domingo, 30 de novembro de 2014

ESTÉTICA E AUTENTICIDADE EM BERGMAN

Muitas teorias procuram dar conta da diversidade estética gerada pela modernidade. Não é esta minha especialidade, nem minha maior área de interesse, mas após ousar adquirir IMAGENS  de Ingmar Bergman, sem ter vistos sequer uma terça parte de seus filmes, o que por si só já é um acidente biográfico razoável e iniciar uma das leituras mais prazerosas que já realizei pelo misto entre vida e obra ali presente e sentir uma intensa afinidade entre ideias e criações - e entre suas ideias e algumas impressões minhas e algumas questões e conceitos com que ando zanzando sobre a vida,a liberdade, crença, fé, arte, relações e etc, e também sobre autenticidade, felicidade, educação, segredos e revelações, culpas, doenças, maturidade e infância, menoridade, interpretação, verdade, depressão e discurso, me alegro com o que leio e com o que vi. E fiquei pensando que com ele - assim como com alguns outros artistas - a questão não é a do filme ou obra intelectual ou intelectualizada, ou do papo cabeça, mas sim de uma certa relação entre o que eu chamaria de Estética Autêntica e Vida, que se resume conceitualmente para mim entre a nossa forma de ser e a nossa forma de pensar...num tempo em que muitos querem ser uma coisa, pensando em outra, este encontro na na obra dele e na pessoa dele me gratifica. Pois a honestidade com que ele narra e nos apresenta bem objetivamente suas ideias e experiências sentimentais e existenciais próprias e paralelas com seus filmes é uma grande lição de reflexão e auto-consciência. E para mim isto é absolutamente necessário para uma verdadeira arte que faça sentido ou que desperte um desafio real - ainda que seja com fantasias e delírios, sonhos e imagens, ao sentido. Haveria, então para mim, uma estética da autenticidade, como a letra da canção que ontem improvisei para minha filha gremista que me pintava à caneta: NÃO ME PINTA COM TUAS CORES ANTÔNIA, PORQUE SE VOCÊ ME PINTAR, EU FICAREI AZUL..., naqueles meus acordes a rima entre Pinta, Antônia e Azul é perfeita, e isto ao entardecer de uma tarde, após passarmos vibrando pelo Beira-Rio na ida e na volta da Fundação Iberê Camargo e excitados com a possibilidade de assistir ao nosso primeiro jogo de futebol juntos com a Isabella e, ao mesmo tempo, premidos pelo tempo e outars agendas familiares. Uma obra singela como esta tem a mesma dimensão para mim de uma grande obra, ela vem da vida e pertence à vida do seus autor. Neste tipo de estética  não há nas suas emoções aquela contenção forçada que sói aparecer nos que fazem muitos planos. Nestas obras eu sinto como que um fluxo entre argumento, narrativa, roteiro, enredo e aquele mundo paralelo e real do autor que acompanha este processo. E Bergman ilustra isto muito bem com algo que me deixou também impressionado: ele fez muitos filmes premidos pelo tempo curto de filmagem: de 30 a 45 dias, e lhe saiu aquelas obras de cuja autenticidade e significatividade não podemos duvidar e cujas impressões e perfeições não conseguimos nos descolar ao assistir tão rapidamente. O tempo na arte é um relativo fundamental com a intensidade do sentimento que o acompanha e isto só se mostra se houver alguma relação entre a estética e a autenticidade, entre a forma de ser e a forma de pensar.      

YES - SOON

Deve ser um sonho bom, sonhar com isto. Deve ser uma ótima mensagem acordar com esta melodia e com esta letra na cabeça. Deve ser algo que possa ter sentido. Mas um sentido comum a respeito de como confortar o outro ou como fazer algo belo que toque o coração do teu próximo. Não sei, mas para mim é só isso e isso é muito mais do que muito mais do que isso. Obrigado....YES - SOON - LIVE 2002 YES-SOON

sábado, 29 de novembro de 2014

NIETZSCHE DELIRANTE

Algumas pessoas que admiram Nietzsche - e Nietzsche é uma das maiores modas filosóficas de todos os tempos - gostam de atentar e se apaixonam pelo personagem "delirante" presente nele e em suas ideias e gostam também de fazer de conta que o lúcido e o hiper-crítico nele é somente uma exceção, uma certa excepcionalidade. Creio que não percebem que são somente duas facetas do delírio: tanto a extrema lucidez e sua crença em si mesma, quanto a extrema loucura ou delírio e seu dionisíaco impulso. 

E Isto é o que explica parte da “dialética” entre dionisíaco e  apolíneo. Nietzsche jamais foi um detrator da lógica ou da ciência, ele é um demolidor de ídolos e, neste sentido, se a lógica e a ciência, ou a fé e a moral, ou toda a metafísica ocidental tiverem – de alguma forma - passado a erigir ídolos, então a lucidez dele e a nossa vigilância vai apontar justamente para este delírio. E a nossa própria tenacidade não poderá se sentir confortável enquanto ainda há muito por fazer....por um demasiado humano....

e esta é só minha pequena nota para a ótima dica abaixo do Jônadas Techio que cita comentário de Rogério Lopes hoje no Facebook à seguinte passagem:


“A ciência exercita a capacidade, não o saber. – O valor de praticar com rigor, por algum tempo, uma ciência rigorosa não está propriamente em seus resultados: pois eles sempre serão uma gota ínfima, ante o mar das coisas dignas de saber. Mas isso produz um aumento de energia, de capacidade dedutiva, de tenacidade; aprende-se a alcançar um fim de modo pertinente. Neste sentido é valioso, em vista de tudo o que se fará depois, ter sido homem de ciência.” (NIETZSCHE, Humano, demasiado Humano, I, 1878: 256)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

FIM DE JOGO

Boa parte da nossa vida consiste em jogar um jogo cujas regras e atalhos, ataques e recuos vamos apenas aprendendo, errando e acertando, tateando como que no escuro. Quando, afinal, para alguns de nós, de fato aprendemos algumas coisas, o jogo simplesmente acaba. Neste filme, O Sétimo Selo (1956), de Ingmar Bergman - entre diversas outras coisas tão ou mais interessantes quanto esta - nos mostra que é preciso ser um verdadeiro artista parta escapar da morte, ludibriá-la e retardar sua vitória sobre nosso frágil corpo. Nesta cena o cavaleiro busca entender esta vida e vencer a morte num jogo de xadrez cujo final todos devem saber, posto que a morte ali - como o absoluto ou a totalidade negativa - é quase a única fonte de todas as jogadas possíveis, pois possui em si uma espécie de depósito de todas as sutilezas, gambits, manobras e esquivas produzidas por todos os outros homens que ousaram desafiá-la de alguma forma. E tanto a humildade como a arrogância podem muito bem acompanhar esta desafio, pois quando olhamos para morte jamais olhamos para um vazio mas sim para nós mesmos em nossa completa observação. Assim, desta forma eu vejo este olhar do cavaleiro para a morte: olhando para si mesmo e tentando ocultar o que pensa. Mesmo não sendo possível fugir à morte é, então, ainda possível pensar nisto. Por esta estreita passagem projetamos sobre nós e os nossos a imortalidade como uma aposta da razão, que não nos custa nada e nos conforta, porque com toda dor e sofrimento, ainda assim tentamos e persistimos mais um pouco.Não há nada de insensato nisto, pois justamente a partir daí que se abrem as nossas mais nobres esperanças de que as coisas possam um dia ser melhores ou diferentes, ainda que o jogo se encerre para nós. 


AS CARTAS DO DESENTENDIMENTO E DO ENTENDIMENTO: DE NEAL CASSIDY A JACK KEROUAC; DE ALBERT CAMUS A JEAN PAUL SARTRE

Bom Dia...

As Cartas importantes andam mesmo aparecendo ultimamente. Curiosamente cartas do período do pós guerra e dos anos 50. Na segunda-feira fomos brindados coma notícia de que a famosa carta desaparecida sobre Joan Anderson de 1950, de Neal Cassidy para Jack Kerouac - a inspiradora missiva que fez Jack mudar o rumo e o estilo de sua prosa, será leiloada em 17 dezembro deste ano.Veja a matéria  aqui.

Agora apareceu uma das últimas cartas ainda inéditas de Albert Camus a Jean Paul Sartre anterior a ruptura de ambos. Matéria do Jornal Folha de São Paulo sobre isto aqui.Na segunda-feira mesma, antes de saber de Jack e Neal dei uma lida legal numa matéria sobre a visão de Virginia Wolf sobre a importância do estilo, forma e conteúdo das cartas, correspondências ou epístolas. 

Para mim as cartas são as peças mais claras de um diálogo e mais são aquelas peças que não escutam a resposta do interlocutor, mas o provocam e reapresentam as diferenças e os conteúdos próprios dos diálogos entre dois interlocutores. As vezes com uma carata só se sabe o que estava pegando entre ambos. Qual o ponto de controvérsia, desacordo, acordo e que propostas no jogo ente ambos, que lances no jogo entre ambos foi feito por um ou por outro.

E compreender as diferenças é bem mais importante do que pareceria. Entre Jack e Neal havia uma espécie de transe que mesmo na diferença calhou a produzir On The Road e não me admire que entre Sartre e Camus houvesse também algo semelhante. Compreender então a diferença entre ambos, não para eleger o melhor, mas para compreender a diferença e as escolhas de cada um, é também um exercício do nosso entendimento sobre o que é em cada um e entre ambos a pedra de toque. Descobrir as motivações e analisá-las vira então um exercício do nosso pensamento e sensibilidade. 
  
Assim, o caminho do nosso pensamento conduz a diversas formas de encarar as diferenças...entre estas a mais nobre e elevada envolve ter clareza mesmo no desentendimento....preservando a cordialidade e civilidade mesmo na divergência, na adversidade e na contrariedade....não se é racional ou razoável porque se concorda com o outro ou porque e somente se concordamos com ele, mas também no desacordo se pode ser mais razoável, tendo clareza da diferença, tendo a maior precisão da exata diferença que gera ou justifica o desacordo...só resta aos dogmáticos, aos fanáticos e aos sectários a paixão, o ódio e a raiva, porque se desentendem com qualquer um pela mera diferença de convicções, opiniões e situações originais - singulares - e é somente quando isso ocorre que não há mais diálogo...mas esta renúncia será sempre o prenúncio de um regresso à barbárie, à vilania e à violência....é uma decisão difícil e dura ingressar neste terreno e eu creio que cada um de nós deveria ter uma espécie de freio de contenção...alerta automático de prudência para compensar e conter nossos impulsos e, além disso, deveríamos lembrar sempre a todos e a qualquer um onde isso tem acabado e no que foi dar a iniciativa de compreender as diferenças como razão de guerra, não de luta, ou debate, nem de diálogo e entendimento ou desentendimento com clareza....então, assim, para mim, a pergunta que se apresenta aqui é e será sempre: o que é o ser humano que queremos preservar em nós e em que forma dele queremos apostar e desenvolver na nossa própria humanidade e do outro?

Veja-se que o tempo passa e nos impõe a responsabilidade de decidir, ou em hipótese de que tanto eu como você tenham,os que fazer isto, como Camus e Sartre já o fizeram, precisamos ter este acordo sobre isto: sobre nossas diferenças...

No caso se é que você me compreende não é a questão...mas sim se você compreende mesmo a diferença entre a minha e a sua posição...após isso podemos sim romper, não mais falar, não mais dizer...e cada um andar por si para o seu lado e seu próprio caminho...   

terça-feira, 25 de novembro de 2014

OS NEGROS E OS ALEMÃES HOJE EM DEBATE

Atividade que me interessa na EST hoje as 19:30 horas, no Auditório H. Porque sou professor de ciências humanas e porque sou isto justamente aqui em São Leopoldo onde estes dois componentes étnicos complexos e diversos foram parar, se movimentar e se encontrar na esquina da história e que estes componente não são resumíveis nem homogêneos. Pois eu li ontem o ótimo texto do Martim Dreher no Jornal VS sobre o tema e considerei bem importante, porque aponta para a substituição da mão de obra escrava pelos imigrantes alemães e depois outros e é uma espécie de sinal do pouco caso da elite em relação aos homens e mulheres que lhe davam serventias no séculos XIX e que ainda hoje se mostra e se exibe na relação entre as classes subalternas e a elite. Curiosamente e coincidentemente são os mesmos membros da elite que neste momento estão votando na ALERGS mais um privilégio para os deputados estaduais desdenhando dos cidadãos e promovendo somente seus próprios interesses. E também para se pensar na conflitividade ou naquilo que o falecido Marcos Justo Tramontini chamou em sua tese de doutorado de "as diversas situações de conflito" que estou dando certa atenção. Andei pensando muito na relação destas situações de conflito como reforço à identidade e no que de fato um negro e um alemão possuíam como identidades que lhes permitiram sobreviver e resistir em luta contra exploração, diversas formas de opressão e outras coisitas mais. Mas não quero mesmo cair num heroísmo aqui. Se dos negros subsistiu de certa forma a "ancestralidade e a religiosidade", como se deu isto com os alemães? E na conta miúda onde encontram-se os monumentos desta barbárie e que símbolos e sínteses foram produzidas na superação ou ao final de cada um destes conflitos ou de cada partida deles? Quando olhei para a Praça do Imigrante a partir desta pista da conflitividade me dei por conta que ela apresentava uma forma de síntese monumental e integradora das diversas identidades - alemães e portugueses, católicos e luteranos, liberais e conservadores, positivistas e outros - e uma certa pessoa muito sabiamente me lembrou que só os negros não estavam representados naquele monumento e fiquei pensando muito nisto entendendo justamente que a concessão aos alemães havia sido conquistada a ferro e fogo, mas que ainda falta muito para saldar e descobrir este pelourinho invisível que parece estar encoberto ai. Mesmo com todos os estudos sobre substituição da mão de obra - que são muito importantes - parece que me aparece só a ponta deste Iceberg. Eu conheci ainda na minha Infância o Clube 25 de Julho que ficava na esquina da Rua Brasil com a Rua São Joaquim. Havia uma águia em sua fachada cujo molde é o mesmo daquela que está em frente ao MUSEU Histórico. Mas esta história ainda não foi devidamente contada. Ontem - enfim - ao comentar o texto do Martin "Imigrantes e africanos" na sala dos professores, um colega irrompe o diálogo com a seguinte afirmação "meu pai era escravo até os 15 anos, hoje possui 93 anos. Para sair desta situação fugiu com a esposa do...... e se alistou no quartel mentindo a idade." eu fico estupefato e extremamente interessado em compreender esta história que mostra uma ponta solta na nossa leitura deste longo processo. Isto, então, é um indicio a mais que só mostra que ainda há muitos indícios, memórias, sinais e narrativas a serem reconstruídas e de que devemos olhar melhor para o que vou chamar aqui de uma certa escravidão residual no século XX que deve ter sido paulatinamente dissolvida com a CLT e a Segunda Guerra Mundial. Posso então, me perguntar por conta disto o quanto de fato ficamos afastados desta chaga? Além disso, creio que é preciso também lembrar - como disse o marido da Sonia Maria da Silva - que num adiantou muito a Abolição em 1888, posto que a muitos negros calhou voltar a senzala apenas sob outro regime de trabalho, mas ainda explorados, ainda dependentes e ainda subordinados ou tutelados pelos interesses ideológicos e materiais da elite escravocrata. Bem, vou parando por aqui para num acabar dando bom dia para cavalo como disse Ronaldo Nado Teixeira em uma citação sua estes dias.

P.S.: Encontrei lá meus amigos e companheiros de longa jornada o Professor João Carlos Alves Rodrigues, o Professor Roberto Swetsch, o sindicalista dos comerciários e meu parente Silvio Braga Boeira, o Júlio Dorneles, o reitor e amigo Oneide Bobsin e conversei animadamente com o Martim Dreher lembrando as boas passagens nossas do período da SMC 2011 a 2012 em que ele me auxiliou muito na pesquisa para o Memorial da praça do Imigrante. Também encontrei o ex-Pibidiano Joel Decothé agora Pastor Luterano e mestrando. O painel foi antecedido  de alguns congados e uma bela apresentação de um grande conjunto de alunos e do grupo diversidade. E as questões apresentadas pela platéia e as observações do Martim dão já muitas ideias para se desenvolver. Ando pensando muito em duas coisas tanto em relação aos negros e aos alemães: a aculturação e a formação da identidade dos negros na região de colonização alemã e a escravidão residual aqui na região. Além disso creio que o tema geral de exploração de mão de obra, substituição de mão de obra, formação assalariada e também o regime de trocas na região e de acumulação de capital deveria ser visto com mais atenção. Muita gente fala em que nesta região ocorreu forte produção e distribuição de bens de consumo e acumulação de riqueza, mas vejo poucos dados sobre como isto se deu de fato. Martim reforçou e bem no seu fio condutor as referencia aos estudos atuais que se iniciam com Helga Iracema Landgraf Piccolo, com o tratamento e revelação de que os alemães possuíram escravos e como era a relação deles com os locais, mostrando que não há como se sustentar mais a ideia de que os alemães ficaram isolados culturalmente. Para provar isto cita uma carta de uma alemã que dois após a chegada já está manifestando seu interesse em acumular capital para comprar escravos.      

SOBRE BINARISMOS, MANIQUEISMO E OUTROS ISMOS

Sakamoto Ótimo..Veja aqui "Leitores binários em guerra contra seu próprio povo", ele sacou bem e coincidiu de novo, pois estava numa discussão sobre maniqueísmo como exemplo de dogmatismo ontem e creio que se aplica aqui também neste tema do binarismo e em suas formas do que chamei de absolutismo pseudo racional. O exemplo que dei disto está ligado também ao purismo ou perfectismo. O resumo é o velho 8 ou 80, ou A e Z como aponta o Sakamoto. O 8 ou 80 sempre tem este viés e passa uma vida inteira frustrado por julgar sempre a partir de um tudo ou nada. E curiosamente usa este tipo de juízo somente sobre o outro jamais sobre si mesmo. Tenho notado nisto uma tendência mecânica e uma visão simplista da realidade e isto ainda me lembra os padrões de solidariedade que Durkheim tão bem tipificou. Em qualquer um dos casos que possamos apresentar precisamos aposentar o dogmatismo de um lado e o ceticismo de outro e seus pares sentimentais e ingênuos o pessimismo e o otimismo. Algo me diz que estamos dissolvendo ou numa luta árdua contra conceitos-prisão, tentando soltar e libertar as pessoas de ideias que os aprisionam e as impedem de perceber diferenças e encontrar razões. E ontem mesmo estava pensando na necessidade do equilíbrio entre estas coisas e no juízo moderado - ou virtuoso - como bases para uma saúde psíquica que coloque nossos impulsos e nos permita dirigir nossas vidas de forma mais saudável. E digo isso sem buscar uma nova cisma nas igrejas, nas seitas ou nos partidos....        

REBATIMENTO E EFEITOS ENTRE A FILOSOFIA E MUNDO REAL: A PARTIR DA ENTREVISTA DE RAE LANGTON

Nesta entrevista Professor Rae Langton: the world’s ‘fourth most influential woman thinker’, a filósofa Rae Langton, a partir das consequências  reais e legais de uma discussão da sua análise e de sua concepção de "consentimento" nas relações sexuais, dá  em seus termos - aqui traduzidos - um exemplo do que tenho chamado de "rebatimento" (termo tirado de alguns textos e aulas de Brum Torres nos anos 90). 

Eu uso como "rebatimento" entre a filosofia e a história (ou mundo real) assim:  "a filosofia poderia, talvez, ter mais de um efeito sobre o "mundo real". Tão importante quanto isso, o 'mundo real' pode ter mais de um efeito sobre a filosofia; precisamos ter pessoas reais em mente, em nossa teorização filosófica ". 

Os efeitos correspondem, ao que eu chamei de lances de um jogo de tênis. Saque-resposta, cabendo às vezes à filosofia e às vezes à história ou mundo real dar início a uma partida, um game ou set. Minha aplicação disto na interpretação dos "lances" na filosofia moderna não está preocupada com quem dá o primeiro lance, mas sim em tomar um fragmento ou conjunto da jogada ou do rallie e observar a qualidade dos efeitos e o tipo de resposta e pergunta apostos para a filosofia - ou este filósofo ou esta filósofa ou outra e a realidade. 

Me parece que aparecem mais qualidades quando começamos a observar isto não com o efeitos causais, mas sim com lances, provocações, à vezes insinuações que geram interpretações e respostas....

Uma das experiências mais legais foi ficar observando o diálogo entre as teorias de Locke e as leis e medidas inglesas de 1689 e depois na própria Declaração da Independência dos EUA e nas discussões preparatórias dos chamados pais fundadores. Ao mesmo tempo, me parece interessantíssimo olha para a tradição política inglesa com um olho mais atento para a relação Locke e Hobbes com a história política da Inglaterra. O "rebatimento" e o jogo de ambos é notável e mostra mais uma vez como o pensamento filosófico pode ser um móvel dinâmico na realidade. Seja numa preparação, seja na consolidação de uma mudança ou de alguma nova medida na sociedade. 

O que, por fim, não é privilégio dos filósofos profissionais, haja visto que podemos considerar como pensamento ou filosofia também idéias produzidas pro outros tipos de intelectuais e profissionais de outros metiês.

domingo, 23 de novembro de 2014

RETÓRICA E SOBRETUDO, para o Renato Janine Ribeiro

Um dia eu pensei em escrever algo como Confissões de uma filosofia retórica. E é realmente incrível o esforço que temos que empreender contra nossos talentos discursivos e acervos vocabulares para garantir a máxima precisão e honestidade em nossos textos, escritos, discursos e falas. E há muitos casos em que os excessos nos levam, como o vento leva as almas leves, a não dizer nada e também casos em que a simplicidade e a precisão excessiva nos levam a não dizer nada também. Buscamos então um ponto de equilíbrio e um uso parcimonioso da linguagem e de seus recursos. Por isto que me sinto mais à vontade, mais livre, lépido e faceiro, me aceitando apenas como um pretenso e simplório literato, antes que um filósofo ou um sábio. Isto me conforta. A linguagem nos seduz, as palavras nos cativam e prosseguimos dizendo por dizer e por gostar de dizer. A linguagem parece aqui um vício, um grande hábito arraigado, um impulso e uma forma de ser. E é também um poder quimérico, taumatúrgico e sedutor. Mesmo que se desfaça em um contraponto sútil. Mesmo que se dissolva no primeiro exercício de auto-crítica ou que não sobreviva a um exame mais apurado. E nossos principais vícios de linguagem, clichês e chavões, ou jargões são nossas mais exatas confissões. Isso sim que é um Sobretudo!

sábado, 22 de novembro de 2014

O PIOR GOVERNO DA HISTÓRIA DE SÃO LEOPOLDO - CONTINUA DIRIGINDO A MESMA ORQUESTRA

E tem mais dois anos para continuar escrevendo sua triste história para o povo e para o testemunho incrédulo de muitos homens e mulheres de boa vontade. E não há como dissolver a responsabilidade desta tragédia ou deixar de atribuir-lá aos seus autores do PSDB, PMDB, PP, PSB e outros....toda vez que alguém fala só no PSDB eu lembro que o poder é conquistado por um esforço coletivo e que neste caso a escolha de encetar tal rumo e de todos que escolheram torná-lo viável. Então, nem quarteto, nem quintetos, são os responsáveis exclusivos por esta grande quimera erguida sobre as ambições, más intenções e as velhas perversidades e interesses que tão mal já fizeram a esta cidade. Este é meu testemunho e me conforta saber que tudo passa...ainda que demore mais um pouquinho e que alguns tentam pular fora do barquinho se eximindo de suas responsabilidades neste drama e fazendo de conta que não atuaram no enredo inteiro desta história. A pior coisa que poderia acontecer a esta cidade em sequência é a hipótese de que uma parte dos sócios deste condomínio que agora acusas estar em ruínas sobreviva à QUEDA e continue perpretando sobre a cidade o mesmo engodo e pelas mesmas péssimas razões de sempre.....que o povo esteja atento e não dê mais fôlego a estes aventureiros....divergente e respeitosamente...

SOBRE A ESQUERDA CAVIAR E A MEDIDA CERTA

A discussão sobre mais esquerda e menos direita é bem irônica e vejo as vozes cínicas se ufanando o tempo todo num contra e num a favor ao sabor das marés e das notícias. Não vejo isto como uma brincadeira, nem como um ensaio de medidores e teste do Inmetro para as balanças de precisão e réguas. Não temos o metro de Paris aqui nem calibrador ou medidores prontos para usar. Aqui vale o velho: nem Che, nem meio Che. Não há estas medidas e estes parâmetros mais a esquerda ou mais à direita, e os que existem por ai vivem sendo negados e sucumbindo às velhas retóricas setoriais. Não é porque esquerda e direita não existem, é somente porque nenhuma posição é tão pura e nítida assim e tudo pode ali adiante mudar mesmo. Interessante que não vemos nenhuma prova de Consistência em lugar nenhum do planeta, que tudo que vemos é ensaio, nas esquerdas e nas direitas, com muitas tentativas, acertos e erros nesta matéria sempre. Se Dilma fosse tão ruim assim neste ponto cruel de consistência não teria vencido da forma como venceu e hoje estaríamos discutindo apenas perdas e não concessões ao centro ou à direita. Daqui a pouco aparece uma indicação vermelha e lustrosa e daí vamos ver aquela raivinha aparecer também do outro lado. Esquerda caviar é aquela que fica na torre de marfim, mas também tem a esquerda de pastel de rodoviária que num fica só observando a política dos outros e resmungando de suas imperfeições e reclamando como o mundo é injusto e cruel com suas belas propostas e maravilhosas veleidades. Mas, com a esquerda caviar, é só lá no ano novo quando brinda com uma boa champanhe as viagens que fez e as que fará que descobrimos que para ela: A vida continua...

A VIDA É DURA SIM

Tem que acalmar o coraçãozinho mesmo porque a vida real não é moleza não,  e isso aprendi com um dos quadros do PT gaúcho que mais respeito e  admiro por conta da sua forma de enfrentar a realidade política, com seriedade e honestidade, sem fantasiar nem mesmo ludibriar seus interlocutores nunca, e que avista as dificuldades políticas como um desafio à nossa inteligência e observa que é preciso compreender os limites reais do exercício do poder - o que envolve a disponibilidade de recursos, hegemonia, meios e a justa medida dos riscos que são toleráveis correr, cunhou uma frase que está em uso desde então: A VIDA É DURA!!!!

SOBRE KATIA ABREU NA AGRICULTURA

Tenho uma opinião mais moderada e não por ingenuidade ou puro pragmatismo sobre esta primeira indicação de Katia Abreu para o Ministério da Agricultura do Governo Dilma (2015-2018), mas sim por certo realismo e também otimismo sobre equações difíceis que são vencidas por operações políticas corajosas e não recuadas.. Algumas pessoas resumem a política à projetos e pautas e, ao meu ver,  se esquecem que não se faz política sem poder e sem dialogar com todos os setores da sociedade. Um governo precisa somar poder e não se dividir e isto deve ser feito mesmo com disputas internas sobre políticas, programas e recursos. Mesmo em governos que há hegemonia programática há esta disputa e em algumas situações ela silenciosa, mas tão acirrada quanto quando é visível.  É melhor isto do que instalar e decretar a ruptura  ideológica na sociedade, consagrando a divisão ideológica e programática existente, e dar à oposição a velha deixa de somar mais forças contra este projeto que continuará sendo generoso com o povo brasileiro também, na superação da miséria e na consolidação e ampliação de políticas sociais que reduzam a desigualdade neste país. Eu não temo Katia Abreu, temo um governo fraco que não é capaz de compor uma síntese na sociedade e com os setores representativos da sociedade. Resta ver como será para manter o equilíbrio entre os setores e preservar as políticas sociais e as conquistas destes 12 anos criando condições para a retomada do crescimento e superando os gargalos na economia e resistindo às políticas recessivas. Katia Abreu é um sinal de que haverá disputa por recursos públicos, mas não é um sinal de que se vai apostar em políticas recessivas e que deprimem as atividades econômicas. Tenho paciência e confiança para ver o resto do ministério e minhas expectativas não se rebaixam por este nome ou esta situação.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A CAUSA DOS OUTROS - CONSCIÊNCIA NEGRA

Eu consigo entender perfeitamente as pessoas que acham ridículas as causas dos outros. Entendo também aqueles que só possuem pequenas causas, causas pessoais ou familiares. Entendo ainda assim pessoas que possuem admiração por heróis que não existem mais e que não são capazes de reconhecer a grandeza da pessoa que está agora ao seu lado ou à sua frente. Entendo também as pessoas que tem muita dificuldade para compreender os erros dos outros. Entendo porque eu entendo mesmo que é possível não ter causa nenhuma, por que é possível não ter grandeza nenhuma, é possível sim viver uma vida inteira sem um ato de heroísmo qualquer, sem correr risco algum, sem se aventurar, sem dar cabeçadas e sem aprender nada sobre como se erra e como se acerta arriscando e tendo a coragem de errar e tendo a coragem de fazer a coisa certa. Dá para aceitar sim essas pessoas e também compreendê-las, observá-las mais e ver o quão emocionante é a vidinha delas assistindo a televisão, ouvindo rádio e lendo jornais e pondo defeito nas causas, nas lutas e nos sonhos e ideais dos outros, mas o que não dá para entender é basicamente o seguinte: SE A CAUSA DOS OUTROS NÃO TE IMPORTA, PORQUE VOCÊ METE O BEDELHO NA POSSIBILIDADE DELES TRAVAREM A LUTA POR ESTAS CAUSAS? Porque você se importa tanto com as pequenas e importantes conquistas deles? Se não te importa, então não te mete e vá cuidar dos teus assuntos, agora se te importa então trata com mais seriedade e informação isso que te parece apenas mais uma CAUSA DOS OUTROS, talvez aprenda a diferença entre ter coragem de falar e ter a coragem de lutar por alguma coisa uma vida inteira. Viva todas as causas dos que lutam e uma homenagem especial à CONSCIÊNCIA NEGRA, contra os 358 anos de escravidão e estes parcos 126 anos da abolição dos quais a apenas 10 anos se tenta reparar com cotas e políticas de inclusão e inserção, políticas de promoção da ascenção social contra esta profunda desvantagem econômica, política e social imposta aos negros no BRASIL. Eu sou professor e sei muito bem o quanto precisamos avançar e muito para mudar o retrato e o perfil das nossas escolas, das nossas prisões, dos nossos trabalhos e da nossa sociedade. Viva a causa dos outros que também é a nossa!!! Viva a consciência negra!!! Salve Zumbi dos Palmares!!!!       

terça-feira, 18 de novembro de 2014

SOBRE O QUE ACONTECEU COM CERTOS ROQUEIROS DOS ANOS 80?

É somente uma ressaca da pós adolescência e da pós modernidade. Tem coisa muito melhor que eles só que numa dimensão mais fragmentada e em maior pluralidade. A visibilidade de midia que eles tiveram não existe mais. Ontem estava conversando com dois alunos e jovens e me perguntei o que havia na apatia deles e cabei me lembrando que existe também uma falta de referências. Quando eu tinha 15 anos John Lennon morria e não morria de overdose não. Depois foi um passo para conectar referências e maios símbolos de contestação e desejos de mudança. E o que há hoje? Houve uma entre-safra, o país mudou, passou os anos 90, passou os anos 2.0 e agora a internet explodiu com tudo que havia de mainframe e sistema. Só que estes caras estão num outro tempo e não evoluem mais em coisa alguma nem na estética, nem na poética, nem na política e nem na ética. E é notória que todas as saídas e propostas políticas deles sejam sempre individuais e marcadas pelo eusismo, sem nenhuma articulação e senso coletivo. Marcadas por um pensamento focado no seu próprio umbigo, sem transitividade com nenhuma parcela ampla da sociedade, sem ligação nem romântica nem realista com o povo real. Lobão ensaiou a ideia de selo próprio independente e parou lá atrás. Outros estão apegados e muito ciosos de direitos autorais e de suas próprias vaidades. E o mundo passou, o tempo passou, o mundo mudou e não sobrou nada daquilo tudo lá.  Este é um bom momento para dar uma revisada no que era ou não era de verdade e consistente nos anos 80. Quem atinge os 50 anos pós 2.0 tem um bom trabalho para tentar manter uma conexão real com os jovens - esta energia limpa da civilização - e ajudar em alavancar outros passos. Eu sou professor e tenho cada dia mais gosto por cultura e música e sei que isso ajuda a criara espaço para novas ideias, novas ações e novas propostas e também em se retomar os sonhos de mudança e de avanço não realizados e o que ainda é possível passar adiante. Já alguns destes ícones ficaram nos ícones de si mesmos e vendem uma farsa crítica por trás de mera iconoclastia mal aplicada. O senso hipercrítico deles é tão bom que tem apenas renovado o exército dos pessimistas, dos negativistas e dos depressivos ou revoltados. Não servem nem para reformistas e nem para revolucionários, optaram pela opção mais fácil sempre e mais confortável que é se abraçar na elite e buscar uma zona de conforto para falar mal do mundo. Assim, eles são ou bem conservadores ou bem reacionários e nisto ficou o resumo da ópera ideológica deles. Veja-se que a única proposta de ação deles é agitação, aquele papinho adolescente e casmurro contra isso e aquilo ou contra tudo que está aí, só que é piada um marmanjo com mais de 40 anos propor somente agitação nos dias de hoje. Qualquer adolescente atual mais consequente e informado quer soluções objetivas e não blague ou trololó. E a pose e a peia deles é meio vergonhosa e ultra-decadente.CARA. Falta elegância e aquela famosa categoria que dá autoridade a quem fala. Parece até que hibernaram por 30 anos e de repente aparecem pretendendo carregar a boa nova. Só que a boa nova já está ai meu chapa e está mandando ver, só você que não viu. Assim, os queridos e queridas estão por ai e deambulam pelo mundo sob suas sombras e carregam apenas vestígios e sinais do que já foram um dia.  Eles ainda estão lá atrás e não perceberam o que mudou no país ainda estão sentados com a boca escancarada cheio de dentes esperando a morte chegar, e bem na frente da televisão que os deixou burros, muito burros, demais. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

LIVROS, MÚSICA E MEMÓRIAS

Pois, cabei comprando mais livros, naquelas de perdido na floresta negra, encontrei o volume um de Hermenêutica em Retrospectiva do Gadamer sobre Heidegger - Editora Vozes. Gadamer e Heidegger  que eu sempre gosto de ler por conta do detalhamento argumentativo, das reflexões que me provocam e do tema da compreensão que tanto me fascina sempre. Comprei, pulando a cerca continental com muita alegria de Heidelberg para Oxford, outro livro do P. F. Strawson Ceticismo e Naturalismo - Editora Unisinos - de deliciosa leitura e que sempre me alegra porque trata dos chamados argumentos transcendentais e de uma forma, digamos assim, bem mais tranquila e suave do que sói ocorrer entre certas ceitas intelectuais que julgam possuir toda a verdade e somente a grande verdade sobres as coisas, os homens e mulheres e a filosofia. O que me lembra muito o velho e bom Kant que - apesar de ter aquele probleminha com todos os exemplares que ele conheceu do belo sexo - também possui uma suavidade e finesse arguta no tratamento de problemas filosóficos ou outros. Como é bom ler pensadores que escrevem com um pé na sua própria verdade, de um modo autoconsciente e da forma mais honesta possível. E ainda assim mais livros. O volume 17 (1926-1929) das Obras Completas de Sigmund Freud, pela Companhia das Letras, edição de 2014, que traz desde a Questão da Análise Leiga, O Futuro de Uma Ilusão e termina com, entre outros, Carta Sobre Alguns Sonhos de Descartes, o que me interessa por demais na minha conexão transcendental ou ligação transcendental entre certo tema do Aufklarung, a Razão em Descartes, e o modo como Michel Foucault e Jacques Derrida se debruçam sobre isto. Por fim, porque minha alma não é mesmo de ferro, nem de papel ou somente de letras vive este homem e sua pobre alma muitas vezes jubilosa e outras tantas atormentada por ideias, imagens, sons e emoções, lembranças, memórias e reflexões, caiu na ponta extrema do meu olhar o Songbook do Vitor Ramil que eu namorava a bem mais de ano por aqui e por ali. O que é mais importante ainda porque comecei a miar ao violão com Sapatos em Copacabana e algumas destas canções presentes nele junto com aquela já clássica do Gelson Oliveira  Salve-se quem souber - que comigo ganhou uma versão em E4, D4, C  e Pat Metheni e  David Bowie em This is not America, que calhou cair tudo em versões de Ainda é Cedo e Será do renato Russo/legião Urbana. E tá contada ai a história de como é que eu comecei no ano passado a cantar após décadas dedilhando violão e dois anos cantando Coral e - digamos assim - achando uma nota aqui e outra ali. E devo isso ao amor de minhas pequenas filhas e ao delicado amor de minha vida pela música e PORCAUSEQUE, como diz Antônia assim foi e foi assim bem fácil contar. Partiu viola....

domingo, 16 de novembro de 2014

A REVOLUÇÃO NECESSÁRIA

Um sinal e um símbolo de onde estamos,

jamais me imaginei ou sequer pensei

que poderia estar, um dia ainda mais

lendo Darci Ribeiro de novo, sem mais

mas é a vida...que será jamais

vai, segue teu caminho, procura teu minho

vai ser gauche na vida, espanta e planta

e passa por cima da morte e da sorte

por nós todos...

derruba sem piedade aqueles que te traem

pois é da terra todo o gemer

do teu caminhar...

e não há mesmo o que temer


nem o que chorar ou se lamentar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

ATÉ AS ÚLTIMAS PALAVRAS...

Nesta última semana em meio aos trabalhos e com o passar das horas, dos dias e dos acontecimentos, o transitar pela Feira do Livro, por minha biblioteca e pela internet, o transitar pela escola, pela sala de aula e pelas ruas, o transitar pelo mundo, pela região e pela cidade, me deu um conjunto de impressões  que se somaram ao que já andava pensando sobre a morte, nossa passagem e nossa estadia neste mundo.

Para mim isto é um fenômeno intelectual recente, pois confesso que dei pouquíssima atenção a isto até 2011. Ou seja, até o desenrolar de alguns acontecimentos em minha vida pouca monta dei a este tema que é um clássico da filosofia: o encontro do ser humano com a morte, do homem ou da mulher com a morte.

A nossa vida é um "intervalo" como traduziram a expressão de Walter Pater e por certas escolhas e caráter, forma de vida e forma de pensamento, alguns de nós fazem de tudo para preencher este intervalo com certas notas, obras, ações, sentimentos e trocas cujo valor é mais esmerado pro elas do que pelos demais seres humanos. Temos que lidar com isto e colocar nossa paixão em cada diminuto momento, em cada intensidade singular ou experiência particular em que possamos fazer a graça ou a alegria de viver se presentificar. Não há para alguns homens e mulheres deste mundo nenhuma outra possibilidade de viver que substitua esta. Então, faça isso, faça o que você mais gosta até as suas últimas palavras....

WALTER PATER: PRIMEIRA NOTA

"all art constantly aspires towards the condition of music"

A pista de Harold Bloom sobre a importância de Pater é muito precisa e exata mesmo. Fui estudar o crítico inglês a partir daquela citação da Conclusão de The Renaissance e acabei me vendo em um oceano maravilhoso de idéias muito boas. Um exemplo é esta sobre a arte e a música que aparece no capítulo dedicado a Escola de Giorgione. 

Olha só - para quem me lê com mais atenção do que o corrente - eu andei escrevendo tempos atrás sobre uma ideia de que quando a gente estuda uma melodia ou canção parecia que se aprendia uma chave que abria o caminho para varias outras canções e que eu imaginava uma forma lógica - o que pode ser a melodia ou harmonia - que era a base para várias outras canções e que assim como estudamos escalas músicas que nos dão acesso a muitas canções algumas canções teme sta característica peculiar de abrir muitas outras. Se estou correto em minha intuição bem ingenua para quem já estudou mais música do que eu, esta é, no sentido mais nobre e sublime de Pater, a aspiração de toda arte e de todo artista dar certa forma de base a uma obra que seria a geradora de muitas outras. A angustia da influência de Bloom, ou a sua anatomia deveria exibir estas relações em seu grau máximo e em sua máxima qualidade. Isso vale para toda a arte mesmo. Pintura, poesia, escultura,  literatura, dança e etc...

PARA NEGAÇÃO, ARGUMENTAÇÃO E REFUTAÇÃO: NOTA E EXEMPLO NA OBRA FREUDIANA

"Uma negação não é uma refutação, uma inovação não é necessariamente um avanço."

DO ENTÃO BEM VELHO FREUD SOBRE O SEU PRESSUPOSTO ETNOGRÁFICO TOMADO DE ROBERTSON SMITH EM MOISÉS E O MONOTEÍSMO, p. 143. Editora Imago. Edição Standard Brasileira Volume XXIII.  

ALBERTO MORAVIA SOBRE PAUL NIZAN

"As vidas de certos homens são como apostas, e não interessa que sejam ganhas ou perdidas, o que importa é que elas foram feitas."

In: Diário Europeu. p. 28

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

SOBRE AS FALAS NO PT

fiquei esperando a reação de Dilma para comentar tua postagem. Considerando o que Frei Betto falou, o que Jacques Wagner falou, o que Tarso falou, o que Gilberto Carvalho falou e a saída de Marta, mais a resposta de Mantega temos somente duas hipóteses: ou o PT está rachado - o que não é novidade alguma e nem tem mais a relevância que alguns imaginam, porque o que mais importa no PT são os votos e nem tanto as palavras, pelo ,menos as palavras de queixumes - num partido pragmático, ou o PT em bloco faz uma operação abafa á oposição de quimeras, indo na couve e dizendo qual mesmo é o debate sobre o governo. Vai acabar todo mundo em baixo do mesmo braço ou da mesma asa como sempre. E cada um com suas Marias e Josés ai, mas com uma coisa em comum, todos pariram Mateus, Moisés e Jesus....

terça-feira, 11 de novembro de 2014

CONTRA MULHERES INCONSTANTES

CONTRA MULHERES INCONSTANTES

por GEOFREY CHAUCER, Tradução de Gustavo Sartin

1 Senhora, por teu apreço pelas novidades,
2 Muitos criados desgraçaste;
3 Ausento-me da tua inconstância,
4 Pois bem sei que, apesar de teres muito tempo para viver,
5 Não podes amar em um só lugar por meio ano inteiro,
6 Para coisas novas tua luxúria é sempre tão intensa;
7 Assim, em vez de azul, podes te vestir toda de verde.

8 Tal qual um espelho em que nada deixa marcas,
9 Mas, tão leve quanto chega, deve passar,
10 Assim se deu o teu amor, como teus trabalhos dão testemunho.
11 Não há fidelidade que teu coração possa abraçar;
12 Mas, como um galo do tempo que virou sua cabeça
13 Com cada vento, tu viajaste, e isso é pecado.
14 Assim, em vez de azul, podes te vestir toda de verde.

15 Por tua falta de firmeza, deves ser lembrada,
16 Em vez de Dalila, Créssida ou Candace;
17 Tua certeza está sempre em estado cambiante;
18 Que nenhuma criatura arranque tal mancha do teu coração.
19 Se perderes um, bem podes comprar um par;
20 Pouco vestida para o verão, sabes bem do que falo,

21 Assim, em vez de azul, podes te vestir toda de verde
UM CÉTICO - O que na minha opinião deu na lógica. Não conheço nenhum filósofo decente que não possui uma semente poderosa de ceticismo, ou uma grande seiva de ceticismo que flui em toda a sua árvore de conhecimentos, experiências, investigações e reflexões, mesmo em relação ao que ele julga melhor saber. Isto não significa que não temos crenças, que não tenhamos preferências, não tenhamos feito escolhas, mas sim que desconfiamos, acima de tudo e de qualquer coisas, de nós mesmos, de nossas crenças e temos convicções que estão sempre sofrendo as provas da vida e da nossa existência. Por isto, continuo tão fascinado com certas questões e obras. Recomendo, então, uma obra que eu creio que traz em si todo este problema do Ceticismo, DA CERTEZA de Wittgenstein, para você pensar, para você duvidar, desconfiar e refletir sobre crenças, verdades, regras e outros pensamentos. 


Fui fazer um teste e deu que pertenço a uma escola cética. Veja aqui também: http://www.playbuzz.com/julianr12/what-philosophical-school-of-thought-are-you-in

VEJO O PT BALANÇANDO NO PÓS ELEITORAL

Assisto o Grande Desentendimento, pensando em como seria se tivéssemos sido derrotados pela Direita Conservadora Brasileira. Só posso parabenizar Dilma porque resiste até mesmo ao impacto do individualismo no seu próprio partido. Quando um velho e bom camarada em 1998 me disse que o impacto ideológico do neoliberalismo tinha sido tão profundo que atingia até mesmo a esquerda eu não tinha entendido assim, agora me resta assistir o espetáculo das fidelidades e genialidades. Só escreverei de fato sobre isto com muito cuidado parta não fazer coro às mágoas e não fazer marola contra o grande desafio de construir uma unidade progressista e de esquerda neste país. A assembléia está aberta e a última inscrição é a única que me interessa. Ficarei aqui sem nomes aos bois, mas somente nomes para as políticas.

TARSO GENRO E O NOVO CICLO DE TRANSIÇÃO

TARSO GENRO interpreta com muita clareza o cenário político e ao falar de um novo ciclo na transição brasileira acerta com precisão nos desafios que se impõe na agenda da esquerda e também da sociedade brasileira progressista e daqueles que acreditam em um pacto político para continuar superando e reduzindo as desigualdades sociais no Brasil. Considerando o cenário de crise econômica externa e a reação conservadora interna é por si só um grande desafio histórico passar por isto em recuos e sem retrocessos institucionais e civis.Tenho total acordo com a análise dele que é baseada em fatos e na nossa história. Muitos daqueles que dizem que o povo está cansado da política e cansado das promessas, não tem sequer algo para oferecer ou a capacidade de pensar neste cenário, não tiveram a responsabilidade de resistir antes e não tem, ainda assim, sequer uma proposta nova sem medidas recessivas ou fazendo concessões graves ao neoliberalismo e ao conservadorismo. A democracia não pode ser vilipendiada e é algo realmente incrível que no Brasil hoje caiba justamente a esquerda defendê-la, mesmo quando é derrotada eleitoralmente, como é o caso de Tarso aqui no RS. Só isso deveria fazer certas pessoas e cidadãos pensarem mais e melhor um pouco na seriedade das palavras, dos desafios e dos propósitos que estão em jogo.

LEIA: Fim-de-ciclo-e-memoria-da-Carta-aos-Brasileiros

P.S.:  
A questão de fundo aqui não é mais uma vez como pensa a direita e uma parte do esquerdismo sobre o  comunismo ou socialismo no Brasil,é se o Brasil vai ser mais justo e menos desigual....se ao povo brasileiro será dado o direito de controlar, fiscalizar e dirigir o estado de uma forma democrática e se o regime de distribuição da riqueza produzida socialmente reduzira as desigualdades e os privilégios e se haverá atendimento às demandas sociais justificadas e necessárias para o desenvolvimento deste país....

domingo, 9 de novembro de 2014

EMIR SADER NA MOSCA

"Falta a essa visão tecnocrática da realidade, a compreensão da intermediação que entre a realidade concreta e  a consciência das pessoas interfere a formação da opinião pública. Poderiam ter lido Gramsci ou quaisquer outros autores mais de moda, para saber a importância que a mídia tem na formação da consciência das pessoas. Ou mesmo o Marx do XVIII Brumário, onde ele mostra como amplas camadas da população podem, pelo mecanismos de inversão que a ideologia produz na consciência das pessoas, votar contra seus próprios interesses e até mesmo erigir lideres que representam interesses opostos aos seus."

O fenômeno é este mesmo apontado por Emir, mas eu não sei mesmo se uma visão ou uma mera correção de óculos resolveria a questão. Quando tratamos em tese de certas batalhas sempre esquecemos que na política elas não são somente algo a fazer mais assim ou mais assado, ou algo que um dia vai se iniciar a partir de uma medida política ou um discurso fundacional, mas somente algo que já ocorre. O trunfo maravilhoso aos nossos olhos de uma "regulação da mídia" pode apenas ser aparente onde não há processo consistente de formação de outra consciência. A disputa de hegemonia contra o golpismo e a antipolítica não se dá mais ou se resolve apenas nos meios de comunicação. Na única parte verdadeira daqueles que estão brandindo, grunfando, rosnando, tugindo e mugindo contra o PT encontra-se não somente um interesse contraditório, mas também o interesse de alguns à respeito do que eles gostariam de ser, ter e representar politicamente na sociedade. Não há da parte deles nenhum interesse em atuar coletivamente por muito tempo, mas apenas atingir determinado interesse individual que pode ser tão mesquinho quanto apenas derrotar seu vizinho ou demitir um colega, ou apenas se dar bem sozinho. E ainda há uma verdadeira ojeriza à possibilidade do fim do jeitinho, do clientelismo e da política do favor. Estamos lidando com um  ethos conservador e com seus apaniguados. E cada gota de discurso liberal se evapora quando o que esta em jogo é seu próprio quinhão no latifúndio. E cada gota do discurso progressista se dissolve quando o que esta em jogo é o seu próprio e não somente o de outro. Vejo isto também em alguns ex-petistas cuja causa da dissidência não é a bandeira mais avançada ou de vanguarda, mas apenas sua parte na partilha e no espaço de poder. Então, a leitura de bons livros, a leitura e o diagnóstico do 18 Brumário ou de Gramsci de nada adianta se o que está em jogo é apenas a autoridade e a autorização da autoridade. A legitimação perante a opinião pública não basta. Quem subestima olimpicamente os demais players pode acabar jogando sozinho e isso é sim algo a ser evitado quando se dirige algo do tamanho do Brasil. Mas vale a leitura sim. posto que trata da causa apontando uma solução que individualmente não resolve nada, só agrava e avilta o quadro: Por que a Dilma quase perdeu E o que fazer Para NÃO correr mais esse risco

O PT E O CONSERVADORISMO

Bom dia..gosto de usar a velha distinção entre conservadores, liberais e progressistas, porque em suas nuances ela é mais clara e porque há um problema nominal e conceitual encoberto ai. Ressalvando que existem conservadores radicais e moderados, liberais radicais e moderados e progressistas radicais e moderados. O neoliberalismo, para ficar claro, é um liberalismo radical, já o comunismo e o socialismo são em suas medidas mais ou menos radicais. Enquanto a social democracia e o social liberal são também mais ou menos moderados eu seus progressismos.    O muro de Berlim caiu por um impulso liberal e progressista moderado, não conservador. O desejo de mudança lá no leste europeu pedia o fim de um regime que já se encontrava num viés conservador. Mas para esta naba conservadora - comunismo e socialismo é qualquer coisa que reduza o poder das elites, desaproprie riqueza e patrimônio ou distribua benefícios e renda e é semelhante aquela que chama Obama de comunista por conta de programas como o Medicare. Seríamos ingênuos demais se não percebermos que este surto conservador foi construído por uma boa parte de preconceitos arraigados na sociedade, muita desinformação e informação superficial sobre as coisas e ainda mais uma boa dose de manipulação cujos principais propósitos não são sequer explicitar ou construir uma posição conservadora, mas sim defender esta posição através de simplificações e abordagens superficiais. E a nossa naba média e burguesa - que é subserviente aos interesses da elite, mesmo quando beneficiada por programas sociais - cuja formação humana é superficial e que sempre foi desprezada amplifica isto em grandeza e dissemina na sociedade este "resumo" do que é o PT ou Cuba ou o comunismo. Se bandeiras vermelhas fossem de fato símbolo de comunismo, muitas torcidas e inclusive batalhões do exército deveriam pagar esta conta também. No Brasil siglas e nomes como Progressista, Socialista, Democrata são adotadas em nomes de partidos que não possuem na prática nem em seus programas nada de Progressistas, Socialistas ou Democratas. Neste sentido o PT é mais progressista e democrata do que eles, e menos socialista do que se imagina. Porém, salta mesmo aos olhos o quanto tem se apresentado de resistências à políticas de redução da desigualdade social como muitos que se julgam e se enxergam como modernos e liberais. Eu diria que qualquer um que possui de fato um pensamento progressista - diferenciado em relação aos conservadores e liberais, mais social democrata ou mesmo social liberal que julga que o pobre não é culpado ou artífice de sua pobreza, teria razoável dificuldade para votar em qualquer outro partido no Brasil. Mas no Brasil pro conta de certas generosidades conceituais e liberalidades nominais, facistas e reacionários se autodenominam de Progressistas e Democratas, alguns de Sociais Democratas, mas a vaca deles está indo para o brejo, porque eu creio que esta eleição de 2014 - bombada por este grande processo de desinformação e deturpação dos fatos e das coisas, bombada pela negação geral da política e especial do PT, bombada pela velha tática de combater os progressistas denunciando corrupção e promovendo e explorando ao máximo os escândalos e escondendo e minimizando  todo e qualquer resultado positivo sempre, do mesmo modo que foi feito com Getúlio, Juscelino, Jango e também Brizola aqui no RS - e ultimamente Olívio e Tarso - terá lá seu limite, na informação e nos debates de esclarecimento e de afirmação mais clara de ideologias e´posições. Esta política que se estrutura na burla e no engano do povo, no elogio fácil de um moralismo, e numa pseudo defesa da liberdade terá seu limite. Em 25 anos de democracia e nós próximos 12 anos tudo isto será bem superado. 2014 vai entrar para a história como o divisor de águas deste país, não porque derrotou esta política, mas porque se construiu esta possibilidade frente ao maior ataque já realizado por este tipo de política contra um governo progressista que no caso do PT é bem mais moderado do que muitos petistas e esquerdistas gostariam, mas é progressista. Creio que isso nos leva diretamente aos atores sociais e políticos, ás classes em jogo e à natureza do pacto político que o PT representa aparentemente sem um aval de uma fração da intelectualidade que passou a fazer de conta que esquerda e direita não existem mais. Um abraço.

sábado, 8 de novembro de 2014

FEIRA DO LIVRO 2014 II

Estive na Feira do Livro com minha filha Isabella Fortes e encontrei muitas jóias maravilhosas e de ótima leitura para os dias de hoje. Alguns eu comprei porque me eram absolutamente irresistíveis e combinam em muito com meus tempos e momentos atuais. Outros como acertos de contas com um passado que não passou e que continua presente. Exemplos diretos do sebo, mas que me caem em mãos em boas horas BRESSER PEREIRA, Luiz. Pactos Políticos: do Populismo à Redemocratização. São Paulo: Brasiliense, 1986....pega na batata O PACTO SOCIAL QUE O PSDB OUSA QUEBRAR HOJE.....MORAVIA, Alberto. Diário Europeu: Pensamentos, pessoas, fatos e livros 1984-1990. de grande senão o maior memorialista e intelectual italiano da esquerda mundial do século XX, SONTAG, Susan. O Amante do Vulcão. São Paulo: Cia das Letras, 1993, e Dante Aliguieri. A Divina Comédia. Porto Alegre: Editora Pradense, 2010, de um lugar para onde todos vão e onde alguns já estão...e todos com certa relação com a Itália aquela bota que chuta nossa consciência desde Parmênides, Platão, todos os césares, Pedro, et alii...e Maquiavel, Petrarca, Antônio Vieira, e vamos e vamos até Bobbio, Eco, Calvino e tals..

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

ARISTÓTELES METAFÍSICA (LIB. 1, CAP.1 )E O COMENTÁRIO PLATÔNICO DE OLIMPIODORO

Meu amigo facebookiano e professor da UFRGS, Junior Baracat,  Dr. Em Língua Grega está traduzindo um texto de Olimpiodoro, o jovem, da Escola de Alexandria (circa 495-570 d.C.) - que comenta aquela primeira passagem que tanto cito em trabalhos e abordagens de Aristóteles Metafísica 1, livro 1, que ele – Olimpiodoro - designa por Teologia, veja isto:

“Aristóteles, ao iniciar sua teologia, diz: ‘todos os homens, por natureza, desejam o saber, e sinal disso é o amor pelas sensações’; eu, porém, ao iniciar da filosofia de Platão, diria isso de um modo melhor: todos os homens desejam a filosofia de Platão, querendo todos dela retirar algo útil, esforçando-se para serem possuídos por seus mananciais, e detendo-se apenas quando plenos do entusiasmo platônico” - Olimpiodoro, Comentário ao Alcibíades de Platão, 1.

O que Olimpiodoro disse sobre isso e Platão eu não conhecia, mas esta passagem de Aristóteles é tão clássica para mim...He he...que eu sempre prego ou grudo, fixo e impassível no amor à sabedoria que aqui tem a versão do prazer das sensações e do desejo de conhecer e é uma combinação tão maravilhosa para mim quanto um baralho novo..em qualquer ponto que você cortar aparecem cartas novas em folha e imagens que você parece que está vendo pela primeira vez...eu não resisto a esta passagem nunca...

Mas que se diga também que Platão é tão genial que nenhuma descrição pode suplantar o seu alcance....vale para ele o que vale para Deus: o gênio tem sempre um pouco de loucura e a loucura tem sempre algo do gênio...o que para nós pode ser grande para Deus pode ser pequenino e o que nós é pequenino para Deus pode ser gigantesco...e a República parece meio imensurável mesmo.....me pego pensando muito em alternativas em argumentos e não encontro melhores nem mais elegantes...mas chega de retórica e arte....

Penso também em nós que lemos estes autores 2.400 anos após suas escrituras e que também temos forte impressão tanto pelo que eles dizem aqui e ali, quanto pelas conexões intertextuais e outras. Sou daqueles que adora ler Aristóteles e reencontrar argumentos e formas de argumentação que pulam daqui para lá. E eu fico pensando no tipo de impressão que os alexandrinos e outros tinham e na forma como liam....a retórica do texto "detendo-se apenas quando plenos" diz tudo para mim. Eu comecei minha dieta grega por Aristóteles, mas quando cheguei em Platão de forma mais madura e experiente o que é algo recente foi que vi o quanto ele é realmente grandioso. Dos tratados de Aristóteles cuja exposição astuta e elegante do conhecimento, cuja forma de exposição parece linear aos assaltos argumentativos de Platão em seus diálogos - com todos os "olha isso" e "olha aquilo" que me acometem, na leitura - pula se do cientista cauteloso e metódico para o poeta genial. Mas, o que é demais mesmo é que jamais se lê impunemente Platão... e quando digo isto não trato das idéias, mas sim da vida....

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

COM A LUA CHEIA EM SÃO LEOPOLDO

Estava pensando nisso enquanto vinha das aulas na  escola à noite e olhando ao longo do caminho o capim crescendo, os postes sem lâmpadas, os buracos aparecendo e á luz da lua cheia conclui que é uma pena uma cidade como a nossa passar por isto que ela está passando...fico pensando também em todos nós e nos demais leopoldenses que trabalharam tanto e que trabalham seriamente para nossa cidade ficar melhor.....é realmente lamentável isso....é o fim da picada...a que ponto chegamos com estes pilantras que se aproveitam da democracia e da boa fé de nosso povo...

SARNEY E AS MUDANÇAS

Eu ironizei que ninguém ia reclamar este voto da mais pura gratidão do Sarney para Tancredo ao votar em Aécio em 2014, que demonstra somente o quanto ainda somos governados pelos mortos e pelo passado. Afinal, TANCREDO estava lá nos estertores de Getúlio (1954), na contra-pressão de JK (1955-1959), no Golpe Parlamentarista contra Jango (1961) na queda de Jango (1964). Na anistia, abertura e transição de 1979 a 1985, e Sarney desde 1954 também estava lá (PSD (1954–1955), PST (1955), UDN (1955–1964), ARENA (1964–1983), PDS (1979–1984), PFL (1984), PMDB (1984–presente).) Não há nada de novo nisto que a agradável forma de proximidade ao poder dos golpistas, seus braços militares e civis, seus instrumentos tradicionais e sua corja de traidores e conservadores já não tenha feito antes.

Mas a verdade bem redonda é que este voto marca também um divisor de águas na política brasileira, entre o passado e o futuro, entre a velha política dos coronéis e das concessões federais e a nova política da cidadania, do fim das velhas raposas e dos Janjões, Playboys, Filhotes da Ditadura ou filhinhos de papai. Sarney ajuda e muito a deixar as coisas mais claras para quem quiser ver com toda nitidez em seus segredos e veleidades pessoais revelados e que vieram à público mais uma vez. E isto marca também a volta do tema da relação da governabilidade e da política de alianças que sofre entre as cordas da moralidade pública, fidelidade partidária, identidade ideológica e as tesouras do pragmatismo e oportunismo e também que país está a ser construído. 

Marca-se ai também o que tem sido a grande questão do país sobre a imprensa, a mídia investigativa e os limites dos direitos individuais e as questões privadas. Eu lembro muito neste caso de duas coisas além disto. 

Dos escândalos protagonizados por ACM, Jader et caterva sobre o Painel de Votação do Senado, e sobre todo o ônus que o PT paga por ser literalmente obrigado pelo sistema político vigente a se associar a um partido que está no poder desde a transição democrática. Não desprezo o PMDB, pois não desprezo os eleitores que ele representa, nem os seus trabalhos e dias de luta, vitórias e pressões e contrapressões, mas ele expressa justamente o limite do nosso regime democrático brasileiro que deve ser respeitado, mas que só será alterado com  uma reforma política. 

E aqui vale a mesma coisa que vale para o sistema dos EUA: não adianta cobrar que o OBAMA não faz ou não cumpre suas promessas e votar fortalecendo mais ainda justamente aqueles que impedem ele de fazer o que se propôs. Mutatis mutandis, vale a mesma coisa para o PT, Lula, Dilma e todos os que querem realmente mudar este país. E o Congresso Nacional eleito na última eleição é uma mostra gritante disto. Tanto a fragmentação como o fortalecimento dos vetores de negação da mudança, o fortalecimento das bancadas conservadoras e oposicionistas impõe um grande limite aos avanços do nosso país tão claramente e difusamente cobrados nas manifestações de junho de 2013. R Reforma Política é e será a grande mãe de todas as mudanças que este país precisa.  

De pouco adianta reclamar do Sarney, Maluf, Collor, FHC, PMDB e PSDB etc. e não compreender isto. E esta é sim uma pauta de esquerda. Sarney sai de cena no dia 1 de fevereiro de 2015 e eu ousaria dizer que se encerra este ciclo de transição brasileira, bem como, marca um dos últimos capítulos da Modernização Conservadora Brasileira.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

COM QUANTAS BOBAGENS SE PENSA O PT?

Já calhou a imprensa monopolizadora fazer suas apostas sobre o que o PT vai fazer agora aqui no RS. O PT não é um jogador...É assim que alguns jornais e analistas políticos nos tratam. Como se estivéssemos a praticar como players em um cenário político dado. Para nós a política é uma coisa bem mais séria do que ver o que cola ou não cola...ver o que pega ou não pega, ver somente o cálculo da vitória e da derrota, da ascenção  e da queda em nós é desprezar nosso projeto social e de classe, é desprezar nosso programa político e nossos ideais mais importantes. E nada me deixa mais aborrecido do que este tipo de comentário superveniente após a derrota dos nossos candidatos Olívio Dutra ao Senado e de Tarso Genro no RS. Este tipo de comentário que simplesmente descarta lideranças e que entre alguns de nós só atiça aquelas velhas vaidades e veleidades...adula ambições e pretensões que entre nós não são mesmo pessoais nem se resumem assim. Porém na verdade fico muito feliz pelos que não foram citados pela imprensa tradicional em seus balanços de nossas pretensões ou alternativas, táticas ou estratégias de futuro que ainda não fizemos e como opções e pelos que se mantém observando....sempre me lembrarei que no PT nada é natural, tudo deve ser construído e coletivamente pensado...Para o PT é um dever sim disputar a hegemonia, no sentido de produzir uma postura contra-hegemônica exemplar e sempre tentar  esclarecer melhor certas diferenças ideológicas. Para nós é tarefa permanente  dialogar uma base social e se colocar melhor em diálogo com os demais cidadãos do  povo que ainda sofre e balança com qualquer movimento de manada promovido pela mídia e pelos grandes manipuladores de opinião neste estado...e, além disto, será preciso pensar seriamente em como construir novas pontes com toda a esquerda e com os hiper-críticos ao sistema político atual...Nossos aliados não são mais os mesmos e tem suas pretensões e legítimas decisões na nossa mesa e é necessário mudar internamente certas lógicas para evitar mais tombos pelo caminho...o PT e os seus problemas não é uma questão de ser intelectual, nem personal interest...trata-se de um projeto coletivo e deve ser visto a partir dele, não de futuros a candidatos ou pretensões.

SOBRE O TAMANHO DA NOSSA VIDA

“Não tente viver para sempre... você não vai conseguir.” 

Prefácio de Georg Bernard Shaw, a O Dilema do Médico (1906), citado por Freud em correspondência (in: GAY, Peter. FREUD: Uma vida para o nosso tempo. 2a. ed.  Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Cia. das Letras, 2012. p. 426). Estava aqui pensando em Moacir Scliar, liberdade, política e na vida.

Não vamos vencer a morte, nem a medicina irá fazê-lo. Ela pode ser atenuada, retardada, mas também é imprevisível, não sabes a tua hora, nem sabes o teu destino. Não sabes nada sobre tua própria sorte, tuas graças e bônus, mas podes colecionar algumas chances a mais. Podes te cuidar. Estamos todos tentando sofrer menos. Na nossa vida isso demora um pouco parta nos pegar de frente. As vezes passamos uma vida inteira - ou melhor, boa parte dela - sem sentir isto, até que....a miudinha chega e começa a corroer as bases da tua existência. os sinais são dados no teu corpo e na existência de teus familiares e amigos próximos e você vai aprendendo algo sobre isso. A vida terá um fim, chamamos este fim de morte e tentamos sempre pensar que não é com a gente, mas é. Esta dama vai te vistar um dia. E você não vai conseguir mandar ela embora. Ela somente será retardada, poderá perder o ônibus ao ir te visitar, poderá esquecer teu endereço e mesmo ficar um bom tempo vendo como você tem se ocupado nesta vida. Pode pensar á vontade em seus planos, sonhos, desejos, filhos, mas você não vai conseguir mesmo viver para sempre, então relaxa, te acalma e vai vivendo.

sábado, 1 de novembro de 2014

RETOMANDO A NOSSA DISCUSSÃO ENTÃO

Esta eleição foi a minha experiência mais intensa de debate público e político. Publiquei aqui na minha página e no meu blog muitas coisas, comentei por muitas páginas e postagens de amigos e amigas muitas coisas. Publiquei uma tonelada de posições, opiniões, compartilhei muitas postagens e me posicionei em diversos momentos de toda esta eleição e mesmo durante o ano ainda antes disto. Fui excluído como amigo por alguns, mas posso dizer que ganhei mais amigos e interlocutores de melhor qualidade do que tinha antes. Vi pessoas mergulhando num abismo obscurantista e raivoso e me lastimei, mas na maior parte deixei assim. Tentei muitas vezes adoçar a luta, mas vi nesta semana que o grau de incompreensão e a temperatura desta máquina de derreter inteligências se elevou. Não é só o golpismo não, nem a volta da ditadura não. Para mim há uma espécie de lama moral neste processo que não sobrevive a nenhum exame formal argumentativo, cognitivo ou fatual e/ou de uma possível moral universal.   

Descobri durante esta eleição a visão de amigos e amigas de vários estados e de fora do país. E fiquei muito impressionado também com certa rede que se formou e que foi obtendo adesões e contribuições incríveis. Foi maravilhoso não agir e nem pensar sozinho e ver um gigantesco discurso de compreensão e de formação sendo construído. Ver opiniões mudando e o nível de informação e a capacidade de tomada de posição se encorpando e a parte mais incrível disto se deu nas redes sócias com reflexos e provocações das ruas. Dos debates até os panfletos, das notas partidárias  e das traduções, adequações e reflexões. E disso tudo sobrou um resto fixo de posições para reelaborar, afinar e organizar melhor. Tenho neste exato momento mais coisas não publicadas e sendo mastigadas  e sopesadas do que publiquei ou postei. Algumas coisas receberam esboços e nem sequer foram apresentadas aparecendo aqui e ali uma pitada de uma ou outra coisa.
     
Olha só, meus comentários não publicados que eu mesmo julguei exageros e que, assim, ainda estou revisando e reavaliando e medindo sobre o que foi isso que ocorreu. Estou pensando muito mesmo em como me posicionar de forma mais eficaz, clara e construtiva com um contraveneno para o Conservadorismo que possui embutido um Autoritarismo e contra esta cosia que chamo de Pseudo Liberalismo, para os quais a liberdade dos outros só vale submissa às suas e a democracia só vale quando eles vencem. Não dá mesmo para enfrentar isso. Esta miséria ou lama moral como um bate bola pessoal. Por isto, me dei uma semana e este comentário aqui e um comentário na Feira do Livro sobre os hiper críticos que derivam para um nihilismo, e nossa opção humanista que é sim, apesar de tudo, uma aposta na humanidade, na possibilidade de um outro mundo possível. Creio que lidamos sim com uma regressão e uma espécie de infantilismo ou analfabetismo político e termino na esperança de que talvez esta que seja minha primeira postagem relativa a tudo isso que vimos ajude a acalmar certos ânimos. Não vamos mesmo resolver nossos problemas comuns recusando a diferenças, com aversão a contradição e sem tentar aceitar que a democracia é a forma mais justa de se competir e se disputar o que  é bom para todos. A verdade toda que, enfim, está em disputa exige mais informação e mais conhecimento do que esta vã opinião ousa apresentar como interpretação do mundo, da nossa sociedade e do nosso país e sua história.