segunda-feira, 28 de outubro de 2013

KANT, MARX, ENEM 2013, ZIZEK, KURATANI E A FILOSOFIA


Quando o poder da síntese desaparece da vida dos homens e quando as antíteses perdem sua relação vital e seu poder de interação e conquistam a independência, e então que a filosofia se torna uma necessidade sentida.” G.W.F. Hegel

As vezes custa muito para os que eu tendo a chamar de cognitivistas e epistemólogos entenderem que o método revela mais o sujeito do que o objeto. Alguns prefeririam que o método revelasse apenas a situação do sujeito, mas eu penso que revela mais. 

Quando falo de um custo aqui fico pensando mesmo no preço, no custo, no prejuízo e em alguma vantagem possível que eles tenham em se manter renitentes em suas leituras do mundo que resumem tudo a experiências de um simples sei ou num sei, penso ou num penso, provo ou não provo e assim sucessivamente. Não digo isto porque prefiro as incertezas ou a insegurança da ignorância, ou mesmo as vantagens da ignorância que envolvem não ter que pensar muito em coisas aborrecedoras, injustas, trágicas ou pesadas. Talvez isto lhes dê o conforto da assepsia perante uma política ou um mundo dividido exclusivamente num certo e errado em ilusões ou clarezas.  

Entendo e chamo por cognitivistas e epistemólogos aqui aqueles que reduzem tudo a uma relação de conhecimento e que por força da neutralidade cognitiva se esquecem que há ai mesmo, nesta relação cognitiva, explicativa, expositiva e compreensiva, também uma relação de poder, de controle e de supremacia.

Na sua tentativa de completude o método diz muito também sobre você mesmo. O método expõe e mostra todas as tuas prioridades, exibe tua agenda e, também, para além da tua formação, a direção que pretendes tomar ao conhecer o objeto, ao ensaiar a crítica ao esboçar um discurso, ao proferir, avaliar, sopesar e também ponderar sobre algo. Aliás, uma das observações mais incríveis é a da transformação de outros métodos e outros sujeitos também em objetos, de tal modo que teu controle, tua agenda e tua vontade de poder se façam justificadas, racionalizadas e se realizem com menos conflito e atrito.

Revela também este método uma forma de auto-compreensão do sujeito, de suas escolhas teóricas e a natureza de sua empreitada. Quando penso nisso - e isso ocorre com muita frequência ultimamente - me dou conta que mesmo o discurso é um similar que exibe ou somente uma expressão secundária do método, ou seja, para analisar realmente uma contradição precisamos ir para além do objeto, pois o método de seu reconhecimento tem sua origem no sujeito. 

Assim, tanto uma escolha lógica quanto uma escolha dialética expressa mais o sujeito e suas disposições que o próprio objeto de conhecimento. Nem eu entendo ainda muito bem isso, mas tendo a ficar cada vez mais desconfiado de mim mesmo quando penso nisto e, não creio mesmo, que seja eu o único a perceber isso.

A pessoa que mais me chamou atenção para isto, para esta espécie de ignorância cognoscente e superciente – foi um grande professor de história aposentado - afirmou em um debate mais ligado a história cultural e ao horizonte cultural de uma cidade como a minha que se tratava de uma situação pré-crítica. Pré-crítica para ele é a mesma cosia que dizer pré-kantiana. Uma situação anterior ao esclarecimento e a emancipação do homem de sua menoridade servil e tutelada por outras consciências. Uma situação que ainda não compreendeu os limites da razão, nem a divisão entre estado e igreja e muito menos os limites de todo o conhecimento possível. 

Devemos observar ai um sujeito que assimila crenças de forma acrítica, aceita opiniões de forma acrítica e as reproduz com uma tranquilidade assustadora para mim. Em um outro contexto ela me dizia que nossa cidade tinha uma condição política e cultural pré-crítica e que isto se manifestava nas formas como as escolhas políticas eram construídas, se consolidavam e se faziam representar na Câmara de Vereadores e em vários outros espaços de poder, participação ou gestão. Ele me apontava com sua perspicácia para os métodos, objetivos, meios e valores que eram dominantes nestes processos. E também me dizia para prestar atenção nos discursos legitimadores que acompanhavam as decisões, as opções e as manifestações de prioridades.  

E eu fiquei pensando muito nisto por uns dois anos e me dei conta de uma grande contradição sistêmica muito interessante, porque devemos chamar assim o fato de que toda a nossa cidade é povoada por muitos cidadãos, professores, professoras, profissionais liberais e que é uma cidade com uma grande e maravilhosa instituição universitária que possui intelectuais de diversas graduações e qualificações e que, no entanto, em volta do Castelo Medieval, as coisas se encontram assim, deste modo pré-crítico e atrasado. Uma cidade com uma ampla estrutura educacional, uma ampla tradição cultural e que ao mesmo tempo possui uma história econômica também muito interessante e proeminente no cenário regional e estadual. 

Lembrar aqui do Nome da Rosa e das dificuldades para compreender um tempo cheios de fantasmas e mistérios em que até a lógica deve lutar arduamente para sobreviver frente ao poder e ao preconceito, frente à dogmas e a disposições violentas, é um bom paralelo para mim agora. Ora, como poderia uma cidade destas, com esta tradição escolar de quase dois séculos, com esta forte e intensa atividade de produção, prestação de serviços e de desenvolvimento de novas tecnologias ser divisada e governada por uma perspectiva pré-crítica.   

Pois, não é que ouvindo os discursos mais correntes em vários temas e pautas atuais, me dou conta que esta transição não se completou mesmo, nem entre nós os “racionalistas, críticos e esclarecidos”. Vejo que houve mesmo um grande retrocesso na racionalidade de 1781 para cá. De tal modo que aquilo que chamamos de modernidade é somente o retorno da supremacia de uma objetificação acrítica através de um método e de uma linguagem encobridoras.

Continuo, apesar do que possa parecer uma crítica a outros aqui, desconfiando muito de mim mesmo também e vou perseverar na insatisfação perante o método e a linguagem...Desconfio sempre do meu método e da minha abordagem e confesso que para escrever tenho que lidar com certas insatisfações de estilo, de metro, de forma, de vocabulário que me deixam tocado, mas mesmo assim publico, exponho o que penso e divulgo coisas inacabadas, nem sempre bem pensadas e muitas vezes precipitadas até, por isto peço escusas também pela linguagem truncada aqui para tratar disto e pela miscelânea conceitual também....porque me tem sido bem difícil ser mais claro neste tema ou em temas a ele relacionados...e me aborreço mais com isso do que você pode imaginar...

Immanuel Kant e Karl Marx talvez sejam os dois autores que mais peso tiveram em toda a minha iniciação filosófica e formação e aos quais mais tempo dediquei e que de certa forma mais presença possuem em todas as minhas vãs e débeis tentativas de pensamento político, filosófico, ético e lógico...e, assim, também seriam como que meus orientadores fundamentais em meu trabalho de educador. Kant desde a minah leitura precoce do Que é esclarecimento? (Was is Aufklãrung?) até a graduaçao e monografia em tema da Crítica da Razão Pura, assim pela abordagem crítica, pela aversão à indiscernibilidade, pela tentativa corrente de emancipação do pensamento e também pelo ideário iluminista dele que para mim faz sentido e esta em meu horizonte de pensamento e ação. Marx  pelas primeiras leituras do Manifesto Comunista, o Capital e muitos outros textos, que incluem também os diversos textos de juventude em especial seus Manuscritos Filosóficos.

A questão do Enem 2012, aliás, era bem fácil sobre a seguinte passagem do texto do que é o esclarecimento, tão caro a mim quanto a Marx provavelmente:

Mas tudo começou com a questão de Kant ou Marx na prova do ENEM da minha amiga e camarada Ediana – que cursa história e precisa passar no Enem para encaminhar sua formação, com menos sacrifícios e mais possibilidades a si e ao seu filho.

A citação dela de Marx na prova do Enem 2013 foi a seguinte:

"Na produção social que os homens realizam, eles entram em determinadas relações indispensáveis e independentes de sua vontade; tais relações de produção correspondem a um estágio definido de desenvolvimento das suas forças materiais de produção. A totalidade dessas relações constitui a estrutura econômica da sociedade - fundamento real, sobre o qual se erguem as superestruturas política e jurídica, e ao qual correspondem determinadas formas de consciência social." MARX, K. Prefácio à Crítica da economia política. In: MARX, K.; ENGELS, F.

E daí ela argumentou ou apontou que ficava feliz porque MAIS MARX & MENOS KANT, lhe facilitavam a prova. Na postagem dela se seguiu comentários sobre um Kant isso e aquilo. Bem, pensei com meus botões nananinanão. E então isso foi o que me levou a escrever sobre isto neste domingo e a passar a minha pequena e doente manhã de segunda-feira pensando nisto também.

Importante é que tanto Marx quanto Kant são partes integrantes e dinâmicas daquilo que trabalho em aula com meus alunos de filosofia e sociologia. E mesmo agora, ao afunilar o ano em Platão e no tema geral de mudança social, suas bases são claramente, de um lado, uma crítica e uma desconfiança profunda quanto ao tema da diferença entre opinião e conhecimento e, ainda em Platão, uma relação disto com a sua concepção e fundamentação do poder na República, em Kant poderíamos pensar tranquilamente na relação entre Sujeito Transcendental e a práxis, bem como, em Marx no desaparecimento deste sujeito justamente na alienação e na ausência de autoconsciência deste sujeito inserido no processo produtivo.

A questão do ENEM que a Ediana gostou é a seguinte: "Para o autor, a relação entre economia e política estabelecida no SISTEMA CAPITALISTA faz com que..." E torço mesmo que ela consiga ter ido bem a partir disto.

Há sim uma analogia e possível...para mim a Crítica da Razão Pura é o modelo sim para um esboço de uma Crítica Possível da Racionalidade Econômica e Política também...Zizek chamou isso que chamo de impulso de completude - vim saber agora ao rever o estado da arte - de visão em paralaxe  o deslocamento aparente do objeto quando se muda o ponto de observação...

Me surpreendi muito positivamente com isto...não conhecia esta abordagem de Zizek e me surpreendi mais ainda com o texto dele. Além disso, a referência que me levou ao texto de Kojin Kuratani. Transcritique: on Kant and Marx. Cambridge: Massachusetts, 2003. E a breve leitura que fiz dele hoje das passagens disponíveis na rede, me deixaram muito alegre com esta descoberta propiciada por este debate sobre o Enem 2012 e 2013, que calhou de me levar a uma velha intuição que por absurda a alguns avança na análise ao meu ver.  

Então fico nesta posição...

Até que as coisas melhorem...

Agradeço a Adorno na crítica ou metacrítica do sujeito e objeto...

Mas também fico aqui...

Numa grande provocação e em umas poucas pistas somente...

a melhor análise da função de uma contradição na teoria crítica de Kant (as antinomias da razão) me basta para apontar que a análise de Marx das contradições humanas (má-consciência e alienação) necessárias para a satisfação do capital tem paralelo...

Sempre acabo pensando que a gente precisa sempre é de mais filosofia e não de menos...e tanto Kant como Marx são para mim sempre mais filosofia...


Quem diria que isso seja pensar diferente, mas pensar de novo é sempre pensar diferente...   

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