terça-feira, 17 de setembro de 2013

ANOTAÇÕES SOBRE A FELICIDADE EM ARISTÓTELES

ANOTAÇÕES SOBRE A FELICIDADE EM ARISTÓTELES

Bom Dia....tomei meu café...li os jornais e fiquei pensando e repensando na felicidade e no cipoal de traduções, discussões, interpretações e jóias raras em que me meto ao tomar a iniciativa de estudar um pouco mais este tema em Aristóteles. 

Só para não parecer ocioso ou delirante em minha ocupação informo que faço isto por razões pedagógicas e existenciais. Fazer isto me dá certo prazer, apesar das dificuldades. Tenho um sentimento de que ao fazer isso cortejo de forma deliberada e incontornável a sabedoria mesma. Em uma aula cheguei a dizer que o amor pela sabedoria também é uma forma de amor de si, um amor próprio, não por vaidade, nem por orgulho ou para jactar-se entre os leigos, mas porque tem importância em si mesmo para a nossa vida e a nossa busca da felicidade. Somente ai me dou conta do porque em certa medida gostar da filosofia ou o desejo do conhecimento fazem tanto sentido em nossa existência. Em parte porque tem valor em si mesmos, de outra parte porque com as mudanças dos tempos e com om decorrer da vida, eles proporcionam sim, outras coisas. Eles alteram – estes conhecimentos e mesmo alguns fragmentos de sabedoria - nossas relações qualitativas e quantitativas com o mundo, com as pessoas e com as coisas. Eu diria aqui que eles dão MODOS ou FORMAS melhores de nos relacionarmos com todo o mais que há. 

A felicidade é um dos temas centrais da teoria ética de Aristóteles que fica no coração – por assim dizer – da obra Ética à Nicômaco.

Do relatório diário de pesquisa informo que ainda não encontrei a fonte daquele texto e que, portanto, o mesmo prossegue como sendo atribuído a Aristóteles, seja ele apócrifo, anotação de um discípulo, versão romana ou latina, interpretação ou tradução patrística, uma súmula medieval, ou seja lá o que for na modernidade e na pós-modernidade (século XXI).

Em todo caso, vou continuar usando ele como leitmotiv e pedra de toque da nossa investigação aqui:

“Felicidade é ter algo que fazer, ter algo que amar e ter algo que esperar.”

Uma primeira questão fundamental sobre a felicidade parece mesmo ser a relação entre prazer, desejo e felicidade. E ela começa de forma básica pelo fato de que para Aristóteles existe um princípio elementar entre os seres que possuem ou são providos de órgãos dos sentidos: todos procuram o prazer e evitam o desprazer. E este texto no fala disto aqui também pois ter o que fazer, com determinado modo de fazer, nos dá prazer, ter algo que amar ou amar pode ser a felicidade no tempo atual em ato e ter algo que esperar pode ser tomado ai como um desejo a realizar ou a expectativa positiva de realização deste desejo.

Quanto ao ter “algo que fazer” este pode ser interpretado com algumas anotações lembranças básicas. Podemos lembrar de uma colega professora que dizia, usualmente, que cabeça desocupada é oficina do diabo. E ela dizia isso pensando no fato de que pessoas que não se ocupam com algo, pessoas que não tem o que fazer ou que não gostam do que fazem acabam por ocupar suas mentes e inteligências com bobagens ou coisas ruins. Saindo daí atitudes ruins e más. Mas podemos lembrar também que toda vez que ficamos doente não podemos fazer nada e que isto nos deixa muito infeliz e nos dá muito desprazer. Por fim podemos lembrar e divulgar uma especialidade de saúde que respeitamos muito que é a Terapia Ocupacional que trata justamente de viabilizar ao enfermo, seja a sua reabilitação funcional seja uma forma de ocupação coadjuvante em seu tratamento de saúde. 

O fazer em Aristóteles tem um caráter prático, e é destacável e distinguível nele uma ideia de que o homem ocupa-se com a produção de algo, tem sua existência tendo em vista um fim que lhe é objeto de sua ação. Mas ontologicamente pode ser lido como uma ocupação do ser e Heidegger gostava justamente de enfatizar isto: o ser se ocupa com o mundo, com as coisas com tudo aquilo que lhe é dado. A mundaneidade do mundo e os modos de ocupação do ser do Dasein em Heidegger nos ajudam  a pensar  com as palavras dele aqui num aspecto que considero importante aqui o homem  tem um horizonte a partir do qual ele se relaciona com todo o resto e seu modo de ver, seu modo de pensar determina parte desta relação com todo o resto num tempo determinado.

Aristóteles tem sim uma doutrina da felicidade que contempla esta dimensão temporal, ao meu ver  – para ele felicidade é em grego eudaimonia  e isto trata implicitamente e significativamente tanto de ter um bom espírito, quanto de se estar em bom estado de espírito, quer dizer o homem feliz tem o espírito bom ( o que é uma potência) e este espírito está bem em ato. Aristóteles tem também uma doutrina específica que trata da ocupação, dos nossos afazeres e ações e, também, tem uma concepção que versa sobre as virtudes em que o esperar desejante ai se relaciona a virtude da temperança o que, ao meu ver, inclui a boa esperança.  

Aristóteles insistiu no caráter contemplativo de felicidade, mas não – como Platão – para descartar as demais dimensões, mas sim para atribuir a ela uma amplidão e quem sabe – me sirvo aqui de uma análise de Nicola Abbagnano em seu dicionário de filosofia que cito a seguir – incluir também a “satisfação das necessidades e das aspirações mundanas ou carnais”.

Para ele a felicidade é “uma certa atividade da alma, realizada em conformidade com a virtude” (Et. Nic. I, 13, 1102). Pequena nota de tradução aqui: é muito freqüente o uso da expressão “excelência perfeita” no lugar de virtude aqui.      

Ma sé importante saltar fora deste problema e enfrentar o problema concreto da virtude que é saber de que modo deve se fazer, se agir e s e pensar para ser feliz. Na visão de Aristóteles tal conhecimento precisa ser adquirido porque nos envolve em juízos e na compreensão das circunstancias. E é nelas que a forma de agir se torna virtuosa ou não.  Com uma determinada graduação entre os prazeres, físicos ou teoréticos - carnais ou contemplativos, digamos assim - e o desejo deles, a procura por eles a busca deles por si mesmos, creio que é possível se compreender aqui tanto o agir virtuoso quanto a sua forma. 

O agir virtuoso – fazendo uso das virtudes, equivale em Aristóteles a uma forma de agir que procura sempre evitar tanto os excessos, quanto as faltas. A visão mais bela que tenho desta situação é a de um equilíbrio na balança. E podemos todos pensar em todas as nossas relações sociais e avaliar se elas encontram um equilíbrio ou desequilíbrio com o próximo. Um juízo sobre isto, sem pretender ser tão sábio quanto esta nobre questão me impõe aqui, poderia nos ajudar a realizar aquele propósito tão belo para a política e para a nossa vida pessoal manifestado por Luciano Marques um grande amigo  meu: melhorar as relações humanas.  


Aristóteles aborda esta dimensão política e pessoal na ação humana e subordina de certa forma a felicidade pessoal à felicidade coletiva. Alguns consideram isto uma grande ingenuidade pré-moderna e de fato é. Porém eu penso que nos ajuda muito pensar nisto pensando também que se agirmos com equilíbrio conseguimos sim melhorar de fato as relações humanas e as condições de vida. Tem muito liberal que quando percebe para onde caminha esta prosa, chama-nos de conservadores e ultrapassados. Isto é, porque ele sabe que se a justa medida nos levar também a aplicar este princípio nas relações econômicas e nas relações de produção, certos excedentes terão que deixar de ser acumulados por poucos e serem justamente redistribuídos aos demais indivíduos que participam deste grande jogo social de divisão social do trabalho, produção e consumo de bens. 

Não é por outro motivo que talvez um dos maiores economistas do final do século XX Amartia Sen quando vai tratar de questões econômicas começa dizendo literalmente que seu propósito é uma questão de ética. Bem como, um dos maiores juristas e filósofos políticos do século XX, John Raws pensa no mesmo tema em seu clássico uma teoria da justiça. E para ambos o tema do equilíbrio entre os indivíduos é sim uma questão de justiça. Aqui do meu modesto ponto de vista acrescentaria que o tema do equilíbrio é também qualitativo e quantitativo, para ir além das questões materiais. E que a moderação ou a dimensão do auto-controle nos leva a pensar mais ainda no tema do bom trato ao outro, ou na alteridade.

Aliás, em boa hora, o poeta e agora – na minha opinião – este poeta passa a migrar efetivamente para a categoria dos filósofos Fabrício Carpinejar publicou uma crônica muito bela em que ele faz justamente as distinções bem devidas e adequadas entre as pessoas duras e as pessoas macias.  E penso sim que é uma questão ética a determinação do modo como nos relacionamos com, os demais indivíduos. 

Em Aristóteles isto se chama justo meio. As traduções mais recentes deste conceito trazem para o português o termo MEDIATIDADE, que substituiria o justo meio ou a justa medida

Uma outra questão é quando cessa o desejo por eles. Bem vistas as coisas, ou seja, vistas dentro de uma dinâmica real, não abstrata ou meramente lógica, penso que o que é um fim em si, um sumo bem, ou a felicidade finalística não pode ser visto como um troféu conquistado e garantido, mas sim deve ter sua conquista renovada todo o tempo por nossa perseverança, por nossa vontade dirigida e deliberada e ser realizada como desejo constantemente. 

Aplicando-se isso a busca da sabedoria eu diria que nunca a conquistamos completamente que ela é desejada por ela mesma e não tendo em vista outra coisa, mas que nossa satisfação não se extingue ao conquistar fatias, parcelas ou termos uma impressão subjetiva ou mesmo objetiva - testemunhada e reconhecida por outros - de possuí-la. 

Assim, lembro do Budismo que trata do deseja mais ou menos assim: "Segundo o Budismo original a fonte do sofrimento do homem é o desejo. O homem sofre porque deseja algo que não possui. Quando finalmente consegue o que quer,quando enfim realiza seu desejo,ele sacia aquela sede específica. Quer dizer:ele não sente mais Aquele desejo. Sente um novo. O desejo é substituído imediatamente por outro desejo. Sendo assim,o homem está destinado a sofrer,porque sempre desejará e sempre ficará insatisfeito.Só deixará de sofrer quando cessar de desejar. Livre da roda de desejos,o homem alcançará A Paz, o Nirvana." e estou citando aqui uma postagem da amiga Ivana Scheffer

Uso este comentário e síntese num texto sobre a Felicidade em Aristóteles porque, logo, logo – quando avançamos na investigação do que é felicidade temos sim que nos ver sobre como atingi-la por inteiro ou completamente.

E as vezes quando leio isso do Budismo eu penso que é melhor sentir a falta e o sofrimento do desejo e buscar satisfazê-lo - inclusive o desejo por sabedoria - do que extinguir este impulso e atingir o Nirvana.

Eu só diria também, se por um acaso alguém vier recorrer aqui a alguma forma de misoginia ou individualismo, pessimismo ou fatalismo, ou optar por um discurso trágico neste tema, que tanto Schopenhauer como Nietzsche - por mais geniais que sejam - ao meu ver encontram-se em desvantagem quanto ao quesito ser feliz em uma vida ou nesta vida...considerando-se as relações deles  com os demais seres humanos. Porque o conceito de felicidade, ou seus aspectos que nos interessam não são somente vinculados à uma espécie de satisfação pessoal exclusivamente....ou ao prazer...

Bem...este texto está em progresso e é um exercício reflexivo meu que mistura desta forma minhas referências e minhas anotações atuais sobre o tema. Está em estado bruto, inacabado e aberto à sugestões. Vou lá para meus demais afazeres do dia.

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