quarta-feira, 2 de outubro de 2013

SOBRE A IRRELEVÂNCIA DA FILOSOFIA NO BRASIL: IN MEMORIAM DE VALÉRIO ROHDEN

Li com atenção os textos sobre a (ir)relevância da filosofia brasileira: O que é um pesquisador do CNPq? e também A filosofia do medo, de Adonai Sant’anna, e  considero que ele apresenta um debate importante não tanto por seus acertos, mas sim por seus limites e também por seus prejuízos, pois eles abrem a oportunidade de se começar a desvendar o estado da arte e delinear alguns desafios.

Como forma de me vacinar contra argumentos de certa natureza, informo que sou formado em filosofia desde 1993, na UFRGS, com bacharelado, licenciatura e especialização em filosofia e leciono filosofia em escola pública estadual desde 1998, com uma pequena passagem na Escola Técnica da UFRGS em 1995-1996.

Declaro desde já que acompanho o que considero um avanço da filosofia no Brasil nos últimos 30 anos e andei por curiosidade e interesse estudando o desenvolvimento e disseminação da mesma nos últimos 60 anos e não vejo uma situação sem saída em relação à relevância. Também não vejo um cenário de irrelevância e nem mediria isto pela recepção externa, por uma simples razão: qualquer parâmetro de relevância externa há que depender da relevância interna e esta última está sendo apenas construída hoje.

Penso que, para isto, está bem na hora de muitos que tiveram formação superior em filosofia, em especial, aqueles que avançaram para a obtenção de seus mestrados e doutorados, serem todos convidados sem muita solenidade a descerem à planície. Este impulso pode ajudar eles e seus pares a se dedicarem mais a reforçar, debater e aprofundar não mais seus currículos e perspectivas que já estão saturados, mas sim às bases atuais de uma formação filosófica no Brasil que é hoje o ensino médio. E isto ao meu ver pode gerar e consolidar uma mais ampla comunidade de leitores, estudantes e interessados na filosofia e na produção nacional.

Podemos marcar em ciclos de dez anos a evolução da filosofia no Brasil e com certeza este é o momento ideal para o fortalecimento e enraizamento da disciplina no ensino médio, tanto do ponto de vista da sua legalidade e obrigatoriedade recém reconquistada, quanto dos meios e tecnologias disponíveis para isto.        

Os dados levantados e as comparações feitas pelo autor, Adonai Sant’anna em seus textos publicados no blog, merecem atenção e um debate mais amplo, mas tem ao meu ver um limite muito interessante para o que eu chamaria de a possibilidade de avanço da filosofia no Brasil. Ele dá conta de uma camada importante mas superficial do estado da arte e não trata em nenhum momento da qualidade do que é produzido no Brasil, dependendo seu critério somente de avaliação externa, via publicação ou cotação em periódicos internacionais.

Quanto ao tema da escassez de publicações de artigos brasileiros em periódicos ingleses, penso que temos que olhar melhor para as razões disto. E eu não tendo a imaginar que a esfera de afirmação de uma filosofia nacional vá se dar em língua inglesa, pois que as tradições que mais se aproximam de algo como uma matriz filosófica nacionais ainda são as escolas francesas e alemãs. O ímpeto para o intercâmbio aos países de língua inglesa é respeitável e muito interessante, pois representa um dos impulsos de uma causa muito nobre de se tentar afirmar-se uma filosofia profissional inspirada na tradição analítica ou logicista. Mas este ímpeto não tem mais de 30 anos. E não penso que é só medo a questão não. É uma solução conceitual e sociológica muito fraca dizer que é medo. Conceitual é fraca, porque na generalidade não tem condição alguma de fazer balanço sobre quantos artigos foram enviados, rejeitados, devolvidos ou publicados simpliciter. E não vejo como alvo de avaliação exclusiva a geração heterogênea 1-A do CNPq. E suponho, inclusive, que as gerações subseqüentes tenderão a publicar e ler muito mais no próximo ciclo de dez anos.  

Não vejo relevância alguma para esta discussão de se bater na tese da criação de uma linguagem filosófica em português, pelo menos da forma como é apresentada no texto. O que conheço e reconheço é um esforço de criação de uma comunidade filosófica de diálogo, desde a criação da ANPOF, passando-se pela criação de diferentes grupos de pesquisa que reúnem professores de diversas instituições em debates, simpósios e seminários, com muito intercâmbio internacional e grande produção acadêmica.

A discussão sobre o processo de reconhecimento, valorização assunção e construção de prestígio inter-pares ou entre amigos me parece uma barbaridade. Não dá para avaliar a produção, a natureza do trabalho, ou a relevância do trabalho como bom ou ruim, de forma rigorosa por este viés. E chama muita atenção o fato de que esta crítica vem acompanhada da acusação de que nós não lemos a nós mesmos. Bem, então precisamos ler mais a nós mesmos para colocar em questão a endogamia e a reprodução. Então para se ver melhor o que há é preciso olhar para o que há. E eu deslocaria o foco para a leitura da produção filosófica brasileira num panorama histórico de no mínimo 50 anos, para poder avaliar se o que houve foi mera reprodução.

Assim, o pessimismo quanto à possibilidade desta situação atual ser superada me parece bem exagerado. Vejo mudança mais rápida logo adiante. Não creio nesse vaticínio pessimista, de que nada vai mudar nos próximos anos, porquanto a filosofia que está no ensino médio hoje, já é fruto do ciclo formativo dos anos 80 e os meios de comunicação e as tecnologias atuais (internet e etc) acabam intensificando o acesso aquilo que um dia foi privilégio de muito poucos. É impossível que esta grande disseminação de estudo da filosofia não gere uma safra nova de alunos para os cursos superiores de filosofia que já tenham sido alfabetizados e iniciados na filosofia. Preciso salientar que a minha geração não teve lições de filosofia No ensino médio e que alguns contemporâneos meus já tinham tido lições de filosofia por opção de suas escolas  particulares e que com os anos 2005 isto se generalizou. Assim, há que haver toda uma nova geração de acadêmicos que vão ingressar nas instituições superiores interessados em filosofia e não vejo como olhar para eles vendo somente deficiências a serem sanadas.         

A evolução das publicações brasileiras,  a criação de periódicos nacionais nos últimos trinta anos é um importante reflexo desta expansão e deste avanço e alargamento de uma comunidade de diálogo filosófico no Brasil e isto também é produto da implantação de cursos de pós-graduação o que também trouxe um banco de teses e dissertações de ampla abrangência e cuja qualidade só poderá ser mensurada se for lida, apreciada e discutida. Hoje a maioria das dissertações e teses estão disponíveis por acesso digital o que deve ser mais promovido e intensificado, senão tornado obrigatório, para ampliar o debate se chegar a um Qualis sobre esta produção.  

Penso que é necessário fazer-se, coletivamente, uma avaliação mais ampla e mais condizente com a longa caminhada que se deu até chegarmos aqui. Esta caminhada envolve tanto a formação quanto a produção. A formação de professores, a formação de pós-graduandos e a produção de materiais introdutórios, as traduções, os comentários à textos clássicos, quanto as pesquisas de ponta nacionais.  

Lembro sempre que nós os atuais leitores e debatedores, somos apenas talvez a décima geração de filósofos e filósofas brasileiras, ou professores de filosofia.

Penso também que para se estimar o impacto e a importância não da filosofia brasileira, mas sim da filosofia no Brasil precisamos ter em mãos uma visão panorâmica não superficial sobre a produção filosófica brasileira. E esta ainda há que ser construída.

Porque, quanto ao ponto de relevância, não haverá filosofia brasileira, sem filosofia no Brasil e esta não depende apenas de uma produção universitária, mas sim de um movimento cultural que perpasse as escolas e comunidades culturais, e também mais amplo ainda, pois que é necessária também certa incidência da filosofia nas esferas políticas e científicas.

Minha primeira opinião foi que o Debate proposto sobre a (ir)relevância da Filosofia Brasileira merece mais atenção, é importante para construir avaliações e para refletir e projetar mais luzes e perspectivas sobre um passado, um presente e um futuro.

Disse claramente que não penso que a questão em jogo é sobre a filosofia nacional, mas sim sobre a natureza do fazer filosófico no mundo de hoje a partir do nosso lugar no espaço e da nossa história.

Não vou resumir meu argumento aqui, mas vou apenas repetir e apontar que também considero demasiado e um despropósito aquilo que vejo como uma análise descolada da realidade da história e da evolução da filosofia brasileira tanto institucional quanto não tão institucional assim.

Não considero que este trabalho que precisa ser feito, poderá prescindir do que foi feito no passado, por um conjunto de professores e pesquisadores que, nos seus tempos, fizeram aquilo que estava ao seu alcance e alguns muito mais, inclusive. Penso, inclusive, que alguns merecem ser lidos e relidos por nós.  Passados 20 anos da minha formação ainda me surpreendo e tenho surpresas quando leio os clássicos, mas também quando leio comentadores e também quando vejo certas ousadias. Não vou citá-los aqui nem fazer defesa pessoal daqueles que foram citados, mas considero uma barbaridade fazer-se tabula rasa disto a partir de um critério externo.

Por uma forte impressão, reconhecimento e tributo devido, dedico este artigo ao meu ex-professor e orientador de Iniciação Científica, Valério Rohden, o qual ao meu ver representou durante um bom tempo este grande ideal de uma comunidade de debate alargada e crítica para a filosofia no Brasil.  

Tento, sinceramente, ter melhor compreensão sobre a nossa tradição e dar a ela o que lhe é devido.

Agora, cabe a nós fazer a nossa parte....debater, definir e delinear um futuro comum, com mais respeito, mas também com criticidade...


um grande abraço amigo.......  

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