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terça-feira, 22 de julho de 2014

MERCADO, EDUCAÇÃO E INOVAÇÃO – O DEBATE BEM INDUZIDO

Meu amigo Nilson Nunes me postou uma matéria do Correio do Povo e acabou me lisongeando demais ao dizer que sou um daqueles que mais escreve sobre isto – educação mercado, vis a vis - aqui no facebook. Já andava meio invocado neste tema por conta daquela entrevista do Gerdau dizendo como a educação deveria ser que eu li na revista Pátio ( que citei no artigo sobre OS PITACOS NA EDUCAÇÃO ANTES). 

Tal entrevista me fez retomar o desfio entre a determinação política da esfera econômica que para alguns é mera utopia, mas que para mim é a única forma de realizar justiça social e garantir igualdade com liberdade nas sociedades capitalistas. Penso com o mesmo viés de Habermas aqui: um sistema econômico capitalista precisa ser "domado" com meios democráticos. E isso significa que não é o mercado ou um “sistema econômico  capitalista” que deve dizer como a educação deve ser, mas sim a democracia.

Bem dando uma pesquisada básica, descobri algo sobre esta matéria do Correio do Povo: Ensino do Futuro: foco em emprego e carreira .

Para começar ela saiu primeiro e em sua maior inteireza no site da BBC, de 9 de junho de 2014, por Alessandra Correa, com o título: Universidade do futuro deve ter foco em emprego, dizem estudantes brasileiros , portanto, é um release de divulgação e de reprodução – não seria melhor reapresentação - de uma ideia bem senso comum  que faz muito tempo que habita a cabeça dos jovens brasileiros focados no mercado de trabalho competitivo e curvados pela lógica da empregabilidade. A matéria cuja fonte primeira é a supracitada traz para nós sérias reflexões sobre o tema em geral, suas proposições basilares e este método maravilhoso de definição do que interessa para o mercado, os jovens e as escolas, nesta ordem, off course.

Eu estou lendo esta matéria com mais atenção ainda porque vejo uma bela discussão sobre esta recorrente intervenção do mercado na educação, seus limites, propostas e características e penso que deveria haver maior detalhamento e que o título no Correio do Povo – Ensino do Futuro: foco em emprego e carreira -  mostra bem o que é o tipo de conclusão induzida pelas premissas eleitas da instituição que encomenda e a que realiza a pesquisa: empregabilidade e mercado, ou seja, que a pesquisa foi feita para encontrar o que interessa para esta instituição. Isso cansa a minha beleza e boniteza amigo, porque trabalha já  a partir de uma perspectiva indutora e interessada e é a típica pesquisa que não descobre nada somente colhe o que foi plantado por um certo discurso legitimador nestas instituições privadas e nestes cursos privados.  E este é somente mais um exemplo de apresentação do que me interessa para legitimar o que proponho para a educação. O  jornalismo que publica isto assim também me gera outras reflexões. Bem, vamos por partes.

Primeiramente, isso está levando água para o moinho do que é dito "liberal" ou do mercado, porém é preciso considerar que há algo mais ai. Ao contrário, o que no fundo se apresenta ai tem um caráter que é profundamente conservador e não inovador.

Há e sempre houve uma grande disputa ideológica sobre a forma, objetivos e métodos da educação. Nos anos 90 isso era chamado de Neoliberalismo e tratava-se com certa urgência  de subordinar de fato a educação às lógicas do mercado, em amplos sentidos o que incluía privatizar a educação o que no Brasil  só não foi possível, no grande surto de neoliberalismo dos governos Collor, “no mitigado governo de coalizão do Itamar” e FHC,  porque na Constituinte de 1986 a 1988 havia, após razoável batalha ideológica no congresso nacional,  sido inscrito e bem inscrito com todas as letras na carta magna o direito a educação pública e gratuita para todos os cidadãos.  E é bom que se diga que o fechamento das escolas técnicas federais e a lei que proibia no governo FHC a ampliação das escolas técnicas procurava satisfazer este mesmo critério de que o mercado – no caso o sistema S – deveria determinar qual que é o foco da educação que deve ser dado aos jovens, no caso nas faixas etárias e nas idades do ensino médio. O que foi radicalmente alterado no governo Lula que revoga a lei de FHC e retoma a implementação e ampliação da rede nacional de escolas técnicas federais, os CEFETS com cursos novos e para todo o Brasil. Entre 2003 e 2010 foram construídas 214 novas escolas. Sendo que até 2002 a rede possuía 140 que iam sendo aos poucos descaracterizadas e se desvinculando do ensino médio e se vinculando ao mercado.  Já no Governo Dilma em 2014 a conta está fechando em 563 novas escolas técnicas implantadas de 2003 até hoje.  

A frase do falecido Ministro da Educação de FHC, Paulo Renato de Souza esconde justamente esta lógica “era preciso garantir uma vinculação maior e mais ágil entre as escolas técnicas e as necessidades sempre dinâmicas do mercado de trabalho local, onde os empregos são efetivamente gerados”. Sendo o aspecto local um resumo da bossa, posto que SLPs, os sistemas locais de produção foram reconhecidos e receberam diálogo público somente com Lula também, e no RS com Olívio entre 1999 e 2002. O tema das “necessidades sempre dinâmicas” se resume, enfim,  para mim aos interesses conjunturais do mercado que na real só escamoteiam as instabilidades e não constituem políticas públicas estáveis e continuadas. Vou exemplificar marcando o ponto sobre como seria mesmo um currículo técnico com esta dinâmica? Quem tiver uma resposta que informe ao mundo.   

Um pouco antes disso e um pouco depois da invenção neoliberal no Brasil em 1990 – ainda durante o segundo governo de FHC o quadro foi já mudando a partir das resistências a esta política em certos aspectos, greves em diversos estados e muita mobilização contra o neoliberalismo na educação com apoios de amplos setores da sociedade brasileira. No Rio Grande do Sul o governo Britto seguia este receituário neoliberal. Porém, muitos perceberam que tanto as privatizações como as terceirizações colocaram o Brasil de joelhos durante a crise de 1999, mas esta política perseverou ainda, por exemplo, nas formas dos contratos de trabalho em alguns estados do Brasil onde o PSDB governava e se precarizaram muitos dos direitos dos trabalhadores em educação à título de dar mais flexibilidade à educação e garantir algo como uma espécie de qualidade total trazida diretamente da caixola de alguns gurus empresariais para a educação brasileira. Esta onda pegou pesadamente em São Paulo com os governos dos cabeças de planilha.  Mas também na desvinculação do Ensino Técnico do Médio nas Escolas Técnicas Federais. O mesmo texto do ex-ministro de FHC fala disso claramente no que segue: “nossas escolas técnicas federais ofereciam um bom curso de nível médio que preparava os filhos da classe média para ingressar na universidade, mas não atendiam às necessidades de formar técnicos de nível médio para o mercado de trabalho.”

Minha relação com este tema começou lá por volta de 1995 quando assisti na então escola técnica do comercio da UFRGS a técnica do senado – cedida ao MEC – Mariza Abreu defender esta desvinculação e reorientação com o argumento de que isso evitava o desperdício de recursos em jovens de “classe média” que em seguida ingressavam nas universidades dada a qualidade do ensino da ETC e outras e ao fato que a mesma escola pré-selecionava através de uma espécie de mini vestibular os alunos do fundamental que lá ingressavam. Na lógica deles isso não poderia acontecer e deveria ser evitado. Bem, pergunto, passados já 20 anos, aos meus ex-alunos da ETC quais prejuízos isso trouxe a formação deles? E deve ser difícil encontrar tal argumento. A educação em todos os níveis deve ser oferecida em abundancia e com qualidade e cabe aos jovens fazerem  o uso que lhe aprouver. Ainda é preciso anotar aqui um outro detalhe. Os jovens estão em idades muito precoces para determinarem que vão seguir esta ou outra carreira técnica, cabendo a formação técnica inseri-los no mercado sim, mas não determinar um limite aos seus progressos educacionais . Confesso aqui que já naquela época protagonizamos este debate e hoje se observa que estas posições estão mais corretas e são mais interessantes aos jovens em suas escolhas e na geração de mais oportunidades.

Eu creio que este reducionismo e subordinação da educação a uma ideologia empresarial ou uma concepção empresarial, é típico de uma visão de que a escola deve servir ao mercado e aos seus interesses conjunturais e eventuais mas já apontei antes que deve ser mais difícil trabalhar uma rede inteira educacional para ficar fazendo manobras de acordo com os ventinhos, ventos ou ventanias ocasionais do mercado em cada setor de atuação. Nem as empresas mudam tão rapidamente de foco e de matriz assim.  

No reducionismo de perspectiva para os jovens que o foco no mercado e no emprego impõe temos outros problemas também. Pareceria haver ai um recorte de classe que determinasse quem pode seguir ao ensino superior e quem deveria se limitar ao técnico. E isso deveria atingir os métodos, os regimes de trabalho, os conteúdos e as definições de objetivos e todas as agendas da educação. E esta posição que é também utilitarista e que resume o objetivo educacional a uma espécie de agenda de prazeres e materialidades é largamente propagandeada.  A meu ver, isso é uma violência contra o sonho e a sensibilidade dos jovens de hoje em dia.  Para isso a campanha na mídia tem sido intensa e procura sistematicamente encaixar os jovens num panorama de produtivismo, mas há que se refutar isto na exata medida em que a maior parte dos trabalhos atuais se afastam cada vez mais da oferta e produção de bens palpáveis e passa, assim como ocorre com o predomínio da área de serviços, ao domínio do imaterial e do que é mais subjetivo.  Isso se observa em diversas áreas do conhecimento.

Mas há certa barragem a este fato que se encobre sobre o tema da inovação. E  é de tal forma intensa que é mais fácil encontrar opiniões sobre educação de empresários em jornais, revistas de ampla circulação e programas de televisão do que propriamente de educadores ou pesquisadores em educação. Isso é tão sério que quando são consultados educadores, consultam-se educadores vinculados à instituições privadas e de preferência em sua maioria profissionais liberais. Veja-se que isso é tão gritante que sequer os departamentos de educação das instituições privadas tem algum nível de divulgação de suas pesquisas e propostas, sendo raro tal ocorrência na mídia convencional. Como é que alguém acredita que vai se criar inovação se são consultados apenas aqueles que fazem e continuam fazendo a mesma coisa que há 30 anos atrás?     

Mas a escola que compreendemos no século XXI tem, como outros argumentos  também contra esta redução ao mercado e ao utilitarismo, outras tarefas que envolvem o cuidado e além disso a possibilidade de se construir uma vida com sentido e digna independentemente dos imediatismo e produtivismos. Lidamos aqui também com saúde mental, novas formas de vida  e com a humanização e sociabilização. Mas com certeza não haverá inovação alguma se os jovens forem educados simplesmente para satisfazer o mais rapidamente a agenda de mercado que tende a ser em geral não crítica, submissa e materialista.

Para terminar com uma nota trágica ontem vi um vídeo sobre certos camarotes Vips na Copa do Mundo – em especial aquele onde estava seu Jorge e sua esposa - e nunca vi tanta besteira sendo dita pela elite, pela burguesia de meu pais. São pessoas cujo metro e medida de si são exclusivamente o consumo, pessoas de uma superficialidade assombrosa, pessoas que são  individualistas e mesquinhas ao ponto de uma moça dizer que “é igual a todo mundo mas como pagou mais....”, pessoas que estão reclamando do Brasil e ostentando GIFTS de mil dólares em ouro em seus pescoços. Duvido muito que esta seja a geração de ouro que a inovação das empresas precisa ou que o nosso país precisa para avançar com  desenvolvimento e redução de desigualdades para dentro do século XXI. Isso não é inovação, é puro consumismo e alienação.

Vou até parar por aqui, porque dá uma vontade de desancar o pau nessa ideologia. Não me admire que o especialista que fala na entrevista da pesquisa tenha como perspectiva de consumo e de realização passar o fim de semana em um camarote dando mostras de que agrega valor. Isso não é sério, não deve ser aceito como serio ou como parâmetro para um pais desenvolvido, do mesmo modo que não é sério industriários dizerem como querem a educação do povo e não aceitarem nossos palpites – de educadores, professores e pesquisadores - sobre os direitos e as garantias que o povo deveria ter para produzir em suas empresas.

Há um abismo no Brasil que se acirra entre estes universos da elite e a vida real da escola e a vida que os jovens de todas as classes precisam construir para sobreviver ao futuro sem um tradicional VALE TUDO, CADA UM POR SI  ou SALVE-SE QUEM PUDER.  Este é o tipo de situação que vai contra a inovação porque é tradicional, conservador e a pura repetição do mesmo sem sentido algum. Deveria haver um debate mais sério na sociedade brasileira sobre isso e não estas mensagens ou recados que se resumem a dizer o que querem de um lado e pouco escutam o que a sociedade pensa. Esse discurso empresarial é sempre unilateral, sem diálogo e sem feed back algum dos educadores. Porque será?


Isso para mim é um método de disseminação de ideias e somente isto e a forma como é feita é muito antidemocrática. Seria bem bom que eles submetessem estas ideias à pessoas que dedicam a sua vida a estudar a educação e parassem de formular palpites e forjar pesquisas cujo sucesso é somente virtual e midiático e que longe de apresentarem tendências globais qualitativas, mostram apenas o pensamento focado de alguns jovens que se locomovem e reproduzem os mesmos discursos hegemônicos nesta selva do mercado adotando acriticamente a lógica competitiva que ele impõe às suas vidas o que não muda nada nem significa alguma inovação .   

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