terça-feira, 19 de novembro de 2013

DA DIFERENÇA ENTRE ATRAÇÃO FÍSICA E MENTAL: NOTA ABERTA SOBRE O TEMA

DA DIFERENÇA ENTRE A ATRAÇÃO FÍSICA E MENTAL

“A atração mental é muito mais forte que a física. De uma mente você não se liberta nem fechando os olhos.” 

De um “meme” qualquer...




É preciso reconhecer, primeiramente que a atração física também tem seu poder. Mas a afirmação acima trata laconicamente e concisamente, quase como um fragmento ou aforismo, da diferença, da força exercida e da presença em nossa mente de uma atração mental. Como aforismo cumpre a sina já apontada por Karl Kraus: "O aforismo jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou é uma verdade e meia." Ao tratar também do tema da liberdade - nem fechando os olhos - parece haver algo mais a ser investigado ai.

Lembro que era comum, em certa época, se falar em fixação no caso de paixões e creio que o termo é bom para isso mesmo. O termo é bom para entender a forma de fixação de um conteúdo ou figura que tem lugar estável em nossa mente. E esta estabilidade se dá por repetição e permanência. Repetição de uma espécie de ruminar afetivo e permanência porque mesmo sendo passageira - sua lembrança - ela volta à tona ao longo dos dias, das semanas e meses. Assim haveria uma forma de fixação mental por traz desta atração física ou mental e, então poderíamos pensar sobre como isto se realiza ou sob quais as condições necessárias deste seu modo de realização. poderíamos perguntar como se realiza. Ou seriam em sua realização cotidiana aí algo como condições de possibilidade? 

É preciso traduzir melhor isso sempre, por também outros motivos. Porque, ao tratar de influências de “outras mentes”, estamos sempre dando um motivo para a suspeita quanto à força da manipulação e ao poder destas outras mentes sobre nós. E a nossa liberdade depende de que isto seja apenas possível e não necessário. caso fosse necessário mesmo esta pobre e mal ensaiada reflexão não seria livre. Daí porque a pergunta pela causa aqui é também a pergunta sobre a racionalidade ou irracionalidade desta influência. Caso seja racional poderíamos ter boas razões e certa clareza das causas da atração mental - aquela que no meme - não se apaga com os olhos fechados.

Caso seja irracional temos algo mais. É também uma pergunta sobre as razões da sedução ou fixação e sobre o limite da nossa consciência disto. A ideologia aparece espontânea e livremente neste pequeno espacinho da diferença também. Vejo que este é sempre um bom motivo para a nossa reflexão minuciosa. E eu não saberia dizer qual efetivamente tem mais poder, se a atração física ou a atração mental, porque vejo sinceramente muita paixão em ambas, haja visto que já tive e tenho tanto o gosto da paixão intelectual quanto da paixão física.

Poderia dizer que a primeira é mais rara como todo o senso-comum tem afirmado aqui e ali sobre este tema e que a segunda é mais tradicional e usual. É bem mais frequente em nossa vida a paixão física. A paixão física tem certa vantagem sobre a paixão intelectual, porquanto é até mais fácil saciá-la, pelo menos assim eu creio. 

Platão usava uma palavra para descrever a alma de quem tem esta paixão física como dominante, ele costumava dizer que é uma alma apetitiva ou concupiscente, que é considerada por ele a mais baixa de todas a que tem as necessidades mais primitivas. Na teoria dele haveriam três tipos de almas: as apetitivas ou concupiscentes, as irascíveis e as racionais. Platão chega com esta alma a localizá-la, dando a ela uma sede. Este tipo de alma fica no baixo ventre. Seria o endereço de nossa função desejante e apetitiva que é muito física, eminentemente física e sexual, apesar da minha expressão de atração tender tratar aqui também da atração física por imagens, fantasias e figuras, o que pareceria uma atração também mental.

E eu devo aqui anotar que o pensamento tem dado um pouco mais de valor a estas necessidades físicas desde Freud, pelo menos, na determinação das nossas formas de vida. Aliás, Freud é, além disto, em dois sentidos importante aqui e agora. Tanto no sentido de dar mais valor para a atração física e dar certa legitimidade à ela, quanto no sentido de gerar a atração mental, exatamente um bom exemplo de atração mental ou intelectual para mim. Freud é um exemplo bem clássico diria e permanente para mim. pois sempre exerceu e exerce - mesmo já finado, através de suas obras - certa força de atração com suas ideias sobre mim. E confesso que não é tanto a fixação ou a repetição do leitmotiv sexual nele que tanto me atrai nas ideias dele. 

Voltando para a atração física temos que pensar algo mais. Aquele que tem esta dependência do corpo, sabe exatamente o que lhe atrai no outro, e fica inclusive imaginado ou fantasiando sobre isto. Disso redunda porque podemos chamar de uma fixação, uma atração quase fatal. E isto é dito, porque fatalmente ou incontrolavelmente, este sujeito procura o objeto do seu desejo que exerce sobre ele forte atração. Ocorre que o atraído fica pensando no outro fisicamente durante muito tempo, contínua e reiteradamente.

Já a atração mental não perde mesmo para esta primeira mais usual. Ainda que seja mais rara, a atração mental também constitui um vínculo que nem "com os olhos fechados desaparece". Mas o vínculo mental tem um poder mesmo surpreendente quando se constitui de fato. A atração mental deveria ou poderia - para atenuar uma pitada a força interpretativa aqui - explicar a profunda dependência entre os discípulos e o mestre em quase todas as culturas. De Sócrates até os dias de hoje e de outros mestres doutrinários inclusive. 

Fiquei pensando, para dar um outro exemplo ainda sobre um tipo de limite desta atração mental. Então associei rapidamente com o caso de como se deu a ruptura entre Freud e Jung sobre isto, pois que todos os sinais indicam um tremendo esforço, e um intenso e muito duro embate de Jung em relação ao Pai, no sentido de sua própria emancipação e da formação de um pensamento autônomo. E curiosamente devo anotar que praticamente todos os "grandes" analistas ou psico-analistas passaram por algo semelhante, pelo menos nestes anos iniciais da psicanálise. Ou seja, as rupturas com Freud forma uma espécie de síndrome daqueles anos iniciais. E fica muito clara brevemente as causas teóricas e pessoais das rupturas. Tanto a busca por uma autonomia como as diferenças de concepção geraram estes processos.   

Confesso aqui que não tenho nenhuma autoridade ou especialização em psicanálise ou história da psicanálise, para falar disto e que, então, este exemplo, é apenas ilustrativo e uma pista lançada em palavras para ulterior investigação. O que só serve aqui de exemplo, no que ao fundo, encontramos como um problema típico por assim dizer entre esta atração mental e a nossa necessidade de autonomia intelectual também.

Mas vou agora levar este raciocínio em outra direção. Falar aqui da atração mental bem indireta. Aquela que parece ser mediada pela obra e não tanto pela pessoa, pela presença da pessoa ou pelos debates ou diálogos com a pessoa. Só quem já teve o impulso de comprar, por exemplo, num ímpeto que vem claramente do que chamamos aqui de atração mental, a obra completa de um filósofo, pensador ou intelectual qualquer, sabe do que falamos aqui. Você parece precisar das ideias que aquela mente produz e que estão depositadas e expressas em suas obras. Você parece precisar estar atualizado sobre isto. 

Caso seja um intelectual vivo – e eu olhei nas livrarias na Feira do Livro as obras completas, por exemplo de Zizek, Baumann, Jung, para ficar nestes exemplos – e fiquei pensando no tipo de paixão ou atração mental dos leitores pelas ideias deles. Fiquei pensando nas razões de seus interesses e no tipo de reflexão que eles saciavam ou davam mais um andamento ao ler tais autores. E eu mesmo, após 20 anos de formatura, agora estou prestes à dar cabo e completar minha coleção de obras completas de Platão. Tal coisa, aparentemente despropositada e à sombra de uma grande atração mental. mas que importa e muito para meus estudos de filosofia deste ano e vem em uma boa hora da vida. Numa hora oportuna para não mais tardar e por estar já maduro o bastante - como diria Descartes, para me aprofundar com mais vagar na tradição grega. 

Não considero nada desprezível o fato de que há uma diferença básica entre aqueles que buscam estas obras por certo dever de ofício o que é o meu caso, com um ou outro autor, e aqueles que buscam estas obras por prazer, diletantismo ou curiosidade. Ainda que eu tenda a respeitar e a admirar muito estes últimos por considerar que mesmo em mim tal busca inclui o prazer e a atração mental também.

E fiquei pensando também na dependência de um outro pensamento para o meu pensar. Fiquei pensando em minha autonomia intelectual e se ela tem uma base compreensiva e reflexiva ou é puramente um decreto quanto a certas ideias. Fiquei pensando também no que acontece com você que depende ou que estabelece um vínculo deste tipo de tração mental em relação a outros autores e outros pensadores e pensadoras. Fiquei pensando no fundamento de tua preferência, nas tuas, por assim dizer, afinidades eletivas. E em que medida és consciente delas e as enfrenta diferencialmente. Você parece como eu precisar das diferenças e das nuances que aquela mente produz ou diz. Você parece precisar da última palavra até que chega um dia que você abandona tudo ou deixa estar, por outras ocupações e afazeres mais aprazíveis.

Aliás, num exemplo derradeiro, estes dias assisti uma conferência em que o seu autor declarava claramente ter chegado ao fim de uma investigação e que se considerava satisfeito e eu fiquei pensando muito sobre aquilo que ele dizia.

Fiquei pensando sobre a possibilidade de terminar uma investigação ou se chegar a palavra definitiva sobre determinada matéria e confesso - pela natureza do assunto abordado e pela forma como ele era abordado - que não acreditei nisto e que tendo muito mais a pensar de modo a deixar o pensamento e a investigação com diversas lacunas de incompletudes, aberturas e indefinições - por puro prazer é bom que eu diga aqui isso e certa necessidade de decidir, medir e sopesar como seria melhor deixar em aberto para que outros pensem nisto, depois de mim. E é o caso agora sobre a atração mental também.

Não estou aqui escrevendo, portanto, tudo que me vem à cabeça e tendo, inclusive, a driblar minha própria consciência para evitar o fechamento neste discurso do debate e uso aqui a expressão de que há ainda mais outras dificuldades relacionadas a este tema da atração mental. Vejo e quero fazer ver como é algo difícil tratar isso.

Na amizade e na atração intelectual espontânea isto também acontece...e não faz muito sentido avaliar se os pensamentos são de muita grandeza ou profundidade, parece haver uma forma mental atraente que nos contraria no automatismo ou linearidade do nosso próprio pensamento. E eu estou tateando aqui já sobre este tema da atração mental por carência objetiva de mais informações e também, por pouca experiência sobre isto e por atingir certo limite na min há reflexão.


Eu diria que a gente numa certa altura gosta mesmo de ser contrariado com inteligência, delicadeza e expertise e que este é um elemento ainda importante da atração mental. E eu lembro de muitas pessoas que estabeleceram esta relação comigo, mas informo que são, por outro lado, muito raras. Há em nossos meios acadêmicos e educacionais muitos indivíduos pretensiosos e arrogantes, cujos dons intelectuais não me atraem e para mim estão numa situação em que não valem meia pataca...

Confesso aqui também que eu por vezes me julgo assim também como mais um pretensioso – duramente e rigorosamente - e fico muito surpreso quando assisto professores ou professoras tentando sistematicamente provar que sabem mais que seus alunos...expondo-os à conteúdos, exercícios, fórmulas e problemas incompreensíveis, com o intuito de humilhá-los ou torná-los desprezíveis intelectuamente falando, com o puro intento não de educá-los, abrir-lhes horizontes novos ou fazê-los avançar no conhecimento, mas sim com o intuito de se envaidecerem e pensarem consigo mesmos: “Olha como eu sou bom!” e "Olha como eu sou sábio!”.  

Admito que este tipo de esforço sempre afasta os alunos mais inteligentes e atrai as inteligências mais débeis e dependentes, desenvolvendo o tipo de atração mental tão banal e tão inferior a de uma atração física ou concupiscente. Então prefiro terminar este texto assim, com uma ou outra questão ainda em aberto, para um outro dia e talvez uma outra mente vir a tratá-la melhor...     

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