quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

SOBRE A TRAGÉDIA E A RESPONSABILIDADE DO PREFEITO DE SANTA MARIA E DOS DEMAIS PREFEITOS


Após postar texto/nota sobre a expressão infeliz do prefeito se eximindo da culpa da tragédia aqui perdi dois amigos, mas não faz mal.

Eu gostaria só de esclarecer que derrubar o prefeito não é minha intenção, mas a atitude dele e o discurso dele se eximindo de responsabilidade foi muito ruim e é uma afronta sim às vitimas e à dor das pessoas.

Não estou no lugar dele e, aliás, tenho muito respeito por Cesar Schirmer de longa data - apesar de não ser do PT, como respeito muitos políticos que não são inclusive, mesmo discordando aqui e ali - mas ele não podia mesmo ter transferido a responsabilidade aos bombeiros não.

Penso que não é correto mesmo promover terrorismo ou caça as bruxas com esta tragédia...mas não dá para se eximir da responsabilidade que cada parte tem e vejo com muita atenção o comportamento do Tarso Genro e reconheço nele a atitude correta e exemplar em todos os momentos.

O Governador está sendo solidário e responsável e não tem se eximido de sua responsabilidade como Chefe Maior da Brigada Militar e do Corpo de Bombeiros.

Imagino que o prefeito está sob intensa pressão local também e até entendo, mas o movimento dele foi incorreto e perigoso para a sua sustentação.

Se estivesse no lugar dele - e sei muito bem que não estou - lançaria nota oficial ou chamaria nova coletiva de imprensa para esclarecer melhor os fatos de seu domínio administrativo e também para assumir integralmente sua parcela de responsabilidade, por mais dolorosa que isto pareça para sua vida pessoal e sua carreira.

Sei que ele também acabará sendo afogado e tragadao pela vaga desta tragédia e creio que ele e toda a sua equipe também sabem. Neste caso, portanto, é muito recomendável manter um nível elevado de atitude e não ficar se eximindo para acabar ficando mais devastado do que já deve estar.

Com isso digo que sei que o prefeito é um ser humano e que ele também tem sentimentos morais e em alta conta o respeito à vida, mas isso deve ser demonstrado efetivamente.

Tirando isto a atitude dele e as proposições que ele fez na entrevista coletiva são corretíssimas diga de passagem.

Espero que os demais prefeitos sigam seu exemplo e façam algo parecido nas demais 495 cidades do Rio Grande do Sul e que no Brasil também se tomem atitudes semelhantes para evitar que tal tragédia ou semelhante se repita.

Mas que façam isto com menos alarde e mais eficácia. Para usar uma expressão trivial aqui é muito melhor não cacarejar sem o ovo aqui e agora.

Conheço muitas casa de festa, boates e diversos tipos de estabelecimento semelhantes e digo que a tragédia de Santa Maria poderia ter acontecido em muitas outras cidades do Brasil e do Rio Grande do Sul. E ontem mesmo estava comentando com um amigo que já era uma atitude regular minha entrar nestes lugares tomando diversas precauções em relação ao local para ficar e tal. Isso muito por ser filho de eletricista e também por ter frequentado diversas boates durante toda a juventude. Ma este era um hábito muito meu e de meu outro amigo por conta de nossas atividades profissionais. Sei que também os DJs e os MCs fazem isto bastante. Avaliam seu local de trabalho e como fica mais rápida a saída dali em caso de necessidade e de ter que salvar seus equipamentos e tal. Mas isso mostra que estes lugares não são seguros. Seja porque podem haver brigas e violência neles seja porque o tipo de tragédia que aconteceu em Santa Maria não é tão incomum assim, mas com bem menos vítimas, como mostraram outros noticiários. 

Apesar de não frequentar mais estes lugares com a mesma frequência e nem disposição de outros tempos, é de prudência que se vejam mais de perto como andam as coisas. Que todos os prefeitos façam isto e avaliem isto. E que se necessário corrijam os instrumentos de fiscalização e as atitudes tomadas indevidamente nesta matéria...

Bom Dia

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

GOLPE PREVENTIVO - POR DIOGO COSTA


O nome deste post está completamente equivocado. Deveria se adequar e mudar para "Perenizando mitos".

CONSERVADORES PERDEM BASE SOCIAL E APLICAM "GOLPE PREVENTIVO" - O golpe de 64 foi bancado por civis e militares, sem dúvida alguma. Não existe golpe, insurreição, revolução ou coisa que o valha sem que exista uma base social coesa que de sustentação a esses movimentos. Ocorre que há muitos mitos no trato desse infeliz episódio da história do país. O governo João Goulart tinha um amplo apoio social, tinha uma base social muito forte e coesa (os golpistas também tinham). A aprovação ao governo João Goulart era positiva e o apoio às Reformas de Base também era positivo.

O que amedrontava setores importantes da classe média e dos militares era a ascensão gradual e constante do PTB no Congresso Nacional. Em 1945, em que pese o apoio da figura de Getúlio Vargas, o PTB era minúsculo, elegeu apenas 08% dos deputados federais e 04 das 42 vagas disputadas para o senado. O grande partido do Brasil entre 45 e 64 era o PSD, também criado por Getúlio Vargas. No governo de Eurico Gaspar Dutra, o PSD controlava metade do Congresso Nacional.

Em 1945, o PTB elegeu 22 deputados federais. Em 1950, aumentou para 51. Em 54 atingiu o número de 56 deputados. Em 58 elegeu 66 parlamentares. Em 62 subiu para impressionantes 116 deputados federais, ultrapassando a UDN, tornando-se pela primeira vez a segunda força política da câmara e tendo apenas 02 deputados a menos que o até então todo poderoso PSD que elegeu 118. Extrai-se daí que é uma rotunda falácia, conservadora e mistificadora, dizer que o governo João Goulart não tinha apoio popular! Muito antes pelo contrário, o PTB só fazia crescer, ininterruptamente desde a sua fundação em 45. E crescia vigorosamente também após a morte de Getúlio Vargas, para desespero dos golpistas...

O crescimento insuperável do PTB, a força militante e a imensa base social do partido trabalhista é que eram o pano de fundo, o caldo de cultura que aterrorizava os conservadores que minguavam eleição após eleição. Se o governo de João Goulart fosse tão fraco, inepto e sem base parlamentar e social, bastaria aos golpistas operar através da Legalidade. Ou seja, poderiam ter feito o impeachment de João Goulart ou até mesmo poderiam esperar o término de seu mandato em 1965 (o governo não era inepto e sem apoio popular?) para eleger o corvo Carlos Lacerda presidente da república! Porque não o fizeram e optaram pelo golpe relâmpago?

A grande e incontestável verdade que os conservadores teimam em esconder é que o PTB, tal e qual o PT atual, era o partido da massa trabalhadora dos grandes centros urbanos. Era disparado o partido mais popular do país e só fazia crescer e crescer cada vez mais ao longo do tempo. O medo não era de João Goulart, ele não conseguiria aprovar as reformas de base naquela oportunidade... O medo era porque o PTB estava politizando a discussão e as eleições de 1965 (se o processo democrático tivesse transcorrido normalmente) traria consigo uma estrondosa vitória do PTB, que transformar-se-ia no maior partido do Congresso Nacional, suplantando o PSD (a UDN golpista já havia ficado no chinelo há muito tempo...).

Mais do que isso, em 1965 o cenário era de uma linda eleição presidencial disputada por João Goulart ou Leonel Brizola pelo PTB, Carlos Lacerda pela UDN e Juscelino Kubitschek voltando pelo PSD. A probabilidade de vitória de Carlos Lacerda era nula e devido a ascensão irresistível do PTB, já não era mais possível garantir que Juscelino (favoritíssimo) ganharia com a facilidade que os analistas da época imaginavam. Os golpistas tinham plena consciência de que o povo estava se educando politicamente e de que por dentro da democracia não teriam como segurar as reformas de base, que se eram impossíveis de ser implementadas com João Goulart, eram inevitáveis no horizonte próximo graças ao crescimento do PTB.

Bom destacar também que pela 'esquerda', João Goulart era massacrado pelo PCB. Alguém lembra da estúpida, maluca e deplorável capa do jornal Imprensa Popular em 24 de agosto de 1954 (suicídio de Getúlio Vargas)? A capa era a seguinte: "Abaixo o governo de traição nacional de Vargas". Percebam o grau de miopia do PCB na época! O PCB daquela época ressentia-se do fato de que o partido da massa trabalhadora era o PTB e não ele, PCB. É o mesmo ressentimento que setores de 'esquerda' hoje nutrem com relação ao PT. Pois foi contra essa miopia e ressentimento de uma esquerda principista e sectária que João Goulart teve de lidar também.

Bom, mas e porque então a população não se insurgiu contra o golpe? Não se insurgiu porque João Goulart era João Goulart e não um Abraham Lincoln! Ao contrário de Leonel Brizola que lutava desesperadamente para organizar a resistência e, se necessário, partir para uma guerra civil em nome da Constituição, João Goulart contemporizou, não ofereceu resistência alguma aos golpistas, desmobilizou toda a base social do PTB e recolheu-se ao exílio. Tudo para evitar o 'banho de sangue' que assolaria o país se houvesse resistência contra os golpistas... Que falta fez ao Brasil naquela época uma atitude combativa de João Goulart! Abraham Lincoln não é celebrado até hoje como uma das maiores figuras políticas da história dos EUA? Tivesse ele contemporizado com os reacionários, latifundiários e escravocratas da época e a Guerra de Secessão não teria acontecido, o que fatalmente teria consequências trágicas para a história norte-americana. Sem a Guerra Civil bancada por Lincoln contra o atraso e seus reacionários representantes, entre 1860 e 1865, os EUA não seriam a potência que são hoje.

Enfim, em breves palavras tento desmistificar um pouco o que ronda esse debate sobre o golpe de 64, suas reais motivações, a base social dos atores envolvidos, o percurso das forças políticas no curso 45-64, etc... Lamentável e desgraçadamente, a burguesia brasileira é anti-nacionalista e burra ao extremo. Diferentemente da burguesia norte-americana que históricamente sempre lutou contra o atraso agro-pastoril, contra a escravidão e os contra latifundiários racistas e fascistas, 'dignos' representantes de teses obsoletas. A burguesia brasileira sempre foi débil em ações e miserável em compreender o seu papel histórico em Pindorama. Justamente por isso que os maiores saltos industrializantes do Brasil tiveram que ser encampados enquanto bandeira modernizante pelo Estado Nacional, diferentemente do que ocorreu nos países centrais da Europa e dos EUA.

A opção pelo golpe foi a tática dos conservadores para barrar a implementação e consolidação das reformas de base enquanto ainda tinham tempo para tanto. Cortaram o PTB pela raiz porque a população insistia em dar mais e mais respaldo ao partido trabalhista, enquanto abandonava gradualmente a UDN e o PSD. Fizeram o golpe contra o governo de Jango porque sabiam de seu caráter conciliatório e incapaz de bancar uma resistência. Sabiam que se esperassem para desfechar o golpe num eventual governo futuro de alguém como Leonel Brizola, haveria sim uma Guerra Civil e que a resistência venceria porque tinha um líder capaz de empreendê-la. Foi um "golpe preventivo".
Diogo Costa

SOBRE O GOLPE DE 1964: ALGUMAS NOTAS AO TEXTO DO DIOGO COSTA E AO DEBATE NO BLOG DO NASSIF


A tese do GOLPE PREVENTIVO que Diogo Costa apresentou aqui é a mais plausível de todas. E provavelmente pode ser bem confirmada por fatos e por investigações sobre os bastidores de todo o processo de redemocratização e americanização posteriores a 1945.

Toda vez que eu vejo deteRminadas organizações reunidas como Rotarys, Lions, os velhos Tourings Clubs e outras típicas entidades americanóides que foram introduzidas no Brasil no pós Guerra fico me perguntando sobre a real serventia destes clubes de mocinhos. E não há mais nenhuma possibilidade de se refutar o forte processo de americanização da burguesia e das "elites" nacionais. Mas uma americanização de aparências. Ou seja, nem o democratismo da liberdade de imprensa deles é no fundo democrata e nem o lideralismo de fachada deles é verdadeiramente liberal.
Me aborrece muito a força pífia dos argumentos que tentam partidarizar este debate. Podemos olhar para os partidos, mas não podemos esquecer que mesmo os partidos organizam blocos diferentes de interesses que jogam numa síntese possível com a realidade e seus adversários. E muitas vezes estes blocos dependem sim de lideranças que os sustentem, dirigem, produzam acordos e selecionem conflitos para o hoje e para o amanhã. E toda vez que fazem falta estas lideranças estes blocos ficam tateando ou s esubordinam a lideranças de outros blocos. Com o perdão da minha ousadia em teorizar aqui em seara onde os especialistas e os sábios não são nada ingênuos, muito menos retóricos. Boa parte delçes são práticos e produzem a política real do seu dia a dia. 
A bela leitura de conjuntura do jovem Wanderlei tinha um caráter político e propositivo, mas não me parece que recebeu a atenção devida na época - pelo menos assim me parece. Talvez faltasse aquilo que chama de STAFF político estratégico para o PTB impedir o golpe. O que me parece ser também  fruto do deslocamento excessivo do pêndulo interno ao projeto do PTB para uma política de personalidades. Mas se vê que o outro lado não sofria disto. Apesar de menos popular, tinha mais pragmática, efetividade e os devidos apoios econõmicos e militares.
A falta de um debate mais franco e mais estratégico dentro da esquerda causa exatamente isto: a supremacia recorrente de uma tática mínima da direita. Tática esta que preventivamente triunfa. Tenho visto isto em diversos momentos eleitorais. Desde a redemocratização e em todos os tipos de eleições municipais, estaduais e nacionais. Isso explica em muito - com todo respeito que os intelectuais e ideólogos da esquerda merecem, justamente porque o PT acaba sempre pro ter que voltar-se para o centro. Para Granscianamente manter o poder e até agora tem conseguido. Mas as grandes mudanças não irão acontecer sem um acordo AUXILIAR - para Que um dia seja PRINCIPAL (ISSO ME LEMBRA LENIN BARBARAMENTE) - entre as esquerdas brasileiras se é que elas existem e não se resumem a belos programas com finos propósitos eleitorais. A bola que a esquerda joga pode ficar mais vermelha, mas todos que querem pintá-la destas cores terão que se dispor a empregar suas tintas numa única e mesma bola. O que não acontecia entre PCB e PTB. E colocava sempre o PTB como dependente até sua derrota no Golpe pelo PSD. O PMDB hoje ocupa o mesmo espaço.
Uma pequena nota sobre o GOLPE que é uma palavra cuja semântica merece mais compreensão. Não é somente uma alternativa nominal a REVOLUÇÃO, significa um assalto de uma minoria ao poder. Ainda que alguém queira atribuir o caráter de movimento de massas para as marchas da família e tal. Acima de tudo, para minha compreensão, um golpe só é possível com signo de vitória como traição, jamais como bala de prata. é um processo, mas é um assalto cujo lastro mínimo se impõe sobre os demais. Se o Golpe fosse efetivamente liderado por um civil - como o Lacerda queria - talvez todos nós hoje falássemos inglês. Assim como quase todos os alemães hoje o fazem sem nenhum pudor ou horror.
Mas havia um determinado vírus nacionalista também no Golpe que na minha opinião só ganhou vulto por conta da completa baderna - como dizem aqueles que viveram isto fora das perspectivas militantes - entre todas as forças e organizações. A contra tese ao projeto do PTB foi a tese do CAOS. E esta tese venceu. Por isto adoto a ideia de que o GOLPE FOI SIM PREVENTIVO. E um golpe preventivo como o descrito pelo Diogo aparece pela eminência de uma liderança do BLOCO, mas também pelo conflito generalizado na esquerda sobre a natureza do projeto e o escopo das concessões possíveis entre os lideres dos movimentos sociais. Eu gostaria muito de perguntar sobre quais desacordos tão importantes e relevantes que existiam em 1960-1964 dentro da esquerda brasileira que fizeram possível a tática da pedrinha da UDN? E hoje quais são mesmo os desacordos inadiáveis? Os interesses das grandes corporações? 
Bem fui longe demais e peço escusas por tanta audácia e tão pouca cautela ao meter minha colher neste grande angú.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

PEQUENA MEMÓRIA PESSOAL E INCOMPLETA EM HOMENAGEM AO ZÉ PEDRO BOÉSSIO - 12 ANOS DE PARTIDA - CANTO CORAL E NANDO D´AVILA


Provavelmente desde 1976 eu tenho tido o prazer e o privilégio de assistir, acompanhar e observar  o que aconteceu com o Coral Unisinos. Morava a menos de duas quadras dos locais de ensaios e sabia de todo o movimento em torno do Coral, com uma espécie de auge nos anos 80 e depois com alguma distância todo o desenvolvimento do Coral Unisinos nos anos 90 até o falecimento do admirável e inesquecível amigo e maestro José Pedro Boéssio em 2001. Eu via o Coral se apresentando na cidade e via uma intensa movimentação dos membros do coral em volta disto. Assisti menino e depois adolescente alguns ensaios, mas nunca me aventurei de cantar em coral algum. Era uma coisa estranha para mim, porque de um lado eu sabia que não era músico e de outro lado eu amava a música e ficava em uma ambivalência em relação a isso. Pensando, por um  motivo passageiro qualquer, que nenhuma importância tem hoje que haveria grande dificuldade para cantar. Assim, mesmo convivendo com várias pessoas que cantavam e  tendo tido diversas oportunidades para começar a cantar, nunca ousei fazê-lo.

Em 1997, tive uma bela conversa sobre música, canto e movimento cultural com duas pessoas que me eram muito caras e que já se foram. Tinha retornado para São Leopoldo da minha temporada acadêmica na UFRGS e em Porto Alegre, e estava já a procurar ocupações e atividades aqui em São Leopoldo. Meu pai possuía uma oficina improvisada ao lado do MAK e eu trabalhava com ele no ramo tentando obter alguma forma de sustento. Nos finais de tarde ficava por ali nas imediações. Um certo dia me sentei no MAK BAR e me entra o Zé Pedro e ficamos tagarelando brevemente sobre eleições e etc, e eis que em instantes passa o Nando D´Ávila e acabamos nós três ali conversando sobre diversos assuntos. O Nando eu conhecia desde menino porque éramos vizinhos de Agrimer (apês 83 e 82) e depois nos anos 80 ele e Silvana acabaram ficando meus amigos por conta de outros interesses culturais e místicos meus. Já o Zé Pedro era uma espécie de parceiro de campanhas. Toda campanha do PT eu via ele junto e, em uma ou outra circunstância, fazíamos algo. Ele era incrível em sua dedicação à política. Eu vi aquele Dodge Polara amarelo dele fundir o motor três vezes, creio, em campanhas. E também admirava a coragem com que ele exibia aquela bandeirona vermelha do PT na rua grande. Aliás, ele e alguns outros militantes do PT, apesar de tudo e de todas as provocações e ofensas possíveis – porque era assim que os petistas eram tratados em São Leopoldo, andavam sempre com aqueles bandeirões gigantes na rua em época de campanha. Havia preconceito e a forma que a gente enfrentava o preconceito era se expondo e afrontando aqueles que nos rejeitavam ou nos perseguiam. Talvez muitas pessoas que estão lendo este texto não acreditem, mas tem muito abobado por ai dizendo que o PT antigo era melhor e tals, mas que quando o PT antigo era melhor promoviam perseguição e discriminação de todo e  qualquer petista.

Bem, talvez nada disto tem algo haver com canto coral, mas para mim tem. Porque notei que a forma como o canto coral é tratado por algumas pessoas de fora é extremamente preconceituosa também. E isto aparece na dificuldade permanente de termos sempre vozes masculinas e também na forma subjetiva e leviana como algumas pessoas demonstram tratar o canto coral em certas ocasiões.

Voltando a conversa com Zé Pedro e Nando – que é o nosso prelúdio aqui.

A gente ficou ali umas duas horas conversando sobre política, música, formação acadêmica, pós-graduação, viagens e também sobre algumas escolhas que nós três havíamos feito na vida. Lembro que faz[íamos perguntas uns para os outros e íamos tranquilamente batendo papo e respondendo e misturando assuntos e encadeando temas.

Era muito importante aquela conversa porque ela me serviu de alento em muitos aspectos. Eu era um professor de filosofia formado na UFRGS, mas desempregado e sem nenhuma perspectiva de trabalho estável em vista. E já havia feito várias tentativas de obter emprego em escolas de São Leopoldo e em instituições universitárias.

Naqueles dias trabalhava como eletricista com meu pai que sempre me dizia para eu ficar calmo porque eu era um professor e afinal minha hora ia chegar. Mas era engraçada a atitude dos outros trabalhadores nas diferentes obras que passei. Me olhavam estranhando e as vezes corria um comentário sobre este aspecto. Eu me sentia engraçado, mas me empenhava fisicamente para também não parecer um alien no meio daqueles afazeres físicos às vezes brutais. Qualquer pessoa que já abriu uma canaleta em paredes de tijolos maciços usando apenas a marreta e uma ou duas talhadeiras dando bamgornadas na cabeça das talhas e vendo o ferro se retorcer e os cacos de tijolo e as faíscas, provocadas e lasqueadas, voarem no entorno sabe do que eu digo.

Agora imagina o professor de filosofia com um boné da Taurus, com a aba virada para trás lá fincado na obra fazendo isto. É uma imagem não muito usual devemos admitir. Havia um que de interessante para mim nisto. E confesso que sempre tive uma relação romântica com o trabalho manual seja ele qual for. Lavrar a terra, pintar paredes, subir em escadas, carregar pesos diferentes, mexer em máquinas ou em qualquer coisa com algum mecanismo interessante sempre me atraiu muito. Afinal, se eu fosse marxista de verdade deveria saber exatamente o que é que sentem os trabalhadores manuais neste caso e refletir ali mesmo sobre a alienação, entre uma porrada e outra ou mecanismo ou outro. Eu gostava de coisas engenhosas também. E para mim a música e escrever tinham algo de engenhoso também.

Bem, eu estava sentado ali com duas pessoas que representavam para mim artífices engenhosos de algumas coisas que eu amava. A linguagem – que ia da leitura significativa dos textos que nos caiam nas mãos, para a reportagem e ao poema ou livro, e a música que ia da pequena canção à sinfonia, do canto coral à orquestra. E o Nando era para mim muito especial porque acabou me aproximando muito das duas coisas em meados dos anos 80 e me levando a fortalecer minhas paixões intelectuais que já eram bem precoces. Em 1987 fiz o primeiro vestibular com Silvana, ficando no apartamento de Martin Haag e passando sem, no entanto, ter concluído o ensino médio. Mais tarde e depois em 1989 acabei ingressando no curso de filosofia da UFRGS. Não sei bem a quem devo mais se a Silvana ou ao Nando, pelo apoio, incentivo e companhia neste período todo, mas acabei por fazer filosofia com muita paixão e dedicação pelos seus exemplos e inspirações.

Já o Zé Pedro era incrivelmente animador em qualquer diálogo comigo sempre. Ele tinha aquele carisma e aquela luz fantástica em volta de si que me impressionava muito. E era muito comunicativo também. Prosear acidentalmente com estas duas pessoas naquele dia foi uma grande experiência para mim. Dali muitas idéias que carrego comigo até hoje sobre a cultura como um processo permanente de luta contra a barbárie e da tarefa cultural permanente de humanização do mundo da vida. E também a conexão disto com aquilo que nós alunos da filosofia da UFRGS influenciados pelo Paulo Faria, chamávamos de educação da sensibilidade.

O Zé Pedro havia concluído o Doutorado em Música, onde tinha conhecido um professor meu que pertencia a nossa grande família Boeira – o Nelson Boeira. Mas falávamos muito da experiência acadêmica e dos seus limites em que o tempo certo para as coisas era um grande desafio e era uma grande luta não chegar a saturação por excesso de teoria ou excesso de dedicação. Zé Pedro dizia que todo o trabalho dele sobre Villa Lobos – tema do seu doutorado – envolvia muito prazer também, porque descobria detalhes sobre a composição e os arranjos que o impressionavam muito. A Tese dele era sobre a conexão estética entre o Coro Número 10 “Rasga Coração” de Villa Lobos e a semana de arte moderna de 22. Para quem não sabe e tem alguma curiosidade este coro é concebido em 1926 e já foi apresentado em diversas ocasiões por diferentes orquestras ao redor do mundo. É considerado uma composição que exige muito dos cantores e da orquestra. Ao escutar – enquanto escrevo esta memória umas 7 versões diferentes – que vão desde a Regência em 1988 de Eleazar de Carvalho até nos dias atuais no Liceu catalão, percebo que é uma composição extremamente moderna e ao mesmo tempo conhecida que lembra muitas coisas do Guarani de Carlos Gomes,  das Bachianas Brasileiras e também do Trensinho Caipira. Mas chama muita atenção a mensagem indígena presente na composição para o coro e ao mesmo tempo o ritmo que lembra algo de um avanço e do povoamento do Brasil, o que nos leva para o homenageado pro Villa Lobos. É uma obra modernista dedicada ao amigo Paulo Prado que em 1926 compunha sua obra célebre Retrato do Brasil, que provavelmente foi em algum sentido dialogada com Villa Lobos. É uma imagem fácil associar os movimentos da peça de Villa Lobos ao movimentos da tese de Paulo Prado. Sugiro que vejamos isto mais de perto um dia.

(Thesis: Boéssio, José Pedro. 1996. Choros no. 10 by Heitor Villa-Lobos: aesthetic connections with the Week of Modern Art. Document (D. Mus.)--Indiana University, 1996.)   


O Nando já estava às voltas com a doença que o aborrecia e chateava, mas tinha projetos muito interessantes. Não sei se as pessoas sabem, mas ele tinha uma verdadeira paixão por escrever e eu não duvido que existam alguns livros dele prontos em gavetas ou pastas do seu acervo pessoal. Nando era um perfeccionista. Eu lembro da gente compartilhar por algum momento lendo e tomando café o livro O Nome da Rosa do Umberto Eco e ele super dedicado a traduzir as passagens em latin que Eco tirava tanto da Bíblia quanto de obras filosóficas medievais as mais diversas.

PEQUENO BALANÇO DESTA TRAGÉDIA


A maior luta agora é garantir que os sobreviventes não aumentem a lista de óbitos. Para isto é importantíssimo que todos que saíram da boate e que escaparam, com vida de lá, tendo respirado a fumaça tóxica procurem ou sejam levados por seus familiares aos hospitais de Santa Maria. É necessário monitoramento, acompanhamento e tratamento para impedir que se desenvolva uma pneumonia química. 

Paralelo a isso é bom todos os profissionais de saúde que se cadastraram já ou que possam se cadastrar na reserva técnica estarem atentos em caso de mais emergências. E nós leigos solidários como estes voluntários devemos estar atentos também para suprir outras necessidades como doação de sangue, e outras. Sabemos que já há reservas de sangue suficientes, mas é bom preservarmos nossa disposição para ajudar e contribuir, se for necessário de novo. 

Quanto ao apoio aos familiares é bom estarmos todos atentos e solidários ao máximo. Pois muita ajuda será necessária ainda nós próximos meses e também anos. Uma tragédia como esta abala muito as pessoas, os pais,mães, irmãos, primos, avôs e avós, tios e tias, amigos e amigas. Nem todos são obrigados a sentir a mesma dor, mas aqueles que tiverem sentimentos de solidariedade podem ajudar muito. 

Estou muito orgulhoso com o esforço de todos que vi ajudando e foram muitos e de diversas formas. Isso ameniza a dor e ampara também os cuidadores. Mesmo os salva vidas, os socorristas, os médicos (as), bombeiros, enfermeiros(as), técnicos (as), brigadianos (as), policiais civis, militares, dependem muito do nosso apoio moral.

E fiquei muito chateado também com a quantidade de absurdos que foram postados por irresponsáveis aqui e ali e em diversos locais, mas penso sinceramente que cabe a cada um fazer aquilo que é correto no esforço de ajudar quem precisa e da forma como precisam.

Nós gaúchos e brasileiros não seremos mais os mesmos após esta tragédia e temos que entender o sentido dela para avançar e sermos mais humanos e civilizados, cuidadosos e superarmos a dor e as terríveis perdas que vivemos e sentimos.     

Penso assim, que exatamente por isto deveríamos cuidar da nossa parte nesta luta. E eu confio plenamente na competência das autoridades para apurarem causas e responsabilidades. A busca dos culpados, responsáveis e causadores é importante, mas não me compete fazer política disto nem ficar bradando vingança aqui. Fica claro que houveram responsáveis e condições físicas e morais para que esta tragédia recaísse sobre estes jovens, mas não creio que vamos corrigir isto cometendo mais erros e barbaridades. 

A dor dos familiares e os nossos sentimentos humanitários devem ser respeitados com ajuda, solidariedade e justiça  Por fim, a tragédia é uma coisa vergonhosa para nós e penso que devemos esperar e tomar iniciativas para que ela jamais ocorra de novo. E isto vale para cada boate, bar, restaurante ou local de aglomeração de público. 

E é responsabilidade de cada Gestor Público e de cada Cidadão e Cidadã para que isto não aconteça mais. A perda destes jovens deve servir sim para que nossa consciência e nossa responsabilidade atinjam patamares superiores de atuação e exemplo. 

 "A morte nos deixa sem palavras. Mas ela nos diz, insistentemente: é preciso, sempre, cuidar dos vivos e da vida." por Marco Weissheimer ... 

sábado, 26 de janeiro de 2013

INTRODUÇÃO Á FILOSOFIA: NOTAS DE UM ENCONTRO COM SARTRE

Bom Dia...

Nesta busca por minhas primeiras experiências filosóficas.

Por meus primeiros encontros com a filosofia, no intuito de explicitar uma Introdução à Filosofia com a marca destas origens do meu itinerário "intelectual" pré-acadêmico e ainda muito doutrinário, fortuíto, acidental e também precoce em alguns temas, não tenho como deixar de citar Jean-Paul Sartre como uma grande matriz de influência.

O qual, porém, em meus anos de formação, seja pelas marcas da minha escola filosófica (1989-!993 Graduação e 1994-1997 Pós-Graduação), seja pelo passadismo derivado da contemporâneas queda do M uro de Berlin em 1989 e da dissolução da URSS em 1991, ficou como que encoberta.

Soma-se a isso que em virtude de uma situação econômica difícil nos anos 1990-1991 (o que abatia todos no Brasil de então, acabei por me desfazer da minha pequena biblioteca juvenil em um sebo de modo a garantir alguns trocados para manter o carro andando, estudando e avançando).

Entre as obras de Sartre que, naquela época, estavam em minhas mãos havia As Palavras, uma pequena, mas para mim muito bela autobiografia, diversas pequenas publicações sobre ele e uma entrevista.

Eu poderia dizer, sem nenhuma dúvida, que Sartre foi o filósofo mais popular e e com maior visibilidade das duas últimas quadras do Século XX.

Em especial até sua morte e até 1989.

E era um exemplo em diversos aspectos para mim e provavelmente para outros...a noção prática de engajamento...de colocar sua caneta e sua máquina de escrever a serviço de ideias.

Colocar e se expor e arriscar todo o seu prestigio por uma ideia - sem temor algum e com muita coragem contra os poderosos - eram muito simpáticas.

Lembrando bem Sartre era sim um gigante para nós todos e eu não tenho nenhum pudor ou lamento a fazer pelo fato de me sentir protegido e incentivado pela sua gigantesca sombra de polemista, militante, intelectual, escritor e marxista.

É uma das marcas mais preservadas em mim e aqui nestes espaços ela é absolutamente compatível com seu espírito geral de liberdade e de dialética.

Estou falando aqui somente da casca ou da cobertura que envolve a superfície de suas ideias filosóficas mais caras.

Alguém poderia dizer que Sartre foi o filósofo da moda, da última moda em Paris, mas eu não tenho dúvida de que ele foi também mais anti-burguês e anti-capitalista do que muitos que andam flanando por ai com suas cadernets, agendas e canetas.

Ele era muito crítico na minha opinião. E aqui ser crítico é um elogio máximo para mim. 

Cada entrevista dele era uma espécie de banho de la DIFFERENCE.

Bem, não poderia deixar de referí-lo e diferí-lo aqui e  ainda me resta muita cosia para enumerar de suas influências, porque sob sua grande sombra haviam muito frutos e muitas ideias que eu carregava comigo diariamente, que eu ruminava pensando e refletindo.

Foi a partir da leitura dele que eu acabei criando um hábito de sublinhar e gravar em minha mente determinadas expressões e ficar pensando nelas por dias à fio.

Um bom exemplo destas expressões sartreanas desafiadoras é a seguinte: 

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós." 

A qual aliás sempre foi meu leitmotiv contra toda forma de vitimização e choradeira na política e na vida....

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA: NOTAS DE UM ENCONTRO

Bom Dia...

"Aquele que quiser aprender a filosofar deve encarar todos os sistemas de filosofia apenas como história do uso da razão e como objecto para o exercício do seu próprio talento filosófico. O verdadeiro filósofo tem, portanto, que pensar por si próprio, de fazer um uso livre e pessoal, não um uso imitador e servil, da razão." 

Kant, Lógica, Introdução

Estou num plantão de escola e aproveito para em estudo fazer aquela Introdução à Filosofia.

Tem um aspecto engraçado nisto. De repente me dou conta de uma outra forma do ofício pelo qual sou remunerado: professor de filosofia.

Então, filosofar não é perda de tempo ou delírio, é minha ocupação...assim como a professora e o professor de matemática ou de qualquer outra disciplina se ocupa ainda muito me estudar a sua matéria, dificilmente alguém fará troça do seu afazer, mas com os filósofos ainda há aqueles maldizeres, malquereres e malentenderes.

Ainda que não me sinta um filósofo, meu ofício é estudar, ler e escrever em diálogo com os filósofos e as pessoas em geral a partir deste ponto de vista...a partir de uma formação acadêmica específica e continuada que durou um tempo determinado e foi dirigida e orientada para dar conta de uma certa dimensão do que é o filosofar.

A gente chega nessa formação com alguns caminhos prévios e conceitos prévios adquiridos de forma auto-didata, mas muita coisa muda e deve mudar a partir da sua formação...você reduz de forma incrível um conjunto de opiniões e preconceitos a determinações prévias e mesmo que este conjunto contenha diversas leituras, digressões, estudos e encontros ao acaso.

Nada mais será como antes e aceitar isso é pré-condição para avançar na investigação.

Assim se vai indo e compreendendo entendimentos e desentendimentos ao longo da jornada...em muitos textos confesso minhas influências e leituras da minha infância filosófica (Platão e Kant) até a minha adolescência (Marx, Foucault, Nietzsche), mas não chego a detalhar isto no sentido de apontar quais textos, quais impressões e quais motivações foram geradas a partir destas leituras e do confronto com a experiências sociais, intelectuais e culturais - filosóficas e políticas de meus anos de formação autodidata.

Mas hoje - agora - vejo isto como necessário; preciso identificar sim as linhas mestras e as ilusões que me levaram à formação acadêmica e também aquelas que sobreviveram.

Nada disto faz uma introdução filosófica escolar, mas me parece ser exigida para que eu faça uma introdução filosófica que leve em consideração exatamente como eu fui me chegando e me aproximando desta matéria ao longo da minha jornada de descobrimento do mundo, de uma compreensão de mundo e das pessoas.

Porque esta foi a minha introdução e a minha abertura para a filosofia se deu assim até chegar aos bancos da universidade e reorganizar, analisar e também interpretar estas ideias e estas doutrinas.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A QUESTÃO DOS IDOSOS E A MORTE DO WALMOR CHAGAS


Este é um tema muito importante mesmo para todos nós, nossos familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos.

[envolve também o limite de sofrimento das pessoas ou de sujeição a dor ou a certas condições de sobrevivência - eu tenho certeza absoluta que meu pai não aceitava esta condição assim como o Walmor, apesar dele temer de certa forma muito a morte, como vi em seus últimos dias apertando minha mão e com minhas irmãs]

E a boa matéria da Claudia Collucci na Folha de São Paulo, aponta também isto que é muito alto no Rio Grande do Sul e nos estados do sul os índices de suicídios.

Não estou com isto querendo reduzir a importância do impacto positivo da aplicação e criação de políticas públicas específicas para os idosos.

Mas mesmo com elas melhorando muito nos próximos 25 anos, a condição é ruim para muitos idosos e para alguns, em especial, é muito ruim.

Considere que aumentará o contingente de idosos e também os números daqueles que querem uma saída honrosa e sem sofrimento deste negócio chamado vida.

Para mim isto também é um direito.

Ou vamos ficar assistindo e narrando isto?

Devemos pensar muito sobre isto meus amigos e amigas.

Sim, a pequena política e a falta de generosidade acabam vencendo um debate extremamente importante para a humanização da nossa existência do início ao fim.

Nem no Supremo isso vira debate.

Fico imaginado aqui as notícias de jornais ou a operação abafa.

O que não vão resolver o problema da dignidade da saída desta vida com dignidade.

Estudos demográficos nos informam que a partir de 2020 e com mais peso em 2038 completa-se a transição demográfica e a curva de crescimento populacional começa a cair.

Isto significa o envelhecimento da nossa população, mais idosos o dobro ou triplo de hoje.

Penso que a questão é dar todos os direitos neste tema.

O problema maior para mim não são só os modelos de saúde e dignidade, mas sim a questão do direito de ir embora desta vida, sem ser visto como um  crime, uma covardia ou como a frustração de uma vontade divina.

Assim, com as mulheres tiveram que conquistar o direito a não reprodução – e ainda lutam muito por isto, os idosos – e me coloco entre eles mais tarde – terão que lutar pelo direito de ir embora.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

CAMINHADA, PRAIA E STRAVINSKI

Bom Dia...caminhada com corridinhas intercaladas 4 km....em uma semana e dois dias eu e a Regina já realizamos mais de 30 km...tá bom..para quem tá começando....fiquei pensando em manter este regime até quando a minha saúde nesta vida me deixar...porque o colesterol baixa, a barriga baixa e a conta na farmácia também baixa....e ainda tem a dose grátis de endorfina a droga natural do bom humor e da alegria....hoje o mar está bonito de novo, o sol apareceu e parece que muita gente vai para a praia e ficou na praia nesta segunda...daqui a pouco chega minha cunhada querida aqui e a família...bem daí vamos ter que ver aquelas latinhas e a caipirinha antes do almoço...rssss...salve, salve parceria...assisti ontem Chanel e Stravinski, muito bem feito, mas tanto a música dele quanto a arte dela são coisas muito belas....lembrei de várias pessoas que conheço e que lidam e sobrevivem com estas coisas...parentes e amigos...mas sou apaixonado por várias composições de Stravinski...boa música é invencível...

domingo, 20 de janeiro de 2013

Bom Dia...

hoje é domingo e  mar voltou aquele ruído tradicional...ontem foi um dia excepcional e quem aproveitou leva para casa esta lembrança...

vi bêbes a beira mar até o horário adequado das 10 horas, mas sempre tem um paizinho e uma maezinha incauto que leva o bebe ao sol das 11:00 em diante...

mas choveu uma coisinha de nada que salvou a manhã...durante a tarde o dia foi lindo, o mar maravilhoso...

Ainda percebo aqui na praia aquelas ações do cotidiano urbano e  massacrante...fui num mercado e vi aquilo que há de mais deselegante.

Pessoas que atravancam o caminho indiferentes aos outros, pessoas que atropelam sem nenhuma cerimônia e toda e qualquer forma de gentileza ou educação abandonada porque "a minha única prioridade sou eu".

Volto a ter idéias sobre um TRATADO DO DESENTENDIMENTO HUMANO, por mais absurdo que pareça a filosofia também precisa pensar nestes detalhes da vida cotidiana enquanto um outro mundo não é possível, enquanto as relações sociais não mudam de qualidade...fiquei pensando na hospitalidade tão tratada como qualidade dos gaúchos...parece desaparecer entre eles - ou nós - mas voi-a-lá...segue o barco.

Hoje começo a correr como um atleta voltando lentamente as suas atividades físicas...para que já praticou diversos esportes e ainda sente o gosto invencível da endorfina no corpo....tudo é possível....mudar a personagem física e aperfeiçoar a intelectual...porque este ano terá muios desafios de outra natureza.

Começando por uma INTRODUÇÃO A FILOSOFIA, bem novinha.....e feita com carinho e muito cuidado...o que nos faz pensar? a vida....

sábado, 19 de janeiro de 2013

MAR LIMPO, QUERO-QUEROS, O DESTINO, EU E VOCÊ


Bom Dia...não sei quais são as previsões de tempo para hoje....mas amanhece sem nenhum vento no mar em Nova Tramandai...probabilidade de mar calmo - PISCINA - e limpo durante todo o dia...dia para levar bebês de seis meses para tomarem o primeiro banho de mar de suas vidas....isso é quase um batismo para eles e alguns serão futuros salva vidas....

um pequeno retorno das observações ornitológicas...conheci uma família de quero-queros inteira ontem uma mãe, um pai  três filhotes que não tem um palmo das patas aos bicos...a mãe zelosa se abaixa e canta o tempo todo para proteger os filhotes frente a qualquer ameaça e o pai ronda meio que a distância e preparado para voar e atacar com aqueles rasantes expressivos e explícitos...observo de binóculos....os filhotes andam para lá a para cá e ainda não voam...acho que vou velos aprender a voar....uma bela experiência...

ontem assisti o Festival de Verão de Salvador por alguns instantes....vi Dinho Ouro Preto saltitando e cantando e me senti tri bem, cantei junto e pensei muito neste grande mistério que é o nosso destino...que faz com que a nossa vida dê voltas e nos pregue grandes surpresas...

sendo que algumas são muito boas e incríveis...a abertura do ser no mundo e suas possibilidades, como dizia Heidegger....

também cantei junto da Ana Carolina que canta muito bem e muito apaixonadamente....ela me lembra diversas cantoras que conheci...eu e Regina cantando no sofá: 

Eu e você
Não é assim tão complicado
Não é difícil perceber

Que momento.

Bem vou para a praia que hoje vai ser inesquecível......de novo....

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

MINHA VISÃO, SHAKESPEARE E OUTRAS COISAS

Bom Dia...

hoje definitivamente aceito a suplica dos meus olhos para usar isto aqui sem óculos...é uma transição da meia idade em que minha miopia e meu astigmatismo me obrigam a ler para perto sem óculos e enxergar longe só de binóculos..no meio do caminho ficam os óculos e sua precisão incrível...

resisto - com uma boa orientação a usar uma bifocal e vou me ajustando aos novos tempos...

bem assim posso digitar usando rayban verdes...coisa mais cool....

hoje bem cedinho estava olhando a Tempestade com quela atriz inglesa e adaptada por Peter Grenaway - Prospero´s Books, e só me resta uma única opinião: SHAKESPEARE É TEXTO E TIMING, todo o resto é acessório e secundário...

dai que me sinto mal vendo um texto brilhante sendo distorcido por imagens do exagero e da técnica...talvez alguns poucos adereços de cena e uma exploração minimal dos movimentos dos atores auxiliasse a dar enfase ao texto...

mas não faço teatro e mal sei fazer ideia do que é cinema...mas é a minha mais sincera impressão...

recheada da minha visão nem tão longe nem tão perto que  me veio aparecer nestes dias....

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

BONJOUR TOUTE LE MONDE!!!!

Tava disposto a ficar quietinho hoje de manhã e até amanhã e por um bom motivo, mas a Regina acaba de me alcançar um copo de caipirinha bem gelada, de vodka da boa, e com aquele gostinho maravilhoso.

Continuo, na verdade, sem muitas palavras, mas tinha que registrar aqui isso que estou pensando, sob pena de ver desaparecer um pensamento que ando ruminando por boas razões..

Quanto às diversas observações ornitológicas, elas estão suspensas até novas notícias.

Hoje vamos visitar um casal de amigos e colegas...comer uma carninha de leve e rir bastante....

Ando olhando para bebês na beira da praia e pensando na vida, na nova vida  e no voltar a viver, nas lembranças de infância e em como esta vida pode ser feliz, apesar de tudo e de muitos esforços para torná-la mais difícil e dura do que já é.

Me compadeço muito da dor dos meus semelhantes e hoje assisti a uma cerimônia fúnebre pensando nisto: na nossa resignação necessária frente a dor a perda e a morte dos outros.

Tenho tido algumas experiências neste departamento e tento abraçar e consolar todo e qualquer semelhante.

Mas só encontro uma solução: a possibilidade de vivermos momentos mais felizes e a nossa tarefa de tornar estes momentos reais.

A busca da vida boa ou da boa vida é uma das minhas prioridades filosóficas e não sou nenhum pouco egoísta neste objetivo.

Mas tem horas em que isto é só com a agente mesmo, é intransferível, pode ser testemunhado e confessado, pode ser curtido e compartilhado, mas é de cada um e de cada uma....

desejo um bom dia a todos e todas...

ou para todo mundo, como reza a velha saudação francesa...

(minha velha saudação de estagiário na BSCSH - lembrando da Dóris, da Delma, da Cristina, do Edi,  e das bibliotecárias minhas amigas e dos servidores (as) de 20 anos atrás na UFRGS - Bonjour toute le monde era minha saudação pela manhã ao chegar no meu trabalho).

bonjour toute le monde...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

BÔNUS ESPECIAL DO VIDENTE DO DIA

"a única forma possível de evitar tragédias e ser capaz de fazer com que o destino seja menos cruel com cada um de nós é uma forma de redução de danos - ter um tempo determinado e seguro para os delírios, por mais chato que isto pareça e sim - mais uma vez - repetir os gregos e promover catarsis devezenquando ( seja em festas rave, jogos de futebol, shows de rock ou concertos e espetáculos culturais de todas as naturezas como festas e etc.) com o intuito de purgar nossas almas e corações de toda dor possível e evitável...com os avanços atuais das ciência da saúde e não tanto dos sistemas de saúde, se recomenda aos navegantes também a adoção de todas as medidas preventivas prescritas e recomendadas pelo bom senso...e é bom orar, dobrar os dedinhos e fazer figa para que dê certo, porque ao fim e ao cabo vais sim depender da sorte..."

VIDENTE DO DIA

"os filósofos tem sido leitores ávidos de jornais, folhetins, revistas e novelas, porque toda curiosidade superior começa justamente ali na interpretação e na superação do mais rasteiro e trivial drama da existência humana"

SOBRE MANSUETO BERNARDI: IN PROGRESS


Sobre Mansueto Bernardi me ocorreu algo neste ano que passou, que me levou a conhecer esta personagem da qual só conhecia a fama em parte literária e de outra integralista. 

Realizei uma pesquisa histórica com o objetivo de justificar o tombamento no patrimônio histórico nacional da praça do imigrante de São Leopoldo, o que me envolveu muito com a pesquisa da história, digamos assim, ideológica e política da cidade e do Rio Grande do Sul anterior a revolução de 30. 

Neste processo, descobri, sem nenhuma dúvida, que São Leopoldo era simplesmente no início dos anos 20 a cidade mais importante economicamente do estado e, na região metropolitana, só era superada neste quesito pela capital, haja visto lá a concentração econômica do estado positivista altamente centralizado. E que mesmo após a emancipação de Novo Hamburgo em 1927 a cidade preservava sua importância social, cultural e política.  

Pois bem, Mansueto foi intendente designado por Borges de Medeiros em São Leopoldo em 1919 em virtude de uma certa crise política local nas hostes do PRR. ESta crise teve início provavelmente - o que deve ser mais detalhado e investigado, no conflito que demarcava-se já entre os emancipacionistas de Novo Hamburgo liderados pelo Sr. Jacob Kroeff e seguido por Leopoldo Petry, Pedro Adams Filho e outros e aqueles leopoldenses que relutavam  a aceitar este processo. 

A pedra de toque havia sido recebida pelo próprio Mansueto Bernardi na condição ainda de secretário de gabinete de Borges de Medeiros da petição subscrita por lideranças hamburguenses pela emancipação e, também, trazia consigo a rejeição ao nome do distrito de Genuíno Sampaio.  

Dentro deste período conflituoso Mansueto é eleito pelo povo da cidade em uma disputa acirrada – ou por quem votou naquela época. E tudo indica que esta disputa prosseguia após sua posse. O próprio discurso de posse de Mansueto é uma espécie de libelo contra os adversários e uma manifestação impessoal típica de um homem de partido. E foi a partir da gestão dele de 1919 a 1923, que se criaram as condições para um certo pacto político na cidade também representado pelas comemorações do centenário da imigração alemã que levaram a construção da bendita praça. 

Me surpreendi com varias coisas das quais nada sabia que iam desde a importância da personagem até os interesses políticos que a colocaram justamente em São Leopoldo naquele período. 

Quando falo da importância dele isto passa desde seu concurso para o estado, passando pelo noivado com a menina Idalina (uma espécie de diva ou musa dos anos 10 de Porto Alegre),  a nomeação como secretário de gabinete do Borges, a sua indicação como interventor em São Leopoldo, sua saída, paralelamente a relação dele com a Gráfica, Editora e Livraria do Globo desde os anos 16 até a sua posse como Presidente da Casa da Moeda de Getúlio e – por suposto – sua espécie de desterro no episódio posterior ao levante integralista. 

É um intelectual extraordinário por diversas outras razões também pelo que publicou, estudou, escreveu e pensou lá nos idos dos 20 aos 50. Ainda que assaz conservador a certa altura do campeonato, foi um pensador em alguma grande medida tão Cristão, mas Positivista e um Republicano decisivo em minha opinião na construção de Vargas da Revolução de 30. Mas é algo bem interessante também para uma análise o fato de que ele é de certa forma o primeiro grande interprete e crítico do Simbolismo literário, em especial no seu ensaio sobre a poesia de Alceu Wasmosy e Eduardo Guimaraens.

Boa parte dos aspectos literários e políticos dele já foram devidamente, assim me parece esquadrinhados em pesquisas acadêmicas. Sérgio Farina - este memorável professor - fez Tese de Doutorado sobre o Mansueto Autor. Mas a passagem política e, portanto, intelectual dele por São Leopoldo conta com raras informações, incluso sobre a sua saída da cidade, após renunciar a intendência e virar secretário de obras de Borges de Medeiros. 

Ainda que Mansueto não seja um dos grandes baluartes reconhecidos por Joseph Love na famosa "geração de 1907", que inclui João Neves da Fontoura, Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Lindolfo Collor,  talvez seja uma daquelas personagens intelectuais riograndenses a ser mais investigada como de importância na formação e no pensamento de Vargas e da Revolução de 30.

O grande mestre Sérgio da Costa Franco coloca Mansueto entre o rol de intelectuais que se situam no início do século XX no espaço político a serviço do Castilhismo-Borgismo. E no caso de Mansueto anota que este "desfrutava de plena confiança" de Borges. 

Bem este é o personagem que me provoca na  investigação desta primeira quadra da história de nossa cidade. 

O QUE ESTOU FAZENDO AQUI E AGORA?

Cá estou eu sentado na minha mesa de trabalho, envolto por este computador, tomando aquele clássico café de estalar neurônios. Pensando numa panorâmica das minhas razões, provocações e pensamentos atuais. 

Fazendo rápidas consultas e buscas de informações na rede sobre uma gama de assuntos que vão desde Nietzsche - A Vontade de Poder, que me atrai venenosamente a malvadamente - como sempre o fez, haja visto que a conta dos meus trocados fica alta; 

PIBID e Intervenções ou Instalações Filosóficas para o próximo ano letivo, um Programa de Filosofia que dê conta de incluir Direitos Humanos - com toda a carga semântica, histórica e política - no Programa; um Programa para Primeiro, Segundo e Terceiro Anos do Ensino Médio que envolva, aprofunde e forme num crescendo leitores, curiosos e vacinados de filosofia em todos os gêneros possíveis e que ajude também na formação de novos professores - o Grande Programa - diria assim para os meus próximos 4 anos de atividades pedagógicas e diletantes; 

Tendo também repentinos lampejos e lembranças do arrazoado projetado para uma pesquisa de um capítulo da história de São Leopoldo que dê conta da construção do PRR pré-Vargas, os anos 20 e aquela personagem incrível da política gaúcha e brasileira que me parece ser Mansueto Bernardi, que tinha a verve e a força literária e também estofo cultural suficiente para ter sim o direito de errar e de escolher qualquer caminho político - como o fez com muito custo com o Integralismo - sem que ninguém tenha o direito ou a peia de interpelá-lo julgando ou cobrando esta ou aquela posição na pequena quadra medíocre constituída por toda ignorância e arrogância política que só aparece na cachola daqueles que efetivamente jamais se dedicam integralmente aos assuntos políticos, daqueles que tem opinião, mas pouco envolvimento nos momentos ruins e bons pertinentes a este fazer; 

Pensando também nas minhas diatribes filosóficas anteriores, cá nos meus botões desbotados daquela velha jaqueta de couro arranhada que guardo no armário das minhas memórias, em que Wittgenstein e a filosofia da lógica, mais agudamente olhando, a conexão entre mundo, pensamento e linguagem, vis a vis, a teoria figurativa da linguagem me encantava e me desafiava a brincar de demiurgia filosófica, sob uma leitura do Tractatus Logico-Filosoficus variegada de influências locais e de standarts interpretativos que levariam o trabalho a ser mais uma SUMMA TRACTATAE do que propriamente uma DISSERTATIO,  com sacrifício algum do latim, mas antes disso com muitas pitadas lógicas e metafísicas; 

Sim, meu querido leitor - compartilho aqui minhas ocupações como uma forma não de me envaidecer, mas talvez de provocar em ti que o podes fazer mais ocupações e maiores libações neste belo período de férias em que os dias são belos, desde que você não se dê ao trabalho de ler a tonelada de besteiras que lhe vem pelo jornal, das quais não vou falar agora, nem aqui, sob pena de entrar em um debate precoce sobre a dialética entre lamentações do não fazer e obrigações e a bela e justa vontade de fazer. 

Tudo tem seu tempo e este tempo agora é meu, completamente meu e dos meus gostos, afazeres, chatices e bobices. 

Por fim, lendo desde ontem com muito prazer, com gigantesco entusiasmo a obra TRANSCENDENTALISMO E DIALÉTICA: Ensaios sobre Kant, Hegel, o Marxismo e outros ensaios. 

Obra de João Carlos Brum Torres que me caiiu entre as mãos um pouco antes da Hora do Gavião de ontem pela manhã na Livraria Cultura da qual não consegui me afastar desde então por diversas razões e interesses comuns. Primeiramente porque constato uma espécie de apresentação de um itinerário filosófico sendo narrado ali naquela seleção de textos dele que vão desde 1972 até 2004, assaz interessante e muito bem narrado. 

Serei sempre talvez o maior suspeito em meus elogios ao mestre, mas confesso me deliciar com a prosa deste senhor. Com a capacidade de trançar e armar argumentos logicamente coerentes e ainda dar pitadas e coloridos de elegância na obra. 

O grande Caçapava, como lhe referem os próximos e os seus contemporâneos dos anos 60, consegue ler e interpretar Kant e Marx - cujas ligações e conceitos são de muito meu interesse - e ainda perscrutar razões em todo e qualquer argumento filosófico que lhe paire sob os olhos. Diria que conseguiu construir uma espécie de técnica de desenvelopamento de conceitos que torna nua e crua  a razão e o valor dos argumentos que muitas vezes se escondem para a nossa imediata compreensão. 

Mas não fica somente no sentido e nas razões, consegue investigar também, quase sempre na mesma chave os motivos e as consequências destes argumentos. Não vou demonstrar aqui agora como e nem o porque, com mais detalhe, o elogio assim. Mas ainda o farei, ultimadas as leituras e sopesadas as confusões que encontro pelo caminho como narrei até aqui. E deveria fazê-lo cotejando com outras lições que tive o privilégio de ter com ele e outros insignes mestres da UFRGS. Porque meus cadernos estão com seus 20 anos já completos e merece que se visite-os agora mesmo neste belo período. 

Vou compilar aqui o resumo sinopse do autor disponível em qualquer um dos sites que o divulgam para concluir esta ladainha continua e propagandear esta bela obra: 

"Transcendentalismo e dialética' é uma coletânea de escritos filosóficos de amplo espectro, que inclui estudos sobre Kant, Hegel, o marxismo e os filósofos brasileiros Giannotti e Bornheim. As análises da filosofia crítica chamam atenção para a atualidade da teoria kantiana da intuição, destacando o modo em que ela se conecta às discussões contemporâneas sobre a referência indexical e sobre os ditos conteúdos não-conceituais. O primeiro dos estudos hegelianos procura mostrar em que sentido o estoicismo é a ética de escolha do pensamento finito e, sob certo aspecto, a posição mais íntima de Hegel. Já o segundo cuida de explicar como na teoria do patriotismo Hegel combina de maneira inesperada as concepções clássicas e moderna da cidadania. O conjunto de estudos dedicados ao marxismo procura mostrar como nas dificuldades e contradições da teoria do valor e da forma do valor se evidencia um ponto cego na concepção marxista da sociabilidade humana - uma falha que obriga a deixar definitivamente para trás as concepções meio especulativas, meio naturalistas da essência genérica do homem e seus sucedâneos na obra tardia de Marx. O livro ressalta ainda a importância ímpar de J. A. Giannotti no pensamento filosófico brasileiro e a originalidade do pensamento de Gerd Bornheim sobre as relações entre a filosofia e a história." 

Eu recomendo a leitura. 

Um grande abraço.         

HEGEL EM JENA: CONTRA KRUG 1

Pois eu ando começando a  ler Hegel com mais boa vontade, digamos assim. E hoje mesmo comprei um pequeno texto dele que corresponde a uma peça digamos assim daquele período bem interessante da vida acadêmica e da produção intelectual dele em que ele estava sobre forte a influência de Schelling e respirando os bons e belos ares de Jena. É pouco provável que aquele professor em início de carreira soubesse o que lhe aguardava ali no seu destino para testemunhar naquele local, mas conta a história que foi ali que ocorreu a principal batalha entre as forças de Napoleão e as foças de Frederico Guilherme da Prússia. E Napoleão venceu de forma avassaladora. Voltando para Hegel - e deixando de lado estas questões históricas desimportantes para certos escrevinhadores e certos hermeneutas - o texto de Hegel se intitula COMO O SENSO COMUM COMPREENDE A FILOSOFIA. E é notável por expressar talvez em si o reflexo mais expressivo justamente contra a contingência e contra o senso comum que tende a interpretar tanto a história como algo inalcançável, como a  filosofia como algo absurdamente indemonstrável. Ataca Hegel neste texto o desafio de um diletante contra o sistema de Fichte, que passou a ser conhecido como a PENA DE KRUG. Não vou me deter muito nisto aqui, mas só apontar que segundo Hegel depois vai escrever e narrar detalhadamente em sua Fenomenologia do Espírito, o Espírito Absoluto, ao longo da história muda de endereço, muda de geografia e resolve se instalar mais adiante; e que portanto é muito bom observar estas mudanças, antes que uma batalha sangrenta nos envolva ou precise nos envolver para nos despertar do profundo e  confortável sono da razão, como diria Kant .

A HORA DO GAVIÃO

Hoje estava me deslocando desinteressadamente as 10:00 na Universidade por um corredor do Centro 1 em direção ao prédio administrativo e eis que olho para a minha direita em uma estrela cadente da natureza se precipitou sobre um Maricá em vôo ravisante e tomou um pequeno pássaro entre as suas garras e o quebrou. Era um gavião jovem no auge da sua forma física dando conta da sua vida cotidiana e ganhando alimento para uma provável família que deve estar em seu ninho aguardando alimento. Me lembrei do meu pai Antônio imediatamente, porque talvez ele não dissese nada, talvez ele sequer balbuciasse uma palavra sobre o pequeno episódio cotidiano da natureza, mas se estivesse junto iria apontar o dedo e me mostrar com atenção o que ali acontecia quase com um comentário subliminar ou nas entrelinhas do acontecimento. Daí pensei: sim, por mais força que você faça na tua vida cotidiana, tem a hora do Gavião. O meu avô Wilhelm, que era um exímio caçador e atirador, um guarda caça de príncipes, condes e burgueses que não conseguiam acertar um tiro a dez metros, mas que havia sido convertido a guarda florestal nos anos 20, na Alemanha, dizia simplesmente que tem o dia da caça e o dia do caçador. Eu fiquei pensando nisto como um sinal do confronto inadiável entre civilização e natureza, onde a natureza vive desviando nossos propósitos para mostrar o quanto a razão é pretensiosa e ao mesmo tempo impotente. O futuro de uma ilusão, digamos assim, se defronta com a Hora do Gavião. Ou seja, você pode fazer tudo certinho, conduzir tua vida por máximas morais, educar as pessoas para respeitar as regras e construir valores, humanizar, sensibilizar e instruir, mas sempre chega a Hora do Gavião. Não adianta chorar. E aquele jovem gavião me mostrava exatamente isto ali, simplesmente isto ali.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

DAS MINHAS IMODESTAS FANTASIAS FILOSÓFICAS

Das minhas velhas e imodestas ilusões filosóficas a maior delas é a que segue. Meus quatro filósofos determinantes: Aristóteles, Descartes, Kant e Heidegger, sem eles nada mais pode fazer sentido na história da filosofia. Qual o maior filósofo que eu li? Kant! Fazendo é claro a minha sugestão entre aqueles filósofos que eu li e que eu considero que consegui compreender minimamente em seu espírito e alcance. Nenhum outro consegue te surpreender tantas vezes sobre tantas coisas. Ela dá um giro e te pega de surpresa ao descobrir algo inimaginável em uma teoria que aparentemente foi escrita por um homem solitário e misógino. Nenhum conceito nele é ocioso. Nenhuma ideia nele é vazia. por mais que eu goste muito de muitos outros e tente sucessivamente entendê-los e estudá-los sempre, tais com Marx e Nietzsche, e agora ultimamente Hegel e mais Foucault. É em Kant que eu encontro os sinais de um pensamento mais indevassável e mais orgânico. E dá uma sensação estranha olhar para este relojoeiro e imaginar o tamanho e o alcance da sua obra. Não vou conseguir fazer mais nenhum programa sem uma pitadinha bem escolhida e selecionada dele e sem o acompanhamento dos demais.