terça-feira, 24 de setembro de 2013

MÚSICA E FILOSOFIA: SAFRANSKI

Rüdiger Safranski, este grande biógrafo de Heidegger, ET. Hoffmann, Schopenhauer e Nietzsche, que também é filósofo em outra obra pegou este tema da música e da filosofia de forma bem límpida, entre outras coisas que grifei, em relação ao nosso tempo e às nossas sociabilidades atuais. Veja:

“…a música pode ser vista como uma força que triunfa sobre a confusão babilônica das línguas. A ideia ligada a isso – de que a música estaria mais próxima do ser do que qualquer outro produto da nossa consciência – é muito antiga. Ela está na base dos ensinamentos órficos e pitagóricos. Guiou Kepler quando ele calculou a órbita dos planetas. A música era considerada a linguagem do cosmo… e em Schopenhauer ela aparece como expressão imediata do desejo do mundo.

Quem se senta no metrô ou faz cooper num parque usando fones de ouvido vive em dois mundos. Ele viaja ou corre apolineamente, enquanto ouve dionisiacamente. A música sociabilizou a transcendência e a tornou um esporte de massas. As discotecas e salas de concerto são as catedrais atuais. Uma parte significativa da humanidade entre 13 e 30 anos vive hoje nos espaços dionisíacos do rock e da música pop que são fora da linguagem e anteriores à lógica. As correntes musicais não conhecem fronteiras… A música forma novas comunidades e transporta para um outro estado. Ela abre as portas para uma nova existência. O espaço audível consegue isolar o indivíduo e fazer com que o mundo exterior desapareça, e mesmo assim a música, num outro nível, faz com que aqueles que escutam se agrupem. Eles podem ser mônadas sem janelas, mas não mais estão sozinhos quando ouvem a mesma coisa. A música, numa camada da consciência que antigamente era chamada de ‘mística’, torna possível uma consciência social profunda.

Percebe-se em Nietzsche toda a indignação de uma pessoa que deseja ver a arte, especialmente a música, no coração do mundo; de alguém que encontra seu verdadeiro ser ‘sob o encanto da arte’ e que por isso luta contra a postura segundo a qual a arte é uma coisa secundária…Essa indignação em relação aos burgueses violadores do templo da arte – Nietzsche os chama de ‘filisteus’ – é também um tema constante dos autores românticos. (…) O sentimento dionisíaco é visto por Nietzsche como um poder vital mítico… uma espécie de união ébria com a substância do mundo… Na concepção de autores como Schlegel e Nietzsche, energias dionisíacas atuam na arte; elas não estão direcionadas para um além brilhante, e sim para o claro-escuro do processo vital, grandioso e dinâmico…”


In: RÜDIGER SAFRANSKI. Romantismo: Uma Questão Alemã. Trad. Rita Rios. São Paulo: Ed. Estação Liberdade, 2010. pp.260-161 e 257-258.

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