terça-feira, 30 de outubro de 2012

ANJOS E DEMÕNIOS NA POLÍTICA?

Sobre o texto dos anjos e demônios eu diria que de fato os políticos e os homens não precisam ser nenhum nem outro. As vezes usar o juízo nos impõe justamente o sacrifício de ideais que não são realizáveis e cada um de nós deve passar por esta experiência e tentar conservar ou aumentar sua legitimidade ao fazê-lo. Não dá para avaliar o mundo real ou o desenrolar do jogo da arquibancada ou do camarote VIP, na vida real é preciso levar muita canelada, correr mais que os outros e dar os passes certos para sobreviver em campo. Nas cocheiras todos os cavalos são iguais, agora coloca eles no derby para ver quem é quem e cavalo que não correu ainda não pode sequer avaliar como é o peso da sela, da montaria e de que lado bate o relho. A política é um universo muito mais duro e desconfortável do que parece. Aprendi a respeitar muito os que crescem neste ambiente inóspito - em que ninguém é amigo de ninguém - em que só vale mesmo a força e a inteligência em sentido puro, muito puro. Bem e é por isto que eu creio que a gente olha para a política procurando anjos e demônios, porque nenhum deles pode ser simplesmente mediano.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O VIDENTE DE CADA DIA

As vezes fico procurando o vidente de cada dia e o encontro sempre ocupado com coisas simples, triviais e que não requerem nenhum gênio ou ilustração. Ele tem disso mesmo: só gosta mesmo do coloquial, dos lugares comuns, ama metáforas. brocardos, rimas e birras. Pelo menos eu penso que é isso. 

As vezes me surpreendo com seus lances. Outras vezes me pergunto mas como é que eu não pensei nisto antes. 

Teve um dia que ele me veio com três tiradas por hora. Acho que estava eufórico ou ele é mesmo compulsivo. 

Mas ai pensei: perái meu! Quer se exibir? Para ser vidente é preciso acertar poucas coisas, mas que são definitivas, sem volta! Se você começar a chutar vou te tirar a bola! Ele me olhou com os olhos baixos e disse: 

Tu devia era aproveitar o meu entusiasmo e parar de ser tão exigente comigo. Um dia vais sentir falta de mim e ficará assim num arrependimento, num muxoxo só. 

Eu olhei para ele e disse: Vou pensar no teu caso! Me dá uma semana? E me fui para a escola...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

OBAMA VERSUS ROMNEY: POLÍTICA EXTERNA NAS ELEIÇÕES 2012 - EUA

Após assistir o debate entre Obama e Romney sobre política externa e relações internacionais para os EUA percebi que com certeza alguém que possui a incapacidade de ter definições claras sobre política externa é muito perigoso para a humanidade. 

Obama conseguiu demonstrar os erros sistemáticos de posicionamento de Mitt Romney em diversos temas e também que quando ele muda de opinião é incapaz de reconhecer exatamente porque mudou e o que significa esta mudança. 

Para mim existe uma grandiosa diferença entre armar a oposição Siria ou ter posições internacionais contrárias aos massacres na Síria. Com certeza Romney demonstra sistemática e vacilantemente que suas posições levam os EUA para mais uma aventura externa do tipo Vietnã, Iraque, Afeganistão e etc. 

O mundo deveria ter o direito de impor aos EUA um limite a suas pretensões exteriores. Não dá mais para os EUA serem os xerifes do mundo e os incontestáveis representantes de uma política de guerra. E Obama demonstrou muita firmeza. Eu discordo de algumas posições dele, mas isso só é possível pela sua firmeza. E creio que em política internacional não dá para a humanidade inteira depender de humores oscilantes e paixões repentinas como as que percebi claramente em Romney. 

Espero que neste caso, a grande família Adams americana que tem tradição republicana lá na formação dos EUA em 1776, começando pelo velho Samuel, passando por John pai e John filho, votem num candidato democrata desta vez. 

Os EUA tem que parar de sacrificar seus filhos e os filhos de toda a humanidade através de uma política externa belicista, intervencionista e equivocada. Obama não é - salvo melhor juízo - o fim e a remissão desta política, mas diminui esta estratégia que quase independe do Salão Oval, porque está entranhada na ordem de estado americano. 

Os Falcões, representantes das indústrias e corporações militares, ainda mandam no exército e em diversos setores da política americana e seu foco é sempre uma política externa agressiva, mas hoje disputam teses que ontem eram hegemõnicas na direção. 

Mas mitigar isto só é possível, na atual conjuntura, com Obama. 

O exemplo do texto de Michael Moore ali abaixo é incrivelmente atual e perigoso.

domingo, 21 de outubro de 2012

PORQUE O PENSAMENTO SEGUE REGRAS?

Pergunta filosófica da semana com algumas anotações: 

Porque o pensamento segue regras?

1. Pensamento aí é pensamento racional que combina reflexão e entendimento com sensibilidade e percepção e produz juízos;

2. Pensamento aí está a serviço da busca da felicidade; portanto leva em consideração sempre os desejos, quereres e vontades do sujeito e reflete sobre obstáculos, limites, desafios e exi
gências que se impõem a estes desejos;

3. Pensamento aí é capaz de produzir regras, reconhecer regras, compreender as relações de causa e efeito e buscar as condições formais e materiais dos juízos;

4. Pensamento ai distingue com facilidade a realidade dos delírios da vontade;

5. O sujeito que busca seguir regras tomou a decisão consciente de ser feliz e procura os meios para que tal se realize....

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

POLÍTICA COMO VOCAÇÃO - MAX WEBER: COMENTÁRIO 2


Max Weber "diferencia dois tipos essenciais do políticos: os que vivem para a política e os que vivem da política.

O político que vive da política é aquele que não possui recursos materiais para a sua subsistência para além dos recursos provindos da própria atividade política. Sua atuação pública se confunde com uma luta não apenas por ideais comuns ou interesses de classes, mas também pela conquista de meios de conseguir renda, o que de alguma forma prejudica a capacidade de distanciamento para a análise racional dos problemas de seu cotidiano enquanto profissional da política.

Já o político que vive para a política representaria o tipo ideal no âmbito de atributos do político vocacionado, pois sua independência diante da remuneração própria da atividade política significa, também, uma independência de seus objetivos no decorrer da vida pública. Sua conduta pode esta voltada para a busca de prestígio, honra, ideais, ou até mesmo do “poder pelo poder”, mas não tomaria como prioridade a busca por recompensas financeiras em decorrência da profissão política, pois já disporia de recursos materiais suficientes."

in A Política como Vocação. ver tb resumo na WIKIPEDIA - PT.


Mas se pode encontrar uma contradição e inversão ai também. Pois não é a garantia da subsistência que torna o político mais racional. E nem sempre a garantia da subsistência gera um distanciamento para a análise racional.

As vezes o político que vive para a política não faz a política, permanece no simulacro. Ainda que isto para alguns seja justamente a política.

As duas análises são corretas teoricamente falando a partir da perspectiva de Weber. O problema é que existem contradições reais.

Alguns que tem a subsistência garantida também não dão à mínima para aqueles que não tem.

Assim este pensamento acaba somente por reproduzir esta lógica num outro nivel. Neste sentido, o tipo ideal de Weber pode ser para nós somente um tipo e de ideal não tem nada, porque não vai realizar uma política pautada nas necessidades.

Não há nenhuma indignidade na busca dos meios por conseguir renda, pois esta é a lógica da sociedade capitalista e seria uma ingenuidade querer que isto ficasse do lado de fora do espaço político.

O problema é quando este é o único propósito. O para si e o para o outro devem estar num desequilíbrio em que o para o outro seja de fato um imperativo político. Bem, mas alguns diriam que isto também é ingenuidade.

Assim, vamos ter que usar uma balança especial para medir efetivamente os pesos entre estes dois pratos.

Agrego este comentário para mostrar que nada disto é tão simples assim.

E que na experiência prática e concreta disto que entendemos as justificações e as racionalizações das pessoas a este respeito.

POLÍTICA COMO VOCAÇÃO - MAX WEBER: COMENTÁRIO 1


As vezes podemos dar a impressão de estar fazendo troça de um intelectual quando o citamos arrevezadamente ou quando analisamos resumos de suas idéias. E no domínio político este risco me parece maior. Ontem citei aqui Max Weber através de um resumo cujo texto interessa a um debate que devemos fazer sempre sobre as pessoas que vivem para a política e as pessoas que vivem da política. Procurei problematizar na superfície alguns problemas da abordagem dele. Mas isto não significa que destruí o pensamento dele ou que não reconheço toda sua grandiosa e extraordinária importância para qualquer discussão sobre política. E o texto do qual usei paráfrase é um clássico indispensável e básico para quem quer se aventurar ou se dedicar a este tema, seja em mero pensamento, seja na ação. Agora me parece ser um momento privilegiado por necessidade e por “acidente” para a reflexão serena sobre a ação, preparando uma nova ação e refletindo sobre o que se passou. Max Weber conclui seu ensaio de 1918 – num contexto muito interessante aliás,  com as seguintes palavras:

“A política é como a perfuração lenta de tábuas duras. Exige tanto paixão como perspectiva. Certamente, toda experiência histórica confirma a verdade – que o homem não teria alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentado o impossível. Mas, para isso, o homem deve ser um líder, e não apenas um líder, mas também um herói, num sentido muito sóbrio da palavra. E mesmo os que não são líderes nem heróis devem armar-se com a fortaleza de coração que pode enfrentar até mesmo o desmoronar de todas as esperanças. Isso é necessário neste momento mesmo, ou os homens não poderão alcançar nem mesmo aquilo que é possível hoje. Somente quem tem a vocação da política terá certeza de não desmoronar quando o mundo, do seu ponto de vista, for demasiado estúpido ou demasiado mesquinho para o que ele deseja oferecer. Somente quem frente a tudo isso, pode dizer “Apesar de tudo” tem a vocação para a política.”

WEBER, Max. Política como Vocação. Texto traduzido por Waltensir Dutra. In; Ensaios de Sociologia. p.89

Que elas sirvam para distinguir e reconhecer identidades políticas e vocações políticas.

Por fim, li um texto paralelo no Facebook que me atiçou bastante.

Como eu gostaria que a clareza, a precisão e o rigor fossem instantâneos nos nossos textos. Mas nem a realidade é compreendida instantaneamente e nem a linguagem é assim também compreendida e utilizada. Apesar da minha dedicação passageira a filosofia analítica, esta escol em nada garante que as coisas sejam comunicadas tão claramente assim. Se a clareza fosse o único requisito para resolver os problemas, milhares de homens e mulheres antes de nós e mais brilhantes que nós, já teriam resolvido todos os problemas do mundo e da humanidade. O problema é que os problemas mudam de forma, as pessoas mudam de compreensão e de incompreensão também ao longo do tempo, e as pessoas também mudam. Eu gostaria que todas as pessoas que dão palpites em política ou que se aventuram a julgar os políticos dedicassem algum tempinho maior de suas vidas para estudar este tema. Não são somente os políticos que devem evoluir, mas aqueles que ficam sentados nas arquibancadas da política também precisam evoluir e descobrir que preconceitos e juízos precipitados não trazem bons resultados políticos.

Tenho convicção de que a democracia brasileira evolui e que todos os agentes e cidadãos passam num processo de aprendizagem. Nunca podemos esquecer que temos nos últimos anos o período mais longo de democracia no Brasil, mas que são somente 23 anos de democracia plena no Brasil em todos estes 123 anos de República. Assim, creio que impugnar a democracia brasileira por este ou aquele resultado, a partir desta ou aquela perspectiva é um ato de ignorância histórica ou de má intenção política.

“Apesar de tudo” devemos, então, seguir em frente de cabeça erguida e aceitando e compreendendo todas as lições da história e do povo que é o verdadeiro soberano numa democracia republicana.     

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

MELANCOLIA FILOSÓFICA: DAVID HUME


"Mas antes de me lançar nessas imensas profundezas da filosofia que se apresentam diante de mim, vejo-me inclinado a deter-me um instante em minha presente situação, e a avaliar essa viagem a que me propus fazer e que sem dúvida requer o máximo esforço e arte para ser concluída com sucesso. Sinto-me como um homem que, tendo encalhado em muitos recifes e tendo escapado com grande dificuldade de um naufrágio em um pequeno estreito, tem ainda a temeridade de retornar ao mar no mesmo navio avariado e castigado pelo mau tempo, e ainda carrega a sua ambição tão longe a ponto de percorrer o globo nessas circunstâncias desvantajosas. Minha memória dos erros e da perplexidade do passado tornaram-me desconfiado do futuro. A condição debilitada, a fraqueza e a desordem das faculdades que devo utilizar em minhas investigações aumentam a minha apreensão. E a possibilidade de emendar e corrigir tais faculdades leva-me quase ao desespero, e quase a preferir perecer nas pedras em que me encontro no momento, do que aventurar-me na imensidão do alto mar. Esta súbita visão de perigo em enche de melancolia; e como ocorre com essa paixão, dentre todas as demais, perder-se em si mesma, eu não posso deixar de alimentar o meu desespero com todas essas reflexões desanimadoras que o presente assunto me oferece com tamanha abundância. 

Sinto-me assustado e confuso com esta situação desesperante em que me encontro em minha filosofia, e imagino a mim mesmo como um monstro estranho e grosseiro que, não sendo capaz de se misturar e se unir em sociedade, foi expulso do convívio humano, totalmente abandonado e deixado inconsolável. De bom grado misturar-me-ia à multidão em busca de proteção e cordialidade, mas sendo possuidor de tal deformidade, não posso ousar misturar-me. Convido a outros que se unam a mim com o objetivo de constituir uma sociedade à parte, mas ninguém me atende. Todos se opõem à distância e temem a tormenta que me golpeia de todos os lados. Expus-me à inimizade de todos os metafísicos, lógicos, matemáticos e mesmo teólogos; devo alegrar-me com os insultos que tenho de suportar? Declarei a minha desaprovação de seus sistemas; devo surpreender-me por eles expressarem seu ódio de minha pessoa? Quando contemplo todas as disputas, contradições, calúnia e difamação; quando dirijo a minha atenção para o meu interior, não encontro nada senão dúvida e ignorância. 

Todo o mundo me opõe e me contradiz; tal é a debilidade que experimento que todas as minhas opiniões se desfazem e caem por si mesmas quando não sustentadas pela aprovação dos outros. Cada passo que dou com vacilação e cada nova reflexão me faz temer um erro ou um absurdo em meu raciocínio. Ora, com que confiança posso aventurar-me a um empreendimento tão audaz quando, além das infinitas debilidades que me são peculiares, descubro tantas outras que são comuns à natureza humana? Posso estar seguro de que ao abandonar todas as opiniões estabelecidas chegarei à verdade? E por qual critério devo distingui-la se a fortuna guia por fim os meus passos? Após o mais preciso e exato dos meus raciocínios, não posso dar uma razão do porquê deva eu assentir a ele e não experimento mais do que uma forte inclinação a considerar os objetos fortemente do ponto de vista a partir do qual se me apresentam."