segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A NOSSA ESCOLA DOS ANOS 80 E A ESCOLA DO NETO DO JANGO

Não vou nunca ter este tipo de impressão sua Gabriel. De que dizes algo por má intenção ou para deslindar os outros. Confio em teu caráter e tenho boas razões para ser sempre compreensivo contigo. Mas tua postagem sobre a escola do neto do Jango me provoca ou chama o memorialista. 

Com teu post de que:

"o "Colégio da Cidade", no qual estudou o Neto do Jango, é (era - porque fechou) um dos piores colégios do Rio de Janeiro, sendo mais conhecido como antro de patricinhas e playboys (o colégio se localizava em um casarão em Ipanema) repetentes, ou seja, era uma instituição que seguia o primado papai-pagou-passou. Desconfio que a escolha do jovem por estudar em Cuba tenha sido pelo fato dele não ter nenhuma opção no Rio de Janeiro. O Jango não estaria orgulhoso, creia."

Eu penso que posso falar de algo que como professor e aluno aprendi e julgo importante expressar. Eu estudei num colégio que tinha esta fama de Colégio de Patricinhas, Playboys, maconheiros e etc, e também mais adjetivos e descrições que são desimportantes agora, mas eu digo quc não me arrependo em nada disso.

Existe algo geracional nisso e eu mesmo penso em ter uma escola meio assim um dia. Foi bem difícil para nós jovens dos anos 80 nos ajustarmos ao status quo meu amigo. As reprovações e matacões de aula eram frequentes e a maioria da minha geração cai na escola e cai mau. Naquela época até fliperama era motivo para matar uma aula Alguns porque pertenciam a ele – ao status quo - e não sabiam mesmo o que fazer e outros porque tinham consciência que jamais teriam parte nisso. É a geração do Cazuza e do Renato Russo e de outros caras mais ajustados e integrados também. E também é a geração dos barbudinhos e bichos grilos. Não vou jamais olhar de forma preconceituosa para minha geração. Tu não tem ideia do que é saber que uma menina gosta de você e que os pais dela jamais aceitarão que ela namore ou ande na rua com o filho do eletricista ou outros signos. A gente não sofreu por isso não. O pior mesmo era a falta de perspectiva de futuro cara. 

O Brasil estava tão mal econômica e politicamente nos anos 80 que a opção era - para quem como eu pertencia a determinado segmento daquela geração - loquear ou mergulhar em um projeto político ou as duas coisas juntas. Emprego era difícil mesmo e a maioria dos desajustados sofreram pacas para ter alguma forma de sustento. Não dá nem para comparar com as condições de hoje. Eu digo que a política me salvou cara, e sei que só quem sobreviveu aquilo tudo sabe do que falo. E não foram tantos que sobreviveram não. Não vou falar da escola para não revelar algo parcialmente. Outro dia farei uma postagem bem detalhada sobre isto. Mas o que eu aprendi de história, biologia, inglês e português neste colégio me impulsionou a passar em vestibular da federal. 

E saiba que para o meu pai pegar o jornal e ler que o filho tá no listão da UFRGS foi motivo de muita alegria, muito orgulho. Para ele o filho aparecer no listão foi quase um milagre. Me confidenciou que chorou ao ler aquilo. E olha que isso aconteceu duas vezes. E sou muito grato aqueles meus professores e professoras do colégio de malucos. A escola não fechou e continua firme. Claro deve ficar que a Filosofia não era tão concorrida. Mas mesmo assim ingressar e concluir o curso é ale eu tenho muito orgulho de ter passado por lá cara. Agora para mim, como professor a mágica do conhecimento e do bom caráter está na alma como diria o velho Platão. 

Nunca me considerei acima da média. E digamos até que só aprendi a escrever e interpretar um texto nos assentos da universidade mesmo. Mas bem, estamos ai tentando fazer o melhor possível, inclusive com nossas memórias e relações. A nossa geração de jovens dos anos 80 era bem desajustada socialmente. Isto misturava playboys e filhos de prestadores de serviços num balaio só. 

Talvez o neto do Jango seja algo bem melhor do que seus colegas, talvez não, mas o que vai determinar isso é a ação dele não o lugar de onde ele veio, ou por onde ele passou ou para onde ele está indo. Um abraço. 

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