segunda-feira, 13 de outubro de 2014

MARINA E O SEGUNDO TURNO

O TEMA DA REELEIÇÃO, DA NOVA POLÍTICA E DA LEGITIMIDADE, DA MAIORIDADE PENAL, DO DEBATE PÚBLICO E DA MENORIDADE POLÍTICA  - E O MEU VELHO E BOM OTIMISMO

O tema do fim da reeleição, que consta na pauta de Marina para apoiar Aécio, pertence, na minha franca opinião, à base retórica da Nova Política. E para mim é preocupante que ele venha de um quadro político sem partido sólido e consistente atrás de si. Por mais que se possa questionar e se deva questionar a imoralidade da forma como foi concebida e constituída, aprovada e implementada a emenda da reeleição por FHC e o PSDB, com todo aquele casuísmo, ÀS VÉSPERAS DA ELEIÇÃO DE 1998 - o que vale e pode ser tema para o debate entre Dilma e Aécio agora - a reeleição não é um mal em si, nem algo ruim desde que se tenha um regime de plena e profunda discussão e deliberação pública. 

Me parece que isso é só retórica e não tem consistência teórica ou prática alguma. Não podemos dizer que a reeleição fez mal ao Brasil. Não podemos esquecer mesmo que estamos lidando com uma espécie de transição democrática ainda e que tanto a estabilidade econômica, como a estabilidade política sofrem sempre ameaças. A estabilidade econômica pelos interesses especulativos que se pronunciam com muita falta de vergonha a todo tempo, tentando tirar dividendos dos desafios de controle da inflação e de manutenção da economia, enquanto a estabilidade política sofre, em especial nestes 12 anos de PT, assaltos sistemáticos de interesses derrotados nas urnas e de uma mídia cuja composição, interesse e ofensividade passa das medidas sempre. O caso da Delação Premiada que agora é a pauta desvio desta eleição serve para ilustrar isso em duas dimensões, no golpismo que tenta impedir uma reeleição e na cobertura da pauta econômica para o que a oposição parece tirar vantagem disto não sendo obrigada – pela cortina de fumaça – e nem pelo eleitorado a expor suas medidas nem enunciar claramente e explicitar objetivamente que medidas quer fazer na já denominada agenda oculta.  

Esta política que tenta a todo custo tirar legitimidade dos eleitos ou impedir que certos candidatos sejam eleitos é sim ilegítima e tão ou mais criminosa com a democracia do que a corrupção, porque este tipo de crítica traz consigo o não reconhecimento do consentimento dos cidadãos, a tentativa de torcer o eleitorado ao seu interesse e vem promovendo não somente contra a reeleição ao meu ver um processo de deslegitimação das instituições e do sistema político brasileiro. Em outros tempos, isso era considerado pura e simples sedição. E é muito ruim que isso seja estimulado e promovido também pela negação da política e o desrespeito aos partidos neste verdadeiro vale-tudo que ocorre hoje. E vem com isso aquele papo furado de alternância no poder. O que é papo furado porque é esgrimida retoricamente somente contra certo partido. A forma de uma democracia não se resume a poder mudar o chefe de estado ou ter que mudar de 4 em 4 anos. Defendo uma ideia de que se há consentimento dos cidadãos na base da recondução dos governantes, se há debates livres e se há equilíbrio nas disputas então reeleger ou não é um tema secundário. Se houvesse compromisso com uma reforma política por parte dos adversários de Dilma estaríamos melhores e mais esperançosos. Reforma política que deverá normatizar também o uso de pesquisas e de meios de comunicação nas eleições. 

Eu estava escrevendo isto e ocupado mesmo com o mérito da reeleição e isto me traz sempre ao pensamento o desafio de fortalecimento da democracia. Este sistema de consentimento dos governantes, de consentimento de políticas e programas, de consentimento e de renovação de consentimento deve ser mais valorizado e respeitado e isso para mim tem por conseqüência a necessidade de uma reforma política. Ao contrário de outros, creio porém que o Brasil - passada esta eleição, vai encontrar mais estabilidade política e que os políticos terão que se assentar em políticas mais claras e eficazes, menos ensaísmo   e retórica e que este artificialismo radical – seja de direita e seja de esquerda, será dissolvido pelas necessidades e certo princípio de realidade. Creio que a capacidade política será medida pela atuação no espaço privilegiado para o acordos e as negociações, e que este continuará sendo o centro nervoso da política brasileira. Aposto que o próximo presidente será ainda de centro- esquerda de novo e que assim seguirá sucessivamente. Ou seja, creio que a direita que pintou e bordou no último período usando-se de todos os meios disponíveis apara isto, com certa anuência do esquerdismo e do golpismo tradicional, está sim em vias de ser derrotada de novo e a esquerda tende a se unir e a consolidar plataformas mais avançadas.

Minha crítica à Marina, por exemplo, e vou me repetir aqui o que pode ser confirmado nas minhas postagens que respondem e refletem a sua indicação na cabeça de chapa em substituição a Eduardo Campos, partiu de uma taque ao que chamei de fusão em sua candidatura  dos temas do Fundamentalismo e Neoliberalismo, que em seu programa e porta-vozes ficavam evidentes. Minha crítica poderia ter se limitado à isso, não fosse as idas e vindas dela em vários temas durante a campanha e, na minha percepção e opinião, a negação muito ruim do passado dela e a frágil tese de que ela queria ser portadora de uma Nova Política. Esta tese tentava em sua parte “positiva” , de um lado, abolir e dissolver a polarização entre PSDB e PT e, de outro lado, representar e ser uma espécie de porta voz das ruas e das manifestações de junho de 2013. Bem, na prática nenhuma coisa e  nem outra rolou. A Tese esta ficou prejudicada por que não era demonstrada nem pelos fatos, nem pelos discursos e nem por seus aliados. Se olharmos com carinho a representação dos usineiros, somada a representação dos segregacionistas evangélicos, somada à velha guarda do PFL, do PPS e etc deu no que deu para representar o velho e ultrapassado padrão de fazer política. Além disso, a nítida silueta neo-liberal da sua abordagem  econômica via Gianetti e Lara Resende, Neca Setubal e etc, não deixou nenhuma dúvida que a saída que ela propunha era pela direita e com a tese atravessada de independência do Banco Central ela acabou trazendo o velho ranço não intervencionista e liberal e colocando em risco efetivamente os programas sociais do PT.  E isso deu no que deu, levando água ao moinho do PSDB, com a crescente rejeição das estripulias e inconsistências de Marina e deixou clara uma certa lição.

Não se supera, nem formalmente nem em conteúdo, uma polarização programática e ideológica como a do PT e do PSDB no Brasil hoje sem uma síntese mais clara. A velha dialética cobra seus préstimos aqui e exige muita clareza, precisão e mais racionalidade. E me parecia claro que Marina não conseguiu passar isso, apesar de sua biográfica e marcada sensibilidade. Sensibilidade esta que de fato tocou o eleitorado em 2010. Mas esta sensibilidade não apareceu mesmo em 2014, a não ser como uma retórica esvaziada pela agressividade que o tom paz e amor de Marina adquiriu neste pleito. Esta sensibilidade se dissolve mais ainda agora e não se transfere em nenhum milímetro ao programa e ao perfil quase mecânico e repetitivo do Aécio. Vou lembrar aqui que dizer que vai evitar a redução da maioridade penal após seis meses de campanha e praticamente uma vida pugnando por isto, não me aprece mesmo confiável. A redução da maioridade penal é uma espécie de demagogia dirigida ao espírito vingativo e nervoso de uma aperte do eleitorado e também um aceno aos pais que não educam adequadamente seus filhos de que suas grandes e demasiadas responsabilidades serão atenuadas. 

Eu penso todas estas questões a partir da minha experiência política e profissional e da minha formação. Com certeza...todos somos filósofos – como já disse Gramsci um dia - e cada filósofo é responsável e deve ser avaliado por seus argumentos e pelo seu próprio espírito crítico. E tão mais este espírito crítico será desenvolvido em nós e nos demais interlocutores, se formos claros na argumentação e não sonegarmos argumentos e elementos de nosso raciocínio. Eu escrevo todos os dias sobre este tema e tenho uma relação bem séria com ele.

É mais do que preciso justificar suas posições e tentar compreender quando os outros não as aceitam contra-argumentando e apontando onde aqui e ali estão as razões de divergência ou contrariedade. O contrário disto é um sintoma de menoridade política e intelectual que dispensa apreciação e mais detalhamento. 

É uma das coisas mais interessantes para mim esta minha fé iluminista no debate público e na esfera pública como instância de discussão e deliberação coletiva. Argumenta-se disputando maioria e também procurando a verdade. E eu sou daqueles que penso a política assim. Creio que isso é uma perspectiva não somente crítica, mas também progressista e espero não convencer as pessoas de que minhas opiniões estão corretas, mas creio mesmo que fazer elas pensarem um pouco mais sobre as suas próprias opiniões e posições e torná-las mais transitivas, justas, críticas e progressistas é meu único objetivo. Sou um otimista convicto e creio que nossa felicidade em sociedade também depende deste tipo de elemento e disposição no trato dos temas públicos, políticos e sociais.

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