posso fazer, mas enquanto eu puder resistir, liderar a mínima resistência em meu ser, aqui eu ficarei sem me deixar levar por tuas vontades e juízos insanos. Não sou caça, não sou caçador, não porto armas nem canhões e não quero nenhuma forma de poder absoluto ou relativo que dependa de se ludibriar, enganar, prometer ou recontar as mesmas histórias de sempre, não acredito em milagres pessoais nem em pessoas milagrosas, não vejo nenhuma  possibilidade de melhorar o mundo com votos ou crenças na infalibilidade, mas nem por isso aceito  teus erros ou tuas intenções e pelos meios e entremeios que visualizo sei bem para onde vais e de onde bem vens. Mas tudo que digo aqui é só uma ficção, um espelho quebrado, que não significa nada, não representa nada e não conclui coisa alguma. Por assim dizer, dizer e não dizer, fazer e não fazer e escolher como pensar....não é o Grau Zero, mas também não é um nem menos um, é enfim pouca coisa que resta dos escombros do achatamento em que me parece que vivemos hoje...e me parece mesmo que é melhor não falar e é melhor não dizer, ainda que eu ouse esboçar em palavras sorteadas um porque e um como...Não sei...

UM ESTÓICO

Talvez eu vire um estóico e passe a cuidar somente dos meus sentimentos e pequeninos afazeres, deixe de ter opiniões e conhecimentos e também abandone a necessidade e minha compulsão a expressar o que penso sobre o que vejo e o que sei. Mas eu creio que isso não seria bom, nem me levaria a ações melhores, talvez seja também um pouco perigoso, pois me faça desenvolver respostas mais eficazes sobre as coisas que me provocam e me deixam indignado, inconformado e muito aborrecido. Isso seria até mais perigoso, na minha auto avaliação, ou eu imagino e componho novas ações contra tudo...não sei...

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A RAZÃO NO SERTÃO

"Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranqüilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!"


João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.

COGITO CARTESIANO COMO TESTE DE ROSCHARCH: POR THOMAS NAGEL

No Cogito cartesiano como uma espécie de Teste de Rorschach filosófico, em que cada qual enxerga suas próprias obsessões, segundo Thomas Nagel, em A Ultima Palavra. E nas minhas próprias risadas quando considero que não há nada mais bem humorado que um racionalista não dogmático que tenta compreender a posição dos outros.

PIERRE BORDIEU: A DUREZA E A FORÇA DE UM COLONO NO DOMÍNIO TEÓRICO

Sociologia de primeira linha na minha opinião.Talvez um dos intelectuais mais duros e rigorosos no trato de temas políticos, culturais e sociais. Eu me impressiono sempre quando leio algo dele. E creio que muita coisa que ele escreveu ainda poderá ter muitos efeitos na compreensão, interpretação e crítica do quadro atual, apesar dele já ter desaparecido deste mundo em 2002 deixou vasta obra e diversas incursões em temas que tocam na nossa realidade social e sua visão do simbólico como elemento de dominação e encobrimento da dominação me deixa muito impressionado por carregar em si uma crítica da submissão e da culturação dominante, bem como da reprodução da dominação nos processos escolares. E a escola mesmo a escola democrática precisa sim de crítica senão vira somente um sistema ou elemento a mais no sistema de acomodação e de construção de uma hierarquia social cada vez mais injusta e sem nenhuma auto-refrlexão. E faz também uma crítica muito precisa de um discurso do saber acadêmico que deve sofrer bem mais resistência daqueles que procuram de fato a verdade. Eu me impressionei tanto com ele na primeira leitura de "A Reprodução:elementos para uma teoria do sistema de ensino" e com Passeron também, com a sua análise da violência simbólica, que fiquei muito tempo pensando mesmo se deveria ser professor de fato e principalmente em que tipo de professor, autoridade e pessoa eu deveria ser em minha carreira. Lendo um breve resumo da biografia dele me dou por conta do significado e da dureza que um filho de colono tem com as idéias e dos cortes e aragens impiedosas das críticas inclementes dele no campo de pesquisa da educação. E creio que isso só foi possível por sua formação de classe e consciência de classe. Recomendo, principalmente para quem queira parar de ficar achando muita coisa e pense rigorosamente sobre sua própria ideologia e prática educacional e vivencial. 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

BARTHES E O SABER DA ESCRITA ROMÂNTICA

"Saber que não escrevemos para o outro, saber que essas coisas que eu vou escrever jamais me farão amado de quem amo, saber que a escrita não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente ali onde você não está - é o começo da escrita."

In: FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO. Op. Cit. CULT. N.200. p. 43. por Claudia Amigo Pino.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

FORÇAR A CRER, FORÇAR A SER LIVRE, FORÇAR POR ARGUMENTOS?

“Porque os filósofos tentam forçar as pessoas a acreditar em certas coisas? Esta é uma forma agradável  de se comportar com alguém?  Creio que não  podemos melhorar as pessoas desta forma: os meios frustram o fim. Assim, como a dependência não se elimina tratando uma pessoa de forma dependente, não se pode forçar alguém a ser livre, não se melhora uma pessoa, forçando ela a acreditar em algo contra a sua vontade, caso ela queira ou não. Não se pode modelar uma pessoa com algum valor exercendo uma filosofia sobre ela”.

Explicações filosóficas, Robert Nozick

(adaptação de uma tradução  espanhola de Jonathan Marqués ) 

P.S.: Estou muito provocado e sensibilizado mesmo e através de alguns contextos bem diferentes tanto por Feyerabend, Foucault, Cavell e Nozick sobre este ponto. Creio, porém, que este habito de forçar a crer em algo não é algo exclusivo dos filósofos. E já faz um tempo que tenho pensado num contra método ou no que um dia uma aluna minha chamou de argumentação balanceada que procedia cautelosamente refletindo e problematizando a linha de argumentação ou de exposição de algum conhecimento.

MAS ISSO também leva a uma possibilidade de parecer enganador e dificultar a interpretação.

POLÍTICO É TUDO É IGUAL

 - Pessoas interessantes as que pensam assim. Me parece que elas vivem num oceano habitado por muitas coisas, coisas indiscerníveis e de vez em quando elas tem uma espécie de simpatia delirante ou um impulso generoso e muito responsável, decidido e reflexivo, e, por um lado ou outro, do jogo democrático fazem suas escolhas. Isso inclui no mesmo oceano aqueles que julgam não escolher nada também. Isso não seria uma infantilidade? Claro que é uma tese que pode ser erguida sempre que você está com preguiça de levar alguma coisa mais a sério e não quer se dispor a reconhecer, preservar e valorizar determinadas diferenças. Aqui, como em outros casos, temos aquela vontade e entendimento que julga sempre mais fácil a negação do que a argumentação ou o raciocínio sobre as coisas, os fatos e as questões.

P.S. Me desculpe ai..filosofei....temos que reconhecer diferenças e isto só é possível com conhecimento e discernimento...e vivemos num mundo em que não há mais nenhuma justificativa para se dizer: eu não sabia.

domingo, 19 de abril de 2015

FEYERABEND EM DEFESA DE SE OUVIREM OS CIDADÃOS: E SUA CRÍTICA AOS RACIONALISMOS, INTELECTUALISMOS, TECNICISMOS, CIENTIFICISMOS E BUROCRACIAS EM GERAL

“O segundo evento que me instigou a afastar-me do racionalismo e ter suspeitas de todas as pretensões intelectuais foi bem diferente. Para explicá-lo, permitam-me começar com algumas observações gerais. O modo em que problemas sociais, problemas de distribuição de energia, ecologia, educação, cuidado com os idosos e assim por diante são “resolvidos” em sociedades do Primeiro Mundo  pode ser descrito em geral da seguinte maneira. Surge um problema. Nada é feito a respeito dele. As pessoas ficam preocupadas. Os políticos disseminam esta preocupação. Chamam-se especialistas. Eles desenvolvem teorias e planos baseados nelas. Grupos de poder, dispondo de seus próprios especialistas, efetuam várias modificações até que uma versão aguada é aceita e efetivada. O papel dos especialistas nesse processo cresceu gradualmente. Temos agora uma situação em que teorias sociais e psicológicas do pensamento e ação humanas tomaram o lugar desse próprio pensamento e ação. Em vez de perguntar às pessoas que estão envolvidas em certa situação problemática, os promotores de desenvolvimento, educadores, tecnólogos e sociólogos obtêm sua informação sobre “o que essas pessoas realmente querem e precisam” de estudos teóricos executados por seus estimados colegas naquilo que eles pensam serem os campos relevantes. Não  se consultam seres humanos, mas modelos abstratos, não é a população-alvo que decide, mas os produtores de modelos. Intelectuais pelo mundo afora assumem como dado que os seus modelos serão mais inteligentes, farão melhores sugestões, terão melhor  apreensão da realidade dos seres humanos do que esses próprios humanos. O que tem essa situação haver comigo?”



FEYERABEND, PAUL. K. Contra o Método. Tradução de Cesar Augusto Mortari. São Paulo: Unesp, 2007, pp.351-352.

E em seguida ele passa a narrar sua carreira até que em 1964 passa a lecionar também para imigrantes mexicanos, índios e negros que passam a ser incluídos na educação americana e se questiona se deve convertê-los ou não, e de repente se dá conta que “Quem era eu para dizer a essas pessoas o que e como pensar.” Na orelha da obra uma passagem explicita a simplicidade da recomendação democrática de Feyerabend: “a voz dos leigos deve ser ouvida.” Deixo as demais considerações e consequências para cada um pensar por si mesmo. 

Só fecho dizendo que este modelo de crítica e de caso de imposição de soluções me lembra muito certos projetos malfadados por soberba, arrogância e excesso de tecnicismo e ensimesmamento, daqueles que deveriam ter construídos eles com muita generosidade, compreensão, permeabilidade, mediação, escuta e humildade junto ao público alvo e que é enfim o maior interessado efetivo pelo sucesso e pelos resultados. 

Sem mais.

Obs. Agradeço muito minhas lições sobre ele da Professora Ana Carolina Krebs Pereira Regner, na UFRGS entre 1989 e 1993. Posto que me abriram a possibilidade de compreender a razoabilidade da sua crítica aos excessos dos racionalismos. 




COMO UM BLOG CHAMADO TIJOLAÇO FAZ UMA ANÁLISE E UMA DIALÉTICA TÃO FINA?

E FHC abandonou o golpe de fato com texto neste domingo na Folha de São Paulo. E parece que resgatou a sua sensatez democrática e institucional e dissipou seus negros vapores da bile, ou é somente aquele abraço de urso? Porém eu reconheço a posição dele como importante no atual quadro, mas também penso que muitas vezes ele é insensato também.
Neste caso ele é ou parece prudente, ainda que tenha de outras formas e com outras posições estimulado este quadro de crise. Imagino até que é um recuo da parte dele, só não posso ler suas razões atuais e conjunturais porque também esgotei minha cota na Folha de SP. Aliás, me parece a olhos vistos que a folha está se centralizando e também recuperando certa sensatez ultimamente com seu editorial que aponta a tremenda impunidade na justiça brasileira em relação a corrupção do PSDB.  Será só impressão minha isso?

Muito precisa esta análise do TIJOLAÇO que é compartilhada já por muitas pessoas e amigos. Pois aponta a vacinada do Cunha no tema do Arranjo Fiscal das Contas Federais e a recusa de submeter Dilma a um Impeachment.  O recuo de FHC, então, me parece tático também, porém o problema real deles é que até chegar lá na agenda de 2018, nenhum deles tem no horizonte alguma forma de constituir um bloco político sólido e estável para governar, por condições econômicas adversas, mas também porque todos os escândalos juntos estão erodindo muitos outros patrimônios políticos além do PT que é agora o mais afetado, mas que parece poder se recuperar com certos movimentos como a reação desta semana à terceirização e a resposta do diretório nacional sobre financiamento empresarial de campanhas.

A dialética sutil e o tempo muito diferente das respostas me deixam intrigado nos tempos atuais o que envolve os impactos via mídia e redes sociais também. E aquilo que o TIJOLAÇO aponta como sensibilidade democrática e política dos brasileiros é somente uma espécie de armação que esconde ao fundo certas forças vivas da sociedade que ainda tem seu poder de manifestação, reação e protagonismo, apesar de não possuírem a forte representação no congresso que desejariam ter e que poderiam ter.


Claro que a pergunta deste post é somente uma isca retórica ao pensamento dos nossos leitores, porque o que embasa a análise é somente informação e equilíbrio de análise das forças que se colocam em movimento quando a agenda e o debate realmente esquenta. 

JEAN-JAQUES ROUSSEAU - NON SIMPLICITER

"(...) Quem quer que se recuse a obedecer a vontade geral deve ser compelido pelos seus concidadãos a obedecê-la. O que nada mais é do que dizer que pode ser necessário obrigar um homem a ser livre (...)"
Do Contrato Social.

Estes dias usei esta citação contra-intuitiva, após uma citação típica de intelectual no contexto de um debate político, para alertar que em alguns momentos precisamos libertar as pessoas de suas próprias idéias que as aprisionam e as privam de uma verdadeira liberdade e de uma vida autônoma. E também para alertar que persistir de um modo quixotesco em pensar sozinho e fazer discurso solitário também é uma forma de prisão subjetiva. A analogia é dolorosa, mas pode ser repetida aqui: as vezes precisamos libertar as pessoas de si mesmas. Sei que isso é de uma tremenda arrogância intelectual, pretender libertar alguém de seu próprio pensamento, portanto, daquilo que ele julga ser justamente o fundamento de sua liberdade. Sei bem que a resistência individual a uma expressão destas é bem razoável, pois envolve a tentativa de ser insubordinado, livre, pensar por si mesmo, mas há ai também a possibilidade de se manter numa grande odisséia de auto-engano.

Porém, passados já meus quase trinta anos do primeiro contato com esta expressão (“obrigar a ser livre”), passados também meu assombro ao comentário feito sobre ela por outros contra a vontade individual que a embasa - o que inclui aqui pelo menos dois mestres meus - hoje devo dizer que não, que esta expressão não é mesmo uma bobagem.

Que de fato alguns são prisioneiros de seus delírios intelectuais, convicções políticas, paixões materiais, crenças religiosas e carências morais e mesmo com muita erudição - e às vezes o excesso de erudição acrítica promove um aprisionamento maior do que a ignorância singela - não conseguem libertar a si mesmo das cadeias de um pensamento que jamais, no conceito de Rousseau, poderá ser aceito como vontade geral. Bem, só para complicar um pouco a interpretação lanço mão de um problema dominical - que depois da missa e de todos os votos de caridade, bondade e perdão possíveis - como é possível que a REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL seja de alguma forma a expressão da vontade geral?

O comentário e a problematização do Francisco Ferraz, citado no Blog O VERMELHO, pode ajudar a abrir esta picada com o que segue :

"A ideia articula a liberdade individual com a vontade geral. Quando ambas coincidem, o indivíduo é plenamente livre. Quando divergem, as pessoas devem ser obrigadas a aceitar o ditame da vontade geral, porque somente assim serão livres."

Mas ainda assim proponho o problema e o deixo em aberto para quem quiser resolver.

SOBRE A DECISÃO DO PT NÃO ACEITAR MAIS FINANCIAMENTO EMPRESARIAL

A forma como a decisão foi construída, tanto o debate na executiva, quanto no diretório e o cenário de agudização da oposição à direção nacional em virtude da fragilidade de posição em relação à Reforma Política que vem desde 2013, na substituição de Henrique Fontana e do seu projeto da comissão e no circo posterior dos acordos do Vaccarezza com PMDB, a última proposta do PMDB defendendo financiamento útil, voto distrital e depois disso tudo o não afastamento do Vaccari, após sua inclusão na lista dos suspeitos e a prisão dele esta semana colocaram a maioria da direção nacional nas cordas e isso obrigou a fortalecer este posicionamento que é bem mais radical do que eles queriam e no PT toda vez que as posições mais radicais e menos conciliadoras vingam a militância e a base política se alegram. Isso pode não significar a solução para o grave problema de disputar contra a plutocracia deste país, mas pode ajudar muito a demarcar pela base a posição do partido. O problema de aceitar isso como verdadeiro é que se for só um jogo de cena quem continua ganhando são as bancadas plutocráticas. E é bem interessante observar que são os eleitores delas que debocham do PT e que querem ver o PT sem representação política neste país. A descrença não se deve ao caráter do PT, mas sim ao fato de que alguns julgam mesmo que o PT só se elege com fartos recursos de financiadores de campanha, como se o partido não tivesse mais projeto e programa. E a decisão nacional leva na outra direção. Como alguns acham que a única coisa que está em jogo é uma cadeirinha no poder, então....

SARTORI E O BANRISUL

Veja: Postei na última sexta por aqui um texto sobre esta questão do Sartori e do Banrisul neste e em outros grupos e não é que já levei pedrada sobre a operação lava-jato e etc. Como se a lava-jato justificasse, atenuasse ou transformasse a bobagem e a estultície que o Sartori disse – o “banco não precisa de escrúpulos” - e o que ele faz de errado até agora na gestão estadual se transforme em coisa leve ou desimportante.

Qual o problema do Banrisul antes dele? Discordo respeitosamente de quem pensa que tinha problema ideológico ou algum excesso de escrúpulos na gestão anterior. Creio que a gestão do Túlio Zamin que repetiu em parte o alto padrão da gestão anterior dele no banco, foi impecável e não foi ideológica no sentido pejorativo sugerido pelo comentário ou fala do Governador, nem excessivamente escrupulosa. Foi uma gestão na medida certa.

Alguém me comentou tentando atenuar o causo dizendo que foi um ato-falho. Bem, creio que tenho direito de ter opinião diferente também nisso. Não gosto de atos falhos, nem de pés trocados ou de chegar atrasado nas coisas e tarefas, imprecisões e falas desleixadas de autoridades. E este ato falho é só uma confissão do tipo de inconsciente que não se deveria expor ou sequer pensar sobre algo público e em espaço público. Ele pode pensar o que quiser, avaliar o que quiser e brincar com o que quiser na esfera privada dele, mas precisa mesmo em respeito ao estado e ao banco cuidar o que diz e como diz. Se fizer só isso já terá minha consideração mais elevada possível, independente de partido.

Por exemplo, muitos falam de partidarismo, mas neste quesito tanto Germano Rigotto quanto Tarso Genro sempre foram impecáveis e um discurso político é também educativo e deve ser exemplar e muito mais valorizado do que comumente ou relaxadamente é tratado por alguns que acham que política é uma brincadeira ou o ambiente de bom sucesso da malandragem.
Um governador fala sempre publicamente pelo estado e pelo seu staff, pelo povo como um todo e pelos seus eleitores....talvez neste quesito meu professor Brum Torres faça muita falta a ele para saber e respeitar certas diferença conceituais e morais.

Sustento, portanto, minha crítica ao nosso governador porque ele foi legitimamente eleito e me representa, apesar de não ter votado nele e eu me julgo em pleno direito de exigir o melhor dele também, como qualquer outro cidadão aliás pode também fazê-lo. E não se trata de ensinar o padre a rezar missa nem de ser mais realista que o rei. O governador não é líder religioso, nem soberano monárquico, foi eleito em uma democracia e deve cumprir suas obrigações de respeito aos cidadãos e sofrer a crítica quando assim não o fizer.

O Banrisul não é uma bagatela de regateio...nem uma bodega de fim de linha...e mesmo que o fosse, lá ainda haveria ou um cão ou um dono para cobrar compostura e zelo.

Eu sou professor e não gosto de errar palavra assim como sei que bancário não gosta de errar conta . Bem, um governador não pode errar em nenhuma das duas coisas...e no RS mais ainda, pois não importa se é do PDT, PP, PSDB, PT, PMDB ou o que seja a sua grés partidária novidadeira, a nossa tradição deve ser respeitada e quem quer que sente naquela cadeirinha lá deve sair da galhofa e cuidar bem mais da palavra e das contas. E pelo menos desde Júlio de Castilhos se pode dizer que a principal obrigação do governador do estado do Rio Grande do Sul é sim com a palavra no espaço público.

E, ainda devo acrescentar, que o Banrisul restou incólume do surto de privatizações do Britto, graças a lutas populares e dos movimentos sociais e a disputas no parlamento e também  pelos esforços do Olívio e do Túlio Zamin, na outra gestão e ainda hoje é um ótimo banco por sinal e está em ótimo estado financeiro e gerencial.

E faz diferença para todos os gaúchos o Banrisul existir sim...mas este é um debate mais longo também...


Desculpe se discordo da expectativa positiva dos eleitores do Sartori, mas eu já vejo certa tendência persistente à derrisão permanente neste governador...e não gosto mesmo nada disso...porque não é educativo nem bom sinal de conduta no espaço público...ele ser gringo ou das colônias não lhe dá o direito de apequenar as instituições gaúchas nem de brincar de fazendinha ou ranchinho no nosso querido estado.

sábado, 18 de abril de 2015

FILOSOFIA E METAFILOSOFIA: PEQUENOS COMENTÁRIOS A WILFRID SELLARS

"É, portanto, o ‘olhar sobre o todo’ que distingue o empreendimento filosófico. Do contrário, há pouco que distinga o filósofo do especialista persistentemente reflexivo; o filósofo da história, do historiador persistentemente reflexivo. Na medida em que o especialista está mais preocupado em refletir sobre como seu trabalho de especialista se conecta com outras ocupações intelectuais do que em fazer e responder questões no interior de sua especialidade, diz-se, apropriadamente, que ele dispõe de uma mente filosófica. E, na verdade, alguém pode ‘ter seus olhos sobre o todo’ sem fixar-lhe olhar o tempo inteiro. Tratar-se-ia de um empreendimento infrutífero. Além do mais, como outros especialistas, o filósofo que se especializa retira muito da sua noção do todo daquela orientação pré-reflexiva que é nossa herança comum. Por outro lado, dificilmente poder-se-ia dizer que um filósofo tem seus olhos sobre o todo, no sentido relevante, a menos que ele tenha refletido sobre a natureza do pensamento filosófico. É essa reflexão sobre o lugar da própria filosofia na ordem das coisas que é o traço distintivo do filósofo, em contraste com o especialista reflexivo; e na falta dessa reflexão crítica sobre o empreendimento filosófico, alguém é, quando muito, um filósofo em potencial."

Sellars, A Filosofia e a Imagem Científica do Homem.

Concordo que é o “‘olhar sobre o todo’ que distingue o empreendimento filosófico”. Tenho chamado isso de busca da totalidade, de certa ambição pela totalidade, por uma explicação, interpretação ou compreensão da totalidade, e tal ambição tem diferentes versões, mas em todas elas a uma busca de algo como um princípio, uma regra, uma lógica que explique, compreenda, a totalidade a partir de Um. Desde os pré-socráticos tem sido assim. Esta busca da totalidade tem tido, porém, certas variações fundacionais, formais ou lingüísticas.

Com eles a busca por um arché que em principio era um elemento natural e passa logo a ser considerado um elemento formal e sucedendo isso a questão do código, da tradutibilidade e de uma espécie de semântica.   

Nós temos este processo já também com as escolas de Atenas que passa em viés inverso da retórica dos sofistas a um principismo e um certo incremento da perspectiva chamada humanista e aplicada a vida concreta do homem e não mais à cosmologia ou physis, mesmo com a preservação da reflexão formal em Platão e da reflexão natural em Aristóteles, e em ambos o uso e o recurso à retórica. Vejo que ambos se ocupam com grande esforço de assuntos mundanos, a política, a ética e a psicologia e que esta ocupação recebe incrementos próprios nos seus estilos de escritura. Estes incrementos são formais ou semânticos também  ( assim dos sofistas, Sócrates, Academia de Platão e Liceu de Aristóteles se segue uma linha de passe que transforma a busca de uma explicação da totalidade natural para a totalidade da vida e do pensamento humano e seu significado).  
  
Porém, quando olho para a filosofia que é feita hoje – comparativamente a dos antigos e dos modernos - percebo poucos que se ocupam com esta totalidade. E não é só a grande metafísica que foi abandonada, salvas as raras exceções. A maioria se ocupa ou com uma região, ou campo ou domínio especializado da filosofia e em algumas poucas ocasiões produz vôos mais altos. Aliás, me surpreendo com isso que parece uma espécie de divisão social do trabalho filosófico tanto na academia, quanto mesmo em ambientes mais informais e ainda que ela seja ditada em seus temas e problemas pela predileção, escolha livre e eleição dos investigadores ou por uma espécie de força de atração e influência de escolas.

Fiquei pensando nisso, ao preparar minhas lições introdutórias de filosofia contemporânea e olhando para duas constelações de filósofos que chamo de Existencialistas e ou Logicistas. Posso apresentar aqui várias notas sobre isso, mas começaria perguntando sobre o que atraiu cada um e cada uma a uma ou outra escola ou bloco, ou constelação filosófica? Não para deslegitimar a escolha, mas sim para encontrar algo como uma motivação – já vi muitos filósofos se auto-ironizando chamando isso de obsessão – que provavelmente dá espécie de assento espiritual a esta escolha. Sei que em alguns casos ela é acidental, aleatória e mesmo fortuita, que esta escolha ocorre por boas associações, traços de boas lembranças e também que mesmo uma referência na passant ou cruzada pode atrair um leitor sobre certa obra ou autor.

Vivemos um tempo muito diferente do modo de fazer a filosofia e de suas escolhas. As opções, acervos, acessos e mesmo publicações são feitas em abundancia e tanta diversidade que qualquer levantamento – por exemplo – dos livros traduzidos e publicados, o número de suas edições, o tamanho de certos acervos e a diversidade de leitores e usuários deles nos levaria bem longe no raciocínio sobre estes blocos contemporâneos, de tal modo que a aproximação das duas tradições, para ficar na sucessão da Filosofia da Existência  e no Logicismo, em Filosofia Analítica e  Fenomenologia  j[á nos leva com naturalidade para uma aproximação que creio que redundará – sabe se lá onde e com quem – em uma nova expressão desta busca da totalidade e superação. 

Penso nisso toda vez que sou obrigado a fazer algo como uma introdução a filosofia e a tratar da história da filosofia. Para mim fica intrínseco a estas duas atividades fazer algo como uma bem insegura e cautelosa metafilosofia.     
  
“Do contrário, há pouco que distinga o filósofo do especialista persistentemente reflexivo; o filósofo da história, do historiador persistentemente reflexivo. Na medida em que o especialista está mais preocupado em refletir sobre como seu trabalho de especialista se conecta com outras ocupações intelectuais do que em fazer e responder questões no interior de sua especialidade, diz-se, apropriadamente, que ele dispõe de uma mente filosófica.”

Esta diferenciação do Sellars de questões de conexão externa da filosofia com questões internas me parece bem importante aqui também.

“ E, na verdade, alguém pode ‘ter seus olhos sobre o todo’ sem fixar-lhe olhar o tempo inteiro. Tratar-se-ia de um empreendimento infrutífero. Além do mais, como outros especialistas, o filósofo que se especializa retira muito da sua noção do todo daquela orientação pré-reflexiva que é nossa herança comum. Por outro lado, dificilmente poder-se-ia dizer que um filósofo tem seus olhos sobre o todo, no sentido relevante, a menos que ele tenha refletido sobre a natureza do pensamento filosófico.
É essa reflexão sobre o lugar da própria filosofia na ordem das coisas que é o traço distintivo do filósofo, em contraste com o especialista reflexivo; e na falta dessa reflexão crítica sobre o empreendimento filosófico, alguém é, quando muito, um filósofo em potencial."

Sellars, A Filosofia e a Imagem Científica do Homem.


FIM

ARTE - A LUTA DO APOLÍNEO E DO DIONISÍACO: NIETZSCHE

"Teremos ganho muito para a ciência estética ao chegarmos não só à compreensão lógica, mas também à imediata segurança da opinião de que o progresso da arte está ligado à duplicidade do Apolíneo e do Dionisíaco; de maneira parecida com a dependência da geração da dualidade dos sexos, em lutas contínuas e com reconciliações somente periódicas. Estes nomes tomamos emprestados aos gregos, que manifestam ao inteligente as profundas ciências ocultas de sua concepção artística não em idéias, mas nas figuras enérgicas e claras de seu mundo mitológico." - 

Nietzsche em "A Origem da Tragédia"

LIXO NA PREFEITURA

Vou ser muito sincero sobre o que estamos chamando de a CRISE DO LIXO aqui. E tentar ajudar a evitar esta espécie de virose da indiscenibilidade daqueles que tiram proveito da idéia de que é tudo igual e que não há diferenças a serem reconhecidas, preservadas e valorizadas.   

Fiquei surpreso com algumas pessoas que curtiram o ato de deixar o lixo na Prefeitura. Surpreso porque é um ato de rebeldia compreensível para jovens, mas não para adultos responsáveis e mais conseqüentes. Tinha dito para uma querida amiga e colega que  eu não vou levar lixo na Prefeitura mesmo. Mas mesmo assim compartilhei aqui o ato para ver as reações e também para tentar entender algo do que se passa na cabeça de meus conterrâneos.

Desde segunda feira eu postei mais de 30 imagens e críticas sobre a falta de RECOLHIMENTO DE LIXO NA CIDADE e eu bati nisso, portanto, ao máximo.

Porém, tendo a pensar certas coisas sobre o ato em si e a situação atual da cidade. A gestão é a pior da história e como diz um amigo meu - também da área médica - de fato estou muito errado em minhas críticas, pois simplesmente esta não é a pior gestão, nem o pior governo e nem a pior administração da história da cidade, posto que de fato não há gestão, não há governo e não há administração na nossa cidade.

Eu aceito a crítica sutil do amigo e a correção, porém devo continuar chamando de Governo, Gestão e Administração isto que ai está, posto que disputou a eleição para tal, foi empossado para tal, montou equipe para tal, e detém mandato legítimo com tal responsabilidade até 31 de dezembro de 2016, sendo porém ineficiente e de péssimos resultados.

Cheguei a ironizar, durante a semana, que o prefeito fugiu, em forma de pergunta, o que foi, aliás, muito curtido, inclusive por pessoas que foram eleitoras dele.    

Mas eu não quero criar este hábito nas pessoas ou incentivar este hábito nas pessoas de fazerem de conta que a culpa e do prefeito e punirem apenas o prefeito e, ao mesmo tempo, aumentarem a desgraceira da cidade, deixando de cuidar dela e promovendo uma espécie de culpa exclusiva dos políticos. Creio que muitas pessoas deveriam por o dedinho na sua moleira e pensarem um pouco mais, no que causou este descalabro todo. Na campanha eleitoral o prefeito anterior foi criticado por fazer uma prefeitura nova e não um hospital. Pois bem, o que continua sendo o problema da saúde é a falta de médicos, inclusive daqueles que batem o ponto e voam ou que não aparecem ou que se atrasam, ou que tiram férias quando bem entendem e muito mais.

Assim, eu espero mesmo que algumas pessoas pensem e parar de punir mais a cidade pelos erros e equívocos das suas próprias escolhas. O LIXO NA PREFEITURA significa para mim isso, não o lixo que colocaram lá ontem, mas quem colocou aqueles que criaram esta crise do lixo lá naquele prédio para administrar a nossa cidade de novo. E não é difícil saber quem contratou por 20 anos a SL Ambiental na calada da noite ou nos estertores do governo Waldir Schmidt, em dezembro de 2004.

E eu não sou daqueles que pensa quanto pior melhor, pois sinceramente me dói ver aquela prefeitura cercada por lixo, porque aquilo lá deveria ser o lugar onde a impossibilidade de mais lixo, dengue, doenças, ignorância, violência e corrupção fossem evitadas em nossa cidade.

É uma coisa muito dura para a minha cabeça talvez. E olha que eu estou batendo ao máximo no que julgo razoável e necessário criticar neste governo. Porque sei que não dá para perdoar mesmo aqueles que diziam que iam fazer e acontecer e que eram os bons e estão fazendo todas estas bobagens na nossa amada cidade aqui em SL – como fizeram no estado com a Yeda e quem fez isso foram só os CCs e os lambe botas que todo mundo já conhece bem. E os eleitores só vão escolher melhor quando reconhecerem as diferenças.


Então, vamos trabalhar porque é assim que o mundo muda e tentar acabar com ESTE LIXO NA PREFEITURA DE SÃO LEOPOLDO.

terça-feira, 14 de abril de 2015

SOBRE A REVELAÇÃO DA ARTE

PONTO DA REVELAÇÃO DA ARTE

"“Os artistas tem que conseguir ver alguma coisa que as outras pessoas não vem e, por serem capazes de ver, fazer isso visível para os outros, numa tela ou numa pagina. Ninguém jamais viu os girassóis da mesma maneira depois de Van Gogh. A arte cria novos valores e novos modos de ver, novas percepções. A função do escritor, de qualquer artista, é tornar as pessoas mais conscientes do que elas sabem, mas não sabem que sabem. É fazer as pessoas verem o que elas estão olhando, mas não estão vendo”.

William S. Burroughs

CONTRAPONTO DA REVELAÇÃO DA ARTE

“Ouve-se frequentemente que a arte tem por encargo exprimir o inexprimível: é o contrário que se deve dizer (sem nenhuma intenção de paradoxo): toda a tarefa da arte é inexprimir o exprimível, retirar da língua do mundo, que é a pobre e poderosa língua das paixões, uma outra fala, uma fala exata.”


Roland Barthes. Crítica e Verdade. São Paulo Editora Perspectiva. p.22.      

O PIOR GOVERNO DA HISTÓRIA DE SÃO LEOPOLDO QUER MAIS CCS?

O vereador Luiz Castro e o vereador Carlinhos Fleck divulgaram hoje, em meio a maior crise de recolhimento de lixo da história da cidade, que o governo municipal enviou para a Câmara de Vereadores um projeto criando mais cargos em comissão. É uma piada isso do PSDB/PMDB/PP/DEM/PSB, ficar o governo inteiro pedindo "compreensão e paciência" e achar que isso não acaba um dia, ficar um governo inteiro botando a culpa nos governos anteriores e mentindo na maior cara de pau em tudo que é questão, e não resolver nenhum problema da cidade...deveriam assumir a gestão "falha nossa" deles e parar de ficar enrolando a cidade toda com esse papo furado....ou o que é pior é ver os CCs deles que ficam ofendendo os concidadãos e funcionários públicos para justificar seus empregos pagos com o trabalho feito e as contribuições e impostos pagos por estes mesmo cidadãos que eles "sem vergonha" ofendem, na falta de argumentos....e agora querem criar mais CCs para defender um governo que não funciona direito? Não coletam o lixo direito, não fazem gestão de educação, saúde e segurança direito, não cuidam do SEMAE direito, não cuidam do Hospital direito, não tem nenhuma política cultural, estão mais perdidos do que nunca e querem mais CCs? Aplicaram o MAIOR ESTELIONATO ELEITORAL EM 2012 e tudo que disseram foi descumprido!i O que inclui mais CCs...


Algumas pessoas acham que eu exagero com a expressão PIOR GOVERNO DA HISTÓRIA DE SÃO LEOPOLDO, mas eu lembro de governos municipais desde 1974 e os anteriores me dei ao trabalho de estudar um pouco e não há nenhuma dúvida que este é pior e é tão ruim que as pessoas que trabalham nele e que o compõem deveriam tomar um ganchinho de uns 12 anos sem botar os pés na prefeitura...de tão ruim que é o governo que eles constituiram, defendem e participam....

EDUARDO GALEANO E A MÁXIMA EXPLORAÇÃO COLONIAL

"Em 1532, o conquistador Pizarro aprisionou o inca Atahualpa, em Cajamarca. Pizarro prometeu-lhe a liberdade se o inca enchesse de ouro um grande quarto. Desde os quatro cantos do Império, o ouro chegou e abarrotou o quarto até o teto. Assim mesmo, Pizarro mandou matar o prisioneiro. Desde quando as primeiras caravelas apontaram no horizonte, até nossos dias, a história das Américas é uma história de traição à palavra: promessas quebradas, pactos descumpridos, documentos assinados e esquecidos, enganos, ciladas. “Te dou minha palavra” pouco mais quer dizer do que... nada! Não teríamos que aprender com os índios? Os primeiros habitantes das Américas – derrotados pela pólvora, pelos vírus, pelas bactérias e pela mentira – compartilham a certeza de que a palavra é sagrada. Um indígena mapuche, ao sul do Chile, diz: “para nós, ainda hoje, a palavra continua sendo o maior dos monumentos”. Um indígena avá-guarani, no Paraguai, diz: “a palavra vale porque é nossa alma. Não precisamos colocá-la no papel para que nos creiam. Na Guatemala, em 1995, já no período que chamam “democrático”, militares executaram a matança da comunidade indígena de Xamán. Havia uma montanha de provas que condenavam os assassinos. A secretária que transcreveu o auto processual cometeu um erro ortográfico na qualificação penal: escreveu “ejecusión” com “s” em vez de “c”. Os advogados do exército sustentaram que esse delito, escrito assim, com “s”, não existe. O promotor protestou: foi ameaçado de morte e partiu para o exílio."


Autor: Eduardo Galeano

domingo, 12 de abril de 2015

RBS REVELA UM ESCÂNDALO E OCULTA A SI MESMA: A CAIXA-PRETA DO JORNALISMO BRASILEIRO

Peguei a Zero Hora na mão ontem e tive uma espécie de epifânia a respeito do que está acontececendo de fato no Brasil hoje. E digo que ando sonhando com minha amada universidade ultimamente. Dá para acreditar?

Ao ver na capa o nome UNIVERSIDADES e “Reportagem produzida em conjunto por cinco jornais brasileiros investiga contratos obscuros e outras irregularidades envolvendo universidades públicas de cinco estados.” Notícias 13 a 21.

E na página 4 do mesmo Jornal vejo o editorial: A CAIXA-PRETA DAS UNIVERSIDADES. E fiquei bem impressionado, pois fazia tempo que este tipo de discurso não aprecia na imprensa bege brasileira.

Eu lembro do discurso das universidades sucateadas, das universidades sem recursos, das universidades só para os ricos, da rebeldia nas universidades e etc. 

Não vou entrar no mérito da matéria, se é permitido ou não ser sócio ou partícipe de empresa por conta da D.E., porém, que é suspeita a mesma empresa de professores prestar serviço para a universidade, isso é.

O problema disso consiste em participar de uma instituição como contratado nomeado em regime exclusivo e, ao mesmo tempo, ter um segundo contrato fortuito de prestação de serviço com ela cuja finalidade sendo a empresa o que é, é ao fim e ao cabo lucrativa.

Mas preciso dizer que a matéria esta na capa e tem toda esta conexão nacional porque é oportunista a mais não poder, pois se coloca no debate como uma cortina de fumaça do SWISSLEAKS ou Suiçalão e, também, do grande Escândalo de Sonegação de Impostos das Grandes Empresas no CARF da Receita Federal. E entre elas a RBS.

É só neste quadro, apesar da sua concepção e de ter virado pauta já no ano passado, que uma matéria diversionista como esta se apresenta para tirar o foco e a atenção do que é milhares de vezes bem mais grave, criminoso e muito mais lesivo ao nosso país.

E eu tinha quase me esquecido da cereja no bolo que se resume a dizer - com esta grande matéria - que a corrupção é pública de novo!

O propósito da matéria é aliviar de novo as costas da iniciativa privada e jogar toda a "culpa" no serviço público de novo.

O Raul Pont tem dito uma frase bem interessante sobre isto: que qualquer grande empresário poderia denunciar à polícia ou ao presidente ou presidenta a tentativa de achaque de um funcionário de segundo ou terceiro escalão da Petrobras, mas porque não fazem?

Quem é mesmo o corruptor, quem tira de fato grande vantagem material com a corrupção?

Por fim, é claro, que a matéria é bem vinda em qualquer tempo, que as irregularidades devem ser apuradas e corrigidas e que os prejuízos públicos merecem reparos, porém não dá mais para esconder ou vir a calhar no encobrimento de um gigantesco escândalo de corrupção no jornalismo brasileiro.

Então, todo este “material de enorme valor” poderia nos levar a perguntar moto contínuo pela CAIXA-PRETA DO JORNALISMO BRASILEIRO?

Mas existe jornalismo independente neste país para encarar esta pauta?


Minha homenagem tardia aos Jornalistas e meus amigos....     

A LEI DA TERCEIRIZAÇÃO É UM CRIME MUITO PERVERSO CONTRA TODOS OS TRABALHADORES

Os únicos que ganham com isso, são aqueles que não trabalham ou que aumentam seus lucros através da exploração do trabalho dos outros.

A lei da Terceirização é o ato POLÍTICO MAIS COVARDE DE QUE TENHO NOTÍCIA.

Toda vez que as coisas ficam piores para os trabalhadores, elas ficam mais piores para as mulheres, piores para os negros, piores para os jovens e muito piores para os pobres.

É como uma cadeia de transmissão impiedosa da perda de direitos e que vai descendo pirâmide social abaixo, piorando, precarizando, desempregando, a tal ponto que sequer a caridade deixa de ser afetada, sequer a esmola, a ajuda e mesmo a cadeia de sobrevivência social inteira é abalada.


Não podemos permitir que isso aconteça! Pressão nos deputados e muita luta!!!

sábado, 11 de abril de 2015

QUAL O MODELO? - NOTA PARA O DEBATE SOBRE A FILOSOFIA BRASILEIRA

Eu acredito mais numa necessidade de se debater qual o modelo e o projeto de ciência e produção intelectual e cultural nacional, tanto no que toca aquilo que é financiado publicamente e no que depende de iniciativas privadas ou individuais e suas relações entre um e outro. O Lattes é uma plataforma, uma ferramenta. O problema certamente não é o Lattes, o Lattes é meio não fim em si mesmo e eu creio que nem representa o modelo também. O que há de importante nele é a transparência e a visibilidade da produção intelectual e científica brasileira e isso deve ser estimulado sim, assim como o debate sobre relevância, recepção e produção intelectual externa e interna no país. No debate sobre o Ranking dos dez melhores filósofos atuais me chamou a atenção não  falta de qualidade deles que me parece inquestionável, mas o fato de que tem mais gente pensando, fazendo debates e produzindo trabalhos hoje em filosofia de alta relevância. Tem muita abordagem exagerada tanto na crítica e tenho testemunhado muita disputa crítica rebaixada - por aqui pelo menos. O problema desta posição da Marilena ou de outras posições polêmicas como estas é que logo já tem gajo fazendo uma crítica generalizante e superficial à tradição uspiana, ou porchatiana ou do que quer que seja. Vejo - e minha posição quasi externa ao meio acadêmico - talvez aumente minha margem de erro ou me faça ver só a superfície do tipo de combate entre tradições que impede a discussão coletiva de um modelo. Mas eu creio que vai chegar uma hora que o debate sobre o modelo e eleger um modelo haverá de ser feito até para avançar mais e fechar algumas contas e abrir contas novas no debate nacional. E ao ler a postagem da Marilena eu fico pensando mais ainda em qual é mesmo o significado de falar sozinho? Gostaria mais de ler um debate bem mais ampliado sobre o tema do modelo nacional. E começar pela filosofia pode ser mais auspicioso do que parece, até porque já foi feito isso antes e o modelo que herdamos me parece ser muito tributário disto.  Mas certamente não é mais uma questão de quem está por cima ou por baixo, dentro ou fora, quem tem jornal ou platéia, quem tem prerrogativas ou não, no regime das trocas intelectuais nacionais.  O público filosófico brasileiro e o número de filósofos profissionais neste pais hoje – e não falo isto com desdém - e também a existência de novas plataformas tecnológicas e de circulação de informação talvez permitam isso. Qual o modelo?

Marilena Chauí criticando o Lattes: "É um crime o curriculo lattes" diz Marilena Chaui

quarta-feira, 8 de abril de 2015

DEMOCRACIA E LIBERDADE DE OPINIÃO

Ocorre que a opinião simplória (ou idiota) olha para a democracia como um vale tudo, um liberou geral e não se dá conta que a democracia é o regime justamente que aumenta a responsabilidade de cada um de nós, de cada coisa que pensamos e dizemos e que aumenta e até amplifica o poder da nossa ação individual para o bem e para o mal.

terça-feira, 7 de abril de 2015

VIRTUDES INTELECTUAIS E AUTO-CONHECIMENTO: para Cesar Schirmer dos Santos

A proposta de discutir um ou dois artigos resumidos do amigo e ex-colega Dr. Cesar Schirmer dos Santos ( Autoconhecimento e Virtudes Intelectuais & O papel do Ceticismo na Literatura Filosófica Brasileira sobre o Autoconhecimento) em academia.edu, me colocou o desafio de verter aqui coisas que ando ruminando a algum tempo já e articular experiências e concepção em um texto só sobre os temas que ele propõe e aborda resumidamente lá e tomando algo emprestado também dos comentários em especial ao seu texto de Virtudes Intelectuais. Vou começar pelo texto das virtudes intelectuais porque eu creio que ele tem conseqüências sérias para a nossa atividade intelectual e o tema do ceticismo e do autoconhecimento entre nós, ou, pelo menos, para mim certamente. Devo, porém, confessar de saída aqui duas coisas.

A primeira, é que os temas me são conhecidos por via indireta e talvez mais relacionados com minha própria experiência limitada e minhas vivências de formação e educativas, pelo menos até onde consigo fazer uma panorâmica do todo desta experiência e avaliar meus passos e escolhas, posições e elaborações intelectuais, ou seja, pela forma como consegui elaborar em minha memória a minha experiência intelectual, do que por especialização ou investigação dirigida do tema na vida de outros. E eu creio sinceramente que este é o tipo de tema em que devemos consultar primeiro nossos próprios botões. Durante um tempo me considerei incapaz de produzir algo de muita valia filosoficamente, passados, então,  já alguns anos penso que continuo igual e o que de fato melhorou foi apenas a minha honestidade e sinceridade em relação a isso. E isso que me leva a usar sempre um tom confessional e bem pessoal em todos os meus textos. Chamo isso de narrativa ligada ao sujeito e por conta disto faço sempre uma justificação e narro minha perspectiva em relação a um tema a partir da minha própria história de estudo em relação à ele. Creio que não é algo academicamente satisfatório, é muito subjetivo, mas é exatamente o que considero o melhor que eu posso fazer.

A segunda é que não tinha mesmo o hábito de participar deste tipo de debate em academia.edu e que, portanto, talvez erre em diversos aspectos, por meu estilo, por atrasos em prazos, por abordar o tema sem uma devida formação ou investigação prévia ou com uma narrativa menos ligada ao objeto do que a mim mesmo e, também,  por esta limitação talvez acabe por dar opinião ou manifestar o que penso sobre os textos dele e de outros aqui acabe sendo superficial e mesmo equivocado, mas vou mesmo aceitar o risco, contando um pouco com a sorte e tentando dar um juízo sincero e muito honesto ao que penso.

O Cesar apresenta a distinção correlata aquela que eu uso assim, em seu comentário a um comentário de Carolina: “eu prefiro ver como uma mudança de foco: em vez de focar nas características da crença, focar nas características do crente.” Ou seja, estamos mais uma vez de volta ao tema da revolução do sujeito, não são mais suas crenças que são verdadeiras ou justificadas, mas o crente que é capaz ou não de justificar suas crenças e reconhecer a verdade e no caso em pauta Cesar observa duas formas de fazer isto: ou por sorte ou por esforço pessoal e trabalho. Aqui a distinção entre saber por acaso e saber ou conquistar o conhecimento de forma mais consistente e profunda é relevante. Mas a narrativa ligada ao sujeito faz justamente isto reforçar a justificação e narrar a dificuldade pessoal para o juízo. 

Aliás, é por isto que escolho o título acima que inverte o título do texto proposto pelo Cesar. Porque eu creio, ainda que sem um justificação teórica completa, que as virtudes intelectuais levam ao auto-conhecimento e dentre elas a primeira que é a mera mas não irrelevante curiosidade e/ou como Aristóteles chamava prazer em conhecer. É como a maioria das epistemologias modernas reconhecem a partir do conhecimento dos singulares, ou dos particulares que chegamos aos conhecimentos dos universais e dos conceitos. E muitas vezes compreendemos um conceito sem saber explicá-lo completamente ou sequer possuir uma ampla esfera de aplicação do conceito, isto é, sem compreender por instantâneo toda sua serventia, isto é, ainda, sem interpretá-lo em seu mais amplo âmbito de aplicação.    

A parte mais interessante para mim é que eu falaria, então, de um lugar absolutamente deslocado da discussão acadêmica sobre isto e calharia por misturar velhas impressões e novas descobertas e minhas leituras recentes, mas nenhuma delas inclui na minha dieta filosófica, portanto em minha biografia intelectual pré-acadêmica, acadêmica e pós acadêmica os textos citados. E uma destas descobertas está relacionada a minha prática escolar em que preciso trabalhar com uma noção clara de progresso cognitivo entre as etapas compreensiva ( memorativa superficial), explicativa (cognitiva inicial) e interpretativa (cognitiva abstrata) na aprendizagem dos alunos. E trabalhar com uma noção clara de progresso cognitivo envolve planejar aulas que combinem atividades que toquem pendularmente no concreto e no abstrato, no compreensivo e prático e no abstrato e interpretativo. Piaget nos dá esta noção de desenvolvimento cognitivo que uso aqui.  E na experiência, estas etapas me mostram que alguns alunos possuem virtudes intelectuais diferenciadas, isto é, alguns passam muito rapidamente ao interpretativo e outros ficam bloqueados no compreensivo com muito tênues impressões, dependendo o tema trabalhado em sala de aula, seus gostos prévios e conhecimentos e experiências prévias.   

Eu creio que os dois pontos apresentados como centrais: autoconhecimento e virtudes intelectuais são muito desafiadores, tanto para um leigo em relação aos debates especializados e mesmo para um especialista na linha de pesquisa. Vou  problematizando as virtudes intelectuais e as questões que me suscitam.

O que podemos chamar ou nominar de uma virtude intelectual? Quantas virtudes intelectuais poderíamos arrolar aqui como principais, sem procurar esgotar a lista, mantendo aberta para inclusões e também aprimoramentos? É possível hierarquizá-las – encontrar uma virtude cardinal – ou subordiná-las a um único princípio? Como elas são geradas? As virtudes intelectuais são passíveis de serem produzidas, construídas ou descobertas? Uma virtude cardinal é passível de possuir graus diferentes de manifestação ou apresentação? Elas são aperfeiçoáveis? Podemos complementá-las ou corrigi-las, desenvolvê-las mais para certas finalidades escolhidas? Como decidimos quando está em jogo uma virtude contra outra? Por fim, dentro do rol de problemas que me aparecem agora: qual a relação entre o tema das virtudes intelectuais e o tema das competências e habilidades e como nós avaliamos as diversas situações problemas de auto-engano, déficit cognitivo e limitações intelectuais ou de desenvolvimento de aprendizagem em relação a isso?

Como estamos conceituando qualidades intelectuais com um designador típico de qualidades morais – virtude – então também surge a relação entre virtudes intelectuais e virtudes morais e, também, espaço para, dadas as circunstâncias  especiais ou excepcionais, surgirem os dilemas de decisão ente virtudes intelectuais e virtudes morais. A Mariane me parece que problematiza no seu comentário este tema e o Cesar apresenta esta distinção assim: “'intelectual' é a virtude no que diz respeito ao pensamento, em vez da ação. Intelectual é a virtude na formação e preservação de crenças, moral é a virtude na ação.” E com esta definição a virtude intelectual fica associada ao nosso juízo e ao nosso pensamento e a virtude moral às nossas ações. Ficaria numa espécie de limbo aqui as intenções e predisposições para ambas ações virtuosas e juízos virtuosos, a serem confirmadas em ação e em juízo.

Uma das expressões que me deixou bastante reflexivo no resumo foi de que “sorte não gera mérito” e eu creio que é preciso relativizá-la – usando aqui um certo princípio de indeterminação, insegurança causal e também de que nem tudo possui regularidade ou ponderabilidade - por conta de que muitas das possibilidades de mérito e de obtenção de mérito estão de fato dependentes de sorte, de situações fortuitas de condições herdadas e também involuntárias. E na categorização das posições diferenciadas pelo Cesar eu creio que se apresentam justamente nas duas posições, no internalismo, no discurso ligado ao sujeito e suas razões e no externalismo, no discurso ligado as escolhas do sujeito de razões que lhe são externas. Se não, vejamos, as crenças sortudas não deixam de ser legitimas, posto que o fator sorte pode ser apenas um dos fatores intervenientes adicionais á aquisição do conhecimento ou ao êxito no empreendimento, mas pode por exemplos contra-fatuais – bastando apresentar a coleção de insucessos típicos na história dos empreendimentos científicos - ser considerado essencial. Teria uma coleção de exemplos aqui de acasos, coincidências, escolhas de rumos, escolhas de endereços, condições supervenientes e outros que afetaram decisivamente a história das ciências e o pleno exercício das ditas virtudes intelectuais. Isto é, não só de persistência, de muito trabalho, transpiração e sucessos se montam as montanhas mais altas do conhecimento. Assim, é possível separar sorte de conhecimento, mas não vejo razão para excluir a sorte da interpretação do êxito na obtenção do conhecimento e não basta ter sorte é preciso fazer bom uso dela, no que eu creio que entra justamente o papel agora das virtudes intelectuais e do autoconhecimento no sucesso do empreendimento cognitivo, científico e intelectual.

Mas nós também temos exemplos ruins sobre combinações estranhas de virtudes intelectuais e poder, virtudes intelectuais que são aplicadas e exercidas exclusivamente para o sucesso pessoal do agente sem nenhum compromisso moral e também a presença de certas virtudes intelectuais que são usadas exclusivamente em situações de cobrança ou exigência externa. É um tema moral que se apresenta aqui e estamos também no famoso limiar aquele entre auto-engano e loucura, ou entre moralidade e cognitive clousure.

Os exemplos de vícios intelectuais dados pelo Eduardo Vizentini em seu comentário, também envolvem raciocínios falaciosos, como vemos a seguir: “colocaria mais exemplos do tipo de problema que está aqui envolvido: não apenas o cenário do Cassan (conspirações), mas também apego cego a ideologia, aceitação acrítica da propaganda, e por aí vai.” Tenho me deparado com coisas deste tipo e mesmo comn todos nossos esforços em discernir opinião de conhecimento, no meu caso, ainda discernir opinião de informação e de conhecimento, reconhecendo graus de conhecimento diferenciados (para além de Platão), vemos meras negativas de cognição e ignorância voluntária, tentativas de refutação de argumentos pela simples aposição de uma negativa, sem opor argumento ou dar razões e também enfrentamos situações em que mesmo que você refute certos argumentos como falaciosos ou destituídos de correspondências aos fatos, com o uso de argumentos melhores (mais informados ou sem raciocínios falaciosos) as pessoas persistem na sustentação dos argumentos refutados. E os exemplos são abundantes nos dias de hoje, nos tempos de internet e redes sociais.     
                      
Nosso colega comum Renato Duarte Fonseca – estes dias – citou dois casos de vícios ou desvios ou desventuras das virtudes intelectuais que se combinam com certa miopia histórica em relação a fatos bem conhecidos e bem investigados já e que me valem aqui. De um lado, o entusiasmo de alguns com os movimentos de julho de 2013, que os consideravam revolucionários e no caso, alguns com claras virtudes intelectuais e destacados intelectuais, e cita para ajudar o próprio Marx que de bate pronto se ufanava com o levante de Paris de 1848 considerando-o revolucionário e de significância global. De outro lado, o caso de um conhecido intelectual que se presta a justificar e a engrandecer as virtudes dos militares golpistas de 1964 e dos torturadores contra a Comissão da Verdade. São exemplos de que possuir algumas virtudes intelectuais não garantem a posse de todo o conhecimento e discernimento para julgar todos os fenômenos que se apresentam neste mundo.

Deixo de fora aqui apreciações sobre as formas lógicas e um tratamento sobre crenças que me parece também importante ( no caso aqui ao paradoxo de Gettier e nossos limites de justificação), mas, concluindo, entendo que a nossa relação entre auto-conhecimento e ceticismo aqui no Brasil tem nos servido e muito para nos imunizarmos perante certos dogmatismos e manter erguida a bandeira da dúvida ou da rejeição ao excesso de crença, mesmo na ótima boa fé, mesmo extrema boa vontade e profissão de fé, para salvaguardar nossa sanidade, nossa sabedoria comum e também para preservar entre nós um espaço de diálogo tranqüilo e respeitoso que tenha tolerância e compreensão para o erro acidental e para os descaminhos da vida (sorte ou azar, escolha ou deliberação de cada um de nós e seus méritos).       

E sei bem que num ou outro caso parecem conter em semente uma aplicação bem clara do que é chamado auto-engano. Poderíamos chamar estes casos de opacidade intelectual ou de certo confinamento ou aprisionamento intelectual como um dia eu mesmo chamei nos meus tempos mais wittgensteinianos. Porém penso que temos que ser bem mais generosos uns com os outros. Ninguém possui a sabedoria completa...assim como eu creio que nem todos que compreendem uma regra compreendem em absoluto todas as suas aplicações possíveis, precisando se exercitarem e serem estimulados a isso, bem como, entendo, que saber fazer certas inferências, não dá domínio sobre todas as inferências, e creio assim que nem possuiremos um dia tal coisa como uma sabedoria completa, pelo menos não individualmente.

E isso tudo me lembrou uma boa controvérsia em que me meti e que me fez concluir que temos que confiar mais nos juízos dos que se dedicam seriamente a certos assuntos e matérias e que isso também é uma virtude...o que me serve aqui para fechar meu post/comemtário, aguardando com muita humildade a tua apreciação e discernimento.

ENFIN: Escrevo sobre isto mais por sua ligação às minhas vivências do que por alguma fascinação com seu objeto, suas formas ou sua problematicidade externa à mim    

Obs.: não coloquei aqui a bibliografia por considerar um mero comentário.